quarta-feira, novembro 19, 2008

ora põe-me a etiqueta no frasquinho [dip me in chocolate and throw me to the lesbians]

Houve uns pequenos pormenores acerca do meu casamento com a minha bela Raquel Freire que me foram particularmente gratos. Acidentes. Foi uma acção montada de véspera, numa cave ali para o Marquês, e nem eu e a Raquel caíamos bem ao vestido de noiva, feito para aquelas medidas entre mim e ela, as consideradas "normais". Ficou para mim, mas fiz questão que ela levasse o véu, para me sentir menos subvalorizada por a minha noiva não se dar ao trabalho de pôr mais que um vestido de praia para casar comigo, olh'á lata. Vieram os pins, para compensar o meu IMC abaixo do mínimo requerido pelo vestido, mas ainda assim os pins não chegavam, sobretudo com o constante boicote do Trotski-ainda-sem-picareta. Acendeu então a lampadinha: vou grávida! Os abdominais dispensavam a sauna de malha que sofreram por duas horas, mas o resultado foi a grávida a levantar o véu da noiva para a beijar antes dela atirar o ramo. Nada planeado, apenas peças encaixando umas nas outras.

Ora outra coisa que me está a divertir são as ondas que em círculo à minha volta ainda se fazem sentir. Na noite em que cheguei ao Porto e me serviram a melhor francesinha dos últimos tempos, o sr. António, sorrindo, diz que me viu na televisão. Que me viram todos. E que disse a alguns clientes que comentavam, que "não não, ela vem aqui e a gente conhece-a, ela só foi lá... para protestar". Os olhinhos semicerrados rogam-me que confirme, de algum modo, pedem-me um assentimento, quase dizem "por favor, diz-me que não és fufa". O sorriso enternece-me, e tenho de reconhecer, os olhinhos também. Não o quero com palpitações, mas não lhe vou fazer a vontade por causa disso. "Deixe-os falar, senhor António, deixe-os falar."

É isto o meu Porto, espelho ingénuo do que no sul se me esconde. Sei que se especula em Lisboa. E acho graça. Acho graça, sobretudo, porque ninguém, nem uma só pessoa, me interpelou a mim. Um amigo chegou a responder a alguém que tinha vivido comigo seis anos, sabia do que falava. A minha resposta continua a ser a mesma... deixa-os falar.

Mas pronto, hoje deu-me para o soro da verdade, e cá vai ela. Atenção à BOMBA! Eu não sou lésbica! Mas isso, como dizer, para mim não tem significado absolutamente nenhum. Porque é apenas uma constatação da realidade, não um ponto de partida. Até agora, é gajos, pronto. Mas não penso que seja mais que uma contingência. E se for pela lógica da liberdade dos afectos, tenho de dizer que até acho que é um certo handicap. Mas pronto, é onde estou. Repito. Não é o que sou. É onde estou. E como não sou árvore, não preciso de raizes.

A conclusão final impele-me, no entanto, a deixar-vos, à laia de serviço público, um rol das causas a que devem ponderar a vossa dedicação, a bem da vossa imagem social. Fica aberta a actualizações, estejam à vontade para sugerir.

6 comentários:

rf disse...

acho mal, não devias ter assumido a tua heterossexualidade, ou 'não-lesbianismo', o que vão agora as pessoas ficar a pensar?
um escândalo! :)

Catarina disse...

É uma "escandel" (como dizia o outro do Sporting), sim senhor!!!
E o que vão dizer da cor do cabelo, da cor dos olhos, da cor da pele, dos traços fisionómicos... ;-)

Anónimo disse...

Ups! Fiquei com a boca de ladecos...

Raquel Alão disse...

As pessoas vão pensar que és uma pessoa realmente baralhada das idéias... Ora, se até és "normal" por que raio andas tu a lutar pelas causas dos "panilas" e das fufas?! E ninguém percebe que é uma questão de justiça, de igualdade de direitos perante o Estado...

Tenho ouvido muita palermice nos últimos tempos relativamente a esta questão. E só agora me apercebi o quão protegida tenho andado relativamente a esta matéria. No meio em que me movo é simplesmente a assunção de uma realidade. Sem medos, sem repercussões hostis, sem comentários mesquinhos, sem discriminação.

No mundo dito real, é uma luta pela dignidade. E é duro. Terei em breve oportunidade de consciencializar para o respeito para com a diferença. Gerações mais novas junto das quais me esforçarei por incentivar o questionamento do status quo, da arrogância moral e ética, dos dogmas irredutíveis. E lentamente espero poder contribuir, por mínimo que seja esse contributo, para um futuro mais esclarecido e compassivo. Pelo menos, para que tenham mais dúvidas que certezas...

Raquel Alão disse...

Continua a partir-se de uma premissa errada, que é a da livre escolha da opção sexual. Que eu saiba, e que me lembre por experiência própria, não se escolhe quem se deseja. As partes pudendas têm esse terrível mau-feitio de escolher por nós nessa matéria. O meu corpo reage com a autonomia que o caracteriza e a coisa só decorre com o funcionamento previsto e desenhado pelo Grande Arquitecto, se a outra parte agradar ao que quer que seja que é passível de ser agradado e que, garantidamente, não passa pela razão consciente da minha mente. Portanto, eu não escolho por quem sinto desejo.

E tendo o Criador feito o Homem à sua imagem e semelhança, custa-me a acreditar que não tenha feito a coisa bem feita. Na pluralidade de naturezas.

Carla de Elsinore disse...

deixa-os falar.