quinta-feira, dezembro 31, 2009

no one can lift the damn thing...

... and here's to a new year of weightlifting.

sexta-feira, dezembro 25, 2009

quiet night. :)



Freddie Hubbard, o bravo, sobrevivendo brilhantemente sobre McCoy Tyner, o boi (que bomba de solo), Ron Carter, o pilar, e Elvin Jones, a locomotiva. prenda de solstício de inverno. enjoy.

quinta-feira, dezembro 24, 2009

... que se te portares bem és recompensado.




... cinco anéis d'ouro...
quatro carriças, três galinholas, duas rolinhas
e um faisão conduzindo um trenó!


bom solstício, gente!

quarta-feira, dezembro 23, 2009

terça-feira, dezembro 22, 2009

em espelho

Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente os teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e o abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,


que te procuram.


Herberto Hélder, Tríptico II, in
A colher na boca



Lisboa, Dezembo de 2009

segunda-feira, dezembro 21, 2009

at mr Wiseman's class.





Há um ano, no DocLx, houve um olhar que em duas horas se instalou em mim e mudou a minha cabeça, talvez para sempre. Há um ano dizia-se que talvez não houvesse outra oportunidade de ver este filme tão cedo. Hoje, na minha demanda regular por iogurte grego, descobri que está no Corte Inglês. E quero, absolutamente, ir vê-lo outra vez. AFTERSCHOOL, de Antonio Campos [penso que traduzido mais ou menos à letra para "Depois das aulas"]. Há um ano alguém me dizia que já não há pachorra para filmes sobre adolescentes e eu pensava na tragédia que é que não se perceba até que ponto este é um filme sobre os adultos. É demolidor. É perturbante. É desafiador. Cheio de uma vibração subterrânea e quase adormecida. É —mesmo— a não perder.

sábado, dezembro 19, 2009

terça-feira, dezembro 15, 2009

alter ego 2.0




Unions mixtes, mariages libres et noces barbares
Antichambre et anciennes latrines de l'Abbaye de Maubuisson
por AKAA (alter-ego de Orlan)
até Março de 2010

alter ego



Unions mixtes, mariages libres et noces barbares
Antichambre et anciennes latrines de l'Abbaye de Maubuisson
por AKAA (alter-ego de Orlan)
até Março de 2010

o perto e o longe




we'll take'em down, one by one, while we're still young.

segunda-feira, dezembro 14, 2009

salle des religieuses

reflecte o preto mais que o branco. reflexo é um, cegueira outro. o ouro explode e é tudo. nos plissados vazios os corpos movem-se desaprisionados. e eu fico-me a desejar um beijo da artista.


Orlan, Unions Mixtes, mariages libres et noces barbares
na Abadia de Maubuisson até Março de 2010
foto de ASD

sol de inverno

às cinco e meia é noite e sim, isso é deprimente. mas os dias, ah os dias são os melhores do ano. a temperatura varia entre o zero e os seis negativos e as nuvens piram-se para sul deixando o campo aberto ao sol e à luz fria do crepúsculo. sol forte e um frio de gelar, são os melhores dias do ano. ao ar livre a paz é rainha, frio seco é doce, é um ar de carícia no rosto, e rir é perigoso, pode não se conseguir fechar a boca, manter a boca fechada também, depois não se consegue comer durante uma meia hora. o sarcófago sugerido do frio congelante obriga o sangue a circular e a atenção a acompanhar sempre o corpo. e isso é tão bom. claro que o aquecimento central quando se pode carregar baterias é fulcral na sobrevivência e já sei que só vou ficar doente quando voltar para Lisboa e levar com o frio e a humidade dos interiores, por mais dias radiosos que lá me aguardem. neve é que ainda nem vê-la. o sacré coeur continua com o branquinho-bolo-de-noiva do costume.




Abbaye de Maubuisson, Dez 2009

domingo, dezembro 13, 2009

les petits agités — adenda.

passei de carro, sem tempo para parar. mas o pendão de pano na fachada merece o meu reconhecimento. e rezava o seguinte:

Le Lycée Voltaire soutiens tous les elèves et les parents sans papiers.



não é um pormenor, o que se passa aqui.

mirroirs




Portraits Autoportraits
de Gilles Robert
Place du Palais Royal
Dez 2009

sábado, dezembro 12, 2009

e chegou um momento em que ela só disse:

— esta noite vais chorar.


e em poucas horas tudo estava terminado.


les petits agités.

Em França existe agora uma lei que estabelece quotas anuais para a expulsão de imigrantes ilegais. Com penalizações para as forças de autoridade que as não cumprirem. Em França sempre existiu o direito do solo, sejam os teus pais legais ou ilegais, nasceste aqui, és francês. Tomam-se providências progressivas para que deixe de ser assim. Mas é esse direito ao solo em que se nasce que, em França, faz com que se aplique a lei da escolaridade obrigatória sem excepções. Legais ou ilegais os pais, os filhos têm de estar na escola. Ora é óbvio para que esta lei exista sem que a lei da imigração a anule, é necessário que se respeite claramente a noção de que falamos de dois campos que não se podem interseccionar. Mas é em França que as autoridades para a imigração estão a chamar à escola pais ilegais sob o pretexto de falar sobre os seus filhos, para depois os prender e repatriar. É em França que, no fundo, as autoridades para a imigração andam a usurpar escandalosa, criminosamente, a identidade das direcções escolares e a minar um princípio fundamental do seu sistema democrático inclusivo. Mas como sempre em França, há quem pratique a resistência quotidiana.

Como nesta escola mesmo ao lado de onde durmo estas noites. A comunhão fugaz da celulose expôs-se durante uns quantos dias sob a lápide que recorda as centenas de alunos levados dos bancos escolares do 9ème arrondissement para os campos nazis. A estória europeia ressente-se sempre dos pequenos agitados, para usar a feliz expressão de Badiou. E dos olhos fechados.




rue Chaptal, dezembro 2009

em patins




mais um dia cheio de luz.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

écrivez moi souvent


moldes da mão esquerda de Chopin e do braço direito de George Sand
Musée de la Vie Romantique, rue Chaptal


... tenho um trilião de posts para fazer sobre Paris. mas ainda cá estou. e felizmente, não tenho tempo.

