
@Pompidou, Janeiro de 2010
"Não costumo por norma dizer o que sinto, mas aproveitar o que sinto para dizer qualquer coisa" Ruy Belo
No primeiro dia deste ano, a liberdade cumpriu dois séculos de vida no mundo. Ninguém se apercebeu, ou quase ninguém. Poucos dias depois, o país do aniversário, o Haiti, passou a ocupar algum espaço nos meios de comunicação; mas não pelo aniversário da liberdade universal, apenas porque se desatou ali um banho de sangue que acabou por enredar o presidente Aristide.
O Haiti foi o primeiro país onde se aboliu a escravatura. Não obstante, as enciclopédias mais difundidas e quase todos os manuais escolares atribuem à Inglaterra essa honra histórica. É verdade que um belo dia mudou de opinião o império que havia sido campeão mundial do tráfico negreiro; mas a abolição britânica ocorreu em 1807, três anos depois da revolução haitiana, e foi tão pouco convincente que em 1832 a Inglaterra teve de voltar a proibir a escravatura.
Nada tem de novo o ignorar do Haiti. Desde há dois séculos, sofre desprezo e castigo. Thomas Jefferson, grande figura da liberdade e proprietário de escravos, advertia que do Haiti provinha o mau exemplo; e dizia que havia de “confinar a peste nessa ilha”. O seu país escutou-o. Os Estados Unidos demoraram sessenta anos a outorgar o reconhecimento diplomático à mais livre das nações. Entretanto, no Brasil, chamava-se haitianismo à desordem e à violência. Os donos dos braços negros mantiveram-se a salvo do haitianismo até 1888. Nesse ano, o Brasil aboliu a escravatura. Foi o último país do mundo.
O Haiti voltou a ser um país invisível, até ao próximo massacre. Enquanto ocupou os écrans e as páginas, no princípio deste ano, os media transmitiram confusão e violência e confirmaram que os haitianos nasceram para fazer bem o mal e para fazer mal o bem.
Da revolução para cá, o Haiti só foi capaz de oferecer tragédias. Era uma colónia próspera e feliz e agora é a nação mais pobre do hemisfério ocidental. As revoluções, concluíram alguns especialistas, conduzem ao abismo. E alguns disseram, e outros sugeriram, que a tendência haitiana para o fratricídio provém da selvagem herança que vem de África. O mandato dos antepassados. A maldição negra, que empurra para o crime e para o caos.
Da maldição branca, não se falou.
A Revolução Francesa abolira a escravatura, mas Napoleão ressuscitou-a.
Qual foi o regime mais próspero para as colónias?
O anterior.
Pois, que se reinstitua.
E, para reimplantar a escravatura no Haiti, enviou mais de cinquenta navios cheios de soldados.
Os grandes negros venceram a França e conquistaram a independência nacional e a libertação dos escravos. Em 1804, herdaram uma terra arrasada pelas devastadoras plantações de cana de açúcar e um país queimado pela guerra feroz. E herdaram a “dívida francesa”. França cobrou cara a humilhação infligida a Napolão Bonaparte. Acabado de nascer, o Haiti teve de comprometer-se a pagar uma indemnização gigantesca, pelo dano que havia causado ao libertar-se. Essa expiação do pecado da liberdade custou-lhe 150 milhões de francos de ouro. O novo país nasceu com o pescoço estrangulado por essa corda: uma fortuna que actualmente equivaleria a 21,700 milhões de dólares ou a 44 orçamentos do Haiti dos nossos dias. Muito mais de um século demoraria a ser paga a dívida que os juros iam multiplicando. Em 1938 cumpriu-se, por fim, a redenção final. Por essa época, o Haiti pertencia já aos bancos dos Estados Unidos. Em troca dessa fortuna, a França reconheceu oficialmente a nova nação. Nenhum outro país a reconheceu. O Haiti tinha nascido condenado à solidão.
Nem sequer Simón Bolívar o reconheceu, mesmo devendo-lhe tudo. Barcos, armas e soldados, dera-lhe o Haiti em 1816, quando Bolívar chegou à ilha, derrotado, e pediu amparo e ajuda. Tudo lhe deu o Haiti, com a única condição de que libertasse os escravos, uma ideia que até então não lhe tinha ocorrido. Depois, o herói triunfou na sua guerra de independência e expressou a sua gratidão enviando para Port-au-Prince uma espada de presente. De reconhecimento, nem falar.
