sábado, dezembro 29, 2007

ah, é claro!

Sou a favor da legalização da marijuana. E da ilegalização dos abusos de autoridade.




Acho que já aqui o disse, mas repito. Não fôssemos um animal tão estúpido, e eu pintaria isto em todas as paredes.

é proibido não proibir - adenda terceira

Só para que fique claro, eu sou a favor da proibição de fumar em espaços públicos fechados. E sou a favor da livre-escolha, simultaneamente. E sou a favor do civismo. E também da privacidade de cada um. E também do senso de decoro, sim, quando se está invadir a este ponto as vidas dos cidadãos. E pois, sou dessas que se preocupam verdadeiramente com as fronteiras que os estados, de forma aparentemente inocente, teimam em forçar.

fogo


Carne Assada, 31 de Dezembro de 2003


Este umbigo fará para mim sempre parte desta lareira, saiba eu embora que não o voltarei a ver, que não o voltaremos a ver, nem ali nem no palco nem na rua. "Que este ano não seja o último", alguém lançou no caldeirão dos desejos, na passagem do ano que foi o último, como todos são o último de algum mundo. Cambia, todo cambia. Mas a pedra e o fogo continuam lá. Aguardando-me. Não tarda pousarei a palma da mão sobre o dorso generoso da Thara e saberei que estou em casa.

sexta-feira, dezembro 28, 2007

é proibido não proibir - adenda segunda

Terei, deveras, um problema com a autoridade? De manhã, uma multa da DGCI para pagar, durante metade da tarde apeteceu-me várias vezes mandar o encenador àquela parte (sabendo embora que do resultado destas torturas diárias sairá a minha eterna gratidão e admiração, mas bom, no futuro pensam os astrólogos, e ai mãezinha, se eu pudesse tinha-te dito umas boas hoje!...), e agora isto.

Ainda por cima estou realmente esperançosa de que vou fumar o meu último cigarro a ver nascer o primeiro sol do ano. Agora quase me dá vontade de não o fazer, só pelo gosto de a partir de Janeiro conspurcar o meu próprio quarto de fumo e rebelião - e eu nem costumo fumar no quarto.


Ainda bem que ando nestas coisas do teatro... como diz a minha querida Amora, ando a fazer psicodrama e ainda me pagam para isso. Agora compare-se com a fortuna que eu não teria de gastar só para ouvir um tipo qualquer dizer "hum hum..." para depois levar anos a informar-me de que quando era miúda queria matar a minha mãe e casar com o meu pai. Livra!


... eheheh. A verdade é que isto tudo até me diverte. Tenho orgulho no meu currículo, e guardo ainda com carinho na memória o rosto aflito do polícia maçarico que na gulbenkian me ameaçou com uma multa por desrespeito à autoridade. O meu coração anarquista até inchou de satisfação!...

é proibido não proibir - adenda

Escusado será dizer que puxei de um cigarro assim que publiquei o post anterior.

é proibido não proibir

Acabo de chegar ao quarto e extasiar-me com a cordial mensagem da gerência:

Estimado cliente,

O nosso hotel compreende e acompanha as preocupações da Organização Mundial de Saúde e da Comunidade Médica no que respeita aos malefícios da exposição ao fumo do tabaco.

Queremos dar o nosso contributo para que este Hotel seja um espaço de saúde e bem-estar, pelo que, e nos termos da legislação portuguesa, Lei 34/2007 de 14 de Agosto,
não será permitido fumar neste quarto a partir de 01 de Janeiro de 2008.

Informamos ainda que a mesma legislação nos obriga a comunicar às autoridades qualquer violação da não permissão de fumar, estando o cliente, neste caso, sujeito a uma coima entre €50 e €750.

Agradecemos a compreensão de todos.


A bela da compreensão vale entre cinquenta e setecentas mocas. E bom, acho que sim, aguardo que o meu puto me comunique a qualquer momento a visita da PSP dos Anjos a informá-la de que só pode fumar na varanda, e já goza. 

Mas estou a considerar seriamente pedir um esclarecimento à gerência do hotel, que eu gabo-me de ser mulher séria, honesta e legal (passo recibos e tudo): teriam a bondade, caríssimos, de me fornecer uma lista das actividades que me são ou não permitidas NO MEU QUARTO de hotel? Podem começar por me contar as calorias aos iogurtes que guardo no mini-bar (são de soja, talvez se safem); por favor, façam vista grossa aos frutos secos e ao chocolate, que sou magrita e ando sempre a ver se engordo, tenham piedade. 

Podem revistar também os cremes, a pasta de dentes, a ver se não há nas composições algum químico nocivo que a OMS tenha denunciado. Os dvd's e os livros também, imploro-vos, que tanto cassavetes só pode tirar-me do caminho do bem, e nós não queremos isso, pois não? E Dostoievsky, hmmm, Harper Lee, e em estrangeiro, qu'é pá gente não perceber o que para ali anda de perversão da saúde e da limpeza? Suspeito, muito suspeito...

Claro, que sendo eu uma mulher, e portanto um bicho quasi-irracional e desesperadamente necessitado de protecção, preciso, anseio, angustio-me por uma lista de actos sexuais permitidos por lei: há umas coisitas que já calculo que nem pensar, mas pronto, digam lá que mais é que eu não posso fazer no meu quarto, que eu quero mesmo saber. Ménages? Bacanais? Bondage? Acrobacias várias? Fico-me pelo missionário? Vá lá, carago... assim uma pessoa fica perdida. Moralmente, quer dizer...

Confio em vós. E como o descanso e a alimentação são fundamentais num corpo e numa mente saudáveis, tenho duas propostas a fazer-vos:

1. que no pequeno-almoço o sumo de laranja seja de laranja e não desse fruto exótico chamado Tang, que os cogumelos não sejam enlatados, e que o leite e derivados não sejam todos de vaca, por mor dos desgraçados que, como eu, entram em choque anafilático se aqui comerem um prato de cereais;

2. que conto receber um telefonema da recepção todas as noites às 22h a lembrar-me de lavar os dentes, fazer xixi e ir para a cama; ou se não confiarem em mim (sim, que eu não sou de fiar), alguém que me venha aconchegar os lençóis e dar-me um beijinho de boa-noite, mas uma senhora, claro, a bem do decoro - olha, pode ser aquela ruiva gira e simpática da recepção, a Carina.

Mas ela que venha só depois de eu ter fumado a minha ervita da noite, ok? Foi o doutor que mandou, para as insónias e o reumático. Trata-se de uma questão premente de saúde e bem-estar, senhores, como a OMS tanto deseja. Agradeço a vossa compreensão.

na paz do sEnhor

Nada como uma boa estatística para sustentar a validade do verbo divino. O sr. Álvarez, bispo de Tenerife e não imã de uma qualquer obscura mesquita radical, afirma que "6% dos homossexuais o são por causas biológicas, que de resto a homossexualidade é praticada como vício; e podendo ser natural, cumpre ainda assim reprimi-la, como a violência ou o abuso infantil". Bonito. Se enfiarmos na tacanha voz do obscurantismo um numerozito com um "por cento" a seguir, tudo parece bem mais fiável.