à bientôt.

domingo, dezembro 06, 2009

à propos

em 1871 esta letra era cantada sobre a tão simbólica marselhesa — é revelador que, não perdendo a sua força simbólica, o canto de Marselha tenha mantido o seu belicismo e recusado a construção a que se exorta nestes versos. em 1888 nasceu A Internacional como a conhecemos hoje. em Portugal, as versões do PCP e do PS divergem nuns quantos versos. honre-se a liberdade, mas não deixa de fazer soar o gongo das improbabilidades. e seja numa grafonola solitária de Fellini, seja num estúdio do São João a gravar o som para os Tambores na Noite, seja na Atalaia, na fronteira entre o dentro e o fora de um comício, isto remexe-me sempre por dentro. a beleza deste hino é um olhar de criança questionando os nossos fracassos. Eugéne Pottier, autor da letra, foi um dos sobreviventes da semana sangrenta de Maio de 1871. et vive la Commune!



Debout, les damnés de la terre
Debout, les forçats de la faim
La raison tonne en son cratère,
C'est l'éruption de la faim.
Du passé faisons table rase,
Foule esclave, debout, debout
Le monde va changer de base,
Nous ne sommes rien, soyons tout.

C'est la lutte finale ;
Groupons nous et demain
L'Internationnale
Sera le genre humain.

Il n'est pas de sauveurs suprêmes
Ni Dieu, ni César, ni Tribun,
Producteurs, sauvons-nous nous-mêmes
Décrétons le salut commun.
Pour que le voleur rende gorge,
Pour tirer l'esprit du cachot,
Soufflons nous-même notre force,
Battons du fer tant qu'il est chaud.

L'Etat comprime et la Loi triche,
L'impôt saigne le malheureux ;
Nul devoir ne s'impose au riche ;
Le droit du pauvre est un mot creux
C'est assez languir en tutelle,
L'Egalité veut d'autres lois ;
" Pas de droits sans devoirs, dit-elle
Egaux pas de devoirs sans droits ".

Hideux dans leur apothéose,
Les rois de la mine et du rail
Ont-ils jamais fait autre chose
Que dévaliser le travail ?
Dans les coffres-forts de la banque
Ce qu'il a crée s'est fondu,
En décrétant qu'on le lui rende,
Le peuple ne veut que son dû.

Les rois nous saoûlaient de fumée,
Paix entre nous, guerre aux Tyrans
Appliquons la grève aux armées,
Crosse en l'air et rompons les rangs !
S'ils s'obstinent ces cannibales
A faire de nous des héros,
Ils sauront bientôt que nos balles
Sont pour nos propres généraux.

Ouvriers, paysans, nous sommes
Le grand parti des travailleurs,
La terre n'appartient qu'aux hommes,
L'oisif ira loger ailleurs.
Combien de nos chairs se repaissent !
Mais si les corbeaux, les vautours,
Un de ces matins disparaissent,
Le soleil brillera toujours.

in memoriam

Em 1871 a França de Versailles teve de escolher entre entregar Paris aos prussianos, e deixá-la ao seu povo, cedendo à ocupação do vazio de poder pela guarda nacional constituída sobretudo por operários e pequena burguesia parisiense. Não foi difícil a decisão, pois para os donos patriotas a pátria é um conceito muito relativo — em Março, Wilhelm I coroa-se imperador da Alemanha na sala dos espelhos em Versailles, e a Comuna de Paris é proclamada nas ruas e nas instituições da cidade, consagrando o poder "pelo povo, para o povo", os princípios da libertade, igualdade e fraternidade, e a resistência à invasão prussiana ante a capitulação dos poderes. Entre 26 de Março e 28 de Maio [data sinistra], o mundo cresceu em Paris, e após eleições directas a Comuna implantou reformas que ainda hoje deviam fazer corar as democracias europeias:

1. o trabalho nocturno foi abolido;
2. oficinas que estavam fechadas foram reabertas para que cooperativas fossem instaladas;
3. residências vazias foram desapropriadas e ocupadas;
4. em cada residência oficial foi instalado um comitê para organizar a ocupação de moradias;
5. todas os descontos em salário foram abolidos;
6. a jornada de trabalho foi reduzida, e chegou-se a propor a jornada de oito horas;
7. os sindicatos foram legalizados;
8. instituiu-se a igualdade entre os sexos;
9. projectou-se a autogestão das fábricas (mas não foi possível implantá-la);
10. o monopólio da lei pelos advogados, o juramento judicial e os honorários foram abolidos;
11. testamentos, adopções e a contratação de advogados tornaram-se gratuitos;
12. o casamento tornou-se gratuito e simplificado;
13. a pena de morte foi abolida;
14. o cargo de juiz tornou-se electivo;
15. o calendário revolucionário foi novamente adoptado;
16. o Estado e a Igreja foram separados; a Igreja deixou de ser subvencionada pelo Estado e os espólios sem herdeiros passaram a ser confiscados pelo Estado;
17. a educação tornou-se gratuita, secular e obrigatória; escolas nocturnas foram criadas e todas as escolas passaram a ser de sexo misto;
18. imagens santas foram derretidas e sociedades de discussão foram adoptadas nas Igrejas;
19. a Igreja de Brea, erguida em memória de um dos homens envolvidos na repressão da Revolução de 1848 foi demolida; o confessionário de Luís XVI e a coluna Vendôme também;
20. a Bandeira Vermelha foi adoptada como símbolo da Unidade Federal da Humanidade;
21. o internacionalismo foi posto em prática: o facto de ser estrangeiro tornou-se irrelevante; os integrantes da Comuna incluíam belgas, italianos, polacos, húngaros;
22. instituiu-se um escritório central de imprensa;
23. emitiu-se um apelo à Associação Internacional dos Trabalhadores;
24. o serviço militar obrigatório e o exército regular foram abolidos;
25. todas as finanças foram reorganizadas, incluindo os correios, a assistência pública e os telégrafos;
26. havia um plano para a rotação de trabalhadores;
27. considerou-se instituir uma Escola Nacional de Serviço Público, da qual a actual ENA francesa é uma cópia;
28. os artistas passaram a autogerir os teatros e editoras;
29. o salário dos professores foi duplicado.

