sexta-feira, maio 19, 2006

Sui generis

Há coisa de um ano o Chefe Hélio Loureiro preparou um jantar de imprensa para apresentação do espectáculo Ubu(s), de cujo [maravilhoso] elenco fiz parte. A partir das especialidades servidas por Dona Ubu na segunda cena da peça, foi engraçado ver desfilar pelas mesas do Hotel Porto Palácio uma ementa que constava, entre outras iguarias, de costeletas de murgalho, paté de cão ou couve-flor com merdra. Ora, este ano fomos todos convidados para voltar ao Porto Palácio para o lançamento de dois livros de cozinha do Chefe Loureiro: "Coração Saudável" e "Crianças e Jovens". O que imaginávamos ser um convívio-banquete em que íamos comer à fartazana revelou-se, afinal, uma conferência com os palradores no palco e o público sentado. Até aqui, tudo bem, uma seca, mas tudo normal. A coisa toma contornos patéticos quando começa a falar a senhora Beatriz Pacheco Pereira, que começa por afiançar que não viu os livros senão no momento em que chegou à apresentação, para depois falar na "publicidade que nos obriga a comer mal" e noutra grande razão para a má dieta dos portugueses: as mulheres que deixaram de cozinhar. Digo eu, ainda bem que não havia petiscos, ainda me saía algum acepipe pela boca fora, o que não seria bonito de se ver num hotel com tanta classe. A senhora não se desviou do caminho nem um milímetro: o livro "para as criancinhas" era, naturalmente, direccionado para as mães [mulheres à cozinha, harmonia bonitinha!]- desgraçados dos que vivem só com o pai, que morrem à fome ou de enfartamento de telepizza. E, como cereja no topo do bolo, a dita senhora confessa-nos que é uma cozinheira sui generis: é uma cozinheira que não gosta de cozinhar. Mais precisamente, e isto nas suas próprias palavras, é uma cozinheira que não cozinha. Assim uma espécie de pescador que em vez de cana tem carabina e anda às perdizes e não ao robalo. A senhora tem coragem, pensei eu, ao assumir que não é uma mulher como deve ser, já que não cozinha.

Mas depois lembrei-me da Susaninha e do Quino... é que uma coisa é ser mulher, outra coisa é ser senhora.

11 comentários:

Truta Azul disse...

Looool! Sim, senhor! De que me foste lembrar... Da Susaninha... Esse estandarte da virtude feminina...

E ninguém disse à senhora que esse dogma de pacotilha que veicula é fast-food sociológico?

Rodrigues disse...

Pois... lá senhora nunca gostei de ser, não.

Manel disse...

Boa, Azul!... A mulher foi ali falar de comida saudável, mas fartou-se de nos enfiar big macs pela goela abaixo! :lol:

katraponga disse...

:)

Surreal!

gui disse...

eheheh
gostei do final :)

Anónimo disse...

de cujo o ??

aroma a amora disse...

Então e os homens que gostam de cozinhar?!O que são?! Acidentes, aberrações da natureza, filhos de mães incompetentes que para sobreviver tiveram que aprender a cozinhar e que agora sofrem de stress pós-traumático cada vez que estrelam um ovo?! Por favor esclarece-me Manel que o meu gaijo hoje fez umas ameijôas á Bulhão Pato maravilhosas e agora não sei o que hei-de pensar!

Manel disse...

O teu gaijo só pode ter um trauma muito muito fundo... é que amêijoas?! À Bulhão Pato?! Não foi um bife com ovo a cavalo, de certeza? Ou uma pratada de massa com um molho pré-fabricado?!...

Tu vê lá isso. Eu se fosse a ele tentava era arranjar um psicólogo antes que seja tarde demais... ;):p:)))

Manel disse...

Quanto ao anónimo revisor literário, agradeço muito por ter apontado a gralha. Mas se quiser os seus posts publicados daqui para a frente é melhor arranjar outro nome, ok? É que a família anonymous é tão grande que eu baralho os irmãos todos. Ou serão primos?

Anónimo disse...

Muito teria gostado de ter oferecido um delicioso aperitivo antes ou depois do lançamento dos livros,pois é a cozinhar que eu me entendo melhor, recordo muto bem o jantar que mencionou e que me deu muito prazer em confecionar e sobretudo construir. ainda mais gostei da peça de teatro que fui ver e que achei fabulosa e com um guarda roupa fantastico.
quanto ás palvaras da Beatriz não posso dizer nada , quando se é amigo de alguém apenas somos e não gostamos de ouvir e ver alguém dizer mal, mas a Beatriz é uma pessoa doce e sensivel da qual eu gosto muito e por isso fico triste que tenha sido mal entendida.
O melhor de tudo foi o que tenha recordado esse jantar que também para mim foi memoravél. o que gostaria mesmo era de saber quem é pois se estava no lançamento dos meus livros deve ser alguém que conheço, mas acredite que fico contente que tenha lá estado ,mesmo que não tivesse a editora orçamento para dar uma cocktail com a dignidade que mereciam as pessoas que lá estavam.
Deixo o meu email para que se em caso quiser falar comigo o poder fazer: hloureiro@sonae.pt. Hélio Loureiro

Manel disse...

Caro Chefe Hélio, não nos conhecemos pessoalmente. Como escrevi no post, sou uma das quatro actrizes do elenco do Ubu(s), e por isso tive o privilégio de provar da sua arte naquele memorável jantar. E foi devido ao convite dirigido ao TNSJ que me vi no lançamento dos seus livros, e com todo o gosto. Não me interprete mal, também: as referências ao facto de não haver acepipes no lançamento dos livros não são, absolutamente, para levar a sério, apenas uma forma brincalhona de enquadrar minimamente "o filme" [e porque, realmente, toda a gente estava desejosa de experimentar as suas receitas logo ali]. Desejo todo o sucesso aos seus livros, e não duvido que tenham sido criados com o desvelo com que cria os seus pratos.

Quanto à senhora Pacheco Pereira, bom, eu não a conheço e reagi apenas ao que disse na apresentação. Compreendo que seja sua amiga, não tenho de me pronunciar sobre esse assunto. Agora, acho dificilmente poderia ter sido mais infeliz na sua apresentação. E ao basear-se em estereótipos contra os quais luto todos os dias, e ainda por cima tratando-se de uma mulher [aparentemente] culta e não de um qualquer macho latino, não poderia calar a estupefacção, a embirração e a tristeza que em mim despertou. E foi apenas por isso que este post nasceu.