segunda-feira, outubro 02, 2006

IVG: Em caso de dúvida, vote SIM

O Cardeal Patriarca diz aos católicos que a resposta ao referendo sobre a legalização da IVG não tem a ver com liberdade pessoal, mas com o direito à vida do feto. E apela a que, em caso de dúvida, se abstenham de votar - quem sabe, com sorte, não se repete a vergonha que foi o primeiro referendo.

Pois eu quero aproveitar a engenhosa fórmula. A mulher, católica ou não, religiosa ou não, é um ser composto de corpo e espírito [ou inteligência, ou mente, ou o que lhe queiram chamar]. Indivíduo racional e autónomo, cidadão de pleno direito, tem o inalienável direito ao seu corpo. Cada facção social/moral tem a sua opinião no que respeita ao início da vida humana, sendo que a ciência pode determinar a formação de um sistema nervoso central entre as 12 e as 24 semanas - e pretende-se legalizar a IVG até ao início deste período. Ora, a proibição não poderá deixar de ser, nunca, a imposição de uma visão moral à outra, suplantando a ciência com teologia, no corpo legal de um estado laico. A proibição só pode ser a consagração legal de uma moral absolutamente relativa de uma parte [ainda por cima, cada vez menor] da sociedade, atropelando o direito de decisão de uma cidadã sobre o seu próprio corpo, a sua individualidade, o seu futuro, isto num estado que é, segundo ainda se diz, democrático.

Apenas a legalização permite: acabar com o pesadelo que é o aborto clandestino; acabar com os vergonhosos julgamentos de mulheres que já passaram pela dolorosa experiência da decisão e da intervenção clínica; deixar que cada uma decida em liberdade o que quer para si, o que considera moral, o que faz do seu corpo. Como qualquer sociedade democrática se devia orgulhar de permitir.

Disto se deduz que só a mais fundamentalista crença no que defende o senhor Policarpo - e outros que tais -, tão cega que não concebe outra forma de viver senão impondo ao útero alheio a sua concepção da vida e do mundo, pode justificar um voto no não. Só a mais absoluta certeza de que se tem razão pode justificar um não. Por isso, é preciso lembrar:

IVG: Em caso de dúvida, vote SIM

7 comentários:

Vítor I. disse...

Só para recordar alguns factos: o referendo vai ter menos de 50% dos eleitores a votar, os serviços de saúde não vão ter capacidade de resposta. O que já devia estar feito não está: os serviços de planeamento familiar (apesar do grande esforço dos profissionais que neles trabalham) continuam a apresentar muitas deficiências, a educação sexual nas escolas continua a ser inexistente.
Desculpa o meu "optimismo", mas eu vivo em Portugal...

Manel disse...

Não implica com nada do que eu disse. E como dizia há pouco tempo o Saramago, não sou uma pessimista, sou uma optimista informada.

violeta13 disse...

" A sociedade exerce sobre nós uma poderosa pressão de conformismo, em detrimento da nossa individualidade; é preciso termos consciência disso, porque ela, a sociedade, não tem "consciência" no sentido do indivíduo que, enquanto tal, sabe pensar, amar, sentir alegria ou ódio. Um ser que só obedeça aos imperativos da sociedade transforma-se num autómato." in A Manipulação dos Espíritos - Alexandre Dorozynski
este livro foi escrito há mais de 25 anos e cada vez se torna mais assustadoramente próximo de uma verdade inquestionável.
por isso, Em caso de dúvida, vote SIM!

Raquel Alão disse...

Sempre, sempre, sempre contra a hipocrisia... O mundo não é um lugar perfeito, a legislação sobre o mundo jamais o poderá ser e eu voto a favor da despenalização. Para não andarmos sempre vestidinhos de fariseu a ouvir ininterruptamente: "Quem nunca tiver pecado, que atire a primeira pedra..."... A minha resposta é mais pragmática do que ideológica.

E para quando uma educação para uma sexualidade mais responsável? É que a resposta está mesmo aqui...

Manel disse...

Pois... é que são aqueles que defendem o NÃO são, grosso modo, os mesmos que acham que a Educação Sexual nas escolas é uma perversão inqualificável dos tempos modernos. Não faz sentido... mas no fundo bate tudo certo.

Olivia disse...

eu voto não sob o ponto de vista que, enfim, vive-se em portugal, e c a despenalização do aborto aonde é q isto iria parar... mas tb votaria sim para acabar c o julgamento às mulheres por parte da sociedade cmo se elas fossem todas umas n-sei-qtas.... votaria não pq penso q n somos tao auto-suficientes e pq os resultados positivos q se viu em paises VERDADEIRA/ desenvolvidos podem se subverter no nosso país (ou n... =/) votaria sim se houvesse uma maior consciência cívica, mas votaria sim porque os dramas de mortes por algo evitavel dão que pensar....

nota: eu sou cristã e como alguns poucos cristãos deste país n considero a ESexual uma perversao dos tempos modernos, mas uma operação mal-sucedida por n incutir em primeiro lugar conceitos fundamentais tais como: o respeito por si próprio e pelo seu corpo, a valorização do q queremos mm ou n fazer, ou seja do q sentimos, e de uma verdadeira liberdade e "auto-estima".... bem, td isto num país onde o filho ainda bate na mãe.

nota2: o discurso do ser hiprocrita ou n, n leva a lugar nenhum é interminável....


"eu só sei q nd sei" e ate agora mto do q ouvi foi discurso de demagogia populista. POR FAVOR ALGUEM ME DÊ UM BOM ARGUMENTO PARA VOTAR NO SIM.

pode parecer estupido... mas sendo do NAO ou do SIM ng sabe d tudo, ng é + ou -! n é preciso tdo esse preconceito e raiva q tanto estaO enraizada em mtos d "nós".

Q CADA UM DEFENDA O Q AXA MELHOR MAS SEM ATACAR OS Q N AXAM O MSM!

é tempo perdido.

hipócritas ou não ou problema é deles...

assim nd se resolve e o país,q esta nas maõs de cada um de nós (e n num só partido político ou político inspirado - ou n - como nos fazem acreditar)n anda pra frente
bom blog..

Manel disse...

A razão principal para votar Sim, Olívia, escreste-a tu no teu comentário: só sei que nada sei. É por isso que votar Não é intrometer-se na consciência individual das outras mulheres e cercear-lhes a mais elementar liberdade. É um acto de intolerância e tirania, independentemente do que queremos para nós, ou do que achamos correcto.

Eu, por mim, e considerando a vontade que sempre tive de ter filhos, ia viver muito mal com a decisão de interromper uma gravidez, muito dificilmente optaria por isso. Mas eu só sei de mim, e mesmo de mim sei tão pouco... quem me dá o direito de decidir pela minha vizinha, ou pela mulher que atravessa o meu caminho na calçada, de cuja vida, aspirações, medos e condicionantes nada sei? Pela mesma razão, é extremamente ofensivo ouvir seja quem for dizer que tem o direito de determinar o que eu posso fazer com o meu corpo, a condenar uma decisão tão pessoal e tão difícil. É este o meu argumento central, e é este argumento que faz com que um Não de certezas [diferente de um Não de dúvidas, como parece ser o teu caso] me seja impossível de respeitar. Os tiranos não se respeitam nem se convencem, infelizmente; combatem-se, apenas.

Obrigada pela visita, ainda bem que gostaste do blog. És muito bem-vinda.