A paz com a Alemanha e a consequente libertação de prisioneiros de guerra para recompor as forças de Versailles, a cumplicidade entre os poderes face às legítimas aspirações dos donos da cidade, a sua carne, ditou o destino da Comuna de Paris. A semana sangrenta em que 15 mil milicianos communards defenderam a sua casa contra 100 mil soldados das forças de Versailles, acumulou corpos e pôs fim ao sonho. David perdeu, e Golias, furioso, não o matou, desmembrou-o, sangrou-o, incinerou-o. No topo da colina que vigiava os moinhos que alimentavam a cidade, a Igreja exigiu que se erguesse um magnífico marco em homenagem às "vítimas da Comuna", não os communards mortos, mas os 100 reféns por eles executados e os 900 por eles mortos na legítima defesa de Paris. O Sacré Coeur ergue-se branco sobre a cidade, as paredes decoradas com lápides que falam de amor universal, de magnanimidade. 1000 mortos às mãos dos communards cercados, contra 50 a 80 mil deles esmagados pelas tropas de Versailles. 40 mil foram presos e executados, alguns por falsa denúncia ou por serem confundidos com membros da Comuna. As execuções pararam apenas por medo de que a multiplicação de cadáveres provocasse uma epidemia de doenças na cidade.

Ontem roubei um livro de €20 do sagrado mercadinho dentro deste tão ecuménico monumento, mesmo debaixo do nariz de duas freiras. Cada um vinga-se como pode.




Montmartre, 5 Dez 2009

quarta-feira, dezembro 02, 2009

terça-feira, dezembro 01, 2009

it takes time — moto perpetuo




[nearly gone, nearly back, nearly beaten down, nearly up for anything, nearly alive, nearly beginig, nearly complete, nearly here, nearly destroyed, nearly reborn, nearly a circle, nearly a broken cycle.]

quinta-feira, novembro 26, 2009

tiempo es silencio

sabia já. tinha havido aquele sonho estranho na terra-mãe, comboios e alcatifa e um manípulo de janela. era claro como a luz em quase inverno. é aquela coisa sem nome que se ri da quilometragem alheia, vai para onde quer, como quer, quando quer. os sonhos que queremos crer territórios da liberdade pura, são a presa preferida. e caem sempre que nem patos.

é melhor saber. perguntar. já está visto, está feito, porque não deixar que se amasse em poucas palavras? e agora...

e agora nada muda. incompreensivelmente, nada muda nunca, não tuge nem muge. não treme o ar. só o peito pede um dreno rápido, um furo que o esvazie de ar estéril, esterilizado, e leve da noite aquele momento em que ela o puxou de repente e o sorriso dele esperava um beijo roubado, quando ela só queria que ele andasse mais devagar. o tempo é cinema. é para rasgar.


sábado, novembro 21, 2009

não me apetece.

dizer que está a chegar ao fim. não o amor. só o mês. dizer que tenho tanto dia em cada dia que a noite nunca teve tanto silêncio. dizer que o amor em volta ecoa mais que os passos. não me tem apetecido, pronto. dizer que não tenho mãos para contar as pessoas os olhos os peitos que se me abrem, na rua uns, em casas outros, ou nas distâncias em que os irmãos, em que os amores profundos não se deixam morrer. não ando para aí virada. para contar que fez um ano que me casei com uma luta que sempre foi minha mesmo antes de se oficializar tão duradouramente. que sempre fui euoutrx antes de estar entre nósoutrxs. que um follow é mais uma contracena e que metade do palco está dentro de quem entra nele. que se canta como se fala e se fala como se ama e sofre e ri. não me sai, não estou para me esforçar. para dizer que fez um ano também que a Frika morreu. e que um ano depois a Valeria me disse quase casualmente, numa conversa entre a madrugada de Lisboa e a tarde porteña, que dias depois da despedida lhe apareceu uma bebé abandonada que cuidou até à adopção e a quem chamou Frika, lembrando-se daquele bichinho que nunca viu e que do outro lado do grande charco se tinha esvaziado com o dente ferrado no meu braço direito e as minhas lágrimas por cima. não me apetece dizer que passou um ano e a marca quase já não se vê. e que a Valeria me pôs a chorar frente ao écran, cheia de uma estranha felicidade, a pensar numa gata viva chamada Frika algures em Buenos Aires. não me apetece, pronto, dizer que a Noa ainda nem percebe bem como é que já vai para o segundo inverno de conforto e é tão minha quanto eu sou dela e no entanto o lugar continua vácuo, a falta permanece, a usurpação é impossível, o espaço sobrepõe-se, partilha-se e assina-se com um miar doce e um olhar de mel amarelo. não me apetece dizer que, ao fim de mais de um ano sem parar e a uma velocidade quase descontrolada, vou finalmente pirar-me daqui e olhar para o céu à espera de ver sobre Montmartre a neve que nunca há-de vir. não me apetece dizer, estou preguiçosa, pronto.



Talking Heads - Naive Melody (This Must Be The Place)

aCreationMonster | Vídeo do MySpace

sexta-feira, novembro 20, 2009

hoje estou aqui.



... ele não sabe mesmo cantar a duas vozes. mas não pestaneja, não desiste. porque o mundo está para lá daquilo que já nascemos a saber.

quinta-feira, novembro 19, 2009

what an actor needs from a director.




life. love. flaw. coffee. and "blue" written on the wall.

segunda-feira, novembro 16, 2009

falando nisso...




Eu e a minha Raquel já fizemos um ano de casadas. And we're still in love. A foto não é minha, é capaz de ser da minha noiva linda.

UM SITIOZINHO ONDEM PODEM DIZER DE VOSSA JUSTIÇA EM TEMPO REAL. NÃO A REFERENDOS SOBRE DIREITOS CÍVICOS FUNDAMENTAIS.

"É o que chamo aos apelos ao referendo quanto a este assunto: manobras de diversão. É o artigo 13.º da Constituição que está em causa, temos um código civil anticonstitucional. Quem exige o referendo está apenas a tentar empatar um avanço que é inevitável numa sociedade livre e que se quer a cada dia mais equalitária. Não se pretende discutir o assunto, pretende-se atolá-lo, ganhar tempo, empatar, literalmente.

