sábado, dezembro 23, 2006

Confissão orgulhosa para um natal ansioso

Um amigo dizia-me ontem que esperava perder a aposta que fez: a de que o SIM não vencerá no referendo de 11 de Fevereiro. Estou farta de levar lambadas, é esta a verdade, mas ainda assim não posso convencer-me de que os fala-barato que da praia se espantaram com o resultado do primeiro referendo sobre a legalização da IVG irão, novamente, deixar para os outros a tarefa de evitar pelo voto que morram e se humilhem mais mulheres [pagar cadeias para quem aborta, com os meus impostos?! Nem obrigada!]. Fora com o bafio. Fora com o conceito de mulher-incubadora. Às urnas em Fevereiro, senhores. Nada justifica a vergonha que se vive no país, nem o Salazar nem o Cerejeira nem o Guterres nem o Bentinho. Mão na consciência e vergonha na cara, é o que é preciso. E que cada ricaça que já pagou uma IVG em Madrid ou em Londres não consiga dormir depois de votar Não.

Eu, por mim, quanto mais vivo mais mais me angustio, mas também durmo cada noite melhor, de consciência tranquila. Não é, pois, para a limpar que volto a publicar esta confissão. É, isso sim, para relembrar que a realidade existe, não nas páginas dos livros sagrados, mas nas ruas, nas cidades, nos íntimos de cada cidadão, no corpo autónomo de cada cidadã - mulheres formadas, conscientes, cujo organismo sobrevive por si, que têm direito a decidir sobre si mesmas e a quem os estados-nação devem séculos de direitos e igualdade. Onde no texto abaixo se fala de "pró-vida", deve ler-se "pró-prisão", chamemos pois os bois pelos nomes. A minha consciência acarinha esta confissão. Que a vossa não acarinhe a humilhação quando forem chamados a dizer de vossa JUSTIÇA [pois que é disso que se trata], em 11 de Fevereiro.


Há um ano atrás, por esta altura precisamente, parti às três da manhã em direcção a Badajoz num Daewoo Matiz com uma amiga repousando no banco de trás a caminho de pôr em prática a decisão mais difícil da sua vida.

Há um ano atrás aguardava na sala de espera da Clínica dos Arcos observando em meu redor a quase totalidade de mulheres portuguesas, jovens e menos jovens, que aguardavam a sua vez, e de pais mães irmãos namorados amigos maridos portugueses que aguardavam como eu, sem saber que mais fazer para minorar aquela etapa terrível para além de estar presente de corpo e alma. E compreender. E acompanhar. E ter compaixão. É curioso que escasseiem tanto estas capacidades nos abusivamente auto-intitulados de Pró-Vida. Perdoem-me, não é curioso. É revoltante.

Há um ano atrás, escutando a descrição feita pela minha amiga do acompanhamento social, psicológico e médico que a clínica em questão fornece e observando ainda assim o seu sofrimento, muito me revoltei sobre a imoralidade que é penalizar as mulheres ainda mais, obrigando-as a agir fora da lei, a maioria das vezes na vergonha e no isolamento e sem o mínimo de dignidade ou segurança. E pensei nos países que já ultrapassaram o problema, em que a legalização do aborto correspondeu a um menor recurso ao mesmo. Países em que as leis não se submetem eternamente ao obscurantismo e à prepotência de uns quantos que se consideram detentores de uma moral superior e designados por não sei quem para serem os guardas da função sagrada da maternidade de qualquer mulher, seja qual for o seu credo, cor, religião, personalidade, opinião pessoal, quaisquer que sejam os seus sentimentos mais íntimos. Gente que não entende o significado da palavra cristianismo. E para quem a democracia é a parca liberdade dos outros terminar onde começa a sua ampla, pura e santa liberdade. Não tem outro nome o que se passa em Portugal: é fascismo sexual e reprodutivo.

Há um ano atrás, como hoje, não senti vergonha de ser portuguesa. Mas senti vergonha do estado do meu país.


texto escrito em Setembro de 2004 e originalmente publicado AQUI








IVG: Em caso de dúvida, vote SIM.


... E bom solstício de inverno para todos!

7 comentários:

patas disse...

estou contigo.

também já tive o meu daewoo matiz.

Manel disse...

Eu ainda o tenho...

patas disse...

... queria dizer o episódio, tb já tive o meu episódio daewoo matiz.

Manel disse...

:) Desculpa, ainda estava a dormir quando li o teu comentário... acho que muita gente o teve, ou o viu passar, ou dele teve notícias. Se tudo ficar na mesma em Fev., que mais faltará para que eu perceba que vivo num país de faz-de-conta?...

katraponga disse...

Poderei votar nesse referendo noutro país? Ainda não há e-voto para referendos, pois não?

patas disse...

manel, falta desistirmos do país e irmos todos fazer companhia ao katraponga.

k, ainda não dá para votar em referendos do estrangeiro... no primeiro referendo à ivg levei um balde de água fria. tinha vindo a portugal especialmente para votar no referendo enquanto os idiotas dos meus compatriotas não puderam adiar a ida à praia por 15min.

S.M. disse...

Em Portugal ( por tradição, educação, ICARização ou se calhar por influêñcia dos astros, do clima ( or whatever) os problemas são sempre "dos outros". Só assim se explica o "lavar de mãos" de muita gente relativamente ao 1º referendo ( alguém q não eu q resolva...) e de que, infelizmente,pressinto repetições em Fevereiro. Já me cansa explicar às pessoas ( algumas de nível socio-cultural que deveria tornar explicações desnecessárias) que o que está em causa não é o aborto ( realidade que não vai sofrer qualquer alteração com o resultado do referendo)mas sim o fim da hipócrita criminalização das mulheres. Ora o que os senhores das campanhas pelo sim fazem é jogar com os complexos de culpa universal que algumas pessoas (muitas e sobretudo mulheres) carregam, tb não se sabe bem porquê. Por isso, oiço simtemáticamente alarvidades do tipo: "é uma questão de consciência, não me sentiria bem se votasse não". Há muito boa gente que acha que vai decidir se as outras fazem ou não abortos!!!
Perante isto, confesso que às vezes sinto-me desanimada e lamento não poder fazer as malas e "desistir" deste país. Porque me sinto impotente para o mudar e angustiada pelo futuro dos meus filhos.
Ainda assim, desejo um Feliz Ano Novo a tod@s. A esperança em dias melhores é o que ainda me vai movendo. Bjs