quarta-feira, maio 31, 2006

And the monkeys don't want to be monkeys, they want to be something else. But they're not.




Graças à Violeta, fui encontrar este vídeo maravilhoso, que resume tudo o que penso sobre nós. Certeiro. Claro. A pena de Beaumarchais pôs na boca do jardineiro do Conde Almaviva uma frase que sempre achei demasiado sábia para ser apenas produto da bebedeira: Beber sem ter sede e fazer amor todo o ano são as únicas coisas que distinguem os homens dos outros animais. Agora complementa-se, no meu melancólico espírito, com a lapidar constatação de Ernest Cline: Most monkeys hate each other. This is really what separates them from the other animals. These monkeys hate.

terça-feira, maio 30, 2006

40 anos que passam sobre coisas que teimam em não passar

Recebi esta pérola por e-mail. Não sei de onde vem [embora tenha encontrado uma pista AQUI], sei que me tocou e por isso a partilho aqui. Quino é o cartoonista mais sensível e inteligente que conheço, e esta carta faz-lhe jus. A Quino, a Mafalda e ao mundo em que vivemos.



CARTA DE MIGUELITO A MAFALDA

Lo que le escribió Miguelito a Mafalda despues de tantos años....


Querida Mafalda:

en este día tan especial me acordé de tu cumpleaños...¡ cómo pasa el tiempo! Nacimos en el corazón de un país que soñaba. ¡ cúantas utopías!
¡ cuántos deseos de crecer, de mejorar las cosas !
Nos tocó convivir con un tiempo de hombres creativos: Luther King,Che Guevara, Juan XXIII, John Kennedy;
nos tranmitieron el sentido de la justicia, el valor de los sentimientos,la maravillosa aventura de pensar con la propia cabeza....



Ayer me preguntaba por nuestra amiga Libertad, aquella pequeñita que un día encontraste en una playa, no me acuerdo si era Santa Teresita o Mar de Tuyu, me acuerdo todavía cuando la presentaste a tus padres....Era vivaracha y quemadita por el sol de febrero.

¿ dónde vive Libertad? ¿ es verdad que la mataron durante la dictadura? Dicen que la torturaron y su cuerpo despareció en el Río de la Plata.....

Me cuesta pensar que se murieron sus sueños. ¿ y si vive ? ¿estará filosofando sobre la fragilidad de las cosas y el sentido de la vida?



¿ Qué fue de Susanita? ¿ se casó?
¿ Pudo realizar su vocación de ser madre?
La imagino viviendo en alguna ciudad de provincia, paseando del brazo del marido (un hombre bajo y calvo) en una tarde de verano, contenta con sus hijos y cuidando el primer nieto, realizada como tantas comunes mujeres...



Supe de Manolito,que perdió sus ahorros durante el corralito y no soportó tanta crisis. Los últimos días lo vieron cabizbajo, nurmurando palabras incoherentes, abandonado como un mendigo en una estación de trenes, triste y abatido como tantos........



Sé que Felipe vive en La Habana, que probó con el cine, que tiene un taxi y habla a los turistas de Fidel y de la Revolución con el mismo entusiasmo que cuando vivía en Buenos Aires....



A Guille, tu hermano, lo escuché tocar, hace poco,en la Scala de Milán. Vive en Ginebra, nunca se arrepiente de haber emigrado en los últimos años de Alfonsín,me contó que es feliz con su nueva pareja.....


Y vos, querida amiga, ¿cómo estás? Hace tanto tiempo que no tengo noticias tuyas. Sé,por otros que sigues escuchando la radio, que lees los diarios del mundo, que te duele el Irak como te dolía Vietnam, sé que trabajas para la FAO por los pueblos del hambre, que estás indignada por la prepotencia de Bush.
Me llegó tu pedido de juntar medicinas para los Médicos sin Fronteras, sé que siguen las reuniones en tu casa de París,que estás confundida, inquieta y preocupada por el futuro del mundo.....

En fin, Mafalda, sé lo suficiente como para saber que seguís viva, viva en el alma, niña como siempre...




De parte mía sigo escribiendo siempre, renegando porque me falta tiempo; creyendo como siempre, en el valor de la sinceridad, perdiendo oportunidades por manifestar mis ideas. Algunos días estoy triste y deprimido, pero puede siempre más la alegría que la tristeza...

