sexta-feira, julho 25, 2008

da violência


















Creio que nunca me tinha acontecido. Não me lembro de sentir, a meio de um filme, que não ia aguentar vê-lo até ao fim, como um dia quis desistir do Pico a vinte metros do cume. Talvez ande um pouco à flor da pele, mas a verdade é que 4 Meses 3 Semanas e 2 Dias é uma experiência de violência psicológica e, consequentemente, física. Pensei, mais do que uma vez, que não conseguiria aguentar, tantas e tão duras são as sensações que um tão simples, inteligente e cru modo de filmar pode disparar. É uma violenta história de um aborto clandestino na Roménia do final dos anos oitenta. Não tem sangue a espichar, nem complicações hospitalares, nem mortes nem prisões, e apesar de mostrar um feto abortado aos quatro meses [três semanas e dois dias], é um violento libelo pela liberdade de escolha, na exacta medida em que nunca tenta sê-lo. Mas a violência é indescritível. A violência da coerção que escorre das palavras do "executante" do serviço, a violência de se estar acuado, a violação consentida porque não há outra saída, a espera ansiosa, o quarto fechado, o telefone ocupado, a mesa de família em brilhante plano estático e longo, longuíssimo, em que tudo acontece nos olhos de Anamaria Marinca. A violência do silêncio, da dormência, da incomunicação, do que se cala porque não há como dizer. A violência real de ser mulher, com ou sem aborto. No abrupto final — negro, não se fala mais nisto, não podemos falar mais nisto — pareceu-me despertar de um transe, como se o meu corpo e o meu espírito, dormentes, se tivessem rendido à inevitabilidade do sofrimento e fossem já capazes de suportar tudo o que ainda viesse pela mão de Cristian Mungiu. O estado preciso em que sentia aquelas duas mulheres naquela desolada mesa de restaurante de hotel. Não é este um efeito dos grandes filmes?

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