São os direitos cívicos dos cidadãos que estão em causa. Permitir que tudo fique na mesma é aceitar que o Código Civil diga que o preconceito e a homofobia são legais. É negar direitos legais a casais e famílias que já existem, haja ou não haja referendos, e que vêem os seus direitos limitados pelo puro preconceito consagrado pelo direito civil. Direitos cívicos e fundamentais não se referendam. Imaginem o que teria sido referendar a pena de morte quando ela foi abolida, ou os casamentos inter-raciais quando foram legalizados. Faz sentido? Não, porque a democracia é um horizonte de avanço de mentalidades, de procura e de justiça. Não é, não pode ser, uma ditadura de maiorias. Maiorias, aliás, muito discutíveis, cada vez mais discutíveis."


Botem discurso AQUI, de preferência antes da senhora Campos Ferreira fechar o estaminé desta noite.

It is the very last inch of us. But within that inch we are free.



This will always make me cry.

segunda-feira, novembro 09, 2009

twenty years and still building... imagens para o dia de hoje, vinte anos depois.



West Belfast peaceline — protestant side
.



US-Mexico Wall
.





Israeli West Bank Barrier
.

Süßigkeit (docinho)

und der Himmel geöffnet über Berlin




dois anos antes, Wenders filmou a cena que me apaixonou definitivamente pela língua alemã. o muro não aparece, mas está por todo o lado. até que os anjos começaram a chover sobre Berlim. vinte anos depois, o muro ainda não parou de cair, ainda lá está. mas a nove do onze de oitenta e nove, choveram anjos.


domingo, novembro 08, 2009

the Bill has passed.

É esta a frase do dia. A violência estala nos Estados Unidos de uma forma que não nos chega — a mim chegou-me, para lá do NYTimes, de fontes directas e presenciais. O extremismo anda a mostrar claramente a sua face. Mas... the Bill has passed. O Sistema Nacional de Saúde norte-americano começa a reclamar o seu nome, a sua função. Por cinco votos e ainda tem de subir aos senadores, mas the Bill has passed. O nobel da Paz está a saber levar as suas guerras. E eu continuo a achar que em Janeiro vai fazer um ano que começou o século XXI.

walk.

é essa raiz da alegria. essa ligação quase fantasma ao caule, ao coração. aquele ponto que só a tristeza infinita por vezes nos faz alcançar, aquela pequena transparência onde moramos verdadeiramente nómadas. muito lá dentro. quando encontrada pode-se manter tranquila no centro, deixar-se cheirar os cantos à casa para ocupá-la com tempo até à ponta dos dedos, em vez de correr desenfreada para limpar as teias de aranha a cada canto. é esse indizível, bicho que foge às palavras, que prefere fazer cócegas a explicar-se, essa ligação frágil e resiliente que só a tristeza infinita comprova, que é a raiz da alegria. há coisas muito erradamente associadas à melancolia.


sexta-feira, novembro 06, 2009

out of darkness (para o K.)

não sei ainda.

fez barulho? (para a Jo-Ba)

são tantos. por todos os lados. aqueles em cujo os olhos podemos encontrar tesouros, às vezes até com um pouco de esforço, vão resistindo às próprias máscaras, sabem-se mesmo que nunca ninguém os aprenda. e depois há aquele mar de gente infeliz. aquele mar de contradições trágicas com pernas, que destila medo e infelicidade. mas só para fora, só para quem de fora está atento. lá dentro tudo se mistura naquela névoa marítima onde às vezes bate a luz da marginal ao fim da manhã para queimar sem agravo o caminho às retinas. e eles acham-se bem, não conseguem fazer mira em volta a outro lugar que seja melhor, ou pelo menos um bocadinho diferente. não o vêem. têm medo de o procurar. e são tantos. não reconhecem a infelicidade, vedaram-se. não se reconhecem infelizes. portanto, não podem sê-lo. e no entanto destilam-na, a infelicidade. fazem-me pensar se não é, ela mesma, uma coisa, uma matéria, uma larva que se vai tornando numa condição biológica. mas eles, nada. e no entanto, dir-se-ia que se cheira. parece até que se ouve.

quinta-feira, novembro 05, 2009

terça-feira, novembro 03, 2009

remember to forget.

semana de novos nomes, novos amores. Josh, Amy, Maguida, Pol, Sandra, Vasco, João Pedro, Maria, Ana Rita, e mais e mais e mais. e de conversas de café sérias de sedução e questionamento, de partilha e desafio, e palestras cantadas, e dança e festa e abraços e olhos bem fechados para ouvidos bem abertos. sopros e luzes que se me colam à pele, que tornam doce o cheiro da noite contra a gripe, contra a exaustão, contra angústias, contra medos, contra normas, contra o contra. nós somos outros nós somos X géneros. nós somos intercontinentais, nós somos transcontinentais, transfronteiras, transódios, transjuízos, transferventes com vida e voz e tacto e luz. our best machines are made of sunshine. I'll remember to remember.

sábado, outubro 31, 2009

too much to say.



faz dois anos por esta altura. lembro-me de quase tudo, minuto a minuto. mas guardo as melhores luzes que alguma vez vi num concerto. e umas pernas que arrumam a Tina Turner a um canto. hoje, é a canção da noite, honras feitas ao maestro JPS, leia-se JotaPêEsse, que não há maquineta que seja mãe para ele.

quarta-feira, outubro 28, 2009

all our oddities.





feita num feixe. estafada. cheia de nervos e estrica. e feliz. é, parece que é cíclico.

segunda-feira, outubro 26, 2009

it spins




para o K., com um beijo.

domingo, outubro 25, 2009

sequenza

releitura com menos palavras — eu também (reedição a vinte meses)




Often in a scene, the room and the light together signify a mood. So even if the room isn't perfect, you can work it with the light and get it to feel correct, so that it has the mood that came with the original idea. The light can make all the difference in a film, even in a character. I love seeing people come out of darkness.