Na realidade, as colónias espanholas que tinham passado a nações independentes continuavam a ter escravos, ainda que algumas tivessem leis que o proibiam. Bolívar ditou a sua em 1821, mas a realidade não se deu por achada. Trinta anos depois, em 1851, a Colômbia aboliu a escravatura; e a Venezuela em 1854. Em 1915, os marines desembarcaram no Haiti. Ficaram dezanove anos. Para começar, tomaram imediatamente para si a alfândega e a cobrança de impostos. O exército de ocupação reteve o salário do presidente haitiano até que este se resignasse a assinar a liquidação do Banco Nacional, que se converteu numa sucursal do City Bank de Nova Iorque. O presidente e todos os outros negros tinham a entrada vedada nos hotéis, restaurantes e clubes exclusivos do poder estrangeiro. Os ocupantes não se atreveram a restabelecer a escravatura, mas impuseram o trabalho forçado para as obras públicas. E mataram muito. Não foi fácil apagar os fogos da resistência. O chefe guerrilheiro, Charlemagne Péralte, cravado em cruz contra uma porta, foi exibido, para escárnio, em praça pública.
A missão civilizadora conclui-se em 1934. Os ocupantes retiraram, deixando em seu lugar uma Guarda Nacional fabricada por eles, para exterminar qualquer possível assomo de democracia. O mesmo fizeram na Nicarágua e na República Dominicana. Algum tempo depois, Duvalier foi o equivalente haitiano de Somoza e de Trujillo. E assim, de ditadura em ditadura, de promessa em traição, se foram somando as desventuras e os anos.
Aristide, o cura rebelde, chegou à presidência em 1991. Durou poucos meses. O governo dos Estados Unidos ajudou a derrubá-lo, levou-o, submeteu-o a tratamento e uma vez reciclado devolveu-o, nos braços dos marines, à presidência. E novamente ajudou a derrubá-lo, neste ano de 2004, e novamente houve matança. E novamente vieram os marines, que voltam sempre, como a gripe.
Mas os peritos internacionais são muito mais devastadores do que as tropas invasoras. País submetido às ordens do Banco Mundial e do FMI, o Haiti obedecera às instruções sem piar. Pagaram-lhe negando-lhe o pão e o sal. Congelaram-lhe os créditos, apesar de ter desmantelado o Estado e liquidado todos os apoios e subsídios que protegiam a produção nacional. Os camponeses cultivadores de arroz, que eram a maioria, converteram-se em mendigos ou balseros. Muitos foram e continuam a ir parar às profundezas do Mar das Caraíbas, mas estes náufragos não são cubanos e raras vezes aparecem nos jornais.
Agora o Haiti importa todo o seu arroz dos Estados Unidos, onde os peritos internacionais, que são gente bastante distraída, se esqueceram de proibir os apoios e os subsídios que protegem a produção nacional. Na fronteira onde termina a República Dominicana e começa o Haiti, há um grande cartaz que adverte: El mal paso.
Do outro lado está o inferno negro. Sangue e fome, miséria, epidemias.
Neste inferno tão temido, todos são escultores. Os haitianos têm o costume de recolher latas e ferros velhos e com antiga mestria, recortando e martelando, as suas mãos criam maravilhas que se oferecem nos mercados populares.
O Haiti é um país deitado para a lixeira, eterno castigo pela sua dignidade. Ali jaz, como se fosse limalha. Espera as mãos da sua gente.
Publicado em Página/12, Buenos Aires, domingo 4 de Abril de 2004.

