sábado, janeiro 05, 2008

as histórias dos outros que nos pertencem

Foi numa das minhas últimas visitas a essa terra remota que durante longos anos foi ignorada pelo mapa das estradas do ACP, uma aldeia com cinco vilas no nome, onde a estrada acaba e o Côa começa. Era um pesadelo de verão para as duas crianças tristes que se perdiam nas não-referências familiares que as desconstruíam, nos labirintos da incomunicação de uma afectividade truncada e endurecida pelos pedregulhos toscos e cinzentos que no caminho para cima e para dentro surgiam de costas voltadas para nós, ao longo da estrada. Olhando o mapa quase parecia que a aldeia não existia. Sabíamos nós, e parecia que só nós o sabíamos, que depois do último nome escrito, a Reigada, seguindo a estrada que não se desenhava no papel mas apenas no mapa dos nossos desafectos, se entrava no mundo irreal de granito e bosta de vaca que levava o nome de Cinco Vilas, "a terra da avó Maria". Nome cheio de memórias agri-doces, de filmes lentos e estranhos escorregando sobre o silêncio.

Foi num dos últimos anos em que me vi obrigada a visitar o berço do lado da família que melhor conheço, pior compreendo e mais recuso, que ouvi uma das poucas histórias que me fizeram sorrir e descobrir um afecto escondido por aquele chão agreste. As histórias universais têm infindáveis variações mundo fora, nos mais remotos e iliteratos lugares, e só neste ramo da minha família conheço três romeus e três julietas. O meu tio-avô Amadeu que irrompeu pela aldeia do Colmeal montado a cavalo para roubar a minha pespineta tia Lurdes, contra tudo e contra todos e contra as rivalidades entre aldeias. O meu tio Vasco, que casou com a Augusta-inimiga-familiar-mortal e fugiu para o Brasil, onde morreu estupidamente na estrada. 

Mas a verona beirã para onde a minha memória viajou hoje tem uma leveza e uma inteligência que se destacam de forma bizarra numa paisagem física e emocional de dureza e obscuridade. Famílias rivais, também e sempre. É revelador que em comunidades tão pequenas, uma aldeia com uma igreja, uma escola primária, uma venda, um café, um cemitério, tanta guerra encontre espaço para se instalar. Mas penso no "Crime de Aldeia Velha", penso nos instintos mais básicos deixados à solta na escuridão pela inflexibilidade do raciocínio, penso em "Dogville" e nos comportamentos tribais, e bate certo.

Famílias que não se podiam ver, nem cheirar. Dois adolescentes apaixonados e fatalmente proibidos de sentirem o que sentiam. Queriam-se. E não foram as raivas dos outros que os transformaram em vítimas, que lhes toldaram o raciocínio e os fizeram afogar-se em revolta e tragédia. Encontravam-se às escondidas, entre os malhadais e o rio, atrás de uma oliveira, no abrigo de uma rocha, e deixaram que a solução se impusesse. Um dia organizaram a sua fuga. Como em quase todas as nossas aldeias, o centro de Cinco Vilas é o adro da Igreja, o símbolo do poder divino como do terreno que por tradição se reflectiu sempre nos campanários, e era esse adro o seu objectivo, a luz do dia, a aceitação da sua condição de casal.

Deixaram pistas, deram nas vistas, picaram as suspeitas, levantaram as antenas de toda a aldeia e, claro, das famílias entrincheiradas que lhes engulhavam o amor. Com humor e com inteligência, foram descobertos na cama um com o outro, escândalo maior em famílias de bem, deus-nosso-senhor-nos-livre. As famílias, por razões maiores, viram-se obrigadas a uma trégua: a coisa não podia ficar assim, era uma pouca vergonha; os desgraçados dos catraios tinham de ser exemplarmente castigados; seriam obrigados a casar, agora, de arma apontada se fosse necessário.

A fuga completou-se no mesmo chão. Casaram. Continuam casados, agora no sopé dos Pirinéus, onde estão tantos outros daquele aquário beirão, onde durante oito anos esteve a minha mãe, de quem são padrinhos. São tão analfabetos como quase todos os que conheço, quartas classes do estado novo, mal aprendidas entre as saídas para o campo, entre livros, ovelhas, vacas e azeitonas, horizontes aparentemente limitados, mundos pequenos e medrosos. Mas têm uma qualquer sabedoria nos olhos e uma ternura nos gestos que eram das poucas coisas que me davam conforto naquelas infantis viagens forçadas. E juram até hoje, com a felicidade matreira desenhada nos sorrisos, que casaram virgens. E eu acredito. Porque assim a história ainda tem mais graça. A história de amor e riso dos padrinhos da minha mãe.

2 comentários:

K. disse...

Que bonito... mais sentido ainda lido aqui, sob o céu plúmbeo da cidade condal. Beijo.

Manel disse...

:)