David Lynch, Catching the big fish, Jeremy P.Tarcher/Penguin, 2007

sábado, outubro 24, 2009

entre nósoutrxs

semana cortada em duas, como a cabeça. dois mundos em nada similares mas que se interseccionam sempre, como sempre que em texturas diferentes se procura uma verdade. ou várias. a semana perfeita para adoecer, portanto, para ter de gerir fôlegos e horas de sono, para encaixar rossios em betesgas hora após hora, comprimido após comprimido. há vidas mais fáceis, mas... o que vale é que estou entre nósoutrxs e entre nósoutrxs está-se muito bem. alem de que amanhã muda a hora. e muda para melhor.

pretérito perfeito em espelho

esta noite sonhei na repetição.
era o fundador. era a estação. a luz um pouco diferente, mas ainda demasiado contente de si.
demasiado insegura.
pediste o quarto.
disseste timidez.
tocaste devagar.
deixaste tudo fechado, disseste que era para respirar.
caminhaste até ao carril na manhã descorada,
cantando que o teu corpo te encerra.
que vives numa casa de cardos.
que o espectáculo é lento como tem de ser o turbilhão.

e eu, longe do corpo, assisti.
só havia comboios, desta vez, não procuravas autocarros.
mas continuavas a temer a viagem
como se o medo fosse o tudo.
não sei se te sorri. se te lamentei.
se me lamentei.


terça-feira, outubro 20, 2009

qué niebla, no se ve nada.




tenho de escrever escrever escrever. agarrar os relâmpagos. como é que se agarra um relâmpago? sem queimar a mão, quer dizer. estão cá os feixes todos, reflectem em alta velocidade as paredes do labirinto, inscrevem gritos nas paredes, slogans, frases de combate, e deixam espalhado nos corredores tudo o que escorrega das paredes, tudo o que na sua essência não se grava. ou melhor, tudo o que, no seu avanço, se tecnologiza e passa a registar-se por gravação molecular. está lá, linha por linha, palavra por palavra. só não se lê. o que faz com que apenas a sua energia dispersa nos corredores pareça sinal da sua existência, o que faz crer que se aspergiu, se desmaterializou. engano. nada disso. moleculou-se. insidiou-se. mas está lá. só tem de ser sugado outra vez. e depois há-de morder os relâmpagos.

segunda-feira, outubro 19, 2009

imagens que não são minhas.


fotografias de António Vieira

meio século de diferença — ou a metáfora funda da metempsicose.

You'll be a baby again — a bald, redfaced little animal, and then you'll go through it all again. There'll be millions of others like you — all with their mouths open, squalling for food. And the when you get a little older you'll begin to learn things — and you'll learn all the wrong things and learn them all in the wrong way. You'll eat the wrong food and wear the wrong clothes, and you'll live in swarming dens where there's no light and no air! You'll learn to be a liar and a bully and a braggart and a coward and a sneak. You'll learn to fear the sunlight and to hate beauty. By that time you'll be ready for school. There they'll tell you the truth about a great many things that you don't give a damn about, and they'll tell you lies about all the things you ought to know — and about all the things you want to know they'll tell you nothing at all. When you get through you'll be equiped for your life work. You'll be ready to take a job.

Elmer Rice, The Adding Machine, Scene VIII (1923)




John Lennon/Plastic Ono Band, Working Class Hero (1970)


... e de cada vez que oiço um, penso no outro.

e assim [pois, diz que estreei...]


fotografia [de ensaio] de Catarina V.


Até fim de Novembro, pessoal, de terça a domingo no Teatro da Trindade, a liberdade é onde um homem não quiser.



Máquina de Somar

Baseado na peça “Adding Machine” de Elmer Rice
Composição Musical de Joshua Schmidt Libretto de Jason Loewith e Joshua Schmidt
Encenação de Fernanda Lapa Direcção Musical de João Paulo Soares Cenografia e Figurinos de António Lagarto Coreografia de Marta Lapa Desenho de Luz de Paulo Sabino Apoio vocal de Rui Baeta
Com Henrique Feist, Luís Madureira, Joana Manuel, Luísa Brandão, Luís Gaspar, Sérgio Lucas, Bruno Cochat, Andreia Ventura, Joana Campelo
Músicos ao vivo: Francisco Cardoso, Daniel Hewson, João Paulo Soares

o dezassete foi assim.




STOP Patologização Trans 2012




somos todxs pessoas a quem só a ignorância deve meter medo.

quarta-feira, outubro 14, 2009

este sábado, 17 de outubro, no Camões, em Lisboa




Pelo direito a falar por si mesmo, pelo direito a não ser binário e ainda assim ser inteiro. Mais informações AQUI.




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17th of October 2009: Actions in more than 35 cities around the world:
Alicante (Estado Español), Ankara (Turquía) , Archena (Estado Español), Barcelona (Països Catalans), Berlín (Alemania), Bilbao (Euskal Herria), Bogotá (Colombia), Bruselas (Bélgica), Buenos Aires (Argentina), Campinas (Brasil), Caracas (Venezuela), Ciudad de México (México), Corunha (Galiza), Donosti (Euskal Herria), Gasteiz (Euskal Herria), Granada(Estado Español), Jerusalem (Israel), Hong-Kong (China), Jaén (Estado Español) Las Palmas de Gran Canaria (Estado Español), Lille (Francia), Lima (Perú), Lisboa (Portugal), Londres (Reino Unido), Madrid (Estado Español), Managua (Nicaragua),Montpellier (France), Montreal (Quebec), Paris (France), Quito (Ecuador), Sevilla (Estado Español), San Francisco (California), Santiago de Cali (Colombia), Santiago de Chile (Chile), Santiago de Compostela(Galiza),Sao Paulo (Brasil), Valencia (País Valencià), Zaragoza(Estado Español).

da partilha

Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.

Clarice Lispector

terça-feira, outubro 13, 2009

género: imbecil [para a minha Raquel]

que outra classificação se pode dar a uma jornalista [da TVI] que ao falar das reformas antecipadas refere as profissões de desgaste rápido, como "bailarinAs, bombeiros", etc etc? estou aqui a pensar que era muito mais giro dizer bailarinOs e bombeirAs. sobretudo porque não costumo andar a apalpar os genitais dos amigos, a não ser que eles me peçam, mas assim de repente conheço uma catrefada de bailarinAs que eu era capaz de jurar que são homens.



