Quinta-feira, Maio 15, 2008

curta

Tem uns dez, onze anos e aquele ar enfiado típico da aldeia que se constrói em redor da praça. Chove miudinho, e ele, enfiado num garruço verde, está só, sobre a pista escorregadia que estende a entrada do teatro. Na mão esquerda, um saco transparente cheio de pão, aquele pão de plástico, esbranquiçado arremedo de papo-seco, que se esfarela só de existir. A mão direita chove migalhas para o chão, para os pombos que começam a agrupar-se à volta, e que ele observa um por um. Enquadrado no rectângulo sob a varanda do teatro, o momento é enorme, silencioso, a praça barulhenta evaporada nas minhas costas. Deixo-me estar um pouco, ainda tenho tempo, acendo um cigarro, sorrio. Ele sente-se subitamente observado, e além disso acabaram-se as migalhas. Deixa os pombos no seu banquete e afasta-se, encerrando a cena com o número inesperado de tão típico. Estende a mão direita, foca os olhos sob o toldo do capuz e dispara silenciosamente. Reconhece a minha presença uma última vez e vai acabar o seu recado. Da melancolia urbana ao riso da memória, lembro-me imediatamente daquela redacção de primária que li uma vez: "eu gosto muito da primavera, de ver os passarinhos a cantarem e a voarem; eu gosto muito da primavera e gosto muito de passarinhos fritos."

clube do bolinha

Bom, é que, enfim, ahan, nem sei como abordar este assunto. Se calhar é simples, basta dizer que o bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, arrotou uma posta daquelas indescritíveis, inolvidáveis, inignoráveis, iniqualáveis [sim, com "q", não é gralha]. A lei portuguesa padece de feminismo —mais propriamente de uma variante apelidada pelo próprio de "feminismo impertinente", que soa bem mais difícil de curar— e advoga, com o intuito de pôr ordem nisto com certeza, que a violência doméstica não devia ser crime público. E não está nesta notícia, mas no Público impresso de hoje estavam as pequenas pérolas que ornamentavam este belo tronco de pensamento: que a vítima procura vingança, e não justiça, que as mulheres devem poder escolher retirar a queixa [com o punho do agressor encostado à nuca, por exemplo, vão ver se elas não mudam de ideias num ápice...], que os idosos e as crianças são vítimas silenciadas [esta é particularmente boa, ou há moral ou comem todos, raça das mulheres, essa casta privilegiada].

No mesmo discurso na AR, defendeu ainda a manutenção do divórcio litigioso, para defender a parte mais fraca. Aquela, provavelmente, que fica ainda mais fraca com a porrada toda que levou... É tão claro que até cega. É tão velho, mas não morre, porrra! A mesma mente que retira peso à agressão, concentra toda a sua amável solidariedade na pena, na protecção, na oficialização de uma dependência. Não é preciso proteger as mulheres de levarem porrada, é preciso é protegê-las de ficarem sozinhas, coitadas.


Este fim de parágrafo lembra-me o que o meu mano David costuma dizer quando não há mais nada a dizer: "vírgula, coitado".

Quarta-feira, Maio 14, 2008

as palavras e o acaso 5.0

Que grande medo temos, tu e eu,
Seu boquinha de raia, amigo meu!

Oh, como se esfarela este tabaco,
Quebra-nozes compincha, meu velhaco!

E eu podia ter assobiado a vida,
A bolinho de noz acompanhada,

Pois, mas não pode ser nada...



Ossip Mandelstam, Outubro de 1930, tradução de Nina Guerra

paz, manos



Estou numa de harmonia, pronto. Qualquer relação entre o meu estado e duas aulas de ioga no mesmo dia, boas conversas e um ensaio curtido é, obviamente, coincidência.

