domingo, janeiro 31, 2010

o amor é um moreno num cabriolé.

novo capítulo. de volta ao norte. mas vai ser um tirinho. tudo bem, eu só precisava de mais um mês de férias, mas tudo bem. [suspiro]

sábado, janeiro 30, 2010

rouge


Ana Mendieta, untitled (blood sign #2)
elles@Pompidou
Janeiro de 2010


Rouge est la couleur du sang
rouge est la couleur de la douleur
rouge est la couleur de la violence
rouge est la couleur du danger
rouge est la couleur de la honte
rouge est la couleur de la jalousie
rouge est la couleur des reproches
rouge est la couleur des ressentiments

Louise Bourgeois

civis pacem para bellum


fotografia de José Frade


o nosso DEMO levou uma nomeação de um prémio de teatro e assim. de teatro, vejam bem... diz que é SPA / Prémio Autores 2010. quem é que disse isto? que engraçado, vamos subir o nível?

sexta-feira, janeiro 29, 2010

o mundo lá fora.


beatles por fiona por pta

quarta-feira, janeiro 27, 2010

en flottant


Pipilotti Rist, À la belle étoile (2007)
elles@pompidou
Janeiro de 2010

terça-feira, janeiro 26, 2010

domingo, janeiro 24, 2010

serbis

(...) O sujeito precisa do olhar da câmara como uma espécie de garantia ontológica da sua existência...

Em relação a este paradoxo do olhar omnipresente, aconteceu há pouco tempo uma coisa curiosa com um amigo meu na Eslovénia: uma ocasião, voltou ao escritório à noite, porque precisava de terminar um trabalho; antes de acender a luz viu, no escritório que ficava do outro lado do pátio, um par constituído por um administrador (casado) e a respectiva secretária a fazer amor apaixonadamente em cima da mesa. No meio da sua paixão, esqueceram-se de que havia um edifício do outro lado do pátio, do qual podiam ser vistos com nitidez, dado que o escritório estava brilhantemente iluminado e as enormes janelas não tinham cortinas... O que o meu amigo fez foi telefonar para o escritório da frente e, quando o administrador interrompeu por breves momentos a sua actividade sexual e foi atender o telefone, murmurou maldosamente para o aparelho: "Deus está a vê-los!" O pobre homem caíu para o lado e quase teve um ataque cardíaco... A intervenção desta voz traumática, que não pode ser directamente situada na realidade, talvez seja o mais próximo que podemos chegar da experiência do Sublime.

(...) Uma das técnicas clássicas dos filmes de terror é a "ressignificação" do plano objectivo em plano subjectivo (aquilo que o espectador começa por apreender como um plano objectivo —por exemplo, uma casa com uma família a jantar— revela-se subitamente, através de marcadores codificados, por exemplo um ligeiro tremor da câmara, a banda sonora "subjectivada", etc., como o plano subjectivo de um assassino a espreitar as suas vítimas potenciais). Porém, esta técnica tem de ser complementada como o seu oposto, a inversão inesperada do plano subjectivo no plano objectivo: no meio de um plano longo marcado indubitavelmente como subjectivo, o espectador é bruscamente obrigado a reconhecer que
não há sujeito possível dentro do espaço da realidade diegética que possa ocupar o ponto de vista deste plano. Assim, não estamos aqui perante a simples inversão do plano objectivo no plano subjectivo, mas face à construção de um lugar de subjectividade impossível, uma subjectividade que confere à própria objectividade um aroma de um mal indizível e monstruoso. Pode reconhecer-se aqui toda uma teologia herética, que identifica secretamente o próprio Criador com o Diabo (que já era a tese da heresia cátara na França do século XII). São exemplos desta subjectividade impossível o plano subjectivo, filmado do ponto de vista da própria Coisa assassina, do rosto transfigurado do detective Arbogast moribundo em Psico, ou, em Os Pássaros, o famoso plano do incêndio da baía de Bodega filmado da perspectiva de Deus, que, depois, com a entrada dos pássaros na imagem, é ressignificado, subjectivado, tornando-se no ponto de vista dos próprios agressores (...).


Slavoj Žižek, in Lacrimae Rerum, "Alfred Hitchcock ou Haverá uma Maneira Certa de Fazer o Remake de um Filme?", trad. Luís Leitão


terminei este trecho com o chá vermelho, deu o gongo e eu fui ver um grande filme que nada faria suspeitar vir dar sentido a tudo isto. mas deu. e haja quem lhe cunhe a linguagem como "documental", "verité", "indie", o que quiserem. o que há aqui é muito cinema. e do clássico. em corte ou em sequência. Kinatai fica para próximas núpcias, que a noite foi de escolhas difíceis. e este lindo serviço já me deu muito em que pensar. nome para a prateleira dos faróis: Brillante Mendoza, filipino, alucinado e genial.

sábado, janeiro 23, 2010

as time hits by.




e de repente uma tarola faz todas as idades parecerem a mesma, umas nascendo das outras, umas implicando as outras. 1+0+0=1. paradiddle.

gomo de tangerina


Louise Bourgeois, Cumul I (1968)
elles@Pompidou
Janeiro de 2010

sexta-feira, janeiro 22, 2010

a frase.