... santa paciência.

[gostas de ballet? então és feminina. percebes de fichas triplas, então és um camionista de certeza.]

às vezes não me lembro bem de como é que eu era antes de algumas coisas.


You Woke Me Up! - Andrew Bird

segunda-feira, outubro 12, 2009

a lanterna

quando me deixo entrar, perco-me. quando me afasto vejo tudo tão transparente como uma pupila. e isso tranquiliza-me. mas a tranquilidade faz-me voltar a entrar sem que perceba como. e perco-me novamente. e eu sempre gostei de andar sem bússola, de ao volante pôr o nariz de fora para confirmar de que lado é o mar, mas aqui não me quero perder mais. os limos são venenosos. as camarinhas também. a sombra espalhou-se demasiado. e fico eu com as mãos molhadas e os olhos secos, a tremer no escuro, a render-me ao frio. é muito. quero uma lanterna.

VOTO INÚTIL RULES!

E os meus pêsames ao Porto e a quem está a aturar a guincharia da Marlene a esta hora [sim, a camioneta de campanha do Rio tem um nome e é Marlene].


Ah... qualquer rumor de que eu tenha nascido em Oeiras é calúnia.

sábado, outubro 03, 2009

sexta-feira, outubro 02, 2009

passos em três




— um ternário é um ciclo, um moto perpetuo.

quarta-feira, setembro 30, 2009

pela água


anjos, set 2009



quando o tempo se retorce nasce por vezes uma pequena cascata.
talvez não tão pequena, mas, proporcionalmente, claro eco de cataratas maiores e mais avassaladoras.
o dentro a ludibrar-se sem precisar de ajuda, a doçura calma que deixa um bicho enraivecido encerrado num qualquer compartimento flutuando na linfa, uma morte, a falta, o olhar em frente sempre disperso, sempre inquieto, sempre insuficiente.
e a cama recebe-me em dúvidas, o corpo em desconforto só buscando sono e anestesia para ser acordado de um soco.
pela imagem recorrente do teu outro corpo, pela primeira vez, depois de tanto tempo, era outro e eu não o queria.
essa derradeira e acre mistura com que me mataste, cheia de grânulos, as tuas costas nuas reflectidas no espelho do quarto errado, o teu corpo violador de si mesmo, homicida de ninguém mais e de mim também
e porquê de mim também? —a resposta que me fugirá sempre. a resposta que foste cobarde demais para me dar. quanto tempo passou já? falham-me os dedos a contar os furos no caminho.
como perdoar-te tamanho crime? como esquecer um amor tão grande usado para desmaterializar qualquer vida em redor pelas décadas seguintes?
como posso sonhar depois de ter perdido os sentidos de tudo?
como posso acreditar no sangue depois de uma morte pulverizada?

gostava de encontrar-te [nas] respostas,
mas sou um túnel de perguntas.

domingo, setembro 27, 2009

ding dong, the witch is dead!




mortinha da silva. e também a maioria absoluta. a subida do CDS, espero, foram as direitas que perceberam que a Manela não ia lá e perdido por cem perdido por mil. o Bloco vai ter um grupo parlamentar catita. e as esquerdas a maioria. e agora, as desculpas, foram-se? é agora que começamos a aprender como se faz uma democracia parlamentar? ou ai ai ai que sem maioria não se consegue governar?


[suck on it, babes. voto útil... voto útil my ass. tentei poupar a câmara de Lx ao Carmona e arrependi-me assim que deitei o voto. mais deslizes desses, como dizia o outro, jamé!]

sábado, setembro 26, 2009

let the light shine through your torso




[No, baby, I'm nothing like your mother.]

dia de reflexão




[nunca cantei esta com o Foster, mas tenho pena...]

sexta-feira, setembro 25, 2009

e alguém diz que apenas PS e PSD têm "vocação" para governar ou Já passa da meia-noite mas eu mudo a hora do post ou Curto bué títulos compridos

E que até têm sido responsáveis a governar, apesar dos erros. E eu fico a pensar que é precisamente esta noção generalizada que os faz rodar no poder há trinta anos. E em trinta anos pouco ou nada mudou nas mãos desses dois partidos no que toca a características estruturais herdadas do estado novo. E ambos, com umas razoáveis diferenças que se prendem com algum capital humano que faz a diferença, têm-se mostrado bastante claramente como braços políticos de classe, muito mais do que servidores da causa pública. Temos uma democracia formal, mas uma oligarquia prática, e graças à acção quer de PS quer de PSD. Nem tudo é mau. Temos uma Constituição bastante avançada — comunista, diz o Portas e a gente ri-se — e temos a imensa vantagem geográfica de estarmos aqui e haver sempre um certo comboio dos tempos com uns lugarezitos para nós na última carruagem antes dos vagões de carga — também era melhor, que estivéssemos ainda pior do que estamos.

A população portuguesa... bom, é mesquinha, pequenina, invejosa. Mas também há outro tipo de português, geralmente perde-se na falta de esperança ou salva-se de Portugal e pira-se, como o Jorge de Sena, ou, os sortudos, acaba por contentar-se com os pequenos nadas que fazem a vida, e vai tentanto iluminar os seus pequenos mundos, sobretudo se tem suficientes privilégios económicos e sociais para isso. Mas muitos, quase todos, quando recebem o poder não sabem o que fazer com ele, e rejeitam-no, como se o "fazer" trouxesse em si todo o peso da culpa de existir — o respeitinho é muito lindo, e cá vamos cantando e rindo.

