segunda-feira, fevereiro 08, 2010

o rinoceronte

ela tem no corpo a história do mito. o mito é Electra. mas pode até ser desconhecido a quem a olha, que o peso nos pulsos vai sentir-se sempre. ela tem a dança no corpo. mas pode até o léxico ser obtuso, obscuro, fugidio, que a imobilidade vai sentir-se em cada músculo que parece querer ultrapassar a pele. ela destapa cada testo por sua vez, uma electra sabe que por vezes precisa das pernas nuas, outras é o torso que pede para ser desvelado. ela sabe que os talheres magoam os pés descalços e os tacões magoam o corpo calçado. ela começou tantas vezes sabendo que nunca ia acabar, que o fim da música lhe ficou nas mãos, e em cada percurso interrompido porque já se gastou. ela vive na coragem semi-consciente de interromper o que morreu sem que a tristeza que se afunda impeça o que ainda nasce. nem vale a pena fechar as gavetas. assim, mesmo mortas, respiram melhor.



Olga Roriz como Electra
fotografia de Sara Magno

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

só para relembrar.

Drop it, NOW!

faças o que fizeres, não me mintas.

São duas horas e meia. É o tempo certo, aquele que me faz sair com a sensação de que mais uma hora até seria bem-vinda. São os ângulos, o tempo, a luz que se me atira em neve para os olhos, a mansidão donde a lava apenas irrompe em jactos, assustadores mas dormentes, como a luz, como a neve, como os movimentos síncronos das forquilhas. São os olhos, as bocas, as lágrimas de uma transparência que as faz trocar presença com a ausência para assim conseguirem estar sempre presentes nas superfícies lisas entre os olhos e as bocas. São os pescoços feitos nó dos adultos, os corações feitos mata das crianças. As crianças, as irreais crianças donde Michael Haneke suga demasiada realidade. São as respostas, todas as respostas que se escondem nas perguntas que nascem e ficam na disseminação da culpa. A matéria de que se fazem os monstros. É cinema Grande.




terça-feira, fevereiro 02, 2010

as pequenas poesias dos grandes ciclos.

ponto um, eu nem gramo por aí além o Rui Veloso.
ponto dois, só com os Clã é que percebi realmente o tamanho do Tê maiúsculo.
ponto três, independentemente disso, o Ar de Rock é um grande disco.
ponto quatro, o Ar de Rock é de 1980.
donde, ponto cinco, desde os cinco anos que eu fico a matutar na palavra "Cantareira". e em seis anos de trabalho contínuo do Porto, não resolvi o dilema.

e ontem crava-se uma boleia entre Matosinhos e a Batalha e o cicerone leva-nos a espreitar a praia do Ourigo onde passa a moça do piercing no umbigo. e uns metros à frente diz, displiscente, esta zona é a Cantareira.

e eu, de repente com cinco anos, olho para o Carlos Tê que continua tranquilamente ao meu lado, ao volante, a pintar-nos o seu Porto. e fico a pensar que a vida é uma roda caprichosa e maravilhosa.



domingo, janeiro 31, 2010

o amor é um moreno num cabriolé.

novo capítulo. de volta ao norte. mas vai ser um tirinho. tudo bem, eu só precisava de mais um mês de férias, mas tudo bem. [suspiro]

sábado, janeiro 30, 2010

rouge


Ana Mendieta, untitled (blood sign #2)
elles@Pompidou
Janeiro de 2010


Rouge est la couleur du sang
rouge est la couleur de la douleur
rouge est la couleur de la violence
rouge est la couleur du danger
rouge est la couleur de la honte
rouge est la couleur de la jalousie
rouge est la couleur des reproches
rouge est la couleur des ressentiments

Louise Bourgeois

civis pacem para bellum


fotografia de José Frade


o nosso DEMO levou uma nomeação de um prémio de teatro e assim. de teatro, vejam bem... diz que é SPA / Prémio Autores 2010. quem é que disse isto? que engraçado, vamos subir o nível?

sexta-feira, janeiro 29, 2010

o mundo lá fora.


beatles por fiona por pta

quarta-feira, janeiro 27, 2010

en flottant


Pipilotti Rist, À la belle étoile (2007)
elles@pompidou
Janeiro de 2010

terça-feira, janeiro 26, 2010

domingo, janeiro 24, 2010

serbis

(...) O sujeito precisa do olhar da câmara como uma espécie de garantia ontológica da sua existência...