El mundo no mejoró mucho desde la época en que vivíamos juntos en nuestra patria. A veces, cundo miro el globo terráqueo, encuentro tu mirada, pienso en todos aquellos que lo miran como vos, en los ojos de los que protestan, de los que no se conforman, y de los que viven en la atmósfera del optimismo y de la justicia....

Esos ojos, junto a los míos, te desean un buen día, querida amiga, por otros cuarenta años tan intensos y jóvenes como los que has vivido.

Un beso grande de tu amigo que te quiere como siempre.

MIGUELITO


Adenda: com a ajuda da Truta Rodrigues e do Esteban, cheguei AQUI; o autor desta belíssima carta chama-se Daniel Balditarra e eu agradeço-lhe do fundo do coração cada lágrima agri-doce.

segunda-feira, maio 29, 2006

Mas afinal, o que é que faz falta?

Quando a corja topa da janela
O que faz falta
Quando o pão que comes sabe a merda
O que faz falta

O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta

Quando nunca a noite foi dormida
O que faz falta
Quando a raiva nunca foi vencida
O que faz falta

O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é acordar a malta
O que faz falta

Quando nunca a infância teve infância
O que faz falta
Quando sabes que vai haver dança
O que faz falta

O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta

Quando um cão te morde a canela
O que faz falta
Quando a esquina há sempre uma cabeça
O que faz falta

O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta

Quando um homem dorme na valeta
O que faz falta
Quando dizem que isto é tudo treta
O que faz falta

O que faz falta é agitar a malta
O que faz falta
O que faz falta é libertar a malta
O que faz falta

Se o patrão não vai com duas loas
O que faz falta
Se o fascista conspira na sombra
O que faz falta

O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é dar poder a malta
O que faz falta


José Afonso
Cuidado, eles andam aí...


Cartoon de Jackie Fleming, visto n'O Feminismo...

sexta-feira, maio 26, 2006

Ser adulto, o que é?

Porque afinal, não há maioridade mais autêntica do que aquela que assume a vida com a simplicidade da infância.


Não podia concordar mais com a Ana. Não há nada mais infantilóide que os estéreis jogos dos adultos.

Um blog a descobrir, dia após dia...
Escamas de truta, corpo e alma de mulher


Truta Azul
Fotografia de Rodrigues


Sabes que bem te compreendo, por razões de "dimensão" diferente, mas compreendo-te. A facilidade com que as pessoas [des]apreciam as particularidades físicas umas das outras é das características mais repulsivas do ser humano. Se eu emagrecesse ao ritmo a que, com ar compungido, me dizem que "mas tu comes? estás cada vez mais magrinha" [o "inho" aqui é de uma importância lapidar, claro], já estava a trabalhar como recepcionista na Capela dos Ossos. Mas tooooda a gente a quem eu não dou confiança acha que tem confiança para fazer apreciações do género. Uma vez respondi na mesma moeda ["Pois, tenho perdido peso, mas já percebi que foste tu quem o encontrou"], e a pessoa em questão telefonou-me no dia seguinte a pedir desculpa, porque realmente era uma falta de educação fazer apreciações daquele género. Desde então é assim que respondo a toda a gente. Se podem apreciar o meu baixo peso [claro, fecha-se a boca face à condição física propriamente dita, aos gémeos e abdominais definidos, eheheh, à capacidade de resistência, etc, que isso não dá jeito nenhum para rebaixar uma pessoa], dizia, se me podem apreciar nesses termos eu também posso apreciar o desleixo, as barrigas, as gorduras. E olha que resulta. Por vezes não há como provar do próprio veneno e perceber que gordos, magros, pretos, amarelos, de pele limpa, com sardas ou com psoríase, somos iguais e sentimos igual. Em forma, é simples falta de educação. Em conteúdo, é falta de humanidade e de consciência. "Olhem para mim como sendo uma pessoa", dizes tu. É realmente nessa fronteira que toda a gente se perde. E não é preciso ter menos um braço ou andar de cadeira de rodas para se sentir isso. A coisificação do outro é um recurso constante das mentes mais pequenas.

Mas olha lá, tu tens psoríase?! E eu que sempre pensei que fossem os vestígios das escamas de truta, caramba. Vou ter de rever a maneira como te olho...