E rende o arrivismo, o carreirismo, a total ignorância do que significa a palavra "política", do que é a polis, do que devemos uns aos outros precisamente porque não nos devemos nada uns aos outros. A democracia dá trabalho, e nós, mais do que preguiçosos, somos burros. E não gostamos que nos lembrem isso. E aí ficamos maus. E depois passa-nos. É uma petinga de rabo na boca.

quinta-feira, setembro 24, 2009

caixinha de comentários

[para o meu mano Possante]


o amor é secundário.
é o que contrabalança a terra e o sangue e a fuligem que somos.
o amor não é animal. só um animal o pode sentir e rebelar-se contra o esmagamento.
oa animais são estúpidos como o amor.
o amor pode nunca interferir com a respiração.
ou com a alimentação.
ou com o sono.
o amor é secundário.
há quem diga que deus é amor, mas eu não acredito em deus.
a energia não tem amor, tem calor.
o amor é quente.
a distância é fria. pode estar frio o amor.
o amor é secundário.
não há mais nada.

terça-feira, setembro 22, 2009

segunda-feira, setembro 21, 2009

do frio

não sabe se lhe apetece.
o cinza espreita de um lado, do lado outro a luz ainda arroxeante, a colina iluminada por trás, recortada.
e o lugar nunca foi tão presente
ou as mãos tão quentes
e ela não sabe se lhe apetece.
não prende, não presa
há uma cova ainda só sua
um espaço vazio, um buraco negro uma rochosa antimatéria.
mais tem de generoso que de voraz pois se por respeito à vida recusa o sugar esperado
e lacrimeja.
não sabe se lhe apetece o calor.
o outono parece bem-vindo e traz em si o dedo apontado e dorido
— é tua a culpa do frio que eu sinto.

quinta-feira, setembro 17, 2009

frases estranhas que nos saem quando andamos perdidos nos aniversários:

Tenho a vida cheia de virgens.

a song outside my window

[pssst... ouve.]


Ninguém É Quem Queria Ser - Foge Foge Bandido



de olhos na falésia
espera pelo vento
ele dá-te a direcção

dúvida inocente

as visitas diárias a este blogue há muito que não ultrapassavam as sessenta, quando há vídeos jeitosos. nos últimos dias ultrapassaram as cem, coisa que já não acontecia há algum tempo [sobretudo desde que alguns amigos se meteram no google reader e abriram uma janela sobre a janela... ;)]. 134, foi a contagem das últimas vinte quatro horas.

terá a ver com uma certa recorrência na sequência Žižek?

ora deixa lá fazer render: foda.

pronto, por hoje já está.


adenda:
descobri outra que por certo é mais eficaz: conas.
agora sim, vou dormir descansadinha.

quarta-feira, setembro 16, 2009

hoje estou assim

com os tropeções na velocidade e tudo. com este ar trombudo de quem faz de conta que lhe custa o fígado estar ali e só sorri quando pega no banquinho e no violão para virar costas. vou, pela estrada que dá numa praia dourada, que dá num tal de fazer nada como a natureza mandou. e levo joana debaixo do braço, carregadinha de amor.
hoje acordei assim. com os metais, as cordas e os tropeções e tudo. e o banquinho.


a resultante

e diz-me alguém que o que ele resmunga parece ser uma resultante das vozes, uma terceira voz que só ele ouve. nunca tinha pensado nisto assim. e delicio-me nos meus próprios limites. boa noite.

ninguém pode sonhar por ti — díptico


santa catarina, setembro de 2009

dos rótulos

bicho-do-mato.
pespineta.
luz.
caso de talento.
actor.
perfomer.
esperto.
estúpido.
músico.
cantor.
artista.
sereno.
histérica [não há homens histéricos, pois não? ah, pois, há as bichas.]
sensível.
fufa.
brutamontes.
bem-comportado.
pornográfico.
sedutor.
louco.
homem.
puto.
mulher.
puta.
intelectual.
magro.
gordo.
pode ferir a sensibilidade dos espectadores.
retrógrado.
esquerdelho.
escadote.
anão.
comuna.
bicha.
freak.
fumar mata.
drogado.
careta.
conas.
existencialista.
neo-realista.
surrealista.




calhariz, setembro de 2009

segunda-feira, setembro 14, 2009

e depois ela disse:

— O que me fode é que isto continue a ser tudo sobre ti, uma vez que não deixa de ser sobre mim.

E depois calou-se um bocadinho. E então pontuou:

— Foda-se.



Porto, 12 de setembro de 2009

bleu — finale




Ainda que eu seja capaz de falar todas as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, as minhas palavras são como o badalar de um chocalho. Ainda que eu tenha o dom de falar em nome de Deus e possa conhecer os seus planos e saber tudo; ainda que eu tenha uma fé capaz de transportar montanhas, se não tiver amor, não presto para nada. Ainda que eu dê em esmolas tudo o que é meu; ainda que me deixe queimar vivo, se não tiver amor, isso de nada me serve.

O amor é paciente e prestável. Não é invejoso. Não se envaidece nem é orgulhoso. O amor não tem maus modos nem é egoísta. Não se irrita nem pensa mal. O amor não se alegra com uma injustiça causada a alguém, mas alegra-se com a verdade. O amor suporta tudo, acredita sempre, espera sempre e sofre com paciência. O amor é eterno. As profecias desaparecem; as línguas acabam-se; a ciência passa. Pois, tanto as nossas profecias como a nossa ciência são imperfeitas. Quando chegar aquilo que é perfeito, tudo o que é imperfeito desaparece. Quando eu era criança, falava como uma criança, sentia como uma criança e pensava como uma criança. Depois tornei-me adulto e deixei o modo de ser de criança.

Agora, vemos as coisas como num espelho e de maneira confusa. Depois, vemo-las frente a frente. Agora, o meu conhecimento é imperfeito, mas depois vou conhecer como Deus me conhece a mim. Agora existem três coisas: fé, esperança e amor. Mas a mais importante é o amor.

primeira carta aos Coríntios — 13 [atribuída a Saulo de Tarso, aka São Paulo], Bíblia Sagrada, edição interconfessional em português corrente, Novo Testamento

picareta

what's so impressive about a diamond, except the mining?

choro, logo sobrevivo

No meio do filme, durante a visita à casa do falecido marido, Julie vê a sua velha criada a chorar; quando lhe pergunta porquê, esta responde: "Porque a senhora não está a chorar!" Este comentário, longe de ser acusador, mostra como a velha e fiel criada está consciente da profundidade do desespero de Julie. O seu choro não funciona como "choro enlatado" (como o das mulheres pagas pelos familiares do morto para o chorarem publicamente em seu nome). Julie encontra-se num estado de choque tal que não só a deixa incapaz de chorar, como inclusivamente impede que alguém chore em seu lugar. Azul não é, pois, um filme sobre o luto, mas acerca da criação das condições para o luto. Só no último plano do filme, Julie consegue começar a fazer o luto. É o que acontece muitas vezes com as crianças pequenas: quando começam a chorar, podemos ter a certeza de que o impacto traumático do choque desagradável que sofreram já passou e que já estão a regressar ao normal. Antes de conseguir fazer o luto, Julie vê-se "entre as duas mortes", morta, estando no entanto viva.