Mas o abuso infantil, senhor bispo, será que devemos metê-lo no mesmo saco que as outras inqualificáveis perversões? Ou é só quando é praticado por padres que ele é culpa dos desgraçados dos miúdos, pedaços de tentação demoníaca que vêm pendurar-se nas batinas dos santos pastores, na esperança de uma violação abençoada? É que não bate a letra com a caneta, sô prior... mas é bonito ver um bispo a dizer estas coisas, lá isso:

"Há adolescentes de 13 anos que são menores e estão perfeitamente de acordo e além disso, desejando-o, inclusivamente, se te descuidas, provocam-te."

Certo. Antes ser pedófilo que homossexual. Uma santa perversão involuntária resultado das tentações do demo é bem preferível a ser simplesmente um... larilas. São esses é que dão cabo do mundo, cabrões de paneleiros. E paz na Terra aos homens de boa-vontade, ámen. 

mais um ramo na genealogia da tragédia

Benazir Bhutto, 1953-2007

imagem roubada aqui
Escuta. Ouve. Ssshhh... a carícia do vento por detrás da tua orelha, ouves? Sou eu. Sabes o que te sussurro, não me peças que to repita. Não enquanto não fores capaz de me responder. Não mo peças, por favor, porque não saberei recusar-to e repeti-lo-ei sempre que mo peças, até que eu própria duvide. Nada há depois disto e no nada tudo cabe. No antes ficou o que antes houve. Ouve. Escuta...


... eu ainda oiço o teu riso.






















Alfama, 26 de Dezembro de 2007 

quarta-feira, dezembro 26, 2007

cada viagem é única

Apesar dos breaks do Isolation, hoje o comboio não se embrenhou na névoa a partir de Coimbra. Faltam-me os teus braços, o teu peito adormecido, mas a luz do sol parece decidida a ficar.

one will burn

Heart And Soul
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Porque há sons que já aos dezasseis anos sabia que me seriam eternos. 

touching from a distance

o original, por Anton Corbijn-lui-même

É um filme de um fotógrafo, sem dúvida. Aliás, é um filme do fotógrafo Corbijn, assinado no canto inferior direito, frame a frame, geometria a geometria, sombra a sombra. Os pequenos elementos que transformam uma fotografia em outra diferente num por vezes quase imperceptível movimento, as direcções rigorosas das linhas alternando com o caos do vazio real dos interiores de Macclesfield, o estático movimento perpétuo que o olho fotográfico tão bem aplica para esbater as fronteiras e fazer cinema do mais belo, sem favores. Coreografias e ironias de gestos e luz, o leit-motiv que é o estendal de roldana, a percussão em spray, a sombra riscada no rosto de Ian quando entra em casa, mas afinal não é uma sombra são as grades de um berço, o cartaz a anunciar uma récita de Peter Pan antes do concerto/motim que prenuncia o fim das resistências, o secar da fonte da criança que só queria brincar às estrelas pop... ou talvez não. A velha criança que demasiado cedo quis esquecer Neverland. E em duas lentas horas que passam a correr, envolvemo-nos quase inconscientemente, primeiro pela fruição da mais pura beleza plástica, depois pela estranheza da contenção, pela admirável e docemente emotiva proximidade em conta-fios. 

Os meus jejuns de cinema valem bem estes poderosos reencontros... e é boa esta sensação de que recebo hoje a Joy Division de outra forma e percebo-a da mesma maneira. Referências que me constroem e me enchem (para) sempre os ouvidos. É giro ter um passado, parte de um futuro, ainda que o presente esteja sempre well out of hand. Existence... well, what does it matter?

"tudo está onde deveria estar, como deveria estar, aqui e agora"

... é um princípio budista. Parece difícil de seguir, hora após hora, mas eu descobri-lhe um truque. Também a nossa inquietação se insere nesse sistema, também ela está onde devia estar, aqui e agora. Também a minha inquietação.


Atmosphere
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terça-feira, dezembro 25, 2007

mensagem para o gang do cine-solstício



... desculpem lá, mas este ano o filme do dia não está aberto a discussão.

segunda-feira, dezembro 24, 2007

big european brother

No regresso a Lisboa vejo a minha precária sala estreada à grande e à europeia, numa salganhada de cosido, salmão fumado, português, francês, alemão, inglês, norueguês, diva impersonating, lili marleen e déshabillez-moi (bolas, faltou a décadanse), vinho tinto, gargalhada e corte e costura de alto gabarito. Entre preferências e amores pelas grandes canalhas da canção francesa e um interesse partilhado pelas inconscientes qualidades cómicas da deneuve (que me perdoem os indefectíveis, mas uma belle du jour não faz a primavera), acabámos por chegar, conclusão lógica, a esta menina, diva rebelde fora do tempo. Vivesse não no meio do lixo pop mas na decadência do cabaret e logo me diriam. E genuína como a jeropiga, nesta performance até da letra se esqueceu. Mas foi absolutamente estrondosa. Tinha este tributo gravado em vhs (ainda hoje me arrepio se me lembro do help de miss minogue, brrrr), mas num mísero aninho estes cinco minutos de fita sofreram danos consideráveis. Alvíssaras ao youtube, que nos traz, então, John Lennon pela divina Cindy Lauper. Em péssimas condições, mas cheio de pica operária.






...pois, assim uns posts levezinhos agora, pelo solstício, é bem, não é? You must learn how to smile as you kill, if you want to be like the folks on the hill.

domingo, dezembro 23, 2007

a luz de lisboa


... é que não há outra igual. Nem a de Roma, nem a do Porto, nem a da memória.

Graça, 23 de Dezembro de 2007


Salvem o Alex!

Rua de Santa Catarina, 21 de Dezembro de 2007

Fiquei preocupada com este moço. Primeiro tive medo, achei que era um psicopata a monte e todos sabemos como tem andado a noite do Porto. Depois veio a dúvida existencial: mas o Alex não era um cão? E finalmente a compaixão típica da quadra: Soltem o Alex! Olhem para ele, está nitidamente infeliz. Tão nitidamente infeliz que o rapaz das meias até entrou em hiperventilação...

sábado, dezembro 22, 2007

do ecumenismo do natal

Pronto, vá, eu rendo-me. Tomem lá um post de natal a sério... ladies & gents, with you, Mr Kyle Broflovski, o judeu solitário.




... I'd be merry... but I'm hebrew.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

you don't know what love is... until you know the meaning of this voice.