E sabes, é que para além da transparência e da psoríase, és linda de morrer, inteligente, divertida, talentosa, generosa. É natural que haja pessoas que quando olham para ti façam questão de ver apenas a vermelhidão nos braços. Sentem-se melhor na sua mediocridade. E é só isso, a atitude mesquinha mais velha deste mundo humano, o indicador apontado. Oh, come on, let´s see some stoning!

terça-feira, maio 23, 2006

Marca



Quero ficar no teu corpo feito tatuagem
Que é pra te dar coragem pra seguir viagem
Quando a noite vem

E também pra me perpetuar em tua escrava
Que você pega, esfrega, nega, mas não lava
Quero brincar no teu corpo feito bailarina
Que logo se alucina, salta e te ilumina
Quando a noite vem

E nos músculos exaustos do teu braço
Repousar frouxa, murcha, farta, morta de cansaço
Quero pesar feito cruz nas tuas costas
Que te retalha em postas mas no fundo gostas
Quando a noite vem

Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva
Marcada a frio, ferro e fogo
Em carne viva
Corações de mãe, arpões
Sereias e serpentes
Que te rabiscam o corpo todo
Mas não sentes


Chico Buarque e Ruy Guerra


23 de Maio de 2006
Fotografias - e pé - de Manel

segunda-feira, maio 22, 2006

Quem és tu? O que fazes aqui?



Sérgio Tréfaut agarrou numa câmara e percorreu a cidade paralela que vive no estrangeiro. Com a sua câmara, Sérgio produziu um olhar singular sobre essa(s) cidade(s) no coração de Lisboa, não uma peça jornalística, mas uma clara, aberta e inteligente visão sobre gente, lugares, presença e ausência, nuvens e raízes. Lisboetas é um precioso documentário sobre o mundo que desaguou em Lisboa na última década, e que vive as origens e o desenraízamento, a saudade e a esperança, os bloqueios burocráticos e o sol, o todo o mundo e o nenhures que passam a defini-los na sua condição de imigrantes.

O filme constrói-se com respiração pausada, com tempo para olhar - e integrar que, como já se disse a propósito, ali os estrangeiros somos nós. As mais diversas comunidades, desde os tão presentes brasileiros aos discretos sikhs, do ex-soviético, ou seja, ucraniano, russo, lituano, moldavo e tudo o mais, ao paquistanês que à beira-rio assegura que Paquistão ou Marrocos, é tudo a mesma coisa. As cenas instalam-se e revelam-se calmamente, complementando-se num fresco. O SEF, burocrático e frio, onde os olhares perdidos se multiplicam, como que de crianças pequenas ouvindo o palavrear ininteligível dos adultos, face a funcionários que teimam em ignorar as, por vezes graves, dificuldades na compreensão do português, ainda mais o burocrático; a imigrante de leste que louva ao telefone a vida que conseguiu em Portugal, enquanto deplora o estado da educação, "muito fraca, um verdadeiro problema..."; a enfermeira dos Médicos do Mundo que pergunta ao ucraniano "Há quanto tempo está em Angola?"; o indiano que envia todo o dinheiro para a família, que é ignorado em peso pelas esplanadas das Portas de Santo Antão, oferecendo as suas rosas a cada uma das mesas excepto àquela onde está um casal de homens; o destino do imigrante nigeriano, sempre a trabalhar por mais sete anos e sempre perdendo a sua prometida Raquel, louvado seja o sEnhor; a aula de português onde se conjugam verbos de praticidade imediata, eu fui aldrabado, a minha mulher foi aldrabada, os portugueses são aldrabados, e às vezes aldrabões. Um não acabar de vida difícil mas bela alagando o écran. Uma longa cena, a meio do filme, pontua a epopeia poética em movimento, uma loira e imigrante mãe, no banco da cauda do eléctrico, com o seu bebé adormecido nos braços, o rosto parecendo querer esconder uma felicidade que é só dela e que naquele momento se revela à criança portuguesa que a encara e sorri, o longo silêncio abraçando a sala de cinema naquela viagem e naquele regaço, um longo e parado plano, e pur, si muove, movimenta-se de tanta vida que ali vai sobre os carris.

Lisboetas é um filme que nos convida a entrar no mundo, ainda que o mundo já esteja cá dentro. Quem sou eu, mãe?; -Saberás a resposta quando regressares a casa.

domingo, maio 21, 2006

De ouro



Os globos de teatro deste ano até parece que foram decididos por gente que percebe do assunto... A grande Luísa Cruz, João Grosso e Fernanda Lapa são os premiados, e valem bem mais que os prémios... mas é de celebrar, caramba!
O que eu gosto de gente boa que não se cala!

