quarta-feira, julho 11, 2007

O bibelô e o bacalhau com natas

Bacalhau com natas num cafezito ao pé de casa. Ocupo a única mesa posta, duas mesas juntas, com lugares para quatro. Felizmente já estou bem adiantada quando um destes típicos quase ex-vizinhos, sessentão, de fato escuro e brazão, para quem o Campo Pequeno é "a praça de touros" e com ar de quem não caga, passa rasando o meu braço esquerdo apoiado na mesa, pára, observa, volta a olhar a sala e pergunta se pode ocupar a outra metade da mesa. Com certeza, respondo-lhe, esteja à vontade. A empregada vem perguntar se quero que afaste um pouco as mesas. Respondo-lhe que me é indiferente, se ao cavalheiro também for, escusa de ter trabalho. O cavalheiro responde altivo, os cantos da boca descaídos dando forma a um piropo doijeinhum, piropo e afirmação de poder a um tempo, novidade absoluta nas drogarias, ai não, vira o rótulo, vira, não se pode ver o prazo de validade do tempo do noé!

- Não me importo. Se fosse um homem, sobretudo se fosse um homem feio, não ia gostar. Mas como é uma rapariga bonita, não me importo. Uma rapariga bonita até acho agradável.

Eu, a jarra de flores, faço um sorriso amarelo, tentando não ser demasiado antipática. Não digo uma palavra, e só de relance tiro os olhos do jornal estendido à frente do meu prato. Chega um amigo. Ou um súbdito, não percebi bem, que só o ouvi dizer que sim, que sim senhor, sim sim. O lorde conta a extraordinária história.

- A empregada queria separar a as mesas, mas eu disse que não me importava [eu, por outro lado, não disse nada, não tinha nada que me importar ou não e no fim de contas as jarras nem falam]. Se fosse um homem, importava-me, mas com uma rapariga bonita...

E repete.

E repete.

Nem levanto os olhos do jornal. Não estou p'ra fretes, nem estou para me chatear com o que não vale a pena. Um vidro imaginário separa-me daquelas duas figuras. Perdão. Concreto. O que me separa deles é muito concreto. E só posso, muito honestamente e o mais generosamente que me é possível no meu pequenino espírito humano, lamentá-los. Sim, mais coloquialmente, ter pena deles. E das jarras que devem ter em casa, há muito sem flores, certamente.

5 comentários:

katraponga disse...

Lindo era este gajo a almoçar com o cromo do polo azul-cueca...

João Barbosa disse...

andas com pontaria e deves ficar bem em qualquer estante ;-)

pedro efe disse...

mulher, tu deves andar com uma hormona qualquer marada que atrai animais selvagens... :|

Anonyma disse...

São lindos não são?
Tão lindos!
Às vezes pergunto-lhes se precisam de um espelho para ver as tristes figuras que estão a fazer...

Rodrigues disse...

Ahahahah! O Kat é que teve uma boa ideia!