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Do K. e para o K. com um abraço e um brinde aos amigos que acendem fogueiras em noites frias de inverno. Ah... o vento acalmou. E aí está o sol.

ganas

Neste espaço que não existe fora de nós, há dias que são túneis. Dias em que as pinceladas sucessivas com que esboçamos o corpo que tomará conta do palco parecem não sombras, mas torturas chinesas, em que um muito caro encenador se transforma aos nossos olhos num monstro impiedoso, sugador de energias e tutanos, em que na exaustão apetece meter a trincha em diluente e agarrar num rolo bem grosseiro para com ele passar a parede a negro, ou a vermelho, ou a castanho-caca, e a seguir comprar uma cana de pesca e ir viver para o Faial.

Ufa... pronto, está feito o desabafo. Ser actor é fodido...

(Olha, o corrector ortográfico acha que "fodido" é um erro de português. Ora deixa cá ver se "mal-pago"... não, "mal-pago" está no dicionário, pelos vistos...)

E depois, como acontece com os Caravaggios de San Luigi dei Francesi, aparece um turista que mete uma moedinha na caixa e a luz inunda os gestos de pincel que pensávamos lançar ao acaso e às escuras. E como com os Caravaggios, dura apenas uns minutos e apaga-se. E ficam de novo as sombras e a nossa sofrida resiliência de tentar guardar na retina os traços e as subtilezas que sentimos serem essenciais, até que novo turista se decida a meter a moedinha na caixa e novamente nos possa surgir um relâmpago do tríptico em toda a sua matéria, forma e cor. E puf, há-de apagar-se ainda umas quantas vezes, sossego-me e resigno-me. E sorrio.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

está um vento cão...


Praça da Batalha, 19 de Dezembro de 2007

Eu e a meteorologia do Porto temos uma misteriosa relação. Com uma suspeita frequência dão-me os dias a luz ou a sombra que trago cá dentro. Este chapéu parece forte, feito de forte metal e dos restos devastados de outro chapéu que já não o é. Se eu o conseguisse abrir, teria mais coragem para atravessar a praça... e não havia granizo que me fizesse tremer. Mas não há força de sansão que resista a uma dalila de tesoura em punho, e um chapéu de tal peso não é para qualquer um.

o espectáculo que o país merece

Um Espectáculo de Merda surge como resposta urgente à permanente situação de precariedade que os artistas enfrentam. É um manifesto que questiona a integridade de um país que, não tendo uma política cultural, está determinado em não reconhecer os direitos mínimos dos trabalhadores da classe artística. Após a aprovação da desajustada lei dos intermitentes em que o governo se desresponsabiliza totalmente do problema central não respondendo às necessidades reais de todo um grupo de trabalhadores da área do espectáculo e audiovisual, foi proposto a um grupo de artistas que se juntasse num mesmo evento para dar voz e corpo a um grito de protesto na ZDB. O objectivo desta acção é relançar a discussão e o debate sobre o estatuto do intermitente e, acima de tudo, promover outras acções de cariz artístico, interventivo ou diplomático porque o que é importante é nunca deixar cair este assunto nas "águas mornas da vida quotidiana". Este espectáculo único conta com a participação de um grupo variado de artistas e entertainers e promete ser cortante, incisivo, polémico, cheio de graça e irresponsavelmente animado!

 

Uma proposta de Martim Pedroso em parceria com: Alexandre Costa, Ana Freitas, Ana Ribeiro, André Silva, António Duarte, Carla Bolito, Filipe Viegas, Flávia Gusmão, Gonçalo F. de Almeida, Gustavo Vargas, Inês Nogueira, João de Brito, Luís Castanheira, Márcia Cardoso, Maria Duarte, Marisa Nunes, Marta Rosa, Miguel Loureiro, Miguel Mendes, Miguel Pereira, Paulo Ribeiro, Pedro Cardoso, Rita Calçada Bastos, Rogério Nuno Costa, Samantha Rox, Sttiga, Tânia Leonardo, Tiago Barbosa, Tiago Guedes, Tobias Monteiro, Vera Mantero, Victor Gonçalves e Vítor d`Andrade.

Amanhã, 20 de Dezembro, às 23h30, na Zé dos Bois (ali ao meio da Rua da Barroca, no Bairro Alto). Não há respeito, não há palhaços. E se este circo fica sem palhaços é melhor desarmar a tenda e desactivar a bilheteira, porque um povo sem cultura não é um povo, é uma manada.

tides and sailors...

Lisboa, Janeiro de 2007
fotografia de Rodrigues



We send the Wave to find the Wave -
An Errand so divine,
The Messenger enamored too,
Forgeting to return,
We make the wise distinction still,
Soever made in vain,
The sagest time to dam the sea is when the sea is gone -


Emily Dickinson

domingo, dezembro 16, 2007

hoje a canção vem inteira, som e palavras, and I won't go back the way I came

Why don't you ask me
How long I've been waiting
Set down on the road
With the gunshots exploding
I'm waiting for you
In the gloom and the blazing
I'm waiting for you

I sing like a slave I know
I should know better
I've learned all my lessons
Right down to the letter
And still I go on like this
Year after year
Waiting for miracles
And shaking with fear

Why don't you answer
Why don't you come save me
Show me how to use
All these things
That you gave me
Turn me inside out
So my bones can save me
Turn me inside out

You've come this close
You can come even closer
The gunshots get louder
And the world spins faster
And things just get further
And further apart
The head from the hands
And the hands from the heart

One thing that's true
Is the way that I love him
The earth down below
And the sky up above him
And still I go on like this
Day after day
Still I go on like this

Now I've said this
I already feel stronger
I can't keep waiting for you
Any longer
I need you now
Not someday
When I'm ready
Come down on the road
Come down on the road

My name, my name
Nothing is the same
I won't go back
The way I came


Lhasa de Sela, The living road

cumprimenta sua excelência, Álvaro de Campos, engenheiro naval

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
que a preferia quente,
que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
e vim passear para toda a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim
particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje.)
Sei isso muitas vezes,
mas se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio.
Não me queixei, mas estava frio,
nunca se pode comer frio, mas veio frio.

os grandes pequenos prazeres


Terreiro da Sé, Porto, 16 de Dezembro de 2007



Uma noite de gajas, boa conversa e boa energia. Acordar a rir com a minha Violeta e dois duplos com o sol na cara. A Sé inundada de luz e uma gata preta que nunca me viu mas me enche de turras. Não há neura que resista a tamanhas iguarias. O sol está a pôr-se, mas eu digo bom dia!

frase do dia

Está um dia tão lindo! Pena ser domingo e ser Natal...

Ah, Violeta, que quando se encontra uma alma gémea é pelos pequenos risos que se o sabe.

sábado, dezembro 15, 2007

Rua do Cativo, Dezembro de 2007


Os três reis magos e um pendura (há sempre um escudeiro de quem não reza a história), em busca de um incensinho mais em conta. O que eu adoooooro o Natal...