"Espero que este espectáculo [os globos da sic] seja a prova de que se pode reabrir um espaço cultural como este sem usar a violência contra os animais."[Heitor Lourenço, há pouco, à entrada patetico-hollywoodesca do Campo Pequeno, citado de memória-curta]

Nestes ares lamacentos em que somos todos portugueses toureiros e fadistas a caminho de Fátima, não tem preço a voz das poucas caras do sistema com uns dedos de testa e sentido de responsabilidade. Grande Heitor!
Aforismo rodoviário atrás de um autocarro no meio da rua

Um condutor cívico até de marcha atrás numa rua de sentido único pára na passadeira.

sábado, maio 20, 2006

Eu


materiais de desenho made in South Park
autoria da obra: Truta Laranja


Sempre de boca aberta, como um convite. Ou entra mosca...
E pronto, lá fizeram "a mais bela bandeira", dizem eles...

Juntaram as madrinhas todas, perdão, as mulheres que não jogam futebol, e lá foram todos contentes apoiar os homens que vão para a guerra, perdão, para o campeonato. Dir-se-ia que são todos os homens do país que vão jogar, única razão que me parece plausível para fazer uma bandeira só de garinas. Apoiemos os nossos homens com uma mão enquanto puxamos a malha das meias com a outra. Mantenhamos a boca aberta e as pernas fechadas enquanto eles andam em campanha pela pátria a dar cabo do canastro aos pretos, aos brasileiros, aos alemães, aos franceses, porque são os maiores, carago, os nossos homens. Mulher na retaguarda, mulher na televisão, mulher contentinha, olé!

Não contei as senhoras.

sexta-feira, maio 19, 2006

Sui generis

Há coisa de um ano o Chefe Hélio Loureiro preparou um jantar de imprensa para apresentação do espectáculo Ubu(s), de cujo [maravilhoso] elenco fiz parte. A partir das especialidades servidas por Dona Ubu na segunda cena da peça, foi engraçado ver desfilar pelas mesas do Hotel Porto Palácio uma ementa que constava, entre outras iguarias, de costeletas de murgalho, paté de cão ou couve-flor com merdra. Ora, este ano fomos todos convidados para voltar ao Porto Palácio para o lançamento de dois livros de cozinha do Chefe Loureiro: "Coração Saudável" e "Crianças e Jovens". O que imaginávamos ser um convívio-banquete em que íamos comer à fartazana revelou-se, afinal, uma conferência com os palradores no palco e o público sentado. Até aqui, tudo bem, uma seca, mas tudo normal. A coisa toma contornos patéticos quando começa a falar a senhora Beatriz Pacheco Pereira, que começa por afiançar que não viu os livros senão no momento em que chegou à apresentação, para depois falar na "publicidade que nos obriga a comer mal" e noutra grande razão para a má dieta dos portugueses: as mulheres que deixaram de cozinhar. Digo eu, ainda bem que não havia petiscos, ainda me saía algum acepipe pela boca fora, o que não seria bonito de se ver num hotel com tanta classe. A senhora não se desviou do caminho nem um milímetro: o livro "para as criancinhas" era, naturalmente, direccionado para as mães [mulheres à cozinha, harmonia bonitinha!]- desgraçados dos que vivem só com o pai, que morrem à fome ou de enfartamento de telepizza. E, como cereja no topo do bolo, a dita senhora confessa-nos que é uma cozinheira sui generis: é uma cozinheira que não gosta de cozinhar. Mais precisamente, e isto nas suas próprias palavras, é uma cozinheira que não cozinha. Assim uma espécie de pescador que em vez de cana tem carabina e anda às perdizes e não ao robalo. A senhora tem coragem, pensei eu, ao assumir que não é uma mulher como deve ser, já que não cozinha.