I see myself as queer, since queer to me is not just about who I love or lust, but it's about my culture, my community, and my politics.

Tristan Taormino

o botãozinho.


musée de l'érotisme de Paris
Janeiro de 2010

este é um blogue feliz.

nomeadamente porque acabou de receber uma visita de Cheshire. o que deixa uma esperança infantil de que seja seguido por um gato sorridente. tão feliz que até se dá ao luxo de começar um post com a palavra "nomeadamente".

da distância.

Skhizein (Jérémy Clapin,2008) from Bertie on Vimeo.

faire l'échange.



elles@Pompidou
Janeiro de 2010

quinta-feira, janeiro 21, 2010

virose.

isto não é.


@Pompidou, Janeiro de 2010

ausência.


Soulages, C.G.Pompidou
Janeiro de 2010

regarde à travers moi 2.0


C.G. Pompidou, Janeiro 2010

don't follow me, I'm lost.



Sylvie Fanchon, sans titre, 2001
elles@pompidou
Janeiro de 2010

quarta-feira, janeiro 20, 2010

terça-feira, janeiro 19, 2010

il faut se méfier des mots.

cause if language were liquid it would be rushing in.


Belleville, Janeiro de 2010

segunda-feira, janeiro 18, 2010

la même lumière, c'est alucinant.



et que je la connais bien...
pérolas, João Pais, pérolas. obrigada. *

domingo, janeiro 17, 2010

a maldição branca — o Haiti somos nós.

por Eduardo Galeano



No primeiro dia deste ano, a liberdade cumpriu dois séculos de vida no mundo. Ninguém se apercebeu, ou quase ninguém. Poucos dias depois, o país do aniversário, o Haiti, passou a ocupar algum espaço nos meios de comunicação; mas não pelo aniversário da liberdade universal, apenas porque se desatou ali um banho de sangue que acabou por enredar o presidente Aristide.


O Haiti foi o primeiro país onde se aboliu a escravatura. Não obstante, as enciclopédias mais difundidas e quase todos os manuais escolares atribuem à Inglaterra essa honra histórica. É verdade que um belo dia mudou de opinião o império que havia sido campeão mundial do tráfico negreiro; mas a abolição britânica ocorreu em 1807, três anos depois da revolução haitiana, e foi tão pouco convincente que em 1832 a Inglaterra teve de voltar a proibir a escravatura.


Nada tem de novo o ignorar do Haiti. Desde há dois séculos, sofre desprezo e castigo. Thomas Jefferson, grande figura da liberdade e proprietário de escravos, advertia que do Haiti provinha o mau exemplo; e dizia que havia de “confinar a peste nessa ilha”. O seu país escutou-o. Os Estados Unidos demoraram sessenta anos a outorgar o reconhecimento diplomático à mais livre das nações. Entretanto, no Brasil, chamava-se haitianismo à desordem e à violência. Os donos dos braços negros mantiveram-se a salvo do haitianismo até 1888. Nesse ano, o Brasil aboliu a escravatura. Foi o último país do mundo.


O Haiti voltou a ser um país invisível, até ao próximo massacre. Enquanto ocupou os écrans e as páginas, no princípio deste ano, os media transmitiram confusão e violência e confirmaram que os haitianos nasceram para fazer bem o mal e para fazer mal o bem.


Da revolução para cá, o Haiti só foi capaz de oferecer tragédias. Era uma colónia próspera e feliz e agora é a nação mais pobre do hemisfério ocidental. As revoluções, concluíram alguns especialistas, conduzem ao abismo. E alguns disseram, e outros sugeriram, que a tendência haitiana para o fratricídio provém da selvagem herança que vem de África. O mandato dos antepassados. A maldição negra, que empurra para o crime e para o caos.


Da maldição branca, não se falou.

A Revolução Francesa abolira a escravatura, mas Napoleão ressuscitou-a.


  • Qual foi o regime mais próspero para as colónias?

  • O anterior.

  • Pois, que se reinstitua.

E, para reimplantar a escravatura no Haiti, enviou mais de cinquenta navios cheios de soldados.


Os grandes negros venceram a França e conquistaram a independência nacional e a libertação dos escravos. Em 1804, herdaram uma terra arrasada pelas devastadoras plantações de cana de açúcar e um país queimado pela guerra feroz. E herdaram a “dívida francesa”. França cobrou cara a humilhação infligida a Napolão Bonaparte. Acabado de nascer, o Haiti teve de comprometer-se a pagar uma indemnização gigantesca, pelo dano que havia causado ao libertar-se. Essa expiação do pecado da liberdade custou-lhe 150 milhões de francos de ouro. O novo país nasceu com o pescoço estrangulado por essa corda: uma fortuna que actualmente equivaleria a 21,700 milhões de dólares ou a 44 orçamentos do Haiti dos nossos dias. Muito mais de um século demoraria a ser paga a dívida que os juros iam multiplicando. Em 1938 cumpriu-se, por fim, a redenção final. Por essa época, o Haiti pertencia já aos bancos dos Estados Unidos. Em troca dessa fortuna, a França reconheceu oficialmente a nova nação. Nenhum outro país a reconheceu. O Haiti tinha nascido condenado à solidão.