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reflexões de um bicho do mato

Hoje é um dia mau para estar a morar na baixa do Porto. Dois centros comerciais em Santa Catarina, e mesmo assim o formigueiro de rua não tem fim, os pinguins multiplicam-se colónia afora, cartão de plástico na mão, olhos vidrados nos expositores, nas coisas. Foi na China que me apercebi de que a noção de espaço individual é uma questão cultural, e curiosamente na terra do ki parece que um ser humano termina precisamente nas fronteiras da sua pele, do seu corpo físico. É fácil sentirmo-nos invadidos numa fila para carimbar o visto. Mas também aqui, na fnac, os corpos se chegam e empurram subtilmente, como que para fazer avançar a fila mais depressa, e lá me saem uns olhares mal-dispostos a ver se quem me sucede na caixa percebe que se quer saber o que foi que comprei mais vale perguntar-me directamente, em vez de me espreitar por cima do ombro.

Talvez a isto se chame apenas "mau-feitio". E foi por isso que assim que pude fugi para a toca, até que chegue a hora de ir ali para o São João, armar-me uma vez mais em turista do teatro.

erres enrolados

Sou motivo de gozo regular para o meu mestre Sérgio, rebento do Porto espalhado por vários cantos do mundo e enraízado em Lisboa. Então eu é que sou do Porto e tu é que falas com sotaque? Mas é mais forte do que eu. Quando chego a Odemira também me foge a língua magana, tenho uma orelha altamente influenciável e uma garganta habituada a cantar palavras. Agora só a partir de Março me adormecerá esta toada dos figos do Douro, quando estiver rodeada novamente do lisboeta gingão dos Anjos. Mas quando me passam grandes textos pelos lábios, a cada sílaba me apercebo de como a clareza gastronómica do falar do Porto moldou a minha boca de actriz e me ajuda a saborear a sopa de letras, a sugar o sumo de cada vogal, a deixar que subtilmente se me enrolem na língua os erres. Queeeeem quer figos do Douro, quem quer figos?...

dos rumores na escuridão

Era a noite, como já disse, escura; e eles acertaram de se achar entre umas árvores altas, cujas folhas, movidas dum vento brando, faziam um temeroso, ainda que frouxo ruído; por modo que a solidão, o lugar, o escuro, o cair da água, com o sussurro das folhas, tudo infundia terror e espanto, mormente reparando-se em que nem os golpes cessavam, nem o vento adormecia, nem a manhã chegava; acrescentando-se a tudo isto o não saberem em que lugar se achavam.

Miguel de Cervantes, Da nunca vista nem ouvida aventura que foi levada a cabo pelo valoroso D.Quixote de La Mancha com menos perigo que por qualquer outro cavaleiro do mundo, trad. de José Bento


... afinal não passavam de maços de pisão. E a incomparável donzela Dulcineia chamava-se Aldonza. E de certeza que tinha buço, como a Torralva.

um século... o que é?


Museu de Arte Contemporânea, Niterói
imagem retirada DAQUI

Hoje faz cem anos o sr.Niemeyer. Cem anos. Desenha, projecta e deseja como se tivesse nascido ontem sabendo já tudo. É brasileiro, comunista e lucidamente louco. A única coisa que quis da vida foi "rir, transar e amar". Talvez por isso dela tenha arrancado tanto mais, e tanto mais lhe tenha dado. A arquitectura de Oscar Niemeyer é um sub-produto da verdade do seu espírito, pontos de passagem, planaltos no percurso, dádivas imensas. Deu-me uma das poucas razões que tenho para não odiar o Funchal, o Hotel-Casino, em cuja linha curva tive o privilégio de pernoitar, e em cujas varandas muito fumo e muitas e boas palavras saíram de bocas muito queridas, madrugada dentro. Foi numa dessas curvas varandas do Pestana Parque que ouvi pela primeira vez, pelo telefone, o miado de cria do meu Abílio Yang Freud, ainda muito longe dos seis ou sete quilos que exibe agora. E cada imagem que vejo do seu traço feito abrigo continua a tocar-me como a primeira. Niemeyer não se rende, continua a trabalhar. E a construir no já pistas para o que o depois pode ser, se assim o quisermos fazer.

porque um século num rosto é arquitectura da melhor
retirada DAQUI

sexta-feira, dezembro 14, 2007

pop kubrick

A minha vida exterior tem vindo, aos poucos, a depurar-se, e temo que seja apenas o início de uma longa caminhada em direcção ao paraíso minimal, pois que less is more. Ao meu saco branco, já com uns anitos, juntou-se primeiro um casaco branco. Agora um portátil branco. E até o caixotezito para ligar à net é branco. A cama tem um édredon branco. E como o bar da Laranja Mecânica me mete um bocado de medo, prefiro pensar que estou aqui:



Escusado será dizer que a melhor parte do pacote não está incluída. Seria, naturalmente, o Albarn com aquele risco preto sob o olho direito...ai.

entretanto, em Bali...

... os suspeitos do costume continuam sem aprender com um ser tão básico como a rã, que, no sábio dito de uma tribo norte-americana, não bebe até ao fim a água do charco em que vive. Mas para os EUA, o Japão e o Canadá, a inteligência de uma rã é uma coisa muito metafísica.

os nhurros do costume continuam a sair para a rua, 
 a recusar o conforto do charco, e a coaxar até que o mundo os oiça.

back in business

Saravá, Vodafone! Acabo de sair da infoexclusão. Até já malta, a ver se não me dá só para cantarolar daqui p'rá frente.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

e um brinde

 Fui descongelá-la ao viveiro, só porque é linda, pronto. E estes dois... bom, que dizer? Talvez que Suzanne takes you down to a place near the river...

dá-me música

É, pois... lá ando por Veneza, de máscara no rosto, entrando e saindo do Café, absorvida em trocas várias, em dádivas, em risos e prantos e raivas. E palavras. Chego aqui e só me salta a costela de dj, que pelo que me é dado a perceber muito agrada a alguns visitantes cá do cantinho. Portanto, deixo-vos com miss Vega em Liverpool. Uma canção perfeita, como uma esfera.

In Liverpool
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... and if he isn't, I certainly am.

terça-feira, dezembro 11, 2007

one more for the road

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E cá fica mais uma, Lanterne Rosse. Porque gosto. E porque tem este cheirinho a Tom Waits, e um dos discos que mais falta me faz descarregar para este bebézinho novo é precisamente o Blue Valentine.

a arte mais concretamente abstracta

E pronto. Há sons que em certos dias se impõem. Nel blu é azul, como esta toca; expressa-se em italiano, língua que já ocupa por esta altura uma boa parte dos meus neurónios, insinuando-se sedutora pelo meio do português dominante; e vem na voz particular deste senhor que se chama Vinicio Capossela, e que me foi apresentado pelo meu Puto.