[apresento as minhas desculpas pela lamentável e indesculpável falha deste post; sei perfeitamente que versão é esta, mas não me lembro nem a ferros e o cd ficou em Lisboa, claro; é uma das minhas preferidas e a única que possuo —para além das invulgarmente felizes memórias próprias, emocionais e físicas, desta música; deu-me umas saudades de cantar isto —aliás, tirando um derrapanço aqui e ali, ainda está tudo na ponta da língua, eu, primeiro soprano, jajajajaja, só mesmo a 415 e no Japão —, bom, mas umas saudades... e de vocês, miúdas, trutas, bué bué bué, ménes].

é bom quando funciona




... não é?

nada Placida 6.0

Tinha "Ensaio" no nome, mas teve de cair, diz que os estates do autor não permitem. É um espectáculo, portanto, ou sê-lo-á, a partir de sábado. Mas hoje —ontem—, que a nossa linda casinha fez 210 anos (realmente, ó MPR, o 13 de Maio sempre é uma data importante, não há é muita gente a saber porquê...) , o ensaio foi aberto a quem quisesse. Ainda está tudo por afinar, há soluções por encontrar, marcações bastante livres e algumas absolutamente por definir, a mesa de encenação no meio da plateia e o encenador apoiado na boca de cena e cruzando o palco sempre que lhe dá na real gana. A presença do público dá outro lastro a quem está no palco, sempre, é facto provado, comprovado, re-comprovado e até quando é reprovado, é-o em experiências que não existiriam se não partissem desse dado adquirido. E instalou-se um daqueles tapetes de energia que transportam o trabalho numa fluidez, num caudal que nos refresca a todos e liquidamente nos liga e sintoniza. Fiquei mesmo com pena que não possamos, como estava previsto, passar três horas e meia num acto, com o M a vir segredar indicações ao ouvido de cada um, com as controladas piadas privadas, com os actores a saírem e a entrarem consecutivamente das suas próprias peles para as peles alheias que tomam para si, a serem desafiados a percorrer outro caminho e a aceitarem os riscos, a fazerem pela primeira vez hoje, como o fizeram ontem e há um mês na sala que o público não conhece.

Não imaginam as poucas pessoas que se espalhavam pela tribuna e os assistentes de sala que se puderam sentar na plateia sem restrições que só eles, apenas eles viram o espectáculo como ele foi concebido. Para mim, já estreámos.

Terça-feira, Maio 13, 2008

ponto zero

... which is also a number.


um herói, à mesura da sua estatura

Não foi há muito tempo que tive conhecimento da história de Irena Sandler, a enfermeira polaca que salvou milhares de crianças do inferno do gueto de Varsóvia, entre 1940 e 1943, guardando a identidade judaica de cada uma em mortalhas escritas e enterradas em garrafas no jardim para que o futuro as pudesse desenterrar. Morreu ontem, com 98 anos, e praticamente incógnita. Troféus da sua acção? Uma cadeira de rodas, mercê das fracturas infligidas em interrogatório pela Gestapo, duas mil e quinhentas vidas afastadas do caminho da "solução final" e um brilho deslumbrante no olhar quase centenário. Todo explicado numa simples frase que liminarmente prova que os heróis não existem:

Nós, aqueles que estávamos a salvar as crianças, não somos uma espécie de heróis. Na verdade esse termo irrita-me imenso. O oposto é verdade. Continuo a ter remorsos por ter feito tão pouco.

Irena Sendler, 1910-2008

lost in drawers

Pronto, já chega, ok? Já sei que perdi um concerto dos diabos, só que embora estivesse em Lx no domingo, as minhas gavetas eram outras, por obrigações contratuais. Mas não faz mal, o percurso de uma banda como esta é um slow show, e há-de vir parar-me à porta novamente, mais cedo ou mais tarde...

confissões de uma automobilista em ressaca de mais de seis meses



Não me faz falta ao quotidiano, em nenhuma das duas cidades dispenso a limpeza da electricidade para me transportar. Mas desta vez tive de regressar ao Porto com o volante nas mãos, e é quando me sento atrás da roda que me lembro do prazer que é ter nas mãos uma máquina que obedece aos mínimos impulsos do corpo e do cérebro. Ui, isto é esquisito, estou a falar da condução quase como se fosse uma experiência transcendental, mas não são os prazeres viagens em si mesmos? Pouco trânsito, a estrada aberta, e a minha latinha, espécie de bicicleta de quatro rodas, a portar-se à altura. Este foi um daqueles dias...

