sábado, outubro 18, 2008

arco-íris

É dia do rosto de chumbo azulado. Acorda assim muitas vezes, este céu, construindo-se em andares infinitos de cúmulos e nimbos e limbos de veludo rasgados aqui e ali por garras luminosas que abrem caminho à preguiça do sol. Quase a rebentar, a bica foi estacionar de jorro em cima do zarolho, e em tempo nenhum estava a praça deserta sob o peso do aguaceiro. Nem um respirar, nem um som, nem um pombo, tudo se recolhe com medo da enxurrada. Mas um longo beijo feliz de ser molhado, feliz de estar sozinho em si e em ambos e na praça, foi arc-en-terre vindo do chão para tomar o lugar do outro que em tais dias costuma vir do céu e que hoje não se atreveu a expôr-se à competição de cor. A chuva continuou, mais rija, mais grossa. O beijo, encharcado, ninguém o viu terminar. 

2 comentários:

Catarina disse...

Nada como um dia de chuva e trovoada, assim vindo do meio do nada...
E há algum cheiro mais bonito do que o cheiro a terra molhada?

Manel disse...

:) Por acaso...