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Feito o círculo completo, chega-se, como sempre, ao ponto de partida. Amanhã, pelas dez da matina, um auditório de escola superior, encaixado na velha Standard Eléctrica ali para os lados da Travessa da Praia, vai receber o terceiro concerto de Beethoven para piano e orquestra. E o meu talentoso Puto vai sair de lá feliz e leve. E "béchamel". MERDA, PUTO! Ou melhor, In bocca al luppo!

há vidas mais fáceis... mas para mim não prestam

A quintessência da vida, resumiu hoje o nosso caro encenador, ou a sua busca, é o que procuramos no teatro. Por outras palavras, palavras ainda do sereno e vibrante Giorgio, o teatro é um destilado da vida.

É uma lúcida embriaguez, a seu modo, pois in vino veritas. A metáfora etílica é encaixe perfeito, portanto. E a mim, que não sou de shots, mas sei apreciar uma long slow drink (sobretudo se tiver de 18 anos para cima), tocou-me particularmente. Puro malte, destilado dos nossos corpos. E se for destilaria genuína, algum rasto deixará no sangue, no nosso e no dos públicos que nos esperam.

Regressei ao Café. E agora encontro todo um novo sentido na minha preferência convicta pelas largas e generosas chávenas de negra cafeína, que deixam qualquer bica a um canto. E são estas pequeninas coisas que fazem com que uma jornada de 11h de trabalho passe por mim como se de um dia de férias se tratasse.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

tango para o marinheiro morto na praia

Despertar
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Piazzolla com o Kronos Quartet, o "Despertar" das Five Tango Sensations.

sexta-feira, dezembro 07, 2007

.3 ou ponto de fuga

Venho dos lados de Beja.
Vou para o meio de Lisboa.
Não trago nada e não acharei nada.
Tenho o cansaço antecipado do que não acharei.
E a saudade que sinto não é do passado nem do futuro.
Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio morto:
Fui, como ervas, e não me arrancaram.

Escrito por Álvaro de Campos num Livro Abandonado em Viagem.


Estreia amanhã. ou antes, hoje, um maravilhoso objecto chamado Turismo Infinito. Ricardo Pais no seu absoluto melhor. Um espectáculo simplesmente e esmagadoramente magnífico. Sou insuspeita, desta vez nada tenho a ver com o assunto. E não, no que digo aqui não são os afectos que contam, embora os meus afectos se tenham extasiado. Com um texto onde se flui como se nada fosse entre o frágil Pessoa e seus fortes heterónimos. Com um elenco de palavra dita com mestria, com carne e com corpo - e que saudades de ver João Reis servindo palavras à sua altura de actor. Com um cenário absorvente. Com uma luz belíssima. Teatro turista de nós. E de si mesmo, meu deus, e de si mesmo.

de António M.Feijó a partir de textos de Fernando Pessoa e três cartas de Ofélia Queirós
ENCENAÇÃO Ricardo Pais com a colaboração de Nuno M Cardoso DISPOSITIVO CÉNICO Manuel Aires Mateus FIGURINOS Bernardo Monteiro DESENHO DE LUZ Nuno Meira SONOPLASTIA Francisco Leal VOZ E ELOCUÇÃO João Henriques
INTERPRETAÇÃO João Reis, Emília Silvestre, Pedro Almendra, José Eduardo Silva, Luís Araújo
de 7 a 16 de Dezembro
no Teatro Nacional de São João

quinta-feira, dezembro 06, 2007

.2 ou ponto mercurial


Toma, é Shakespeare. Assim, por empréstimo, acabei por finalmente ver o último Scorcese, que me tinha passado ao lado. E é certo, Shakespeare está todo lá, num filme que se comporta como se fosse mercúrio, aglomerando redondas gotas que vão formando o líquido espesso, ágil e pesado. Por vezes parece sangue. Mas não. É vermelho-mercúrio. Pesadas serão, mas são sobretudo belas as coroas de autores como este.

.1 ou ponto de rua

Praça da Batalha, Dezembro de 2007


Cristina, cada vez mais decidida pelo divórcio, com o seu amante, Peer Gynt, o do hálito fresco. Duas rodinhas de rua na engrenagem do Portogofone que já aí está, até sábado, a espalhar teatro pela cidade.

o ponto da situação ou a situação e ponto

Comprei um macbook. Estou in love com o bicho, que é lindo. Tão lindo tão lindo e tão à frente tão à frente tão à frente que ainda não há pai p'ra ele. Ou seja, não há net portátil para o leopard. Entretanto o velho trambolho onde pulava o kanguru manco resolveu meter greve e andar, qual cão atrás da própria cauda, a reiniciar até ao infinito. Um bocadinho como nós devíamos fazer, reiniciar sem perder informação (inch'allah!). No net até que as operadoras portuguesas acordem para a vida, que eu para cybercafés não tenho, ahm, pescoço. O ponto, portanto, está colocado. São três. Os pontos. Reticências.

sexta-feira, novembro 30, 2007

porque o caminho se faz caminhando

AQUI podem ajudar a decidir com que pé se avança agora. E AQUI podem confirmar qual é o pé que começa a tomar balanço para dar o primeiro passo. De preferência, passos diferentes dos do João Ratão: o objectivo é tirar do lume o caldeirão a ferver do médio oriente, não cair lá dentro. Meio século é tempo suficiente para provar a inutilidade de uma estratégia, não?


Matmata, Sahara tunisino
Setembro de 2006

terça-feira, novembro 27, 2007

tenho andado com este senhor às voltas na cabeça...

... mais vale postá-lo de uma vez. Convosco, Billy Joel no seu melhor. Mesmo, que muitas vezes é um grande azeiteiro. Mas esta canção é preciosa. 0% de acidez.

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do narcisismo

É a vantagem de ser pau-de-virar-tripa: ao fim de quinze dias a "encher", entre contact improvisation, ioga e ai ki taiso, mais umas quantas improvisações bastante físicas, cada vez que me penteio ao espelho quase tenho vontade de me saltar pá espinha. Estou um verdadeiro Johnny Bravo, do you wanna see me comb my hair?



ADENDA: Mas estúpido estúpido é sobreviver relativamente incólume a tantos combates e depois lixar um dedo do pé no quarto do hotel...

diálogo do dia

- Não há pachorra, o gajo só fala por provérbios, carago!...
- Bom, eu gosto de provérbios... mas também, nem tanto ao mar nem tanto à terra.

segunda-feira, novembro 26, 2007

silêncio para dois

Há demasiadas coisas que queria dizer-te, coisas em demasia para me dizer a mim. Que sinto o teu cheiro mesmo quando a cidade está vazia sem ti. Que não sei quem és, na medida exacta em que te reconheço todo em todos os silêncios, até naqueles em que estás certo de assim não ser, em todos os olhares em que desconfias que não te olho. Nascem-me por detrás da nuca. Correcção, nascem-me os pensamentos de uma fonte que não vejo, e por trás da nuca me atingem com um duro soco, antes de escorregarem pescoço abaixo, peito abaixo, coração adentro. Quero agarrá-los, tento agarrá-los e não posso. Eu, uma pessoa tão verbal, fico muda diante de ti. Eu, que tanto esforço faço para conter as palavras, seria capaz de meditar nos teus olhos durante toda a eternidade pressentida. Perco o léxico, misturo o vocabulário, não sei dizer coisa com coisa sem coisa plena de coisas, não sei as palavras, não as agarro. Ou elas despegam-se de mim, abandonam-me, aguenta-te agora, torre de pisa, deixa que o vento te vergue para sentires o prazer de te ergueres de novo. Não há apoio lexical que te preserve a verticalidade.