maio 13

O meu mais velho, Abílio Yang Freud de sua graça, Billy pós amigos, faz hoje sete anos. Sendo que partilhamos território desde que armei o meu primeiro barraco, faz portanto sete anos que estou fora do ovo, e acho que só agora, sete anos passados, deixei de trincar amiúde os restos de casca que teimavam em vir aos dentes. Sete. Número omnipresente. Número luminoso.

Porto, Fev 2006



ah... resta dizer que fui enganada. Quando era pirralho era todo branco com uma manchinha escura no focinho e um leve véu de cinza na cauda e nas orelhas. A bem dizer, parecia uma ratazana branca. Sai-me afinal um lorde veneziano, caprichoso como só visto, siamês bastardo armado em príncipe da Dinamarca. E doce como as ameixas do pomar de casa... baaauuu.

olha...

Há três dias passaram dois anos. E o que mais me espanta neste blog errático, é que ao fim de dois anos de vagabundagem continua a haver quem venha cá... não piam, é verdade, mas espreitam, que eu sei...

Segunda-feira, Maio 12, 2008

the wheel is turning, mein Herr

the road is open, mein Herr, du kennst mich wohl, mein Herr, und vorbei!

Domingo, Maio 11, 2008

ponto



... and life flows on within you and without you.

vírgula azul



... but I do know that I'm walking where? I don't know, just away...

vírgula vermelha

I don't understand about complementary colors   And what they say   Side by side, they both get bright   Together, they both get gray   But he's been pretty much yellow   And I've been kind of blue   But all I can see is red, red, red, red, red now   What am I gonna do
I don't understand about diamonds   And why men buy them   What's so impressive about a diamond   Except the mining   But it's dangerous work   Trying to get to you, too   And I think, if I didn't have to kill, kill, kill, kill   Kill myself doing it   Maybe I wouldn't think so much of you.
I've been watching all the time   And I still can't find the tack   But what I want to know is   Is it ok; is it just fine   Or is it my fault; is it my lack
I don't understand about   The wether outside   Or the harmony in a tune   Or why somebody lied   But there's a solace, a bit in submitting   To the fitfully, cryptically true   What's happened has happened   What's coming is already on it's way   With a role for me to play   And I don't understand; I'll never understand   But I'll try to understand   There's nothing else I can do.



numa frase, todo o cinema

... ou Porque não concordo com as críticas que tenho ouvido ao último Alain Resnais.


Pessoas comuns têm coisas a dizer e quando o dizem com a luz certa e no ângulo certo, é insuperável. O cinema existe para isso.


Pedro Costa, à beira de ser o primeiro artista português a quem a Tate Modern dedica uma restrospectiva

nada Placida 5.0

Não é um touro. Não acomete. Circunda. Circula, como uma corrente de ar em sucessão de desvios até caçar o pulmão procurado. Observa as pedras no tabuleiro, e joga. Por prazer, sem título de dívida e sem garantia. Correu-me mal, o Poker, mas acho que começo a perceber este bluff. E ao invés de pesar, alivia. Trabalho giro. Às vezes parece um boomerang.

Sábado, Maio 10, 2008

valsa

Era mais lenta, tão mais lenta esta valsa. Sinto-a correr em meu redor, tento reconhecê-la neste violino liso e aquoso e não consigo. Era mais lenta, raios, o próprio filme era em câmara lenta e agora voa à minha frente. O que falhou, o projector? O meu cérebro de teima? Será que adormeci? Talvez tenha sido apenas isso. Adormeci por um instante. E a valsa perdeu a pulsação, perdeu o chão. Voa eufórica, no salão onde não cabe até embater contra uma parede e se terminar abruptamente. Tento chamá-la, convencê-la, calma, não era esse o tempo, não o comas que o vomitarás, ternária ilusão, abranda, dois três, sshhh, dois três. Terna ilusão. Não era este o tempo, dois três, um dois três... um... e dois... e três...

