quarta-feira, setembro 30, 2009

pela água


anjos, set 2009



quando o tempo se retorce nasce por vezes uma pequena cascata.
talvez não tão pequena, mas, proporcionalmente, claro eco de cataratas maiores e mais avassaladoras.
o dentro a ludibrar-se sem precisar de ajuda, a doçura calma que deixa um bicho enraivecido encerrado num qualquer compartimento flutuando na linfa, uma morte, a falta, o olhar em frente sempre disperso, sempre inquieto, sempre insuficiente.
e a cama recebe-me em dúvidas, o corpo em desconforto só buscando sono e anestesia para ser acordado de um soco.
pela imagem recorrente do teu outro corpo, pela primeira vez, depois de tanto tempo, era outro e eu não o queria.
essa derradeira e acre mistura com que me mataste, cheia de grânulos, as tuas costas nuas reflectidas no espelho do quarto errado, o teu corpo violador de si mesmo, homicida de ninguém mais e de mim também
e porquê de mim também? —a resposta que me fugirá sempre. a resposta que foste cobarde demais para me dar. quanto tempo passou já? falham-me os dedos a contar os furos no caminho.
como perdoar-te tamanho crime? como esquecer um amor tão grande usado para desmaterializar qualquer vida em redor pelas décadas seguintes?
como posso sonhar depois de ter perdido os sentidos de tudo?
como posso acreditar no sangue depois de uma morte pulverizada?

gostava de encontrar-te [nas] respostas,
mas sou um túnel de perguntas.

5 comentários:

António disse...

dói :(

Manel disse...

pois dói... :*

K. disse...

É preciso muita coragem e arte para escrever essas palavras. Um beijo.

catarina disse...

está lindo :(

Anónimo disse...
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