Há demasiadas coisas que talvez devesse dizer-te. Que me assusta a posse, que me repugna a posse, que desconfio da segurança construída antes das construções, que tudo isso senti na pele, sofri na carne, e tudo isso sacudi como um cão, como um vira-lata enfim reconhecido à estrada. Que não passo cheques em branco, nem a mim mesma. Mas que as mãos que por vezes assassinam, também assinam por vontade própria, e só muito mais tarde vêm reclamar as notas de crédito, só depois das vazas vêm trocar as fichas do jogo.

Chamar-te-ia meu, apenas porque ao deixar-te entrar reconheceria a parte de mim que te pertence, não porque te guardaria entre muros. Chamo meu apenas àquilo que me possui. E calo. Preservo o silêncio que os teus olhos me dizem, porque as manhãs mais limpas não têm voz.

domingo, novembro 25, 2007

chiaro-oscuro

Santiago de Compostela, Maio de 2007

Sur mon front, mille fois solitaire,
Puisque je dois dormir loin de toi,
La lune déjà maligne en soi,
Ce soir jette un regard délétère.

Il dit ce regard - pût-il se taire!
Mais il ne prétend pas rester coi, -
Qu'il n'est pas sans toi de paix pour moi;
Je le sais bien, pourquoi ce mystère,

Pourquoi ce regard, oui, lui, pourquoi?
Qu'on de commun la lune et la terre?
Bah, reviens vite, assez de mystère!
Toi, c'est le soleil, luis clair sur moi!

Paul Verlaine, Lés méfaits de la lune

ressaca de cansaço, amor aos mistérios de fora e de dentro, corpo dorido, filme clássico em tarde lenta de domingo

O soldado Robert E.Lee Prewitt e Alma, aka Lorene, no Kalakaua Inn:

- I love the army.
- But it sure doesn't love you.
- A man loves a thing, that don't mean it's gotta love him back.
- Yeah, but a person can stand just so much...
- You love a thing, you gotta be grateful.

e depois, boa noite! no futuro pensam os astrólogos!...

Numa hora passou um mês. Pausa. Café fechado para balanço. Muda de disquete, marisqueira com pares de cromos em desintegrações diversas. Pausa. Tempo para respirar. Texto para marrar. Numa hora passou um mês. E mais uma vez me sinto mais eu, por não ser a mesma que era há um mês. Numa hora. É também, e sobretudo, por isto que cá ando. Pausa. Reconheço o privilégio. Até dia 10, pessoal.

Pausa.

A vida é bela. E o dia devia ter 48 horas.

quarta-feira, novembro 21, 2007

é que ele há dias...

Passo as tardes em improvisos, à procura da pele de uma mulher cheia de genica e apaixonada por um marido amorosamente estronço. Chego aqui e as coisas desenvolvem-se como se tem visto, é favas com chouriço p'ra toda a gente, também por quinhentos paus querias gambas, não?

Neste momento o que me consola, para além do cházinho que tenho ali a fazer, é que não tarda começa a Letra L, irra...

pérolas de porcos II

ou
ai, a graça do amor...*



*título desavergonhadamente roubado ao JP Simões; aqui ficam desde já as minhas desculpas por se ver metido numa mistura tão rasca

pérolas de porcos

ou
cada tiro, cada melro
ou ainda
cada cavadela, cada minhoca


"Sou contra a legalização porque temos de levar em conta que se trata de mulheres que vivem do pecado e que, em minha opinião, não merecem protecção.
Carrego comigo o arrependimento de, por vezes, cair em tentação e recorrer aos seus serviços para a realização de determinados tipos de actos sexuais que a minha mulher não pode praticar devido a ser séria. "

Comentário deixado por um senhor de certeza absolutamente respeitável, impoluto e semanalmente confessado, NESTA NOTÍCIA. Broches, a palavra que ele não quis dizer era broches. É naquela base da preservação da boca que lhe beija os filhos. Já diz maestro Eldoro, nos ensaios do coro gulbe, a boca de um cantor tem de ser uma catedral! A boca de uma mulher séria também só serve para aquilo que o homem lhe indica; broches, nem pensar, e palavrinhas, pouquitas, hã?

agradecimentos sentidos ao nosso Saroco

segunda-feira, novembro 19, 2007

adenda ao post em atraso n.º2

Já cá girou uma vez, e há-de continuar a girar, infelizmente sempre a propósito.

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domingo, novembro 18, 2007

press PAUSE

Era capaz de me apaixonar por ti, se tu deixasses.

post em atraso n.º3

Tão atrasado que já nem vale a pena fazê-lo. Ficou preso na peneira do tempo.

post em atraso n.º2

Décadas e décadas de atraso. Talvez noutro dia conseguisse alongar-me um pouco sobre o assunto, hoje não sou capaz, confesso. A designação do que está em causa é explícita demais, não necessita de explicação: mutilação genital feminina. Acontece todos os dias na Europa, e não há relativismo cultural que justifique a sua continuação. A petição que espera a vossa assinatura deixa bem claro o que exigimos, porque temos o direito e o dever de o exigir:

1. tolerância-zero na Europa, com a criação de leis claras e inequívocas banindo a prática;
2. pressão económica sobre os países onde esta prática abjecta é legal;
3. trazer o assunto para a proa das agendas das conferências e cimeiras com países africanos;
4. financiamento do trabalho de ONG's empenhadas na solução deste problema, na Europa e em África;
5. criação e financiamento de campanhas e acções de educação e de despertar de consciências;
6. aceitar a ameaça de mutilação como razão para a atribuição do estatudo de refugiado.