Sexta-feira, Maio 09, 2008

porque isto anda tudo ligado — adenda

E pronto, depois há os homens que estão para lá do quase, como o meu querido Carlos Fiolhais, que hoje no Público se passeia um bocadinho pelos jogos de poder das praxes académicas. O artigo online é só para assinantes, por isso aqui fica a chave de ouro. Ok, fico mais tranquila por perceber que esta sensação desagradável que sinto ao ver bibelots arrumadinhos nas suas prateleiras não é doença minha. E por confirmar que estar para lá do quase não é incompatível com o género masculino, apenas com alguma pedra dura das mentalidades.


E não posso aprovar — até porque é inconstitucional — a discriminação de que as mulheres são vítimas nos códigos da praxe. O dux veteranorum de Coimbra anunciou que elas não podiam usar colete no traje académico, ficando essa peça reservada aos homens. Por seu lado, e na mesma linha, o dux do Porto defendeu que os fados e as serenatas são coisas de homens. Segundo ele, a interpretação do fado académico pelas mulheres seria inverter os papéis do macho e da fêmea; se as fêmeas fossem fazer serenatas aos homens aonde é que íamos chegar? Parece que há mulheres que aceitam este tipo de restrições. Eu, se fosse mulher, revoltava-me. Mas não sou e revolto-me na mesma.

ach, ich fühls...

Está quase. Estou quase a começar o percurso. Sinto-me à beira de entrar num túnel maçónico, não sei se terá chamas, se será escuro, se só tem uma morrinha húmida a descer pelas paredes. A cada dia que passa, menos um dia para ser irreversível, para subir ao topo do escorrega e berrar a plenos pulmões: aí vou eu! Como ainda por cima o escorrega me mete algum medo, tenho de respirar, fechar os olhos e confiar que vou passar inteira e chegar ao outro lado sem grandes mossas, ao fim das chamas, à luz do sol. Ach, carago, mein Herr!... Que comece de uma vez, antes que eu desista à última. Até porque o meu nariz agradece que a rinite volte a ser alegremente alérgica, em vez de se armar ao psicossomático.

Quinta-feira, Maio 08, 2008

as palavras e o acaso 4.0



I bet your fortressed face
Belied your fort of lace
It is by the grace of me
You never learned what I could see

dois em um, porque isto anda tudo ligado

O primeiro ponto — um organismo com o franco nome de Instituto de Política Familiar apresentou gloriosamente à Europa um estudo extraordinário, que se resume assim:

"O aborto, juntamente com o cancro, é a primeira causa de mortalidade na Europa", refere o documento acrescentando que cada dia deixam de nascer na Europa 3199 crianças.

Foi elaborado por uma equipa de psicólogos, demógrafos, sexólogos e peritos em conciliação entre trabalho e família, diz a notícia, todos mortos há mais de cinquenta anos, adivinho eu. Mal posso esperar para saber quais são os números, certamente horrendos, da mortalidade resultante da masturbação masculina, assim como do planeamento familiar. Aguardo o tomo seguinte de tão politicamente iluminado estudo. Afinal, a Europa está a envelhecer, precisamos de massa de trabalho senhores. Se as mulheres se safam ao seu dever sagrado de parideiras estamos tramados, temos de deixar entrar mais uns quantos de cor esquisita para nos construirem os barracos. O Einstein é que sabia: só há duas coisas infinitas, o Universo e a estupidez humana; e quanto ao primeiro, ainda há lugar para dúvidas.


