segunda-feira, março 24, 2008

calçada


Almirante Reis, Lisboa, Março de 2008


Pedra a pedra, uma duas cinquenta e três noventa e uma, desta vez passei as cem antes que o tacão se prendesse numa falha da calçada e me desfiasse a elegância pelo caminhar abaixo. Aquele gajo continua no mesmo sítio, há três dias que o vejo deitado no mesmo intervalo, pacote de vinho branco em cima da manta imunda, as mãos em riste e a voz afiada contra o vazio. Nem reparou que nestes três dias passei por ele repetidamente e o olhei, ele só vê o vazio, no meu vazio ainda o consigo ver a ele. Anda uma rapariga desde os doze anos a aprender a equilibrar-se nestas merdas e depois qualquer buraco lhe rouba a panache, nem o top de lantejoulas me salva. Cento e treze e pumba, o tornozelo torcido e a dignidade esmagada. Li não sei onde que os saltos são uma afirmação do poder feminino. Ficamos mais altas, e mais instáveis, mais perto do céu uns míseros centímetros, mais distantes do chão os mesmos longuíssimos imensos perígosíssimos mílimetros. Tenho um metro e sessenta e nove, ainda não tenho trinta anos, não me sinto maior, mas doem-me as pernas. Os perigos destas ruas são-no pouco para mim, não os temo por dez centímetros menos. Os outros, os que me assustam mesmo, os que sei que não posso enfrentar, não se intimidam com um tacão. Rosnam. Grunhem. E na avenida plana como a savana, só me resta correr e os saltos são empecilhos, como hastes de gamo na floresta. O bêbado ressona sob a sua manta de vinha d'alhos. Preciso do chão, preciso de estar pronta a correr. O meu poder é poder fugir.

2 comentários:

K. disse...

O vazio das avenidas...

hugo disse...

é.me obrigatória a visita a ese senhor. suspenso, na falta de melhor coisa a dizer a quem orbita em torno de um objectivo, de vários quotidianos, de movimentos que de tão regulares já são alheios. não sei se lamente isso, ou reconecê.lo aqui.