Mas depois lembrei-me da Susaninha e do Quino... é que uma coisa é ser mulher, outra coisa é ser senhora.

terça-feira, maio 16, 2006

As mãos


Paula Rego, Nursery Rhymes
Rock-a-bye, Baby
, 1994


Em Lisboa, sem carro, que ficou no Porto em descanso do trânsito da Constituição. Ensaio em Alcântara e eu de volta ao novo velho 56 que há onze anos me levava à faculdade ainda antes do sol nascer. Para quem vive nos prédios que substituíram o barracame do Casal Ventoso, o 56 é o transporte local, de casa para a tasca ou para o supermercado. No banco à minha frente sentam-se uma avó e um neto. A avó tem, à primeira vista, um aspecto quase grotesco, os dentes tortos e afastados, as feições grosseiras, o corpo descuidado, as mãos inchadas. O neto é, enquanto acabo a chamada para o meu desterrado intoxicado [onde é que já se viu, digerir mal o sushi?!...], apenas um reguila de boné que fala demasiado alto. Desligo. A conversa vai animada. Lápis de cor, papéis e borrachas, o delicioso mundo da papelaria infantil que me enchia de brilho os olhos quando tinha aquela idade. O puto afinal é giro que se farta, inteligente, encara os adultos, inquiridor, fala que se desunha e observa constantemente tudo o que o rodeia. A avó dá-lhe uma palmadinha na mão quando ele mete o dedo no nariz, Tira a mão daí, já te disse, porque é que estás com o dedo no nariz? Porque estou a tirar um macaco, anuncia o petiz, alto e bom som, com tom de quem acha a pergunta ridícula e a resposta óbvia. Enquanto procura na mala os lenços de papel, a avó estala numa gargalhada luminosa que lhe enche o rosto da beleza feliz do amor, e logo o transforma, num ápice. E um feio boneco de uma fraca revista dá lugar a uma deslumbrante gravura de Paula Rego. Limpa-lhe o nariz, sempre com o rosto claro de riso, e logo os braços se sobrepõem, na sua maravilhosa desproporção, e os dedos se entrelaçam, naturalmente, sem um olhar, sem uma hesitação. Mão de avó e mão de neto, naquele autocarro aquelas duas jovens mãos sapudas marcaram a raios de sol a minha tarde de quase verão.
And now for something completeley different...


Truta Vermelha e Truta Azul
Fotografia de Truta Laranja


... or not. Novamente através do Renas, tomei conhecimento do portal do Centro de Asesoramento Afectivo-Sexual para a mocidade, da Xunta de Galicia. Digamos que este é um post informativo: a forma clara e liberta de preconceitos com que se encara aqui a sexualidade dos que supostamente não deviam ter sexualidade [estou a falar da perspectiva do socialismo português, essa nova escola que consegue misturar um punho erguido com uma lei discriminatória e anti-constitucional para a procriação médica assistida e que não há maneira de instituir uma educação sexual decente nas escolas], a forma com que se responde às mais diversas questões da líbido e do corpo que as crianças e os adolescentes põem é absolutamente exemplar. O Quérote é um portal do seu tempo, sem merdas, sem preconceitos, sem agressões, sem tentativas de lavagem ao cérebro.

Para o bem deles - porque é nesse sentido que nós, os adultos, dizemos sempre que actuamos, não é? -, para que possam começar viver a sua sexualidade livre e saudavelmente, como nós deveríamos ter feito, divulguem entre conhecidos e desconhecidos, amigos e inimigos. E, como tão bem diz o Boss, para uma geração que inventou o SMSês, o galego não vai ser, com certeza, problema.
Prioridades

E uma manif. contra o La Féria, não se arranja? Salva os entretidos dos entertainers, podia ser o slogan.
O delicioso cheiro a estrume

Por favor, não confundam cheiro a estrume com cheiro a merda. Este título não é, de todo, irónico. Na verdade, a única coisa boa desta re-inauguração da abjecta arena é o cheiro a picadeiro que se sente no ar. O estrume deixa um odor franco a terra e animais, e é maravilhoso senti-lo na cidade, precisamente para desenjoar do cheiro a merda que vem do imparável e badalhoco trânsito. Se me esquecer da razão porque estão aqui os cavalos, este cheiro quase compensa a berraria da Romana e da charanga que a acompanha sob os guarda-sóis. E o povinho olha, olha olha olha olha olha olha olha... e cheira, cheira cheira.......
Manif: 18 de Maio : 20h : Praça de Touros do Campo Pequeno, Lisboa