O segundo ponto, o Elogio da mulher quase bonita... enfim, o título explica-se a si próprio, mas a conclusão, avalizada apenas pelo próprio Pedro Lomba e não por um desconhecido exército de psicólogos, sexólogos e peritos em educação para a vida doméstica —ai não, espera, peritos em conciliação entre trabalho e família (por parte delas, presumo...)— a conclusão, dizia eu, é belíssima:

"Há um tipo de mulher que anda por aí nas avenidas, vejo-a agora do sítio onde escrevo, que é assim mesmo: quase bonita. Está tão perto de ser bonita que nos confunde. A beleza tem muitas formas. Há uma beleza tirânica e autoconsciente que eu tento evitar. A mulher que sabe que é bonita é uma mulher que já chegou, é uma mulher engravatada que já faz parte do "sistema", que aderiu ao "centrão". Não lhe sobram dúvidas nem inquietações. Ora, eu acredito que o ser humano deve fugir da confiança excessiva para não se transformar num mísero deslumbrado. Deve desconfiar de si mesmo, do que é, do que quer ser. A mulher demasiado segura da sua beleza não possui esta hesitação, este entendimento paradoxal com o mundo. Toda a mulher conscientemente, arrogantemente bonita não precisa do mundo para nada. Basta-se a si própria, enquanto passeia nas avenidas recebendo falsos juramentos e falsas venerações.

Eu só acredito, por isso, na mulher quase bonita. Acredito que o nosso consolo só pode vir da mulher que está quase, que vai um dia estar mas ainda não sabe, que vive na secreta ilusão de vir a ser. A mulher quase bonita merece a nossa crescente, indisputável admiração. Hoje eu tinha de escrever isto."



Lembra-me aquele sketch do primeiro episódio d'Os Contemporâneos, em que um jurado de uma surreal avaliação descrevia as professoras como "aquela que tem umas grandes mamas" ou "aquela boa, muita boa, és uma deusa!". Lembra-me também um ex-colega de trabalho que há um ano, mais coisa menos coisa, me pergunta pelo elenco de um espectáculo em ensaios; quando chego às mulheres, "bom, está a F.", "ah, ela é boa", atalha o latino macho em défice, e eu, já a sentir qualquer coisa desagradável no tom de voz "é, é muito boa actriz". Resposta esperada, "ah, se é boa actriz não sei, mas é boa." Numa mesma edição diária, os estereótipos em todo o seu esplendor: a incubadora de amor, o bibelot decorativo. É bonito. Só apetece dizer que o que vale a certos cronistas é algumas mulheres terem um fraquinho por homens quase inteligentes. Deve ser o instinto maternal.

nada Placida 4.0

Há coisas que se mostram melhor se escondidas pela transparência de um véu. Há reacções humanas das quais Pavlov não desdenharia. A sugestão é bem mais rica do que a exposição.

Quarta-feira, Maio 07, 2008

too long, and oh so boring...

... and never finished.

as palavras e o acaso 3.0

A história deste romance resume-se no facto de que a história que aí se devia contar não é contada.

Robert Musil, esboço de prefácio a O homem sem qualidades, 1932, trad. de João Barrento

dói-me a cabeça e o universo...



Eu adoro a primavera, juro. Mas com o nariz a latejar bem que me apetece cantar: If this is paradise, I wish I had a lawnmower!...

Segunda-feira, Maio 05, 2008

mas quem é que gosta de chihuahuas?...




... e eu, oficialmente, estou a trabalhar. boufff... preguiiiiiiiça.

as palavras e o acaso 2.0

É húmido e sonoro o ar sombrio;
Não há medo no bosque apaziguante.
A leve cruz dos passeios sozinho
Submisso carrego novamente.

De novo para a terra em letargia
A queixa voará, qual pato bravo,
Participo duma vida sombria
Onde todos estão sós lado a lado!

Um tiro. Sobre o lago adormecido
Pesadas se tornam as asas dos patos.
Pela sua vida dupla, reflectida,
Os pinheiros tornam-se assombrados.

Em reflexo estranho o céu brumoso —
A turva dor universal, ali —
Permite-me também ser nebuloso,
Permite-me que não te ame, a ti.


Ossip Mandelstam, 1912, 1935, tradução de Nina Guerra

água fresca...



... para um dia de sol.

Lisboa, Março de 2008


E a minha casa deve, neste momento, estar mais ou menos assim... ai.