domingo, fevereiro 10, 2008

as alegrias do consumo 2.0

E uma visita àquele maldito subterrâneo, com todos os seus defeitos, quase nunca se fica por um único departamento, aqui não há objectivo traçado que me valha. Mas na realidade, ainda bem. Para além de dois daqueles adoráveis paperback da Penguin ao preço da chuva, a que dificilmente resisto (Poe e Conrad a três euros, bardamerda mais as poupanças), veio no saco um mimo especial. Este:




A Oficina do Livro faz uma luminosa edição do mais belo amontoado de palavras que a literatura ocidental já produziu, um caldeirão de amor, humanidade, ritmo, beleza, clarividência (e mais uns mil qualificativos) como, digo eu, não há outro. A tradução, estreada no palco antes de editada, como convém às "duas horas comoventes, nas quais, onde ouvidos pacientes atentarem, só há faltas que os actores não emendarem" (é o costume, quem se lixa é sempre o mexilhão), bom, a tradução, dizia eu, é de Fernando Villas-Boas, e é um trabalho que fala por si, como Julieta o faz:

Apressai o galope, cavalos de cascos de fogo,
De volta à casa de Febo. Fosse antes vosso cocheiro
Faetonte, havia de açoitar-vos mais rumo a oeste
E trar-me-ia a noite e suas nuvens de imediato.
Estende tua fechada cortina, noite fazedora de amores,
Que os olhos do fugitivo tremam, e Romeu
Caia nestes braços de que ninguém fala, nem vê!
Ou os amantes tratam de seus ritos amorosos
Usando de suas beldades, ou, se o amor é cego,
Melhor concorda com a noite. Vem, noite grave,
Matrona sobriamente vestida de negro,
E ensina-me a perder num jogo que já está ganho,
Jogado por um par de inocências sem mancha.
Acalma o teu sangue indomado, que sinto no rosto,
Com o teu manto, até que o amor tímido se atreva,
E julgue que o puro amor faz a pura castidade.
Vem, noite, vem, Romeu, vem, que és luz da noite,
Pois hás-de chegar, nas asas da escuridão,
Mais claro que a neve fresca nas asas do corvo.
Vem, noite gentil, vem, terna, com tua tez escura,
Dá-me o meu Romeu, e, quando eu morrer,
Leva-o e corta-o em estrelas pequeninas,
E ele há-de tornar a face dos céus tão bela
Que todo o mundo ficará amoroso da noite,
E não mais louvará o sol aparatoso.
Oh, tenho comprada a mansão de um amor,
Mas não tomei dela posse, e eu, que fui vendida,
Ainda de mim não usaram. É tão turvo este dia
Quanto a noite antes de algum festival
Para a criança que ganhou vestidos novos
E não pode usá-los. Oh, lá vem a minha Ama.
E traz notícias, e cada boca que pronuncie
Só o nome de Romeu, já alcança celeste eloquência.
Ora, Ama, que novas? Que trazes tu aí? As cordas
Que Romeu te pediu?



E que melhor ocasião que esta para fazer o devido encómio ao belíssimo blogue do tradutor/autor que não tem nada contra os seus preconceitos? Já aí está, nas Águas de Maio, há algumas semanas, mas deve ter passado despercebido. O Drama Pessoal, de Fernando Villas-Boas, aconselhado a quem aprecia escrita da boa, sumarenta, espontânea e rigorosa. Como há poucas.

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