No site da petição encontrarão ainda o linque para um vídeo. Se forem impressionáveis, não o vejam, mesmo! É duro demais. Eu não consegui chegar ao fim, e costumo ter resistência para estas coisas. Mas se calhar não é mau aguentar uns segundos daquele terror inqualificável; pode ajudar a decidir se vale a pena, com uma assinatura, contribuir para o fim de tamanha iniquidade. Penso que, mesmo para quem não tiver um clítoris, ficará bem claro por que razão é tremendo o nosso silêncio.

quinta-feira, novembro 15, 2007

post em atraso n.º1

Muito atrasado. Porque se trata de um belíssimo espectáculo e já só está em cena até domingo, por ridículo que seja que um espectáculo com magníficos textos e magníficos actores tenha apenas duas semanas de cena. O teatro-fénix, auto-incendiado e renascido das cinzas, que pelo artíficio aparentemente frívolo, pelo rigor e pela loucura concertada, pela lucidez, pelo humor inteligente, humano e corrosivo, reencontra a verdade. Que pela distância encontra a pele. Citado no programa pelo re-encenador João Cardoso, o autor deixa bem clara a sua declaração de intenções: "embora não exista nenhuma história para contar, nem personagens, pelo menos não num sentido convencional, isso não quer dizer que não seja necessária alguma habilidade; uma vez que nós continuamos a precisar de sentir que aquilo que vemos é real; não é só representação; é de facto mais exactidão que do que representação - pela simples razão de que está realmente a acontecer" [Martin Crimp, (A)tentados].

Até dia 18, no palco do Teatro Helena Sá e Costa, acontece. Acontece mesmo.

Céu completamente azul (2005)
Contra a parede (2002)
"Conselhos para as mulheres do Iraque" (2003)
Menos emergências (2001)

tradução Paulo Eduardo Carvalho encenação João Cardoso
cenografia Sissa Afonso figurinos Bernardo Monteiro
desenho de luz Nuno Meira sonoplastia João Oliveira

interpretação
João Cardoso
Micaela Cardoso
Pedro Galiza
Rosa Quiroga

assédio-Associação de Ideias Obscuras

7-18 de Novembro
Teatro Helena Sá e Costa, Rua da Escola Normal, Porto

porque a vida, ainda que estúpida, continua...

... o Blue! segue dentro de momentos. Até porque tenho uns quantos posts importantes em atraso. Até já.

terça-feira, novembro 13, 2007

Pareceste-me sempre muito mais velho do que eras. Não, não é velho a palavra. Crescido. Eras crescido. O teu rosto luminoso era sereno demais para os cinco anos que nos separavam. A serenidade do teu sorriso quando para mim levantavas os olhos da mesa onde estudavas, a mesa da cozinha, tinha a leveza de quem já se substituía ao pai longínquo na vida da casa e das mulheres da casa. Eras tão bonito. Estavas ali, do outro lado do rio. E continuaste sempre ali, do outro lado do rio. O rio tão fácil de atravessar, o cristo de costas para ti, e tu tão bonito e tão terno, à mesa da cozinha, os livros da escola à frente. Parecias-me tão adulto. E por isso hoje, quando te soube morto, foi o teu rosto adolescente que me roubaram. Eu tenho nove anos e tu catorze e eu estou novamente apaixonada, pequena e silenciosa, observando enlevada a tua claridade serena. A verdade é que não te conheci a idade adulta, retenho meros relâmpagos dos teus olhos em parcos almoços familiares, as tuas poucas palavras, o teu mesmo sorriso tranquilo, e dói-me hoje a estupidez de tantas vezes não ter atravessado o rio. E dói-me este desterro que me impede de te ver uma última vez e acreditar que foi com trinta e seis anos, e não com catorze, que te foste. Que me impede de abraçar a tua mãe destruída, o teu irmão desnorteado, o teu pai regressado e armado de elmos e escudos com cheiro a esteva alentejana. Chamavas-te Miguel. Chamas-te Miguel. A vida é estúpida e passa a correr.

domingo, novembro 11, 2007

projecções

São Pedro de Moel, 11 de Novembro de 2007


No presente, no futuro, uns nos outros, nos olhos e nos afectos uns dos outros. Dia de sol com gente luminosa. Há lá folga melhor?

quarta-feira, novembro 07, 2007

Ah, é verdade!

Esta magnífica, única, genial senhora...

Joni Mitchell, auto-retrato para a capa de Both Sides Now

... faz hoje 64 anos.

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a imoralidade do moralista II

A frase do post anterior vinha hoje generosamente oferecida na rubrica "Escrito na pedra" do suplemento P2 do Público. Coloquei-a aqui porque a subscrevo e me identifico inteiramente. Mas também porque o pasquim de hoje é um poço de ironia. São José Almeida oferece-nos uma curta mas interessante reflexão sobre o que é ser comunista hoje, com interessantes e muitas vezes contraditórias achegas de gente tão diferente como Rúben de Carvalho, Eduarda Dionísio, Maria Teresa Horta, Jorge Silva Melo. Entre uns quantos outros espalhados por duas parcas páginas que na realidade se resumem numa página de texto, e que em beleza terminam com a sensatez de Miguel Portas: "Respeito imenso quem procura, a partir do comunismo, construir e refundar as razões do combate ao capitalismo, mas este combate está longe de se poder resumir à subjectividade comunista, enquanto mundividência, e mesmo ao marxismo, enquanto método de análise. Passou um século sobre essa história e essa história não é única, é uma história para a qual convergem muitos afluentes." Pelo meio, Maria Teresa Horta põe o dedo na ferida, elegendo a auto-regulação da sociedade em igualdade como o princípio fundamental mas, ressalvando, "em liberdade e com tolerância; não se pode ver a floresta sem se ver as árvores, todas e cada uma".

So far so good...

E irrompe o moralista director, no seu espaço previlegiado de editorial, com todos os seus engulhos freudianos de ex-pseudo-comunista de pedras na mão, vociferando o seu espanto pela "atracção teimosa de alguns intelectuais por uma doutrina responsável pela acumulação de ruínas e por espalhar torrentes de sangue". Para José Manuel Fernandes não é possível discutir os conceitos, os projectos, os princípios, o modo de agir sobre o mundo. O seu comunismo esgotou-se nas armas, nos automóveis vandalizados e nas montras partidas, nas marchas populares pela libertação do camarada Arnaldo de Matos, o grande educador, esgotou-se no tiro aos pombos. Dormirá mais descansado, hoje, seguro de ter cumprido a sua missão de fiel da balança ao não deixar passar impune a conspurcação das páginas centrais do seu pasquim por uma cambada de intelectuais com as veias cheias de ópio marxista. Bem se costuma dizer, os estúpidos discutem coisas, os inteligentes discutem ideias. JMF que me perdoe, até porque não estou segura de que se lhe aplique o epípeto de estúpido, uma vez que acho, realmente, que o seu problema é outro e inscreve-se no foro psicanalítico da coisa. Para terminar com mais uma frase feita, Freud, de certeza, que explica tal editorial. Vírgula por vírgula.

a imoralidade do moralista

Eu sou pela moral contra o moralismo burguês. Qual é a diferença? O moralista diz o "não" aos outros, o homem moral di-lo apenas a si próprio.

Pier Paolo Pasolini

terça-feira, novembro 06, 2007

as interpretações

Quando o funcionário que me vende o livro de recibos olha para a foto do BI e comenta com um sorriso rasgado, "ficou muito bem na fotografia", o que pensar?