Junte-se à ANIMAL, à PETA, à Animal Defenders International, à League Against Cruel Sports e ao Comité Anti-Touradas da Holanda e venha exigir um "Campo Pequeno Sem Touradas"



visto no Renas

Bem a propósito. Eu lá estarei. Levo farnel de casa e tenciono fazer cara feia. Há-de ser sempre mais bonita que os esgares de quem se deleita com o abjecto sofrimento de um animal.

segunda-feira, maio 15, 2006

Em casa

Estão duas vacas pintadas no meio da avenida. Sorrio com relativo espanto, ao vê-las... às vezes até me esqueço de que vivo no centro da cidade. Os autóctones e os turistas olham-nas, atentamente ou de relance, fotografam-nas. Um típico indígena de barriga e bigode, bufa desdenhoso, isto lá tem algum jeito, sempre olhando em redor a confirmar que a iluminada mensagem chega a alguém. Mais gente pensou como ele... numa honesta manifestação dos tempos que correm, alguém já vandalizou - em menos de 12 horas de exposição - uma das vacas expostas mais lá abaixo, nos Restauradores. Que orgulho na nossa gente, pá! Ao fundo, o pessoal junta-se em redor da renovada praça e olha, olha olha olha olha, está cheio de artistas do La Féria, pode ser que se consiga ver a Anabela, ou o Quintas, o Joel Branco, o Tó Leal, não é o papa mas é o que se arranja, olha olha olha, melhor estariam aqui as vacas, pelo meio do não-renovado jardim ainda arranjavam qualquer coisita para pastar. E o meu paradoxo-bairro tão citadino e tão sossegado, vai ter o verão chagado, já se vê, pelos roufenhos altifalantes das carrinhas de promoção do desporporcionado talho, anunciando as gloriosas corridas que aí vêm, os heróis da arena, sem os quais nem se saberia já o que é ser português. Que desperdício de edifício... Até agora só os nomes dos cafés aqui em volta [Arena, Sol ou Sombra, coisas assim...] me lembravam que vivia perto de um altar sacrificial à barbárie humana. Agora vai entrar-me pelos ouvidos o verão todo. Bonito...

Mesmo assim, ando doida por voltar para casa. E isto é que é ser português. Gostar de sofrer, não de fazer sofrer. Vejam lá se aprendem e se começam mas é a cantar melhor o fado e a espetar as bandarilhas noutro sítio qualquer, tipo...

sábado, maio 13, 2006

Este mundo está perdido, meus senhores, pois se quem manda perdeu a inteligência...[ou antes, nunca a teve...]

Que el mundo fue y será una porquería, ya lo sé,
en el quinientos seis y en el dos mil también;
que siempre ha habido chorros,
maquiávelos y estafáos,
contentos y amargaos, valores y dublé.
Pero que el siglo veinte es un despliegue
de maldá insolente ya no hay quien lo niegue,
vivimos revolcaos en un merengue
y en el mismo lodo todos manoseaos.

Hoy resulta que es lo mismo ser derecho que traidor,
ignorante, sabio, chorro, generoso, estafador.
¡Todo es igual, nada es mejor,
lo mismo un burro que un gran profesor!
No hay aplazaos ni escalafón,
los inmorales nos han igualao...
Si uno vive en la impostura
y otro afana en su ambición,
da lo mismo que sea cura,
colchonero, rey de bastos,
caradura o polizón.

¡Qué falta de respeto, qué atropello a la razón!
¡Cualquiera es un señor, cualquiera es un ladrón!
Mezclaos con Stavisky van don Bosco y la Mignon,
don Chicho y Napoleón, Carnera y San Martín.
Igual que en la vidriera irrespetuosa
de los cambalaches se ha mezclao la vida,
y herida por un sable sin remache
ves llorar la Biblia contra un calefón.

Siglo veinte, cambalache, problemático y febril,
el que no llora no mama y el que no afana es un gil.
¡Dale nomás, dale que va,
que allá en el horno te vamo a encontrar!
¡No pienses más, tirate a un lao,
que a nadie importa si naciste honrao!
Si es lo mismo el que labura
noche y día como un buey
que el que vive de las minas,
que el que mata o el que cura
o está fuera de la ley.


