sábado, novembro 15, 2008

Bond Le Carré

Também eu, no natal de 2006, fui de pé atrás com o loiro — um preconceito como qualquer outro. E também eu me rendi à primeira cena. É o melhor desde Sean Connery, dizem, mas eu atrevo-me a dizer que é o melhor. Ponto. Não existiria sem Connery, a césar o que é de césar, mas com o tempo e o enraizamento do mito, soube arriscar o humano, a terra, a falha, a mossa. E fez crescer a persona para lá do seu requintado appeal de cartão. Já nem sabe bem o que bebe, é shaken e stirred e bloody como nunca foi, dá-se ao luxo de sentir, tem amplitude para o amor e para a raiva. Sem nunca deixar de ser James Bond. Continuamos a ter genéricos brutais, a música sinfonicamente na acção, o ruído e o vácuo súbito brilhantemente geridos, e três espectaculares perseguições na primeira meia-hora, mas quem paga este bilhete também paga a montanha-russa, ou não sabe ao que vai. E a história, como Bond, vai acordando do seu sonho a preto e branco, e desde a mortal caricatura do agente americano até ao admirável Matthis de Giancarlo Giannini, o bem e o mal, ainda e sempre presentes, tornam-se mais pardos. É da idade, como diz Giannini, Bond está velho, felizmente. E a intriga pode dar-se ao luxo de fantasiar sobre o mundo real, trazendo à frente a carga política e amoral da espionagem. Aliás, o argumento tem o dedo do senhor Paul Haggis, e nota-se. Belo terminar de semana, é o que tenho a dizer.



E apeteceu-me rever esta primeira perseguição do Bond-em-forma-de-Craig, onde o herói se apresenta competindo no terreno do Parkour com um campeão que, qual espelho invertido, reflecte as suas limitações, as suas incapacidades, a sua deselegância, a sua sujidade. Bond lives. At last.

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