1. Que ganhei o prémio Miss Fotogenia Restauradores 2007.
2. Que hoje estou mesmo com mau aspecto [malditas olheiras!].

as lições

O locutor português dá lições radiofónicas ao correspondente brasileiro, então e sabe porque é que o clube A Portuguesa, fundado no dia da batalha de Aljubarrota, só podia ser patrocinado por uma cadeia de padarias? Ah pois, não sabe... eu explico, cof cof. É que foi graças a uma padeira que os portugueses ganharam a batalha. A padeirinha de Aljubarrota [acrescentar "inha" à descrição de uma mulher que se diz que era uma brutamontes com seis dedos em cada mão é de uma ternura desarmante] deu cabo de uma série de mouros e assim ganhámos a batalha [mouros? agentes infiltrados espanhóis, portanto].

À minha gargalhada matinal responde o meu puto, ainda com um olho aberto e outro fechado: acho que ele se enganou, sabes?; o que ele queria dizer era "egípicios".

segunda-feira, novembro 05, 2007

os rânquingues

O Miguel mudou de casa. O que não muda é a luminosidade que vem da sua escrita, mesmo quando influenciada pela saudosa Guidinha do Diário de Lisboa. Ora confirmem, então, se não é este um post para os primeiros lugares de um bom ranking?

Eu, que leio o Miguel desde que Os Tempos Que Correm eram uma coluna no Público e eu uma adolescente em remoinho [coisa que deixei rapidamente de ser, há um ano e meio, mais coisa menos coisa], só no infantário frequentei o ensino privado. E no meu ranking pessoal há uns quantos professores inesquecíveis, alguns em pessoa, outros por meio da tinta negra impressa. Saravá, pois então, professor Vale de Almeida!

a cidade III

E pronto, já falta pouco para me exilar por quatro meses, os piores do ano para trocar a luz de Lisboa pelo cinza do Porto. Mas assim como assim hão-de fechar-nos a porta da sanzala, e se é para passar horas sem fim de exploração e construção, que o seja na Sala Branca dos meus medos e das minhas conquistas. A despedida de casa será em grande, com missa celebrada no Coliseu pelo Gay Messiah. Mas há pouco na bilheteira até me engasguei na hóstia: 30 euros o bilhete, o dobro do que dei há dois anos para render homenagem ao mesmo celebrante no Coliseu do Porto. Irrrrra! Desta vez há cadeiras na plateia, está tudo com um ar mais bem-posto, estou para ver se temos direito a chapéus de bruxa e encores em cuecas e faixas de Mr Lisboa. Mas a inflação, carago... agora percebo melhor outras actualizações, como a do cromo que entre Passos Manuel e a Cordoaria costuma pedir "emprestas-me um euro?". Há uma semana, à beira dos Clérigos, chegou-se ao pé de mim e pediu já um empréstimo de dois, e alguém me disse que já o tinha ouvido cravar cinco euros. Deve andar de acordo com o psi20. Ou com a euribor...
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a cidade II

Não há como não ler as programações, chegar ao café da FNAC e receber de brinde quatro homens da minha vida projectados no écran. Bom, quatro, quatro... vá lá, três. Pronto, para ser realmente honesta, dois e um maravilhoso palhacinho. Um doce a quem adivinhar quais são os dois eleitos. Deixo uma pista clara, estão mortos. É sempre assim, é o fado, os melhores são os primeiros a ir, ai ai...

a cidade

Fora da hora de ponta, o metro volta a ser um filme de autor.

until this moment, I had trouble visualizing it...



Uhuuuuuuuuuuuu!!!! Nunca pensei regozijar-me com a extinção de uma espécie, e bem sei que não me fica nada bem. Tenho pena do Dodo e de todos os bichinhos que ficaram pelo caminho, mas 70 canções adaptadas e coladas nas bocas de dinossauros animados conseguiram deixar-me com aversão até ao monstro do Loch Ness - que, como sabemos, não passa de um Plesiossáurio cronologicamente inconveniente. O T-Rex morreu, viva o T-Rex!

domingo, novembro 04, 2007

boa ooooonda, man...

Eu juro que tento não dar importância, faço tudo o que posso e o que não posso para não entrar em juízos de valor, as pessoas às vezes têm tempo a mais nas mãos, alinham no que aparece para amainar o vazio das horas que passam. Vírgula, coitadas... Mas confesso que não sei o que pensar de quem mantém o contacto com amigos distantes através do léxico PPS, tão carregadinho de good vibes ao som do Richard Clayderman: o Joaquim António de Rabona de Baixo não reenviou esta mensagem e na semana seguinte ficou desempregado e sem dinheiro para pagar o enterro da mãe, da mulher e dos três filhos, que morreram todos de ataque cardíaco fulminante. Por outro lado, a Antónia Joaquina, de Rabona de Cima, reenviou imediatamente para os 73 quick contacts que tinha no seu gmail e ganhou imediatamente o euromilhões apesar de ser ainda quinta-feira. E uma palete de embalagens de Fairy, como brinde por ter estado entre os cem primeiros!

Agora a sério: como se pode esperar que alguém que é ameaçado com sete anos de azar se não reenviar uma mensagem [graças aos céus que sou virgem, se fosse leão como o meu puto eram já treze anos, caneco, menos mau...] volte a encarar o ameaçador verdugo cibernético que lhe coloca a espada sobre a cabeça? E no fim de tudo ainda aparecem anjinhos de pirilau barroco e a última indicação, envia para todos aqueles de quem gostares, inclusivé para quem te enviou. Ora porra, presunção e água benta! Quem é que pode gostar de tamanho rufião?

...

Uma lobotomia, seria coisa para resolver isto?

[suspiro]

dúvidas epistemo-gastronómicas em Vila Franca

Um rissol de carne comido no bar do Museu do Neo-Realismo... será um Alves Rissol?

sábado, novembro 03, 2007

consumatum est e oeste

Quatro meses de hotel que se avizinham exigem um malão, o inverno pede encarecidamente que ultrapasse as minhas alergias a expositores de roupa, provadores e filas para caixas registadoras, o boguinhas pede para andar... bom, coragem mulher, e "amanda-te" para o espaço schungen do Colombo.

É assustador, deveras... e ou eu tenho um problema gravíssimo de hipersensibilidade [muito provável, na verdade], ou de facto há toda uma espécie animal que é ali criada em cativeiro. Que deve estranhar quando inala oxigénio produzido pelos tradicionais e ultrapassados mecanismos da fotossíntese. Ou quando ouve o silêncio. Que encontra o sentido da vida no ATM. Que se auto-reproduz entre a praça do Continente e a rua de Guadalupe.

O sol do outono estava radioso lá fora. E as filas para pagar ao som da música altíssima, brutíssima, embrutecedora, cresciam continuamente, opressivamente. Eu não fui feita para isto, de facto. Vendas por catálogo, pá, rende-te mas é às vendas por catálogo. Ou então aprende a costurar, de uma vez por todas...

sexta-feira, novembro 02, 2007