(...)

O dito arguto de Lacan de que o despertar para a realidade é uma fuga ao real encontrado no sonho aplica-se particularmente bem ao acto sexual: não sonhamos com foder quando não somos capazes de o fazer. Fodemos para iludir e sufocar o excesso do sonho que, de outro modo, nos submergiria.

(...)

No final do filme, Julie reconstrói o quadro fantasmático que lhe permite "domesticar" este Real em bruto. O escudo protector desta fantasia está muito bem representado pela janela através da qual a vemos chorar no último plano do filme. Deste modo, Azul não é um filme sobre o lento processo de recuperação da capacidade de enfrentar a realidade, para imergir na vida social, mas sim um filme sobre a construção de um ecrã protector entre o sujeito e o real em bruto.


Slavoj Žižek, "A Teologia Materialista de Krzysztof Kieślowski",
in Lacrimae Rerum, trad. Luís Leitão

domingo, setembro 13, 2009

ergo non

Na medida em que aceitarmos esta noção de relação sexual como referência absoluta, somos tentados a rescrever toda a história da filosofia moderna nos seguintes termos:
—Descartes: "Fodo, logo existo", isto é, só na actividade sexual intensa sinto a plenitude do meu ser (a resposta "descentradora" de Lacan a isto teria sido: "Fodo onde não existo, e não existo onde fodo", ou seja, não sou eu quem fode, mas "isso fode" em mim);
—Espinosa: Dentro do Absoluto enquanto Foda (
coitus sive natura), devemos distinguir, no mesmo sentido da distinção entre natura naturans e natura naturata, entre a penetração activa e o objecto fodido (há aqueles que fodem e os que são fodidos);
—Hume introduz aqui uma dúvida empirista: como sabemos se a foda, enquanto relação, existe? Só existem objectos cujos movimentos parecem coordenados;
—Resposta kantiana a esta crise: "as condições da possibilidade de foder são ao mesmo tempo as condições da possibilidade dos objectos [da] foda";
—Fichte radicaliza esta revolução kantiana: foder é uma actividade incondicional que se postula a si própria e que se divide em fodedor e objecto fodido, ou seja, é o próprio foder que pressupõe o seu objecto, o fodido;
—Hegel: "é crucial conceber o Foder não só como substância (o impulso substancial que nos subjuga), mas também como sujeito (como actividade reflexiva inserida no contexto do significado espiritual)";
—Marx: devemos regressar ao foder real e rejeitar a filosofice masturbatória idealista, ou seja, nos termos literais em que o expressou na Ideologia Alemã, a vida real está para a filosofia, assim como o sexo real está para a masturbação;
—Nietzsche: a Vontade é, na sua expressão mais radical, a Vontade de Foder, que culmina no Eterno Retorno do "quero mais", de uma foda que prossegue indefinidamente;
—Heidegger: do mesmo modo que a essência da tecnologia não é nada "tecnológica", a essência do foder não tem nada a ver com a foda enquanto simples actividade ôntica; ou melhor, "a essência do foder é o foder da própria Essência", isto é, não somos apenas nós, humanos, que fodemos a nossa compreensão da Essência, é a Essência que já está em si mesma fodida (inconsistente, retraída, errante);
—e, finalmente, a intuição de como a própria Essência está fodida, leva-nos à expressão de Lacan "a relação sexual não existe".

Slavoj Žižek, nota 108 ao capítulo "A Teologia Materialista de Krzysztof Kieślowski", in
Lacrimae Rerum, trad. Luís Leitão



Carmo, hoje de setembro de 2009


ou...


"Viver é foder."

João Ubaldo Ribeiro, in A Casa dos Budas Ditosos

sábado, setembro 12, 2009

jigsaw


Jigsaw Falling Into Place - Radiohead


há melodias atípicas que quando sugerem um fim o fintam e outra e outra vez, qual escher subindo e descendo escadarias enquanto está parado num só degrau. mas vai haver um momento, tem de haver um momento, em que pára de vez, em que tem piedade e ou parte em vírus para outro hospedeiro ou abre um fosso sob esse degrau inesperado. mãos, pés e o coração tombam lá para dentro ou são sugados, desmaterializados.
sobretudo os pés.
quando deparo com a escadaria de onde creio fugir a cada tentativa inglória, penso que não te espero. espero-Me.
não consigo fazer melhor. e às vezes parece que não há como mudar o trajecto, porque o meu mapa ficou nas tuas mãos. mas algo se ganha mesmo quando nada se transforma. e a cada vez que me descubro como o meu pequeno saco de papel, a ansiedade fica com falta de ar. it's just my jigsaw falling into place, right into my hands.

quinta-feira, setembro 10, 2009

a Incrível Tasca Móvel convoca Lisboa



esta noite, a partir das 21h30, os O'questrada tomam conta do Martim Moniz. Ou seja, não só da cidade, mas do mundo inteiro.

cara de bolacha


namouche, setembro de 2009
fotografia de Kristin Grace Eriksson

and in the end...

... the love you take is equal to the love you make.


terça-feira, setembro 08, 2009

entrecortado


Marc Chagall, Dança dos ciganos
sketch para o bailado
Aleko



- Sou. Tu sabes.
- Eu sei. Mas isto já não é acerca do que tu és, é acerca do que eu sou. O que tu és, é lá contigo.
- Então vou dançar.

(silêncio)

- Fazes bem.

freaky fucking amusing octaves.


namouche, setembro de 2009



there are people whose mere presence opens your doors and freezes your windy halls. and then you're just glad to look in, discover you have it, put it out and be up to them. and they are quite tall. ei i ai ou u. and then sushi. happiness is a small freaky octave.