Chamo-me Joana Manuel. Sou actriz de profissão, é verdade, ao contrário da minha amiga e companheira de activismo Raquel Freire, que é realizadora de cinema e nada obscura enquanto tal. No dia 10 de Outubro de 2008 estive nas escadarias da Assembleia da República, vestida de noiva e com uma barriga falsa, para participar numa acção de protesto e cidadania contra o desfecho antecipado da discussão que no parlamento decorria acerca das propostas de BE e PEV para a legalização do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. A acção era simples, directa e clara nos seus objectivos: mediatizar um protesto contra uma injustiça social e política, radicada no preconceito e na discriminação de cidadãos da República em função da sua orientação sexual, em desrespeito claro do artigo 13.º da nossa Constituição Democrática. Encenámos dois casamentos, entre mim e a Raquel Freire, e entre o Paulo Jorge Vieira e o Marlon Francisco, que também se dispuseram dar a cara pela luta naquela acção. O objectivo foi alcançado, as imagens surgem sempre que se debate o tema, e durante o ano que entretanto passou foram objecto de discussão e questionamento. No passado dia oito de Janeiro foi com uma alegria incompleta que assisti nas galerias à quase totalidade do debate parlamentar que resultou na aprovação desta lei para o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, e na sequência do protesto de 2008, participei num brinde e expressei-me em boa consciência sobre o dia apesar de tudo histórico que estávamos a viver. Naturalmente os media deram-nos atenção. Mais uma vez o objectivo foi alcançado.
Espantou-me, no entanto, e entristeceu-me assistir à noite à reportagem da jornalista Ana Romeu para o telejornal da RTP. Ao rever a dita reportagem na internet ficou-me ainda o sabor amargo da manipulação e do mau jornalismo. Mas isto são dissertações para outras repartições. Sucede que a jornalista termina a sua reportagem dizendo, em off, o seguinte: “talvez por isso se explique que estas imagens que vão correr mundo reflictam essa vergonha e o preconceito que ainda subsiste: estas duas mulheres são actrizes, nenhum casal homossexual se disponibilizou a assumir este papel.” Durante os dias que se seguiram, foram vários os ecos que recebi desta reportagem: acudam, a mulher não é lésbica, é uma actriz contratada, isto é tudo uma palhaçada. Reservo-me, reserva-me a democracia o direito de responder.
Fala-se por aí da minha heterossexualidade como se a comunicação social tivesse descoberto um facto extraordinário e obscuro. Não descobriu, ele nunca foi escondido, desde a acção original dos casamentos encenados em Outubro de 2008. Sabem que não sou lésbica porque eu o disse. A luta é minha porque os homossexuais deste país são meus concidadãos e eu respeito-os e defendo-os como tal. Ao fazê-lo estou a defender-me a mim. Eu sou eles. Eles são parte do meu nós.
A acção original —ou deveria dizer, o pecado— foi planeada pelas Panteras Rosa (das quais a Raquel Freire é membro desde a formação do grupo em Portugal em 2004) face à inevitabilidade do chumbo das propostas de Outubro de 2008, em resultado da disciplina de voto imposta pelo PS aos seus deputados. No verão de 2004, um mês antes da primeira acção das Panteras contra a discriminação e a homofobia, na qual participou a Raquel, eu cantei a convite da ILGA-Portugal no Arraial Pride então atirado por Pedro Santana Lopes para o Parque do Calhau, em Monsanto. À clandestinidade sempre convieram as matas mais do que as praças públicas, imagino que tenha sido o raciocínio. O nosso percurso paralelo, meu e da Raquel, de algum modo começou nesse ano. E cinco anos depois, cinco anos de luta e de expressão contínua acerca da igualdade de direitos, foi natural o gesto que fez a Raquel convidar-me para ser o seu par nesta performance interpelante. Esclareçamos então de uma vez: nenhuma outra mulher, lésbica ou não lésbica, se recusou a “assumir o papel”, porque a nenhuma outra mulher foi proposto que “assumisse o papel”. Ninguém me contratou. Ninguém me pagou. Assumi uma luta que é minha e dei a cara por ela naquele momento porque assim se proporcionou. E orgulho-me disso.
Não estive em frente à AR como actriz, mas como activista. Sou —ou estou— heterossexual, é verdade, mas isso é do meu foro privado. Do meu foro público é a cidadania e a luta por uma sociedade mais democrática e mais igual. Esta luta é tão minha como de qualquer lésbica, e ir para a cama com homens não me retira o direito de dar a cara por aquilo em que acredito. Sou cidadã eleitora e contribuinte da República Portuguesa e ofende-me essa discriminação. Para nós, naquele momento como hoje, a orientação sexual dos intervenientes foi absolutamente irrelevante, mas vejo que há muitas pessoas que perfilham um estranho conceito de cidadania. Como dizia Brecht, depois de levarem os ciganos, os judeus, os pretos, os homossexuais, os comunistas, talvez levem essas mesmas pessoas e elas comecem a perceber do que falo. Lagarto lagarto lagarto.