Em relação a este paradoxo do olhar omnipresente, aconteceu há pouco tempo uma coisa curiosa com um amigo meu na Eslovénia: uma ocasião, voltou ao escritório à noite, porque precisava de terminar um trabalho; antes de acender a luz viu, no escritório que ficava do outro lado do pátio, um par constituído por um administrador (casado) e a respectiva secretária a fazer amor apaixonadamente em cima da mesa. No meio da sua paixão, esqueceram-se de que havia um edifício do outro lado do pátio, do qual podiam ser vistos com nitidez, dado que o escritório estava brilhantemente iluminado e as enormes janelas não tinham cortinas... O que o meu amigo fez foi telefonar para o escritório da frente e, quando o administrador interrompeu por breves momentos a sua actividade sexual e foi atender o telefone, murmurou maldosamente para o aparelho: "Deus está a vê-los!" O pobre homem caíu para o lado e quase teve um ataque cardíaco... A intervenção desta voz traumática, que não pode ser directamente situada na realidade, talvez seja o mais próximo que podemos chegar da experiência do Sublime.

(...) Uma das técnicas clássicas dos filmes de terror é a "ressignificação" do plano objectivo em plano subjectivo (aquilo que o espectador começa por apreender como um plano objectivo —por exemplo, uma casa com uma família a jantar— revela-se subitamente, através de marcadores codificados, por exemplo um ligeiro tremor da câmara, a banda sonora "subjectivada", etc., como o plano subjectivo de um assassino a espreitar as suas vítimas potenciais). Porém, esta técnica tem de ser complementada como o seu oposto, a inversão inesperada do plano subjectivo no plano objectivo: no meio de um plano longo marcado indubitavelmente como subjectivo, o espectador é bruscamente obrigado a reconhecer que
não há sujeito possível dentro do espaço da realidade diegética que possa ocupar o ponto de vista deste plano. Assim, não estamos aqui perante a simples inversão do plano objectivo no plano subjectivo, mas face à construção de um lugar de subjectividade impossível, uma subjectividade que confere à própria objectividade um aroma de um mal indizível e monstruoso. Pode reconhecer-se aqui toda uma teologia herética, que identifica secretamente o próprio Criador com o Diabo (que já era a tese da heresia cátara na França do século XII). São exemplos desta subjectividade impossível o plano subjectivo, filmado do ponto de vista da própria Coisa assassina, do rosto transfigurado do detective Arbogast moribundo em Psico, ou, em Os Pássaros, o famoso plano do incêndio da baía de Bodega filmado da perspectiva de Deus, que, depois, com a entrada dos pássaros na imagem, é ressignificado, subjectivado, tornando-se no ponto de vista dos próprios agressores (...).


Slavoj Žižek, in Lacrimae Rerum, "Alfred Hitchcock ou Haverá uma Maneira Certa de Fazer o Remake de um Filme?", trad. Luís Leitão


terminei este trecho com o chá vermelho, deu o gongo e eu fui ver um grande filme que nada faria suspeitar vir dar sentido a tudo isto. mas deu. e haja quem lhe cunhe a linguagem como "documental", "verité", "indie", o que quiserem. o que há aqui é muito cinema. e do clássico. em corte ou em sequência. Kinatai fica para próximas núpcias, que a noite foi de escolhas difíceis. e este lindo serviço já me deu muito em que pensar. nome para a prateleira dos faróis: Brillante Mendoza, filipino, alucinado e genial.

sábado, janeiro 23, 2010

as time hits by.




e de repente uma tarola faz todas as idades parecerem a mesma, umas nascendo das outras, umas implicando as outras. 1+0+0=1. paradiddle.

gomo de tangerina


Louise Bourgeois, Cumul I (1968)
elles@Pompidou
Janeiro de 2010

sexta-feira, janeiro 22, 2010

a frase.

I see myself as queer, since queer to me is not just about who I love or lust, but it's about my culture, my community, and my politics.

Tristan Taormino

o botãozinho.


musée de l'érotisme de Paris
Janeiro de 2010

este é um blogue feliz.

nomeadamente porque acabou de receber uma visita de Cheshire. o que deixa uma esperança infantil de que seja seguido por um gato sorridente. tão feliz que até se dá ao luxo de começar um post com a palavra "nomeadamente".

da distância.

Skhizein (Jérémy Clapin,2008) from Bertie on Vimeo.

faire l'échange.



elles@Pompidou
Janeiro de 2010

quinta-feira, janeiro 21, 2010

virose.

isto não é.


@Pompidou, Janeiro de 2010

ausência.


Soulages, C.G.Pompidou
Janeiro de 2010

regarde à travers moi 2.0


C.G. Pompidou, Janeiro 2010

don't follow me, I'm lost.



Sylvie Fanchon, sans titre, 2001
elles@pompidou
Janeiro de 2010

quarta-feira, janeiro 20, 2010

terça-feira, janeiro 19, 2010

il faut se méfier des mots.

cause if language were liquid it would be rushing in.


Belleville, Janeiro de 2010

segunda-feira, janeiro 18, 2010

la même lumière, c'est alucinant.



et que je la connais bien...
pérolas, João Pais, pérolas. obrigada. *