Nem sequer Simón Bolívar o reconheceu, mesmo devendo-lhe tudo. Barcos, armas e soldados, dera-lhe o Haiti em 1816, quando Bolívar chegou à ilha, derrotado, e pediu amparo e ajuda. Tudo lhe deu o Haiti, com a única condição de que libertasse os escravos, uma ideia que até então não lhe tinha ocorrido. Depois, o herói triunfou na sua guerra de independência e expressou a sua gratidão enviando para Port-au-Prince uma espada de presente. De reconhecimento, nem falar.


Na realidade, as colónias espanholas que tinham passado a nações independentes continuavam a ter escravos, ainda que algumas tivessem leis que o proibiam. Bolívar ditou a sua em 1821, mas a realidade não se deu por achada. Trinta anos depois, em 1851, a Colômbia aboliu a escravatura; e a Venezuela em 1854. Em 1915, os marines desembarcaram no Haiti. Ficaram dezanove anos. Para começar, tomaram imediatamente para si a alfândega e a cobrança de impostos. O exército de ocupação reteve o salário do presidente haitiano até que este se resignasse a assinar a liquidação do Banco Nacional, que se converteu numa sucursal do City Bank de Nova Iorque. O presidente e todos os outros negros tinham a entrada vedada nos hotéis, restaurantes e clubes exclusivos do poder estrangeiro. Os ocupantes não se atreveram a restabelecer a escravatura, mas impuseram o trabalho forçado para as obras públicas. E mataram muito. Não foi fácil apagar os fogos da resistência. O chefe guerrilheiro, Charlemagne Péralte, cravado em cruz contra uma porta, foi exibido, para escárnio, em praça pública.


A missão civilizadora conclui-se em 1934. Os ocupantes retiraram, deixando em seu lugar uma Guarda Nacional fabricada por eles, para exterminar qualquer possível assomo de democracia. O mesmo fizeram na Nicarágua e na República Dominicana. Algum tempo depois, Duvalier foi o equivalente haitiano de Somoza e de Trujillo. E assim, de ditadura em ditadura, de promessa em traição, se foram somando as desventuras e os anos.


Aristide, o cura rebelde, chegou à presidência em 1991. Durou poucos meses. O governo dos Estados Unidos ajudou a derrubá-lo, levou-o, submeteu-o a tratamento e uma vez reciclado devolveu-o, nos braços dos marines, à presidência. E novamente ajudou a derrubá-lo, neste ano de 2004, e novamente houve matança. E novamente vieram os marines, que voltam sempre, como a gripe.


Mas os peritos internacionais são muito mais devastadores do que as tropas invasoras. País submetido às ordens do Banco Mundial e do FMI, o Haiti obedecera às instruções sem piar. Pagaram-lhe negando-lhe o pão e o sal. Congelaram-lhe os créditos, apesar de ter desmantelado o Estado e liquidado todos os apoios e subsídios que protegiam a produção nacional. Os camponeses cultivadores de arroz, que eram a maioria, converteram-se em mendigos ou balseros. Muitos foram e continuam a ir parar às profundezas do Mar das Caraíbas, mas estes náufragos não são cubanos e raras vezes aparecem nos jornais.


Agora o Haiti importa todo o seu arroz dos Estados Unidos, onde os peritos internacionais, que são gente bastante distraída, se esqueceram de proibir os apoios e os subsídios que protegem a produção nacional. Na fronteira onde termina a República Dominicana e começa o Haiti, há um grande cartaz que adverte: El mal paso.


Do outro lado está o inferno negro. Sangue e fome, miséria, epidemias.


Neste inferno tão temido, todos são escultores. Os haitianos têm o costume de recolher latas e ferros velhos e com antiga mestria, recortando e martelando, as suas mãos criam maravilhas que se oferecem nos mercados populares.


O Haiti é um país deitado para a lixeira, eterno castigo pela sua dignidade. Ali jaz, como se fosse limalha. Espera as mãos da sua gente.



Publicado em Página/12, Buenos Aires, domingo 4 de Abril de 2004.




estórias que não se contam, culpas que não se pagam. ajudem a AMI, a Cruz Vermelha, a UNICEF, a OIKOS, mas não se esqueçam de ir ao fundo da tragédia. AQUI assinem pelo único acto decente que resta ao poder do hemisfério norte. Drop Haitian Debt, NOW!

eu fico ali em Rue Pigalle, ófaxavor, que tenho o carro no parque...




[agradecimentos ao João Pais]

sábado, janeiro 16, 2010

on s'amuse au quartier latin.


Paris, Dezembro de 2009.


... o Pompidou estava em greve.

regarde...


Soulages

... à travers moi.




C.G.Pompidou, Jan de 2010