segunda-feira, fevereiro 08, 2010

o rinoceronte

ela tem no corpo a história do mito. o mito é Electra. mas pode até ser desconhecido a quem a olha, que o peso nos pulsos vai sentir-se sempre. ela tem a dança no corpo. mas pode até o léxico ser obtuso, obscuro, fugidio, que a imobilidade vai sentir-se em cada músculo que parece querer ultrapassar a pele. ela destapa cada testo por sua vez, uma electra sabe que por vezes precisa das pernas nuas, outras é o torso que pede para ser desvelado. ela sabe que os talheres magoam os pés descalços e os tacões magoam o corpo calçado. ela começou tantas vezes sabendo que nunca ia acabar, que o fim da música lhe ficou nas mãos, e em cada percurso interrompido porque já se gastou. ela vive na coragem semi-consciente de interromper o que morreu sem que a tristeza que se afunda impeça o que ainda nasce. nem vale a pena fechar as gavetas. assim, mesmo mortas, respiram melhor.



Olga Roriz como Electra
fotografia de Sara Magno