Letra e música: Enrique Santos Discepolo

sexta-feira, maio 12, 2006

Variações sobre um Actor



Que poderia eu escrever sobre a pérola de divertimento, inteligência e sensibilidade [apesar das aparências, a ordem é arbitrária] que António Durães e Luís Pipa apresentam no Salão-tão-mais-ou-menos-Nobre? Muita e parca coisa. Não que haja pouco para dizer, mas porque está tudo na voz e no rosto do António. Alguém que consegue fazer-me rir e chorar ao mesmo tempo não merece que eu desate para aqui a tagarelar, senão o meu mais agradecido silêncio. Mais cinco noites alucinantes, hilariantes, tocantes. Come a Joana, Manel, come a Joana, Manel...

Variações Sobre a Perversão
[Teatro Nacional de São João][11-13 Maio | 24:00] [18-20 Maio | 22:00]

Entre outras provocações, Arrigo Barnabé defende entusiasticamente a democratização do “Orgasmo Total”, Georges Brassens rima “pornographe” com “phonographe”, os Dead Kennedys estão simplesmente “Too Drunk to Fuck” e as virtualidades do “Amour à 3” são sublinhadas pelos Stereo Total. Mas há mais: o cravo bem temperado de Bach preludia “Taras e Manias” de Marco Paulo, Serge Gainsbourg dança “La Décadanse” e descobre afinidades insuspeitas com a música de Ludwig van Beethoven, Emanuel desvenda a ternura encerrada na fórmula mágica “Pimba Pimba” e António Durães transforma a candura dos clássicos infantis “Olha a Bola Manel” e “Joana Come a Papa”, de José Barata Moura, num manifesto de canibalismo sexual para maiores de 18 anos.
Pode um superlativo e respeitável actor juntar-se a um músico de formação clássica e entregarem-se ambos à transgressiva arte de desarranjar ao vivo um lote de canções perversas, picantes ou até mesmo indecentes? Pode o internacional-cançonetismo conviver de perto, sem se corromper, com a música de veneráveis compositores? Sim, claro, responde o recital Variações sobre a Perversão. E acrescenta: esqueçam os tabus (musicais, sexuais, outros), desliguem os telemóveis, relativizem a luta antitabágica e desconfiem dos “bífidus activos”…

direcção cénica, selecção de repertório, voz >> António Durães
direcção musical, piano >> Luís Pipa
Carta ao amigo

Quando partiste pela primeira vez deixaste-me amor e saudade no coração. Lembro-me que te disse que com a tua ausência percebera que não me fazias falta nenhuma, nem sequer para as caracoladas ou para as idas ao teatro, nem para as conversas que não se consegue ter com toda a gente. Por isso me era tão saborosa a falta que me fazias, a saudade que se alimentava com um sorriso e não com uma lágrima - embora algumas doces lágrimas já tivéssemos provocado um ao outro. Irmãos de alma, escreveras um dia, num aniversário ribeirinho. Irmão na alma, no lado luminoso da alma, me ficaste.
Vivêmo-nos sempre por etapas, parece-me agora, por jornadas que têm um começo e um fim e um recomeço, por sonhos intercomunicantes. Agora longe, agora perto, sempre por certo trazia comigo esse amor especial que nos unia, essa confiança inexplicável de, mesmo no escuro, compreender intimamente o outro. De confiar. Ao perto ou ao longe, a minha confiança em nós foi sempre bifocal. A minha confiança em ti foi sempre nítida e sem defesas. Respeitava-te os mistérios e nunca qualquer deles abalou aquele fio invisível no qual os nossos corações se cruzavam em percurso de equilíbrio. E nos momentos certos, um braço esticado de repente podia evitar uma queda. Sabíamo-lo, então.
Não sei quando o esquecemos, não me perguntes. Dia após dia, aqui um elo solto, ali um puído. E quando varas insuspeitas vieram abanar maliciosamente o meu arame, tu estavas de costas, distraído com as manobras de diversão - o trabalho de equipa tem vantagens preciosas, como esta perversa capacidade de se desdobrar, sempre partilhando as auréolas compradas na loja dos trezentos. Apesar disso, não caí. Outros braços me seguraram, me reconheceram, me abraçaram. É a vida. Não foi a primeira vez que estiveste de costas, como eu devo ter estado tantas vezes. Mas foi a primeira vez que me doeu.
Não me dói, amigo, a tua distracção. E não penses, amigo, que espero ou desejo que haja lados a tomar, pessoas a abandonar, cobranças a fazer. Mas tu, amigo, escolheste claramente um lado. Não me quiseste sentir, não sabes de nada senão do que outros te encheram, não me deste nunca o benefício da dúvida, embora a dúvida estivesse sempre à tua frente, à espera que desses por ela. E por mais que, crendo-te amigo, penses que ajudas dando recados indirectos, não fazes mais que afundar e refundar a tua injustiça. A tua falta de fé em mim. Desses-me tu perguntas em vez de recados e as tuas costas no arame ser-me-iam indiferentes. Quisesses tu sentir-me em vez de julgar-me, e o meu amor manter-se-ia constante. Mas tu fizeste a tua escolha. E eu, para meu bem, para nosso bem, tenho de fazer a minha.
Hoje partiste pela última vez. Adeus, amigo. Encontramo-nos no ensaio.

quarta-feira, maio 10, 2006

Libertango

Na esplanada da Confeitaria da Batalha, oiço tango e leio o Caminho para a Libertação. Não sei que efeitos secundários esperar a longo prazo da exótica e espiritual combinação. Para já, sou budista, o meu dharma é o Tango, Roberto Goyeneche o meu buda, minha sangha a minha outra-mesma-maría. Y a un balcón oloroso a mi voz pongale dos lutitos de hollín...
De quem são estas lágrimas, María, minhas ou tuas, tuas ou minhas? Se nos meus olhos correm, minhas seriam, mas tão familiares e outras me parecem ao romper, ao descer pelas faces. Tão outras e tuas me parecem ao romper.

De quem são estas vozes, María, que o bandoneón nos mesclará na garganta, minha ou tua, tua e minha, María? E este prazer luminoso que deixamos de lastro na branca sala, e cá dentro, nos nossos salões privados, são dois ou é um ou é simplesmente um mais um... mais um?

É nosso, María. E de quem nele se quiser perder. Ou encontrar, mesmo que o encontro seja fugaz. Em que crês tu, María? Espera, não digas, eu sei, como eu, acreditas. No teatro e na vida. Acreditas. Que vida boa, María...!

terça-feira, maio 09, 2006

No eixo Porto-Buenos Aires

Quando há arte para fazer e corações para partilhar, qualquer corredor nos serve, qualquer teste de inglês nos dá ambiente. Qualquer beijo bom de despedida nos enche a alma e nos cola um sorriso no rosto ao pensar, "voltamos amanhã"...
10 minutos

E eis a razão para hoje comprar alternadamente os Notícias, o Diário e o Jornal. O pasquim fascizóide Público já fez jornalismo, e do bom. Mas isso eram outros tempos, outros senhores, outros directores, outros brios profissionais [também conhecidos por vergonha na cara]. O Público morreu. Deixei de o comprar, para fazer honra à sua memória.
Não fora o Homem um animal tão estúpido e perigoso, e certamente pintaria um "A" em todas as paredes.

Roma, Outubro de 2005
Fotografia de Manel


ANSWER TO A SONNET ENDING THUS:
Dark eyes are dearer far
Than orbs that mock the hyacinthine bell -

J.H.Reynolds


Blue! 'Tis the life of heaven, the domain
Of Cynthia, the wide palace of the sun,
The tent of Hesperus, and all his train,
The bosomer of clouds, gold, grey and dun.
Blue! 'Tis the life of waters - Ocean
And all its vassal streams, pools numberless,
May rage, and foam, and fret, but never can
Subside, if not to dark blue nativeness.
Blue! Gentle cousin to the forest-green,
Married to green in all the sweetest flowers -
Forget-me-not, the blue-bell, and, that queen
Of secrecy, the violet. What strange powers
Hast thou, as a mere shadow! But how great,
When in an eye thou art, alive with fate!


John Keats
Blue!

Foi Keats, como poderia ter sido qualquer outro jogral de palavras. É azul porque se impôs azul, não só pelo título, será porventura do momento, ou talvez porque é a côr d@s moren@s, e das águas que se movem e se agitam e se acalmam, do meio aquático em que tudo nasce e da escuridão sideral em que tudo se perde. De qualquer modo, e após três anos de respiração conjunta, venha o ar do azul-água ou do azul-céu, abri mais este pulmão com que me apetece recomeçar, redemoinhar, re-azular. E agrada-me que se chame em inglês, se apresente em argentino e comece a falar em português. Como o cérebro e como o espírito, este espaço tem espaço para muitas tonalidades de azul, mas pouca paciência para fronteiras.

Sejam bem-vind@s. Segue a conveniente explicação para o título.