sábado, dezembro 12, 2009

em patins




mais um dia cheio de luz.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

écrivez moi souvent


moldes da mão esquerda de Chopin e do braço direito de George Sand
Musée de la Vie Romantique, rue Chaptal


... tenho um trilião de posts para fazer sobre Paris. mas ainda cá estou. e felizmente, não tenho tempo.

à bientôt.

domingo, dezembro 06, 2009

à propos

em 1871 esta letra era cantada sobre a tão simbólica marselhesa — é revelador que, não perdendo a sua força simbólica, o canto de Marselha tenha mantido o seu belicismo e recusado a construção a que se exorta nestes versos. em 1888 nasceu A Internacional como a conhecemos hoje. em Portugal, as versões do PCP e do PS divergem nuns quantos versos. honre-se a liberdade, mas não deixa de fazer soar o gongo das improbabilidades. e seja numa grafonola solitária de Fellini, seja num estúdio do São João a gravar o som para os Tambores na Noite, seja na Atalaia, na fronteira entre o dentro e o fora de um comício, isto remexe-me sempre por dentro. a beleza deste hino é um olhar de criança questionando os nossos fracassos. Eugéne Pottier, autor da letra, foi um dos sobreviventes da semana sangrenta de Maio de 1871. et vive la Commune!



Debout, les damnés de la terre
Debout, les forçats de la faim
La raison tonne en son cratère,
C'est l'éruption de la faim.
Du passé faisons table rase,
Foule esclave, debout, debout
Le monde va changer de base,
Nous ne sommes rien, soyons tout.

C'est la lutte finale ;
Groupons nous et demain
L'Internationnale
Sera le genre humain.

Il n'est pas de sauveurs suprêmes
Ni Dieu, ni César, ni Tribun,
Producteurs, sauvons-nous nous-mêmes
Décrétons le salut commun.
Pour que le voleur rende gorge,
Pour tirer l'esprit du cachot,
Soufflons nous-même notre force,
Battons du fer tant qu'il est chaud.

L'Etat comprime et la Loi triche,
L'impôt saigne le malheureux ;
Nul devoir ne s'impose au riche ;
Le droit du pauvre est un mot creux
C'est assez languir en tutelle,
L'Egalité veut d'autres lois ;
" Pas de droits sans devoirs, dit-elle
Egaux pas de devoirs sans droits ".

Hideux dans leur apothéose,
Les rois de la mine et du rail
Ont-ils jamais fait autre chose
Que dévaliser le travail ?
Dans les coffres-forts de la banque
Ce qu'il a crée s'est fondu,
En décrétant qu'on le lui rende,
Le peuple ne veut que son dû.

Les rois nous saoûlaient de fumée,
Paix entre nous, guerre aux Tyrans
Appliquons la grève aux armées,
Crosse en l'air et rompons les rangs !
S'ils s'obstinent ces cannibales
A faire de nous des héros,
Ils sauront bientôt que nos balles
Sont pour nos propres généraux.

Ouvriers, paysans, nous sommes
Le grand parti des travailleurs,
La terre n'appartient qu'aux hommes,
L'oisif ira loger ailleurs.
Combien de nos chairs se repaissent !
Mais si les corbeaux, les vautours,
Un de ces matins disparaissent,
Le soleil brillera toujours.

in memoriam

Em 1871 a França de Versailles teve de escolher entre entregar Paris aos prussianos, e deixá-la ao seu povo, cedendo à ocupação do vazio de poder pela guarda nacional constituída sobretudo por operários e pequena burguesia parisiense. Não foi difícil a decisão, pois para os donos patriotas a pátria é um conceito muito relativo — em Março, Wilhelm I coroa-se imperador da Alemanha na sala dos espelhos em Versailles, e a Comuna de Paris é proclamada nas ruas e nas instituições da cidade, consagrando o poder "pelo povo, para o povo", os princípios da libertade, igualdade e fraternidade, e a resistência à invasão prussiana ante a capitulação dos poderes. Entre 26 de Março e 28 de Maio [data sinistra], o mundo cresceu em Paris, e após eleições directas a Comuna implantou reformas que ainda hoje deviam fazer corar as democracias europeias:

1. o trabalho nocturno foi abolido;
2. oficinas que estavam fechadas foram reabertas para que cooperativas fossem instaladas;
3. residências vazias foram desapropriadas e ocupadas;
4. em cada residência oficial foi instalado um comitê para organizar a ocupação de moradias;
5. todas os descontos em salário foram abolidos;
6. a jornada de trabalho foi reduzida, e chegou-se a propor a jornada de oito horas;
7. os sindicatos foram legalizados;
8. instituiu-se a igualdade entre os sexos;
9. projectou-se a autogestão das fábricas (mas não foi possível implantá-la);
10. o monopólio da lei pelos advogados, o juramento judicial e os honorários foram abolidos;
11. testamentos, adopções e a contratação de advogados tornaram-se gratuitos;
12. o casamento tornou-se gratuito e simplificado;
13. a pena de morte foi abolida;
14. o cargo de juiz tornou-se electivo;
15. o calendário revolucionário foi novamente adoptado;
16. o Estado e a Igreja foram separados; a Igreja deixou de ser subvencionada pelo Estado e os espólios sem herdeiros passaram a ser confiscados pelo Estado;
17. a educação tornou-se gratuita, secular e obrigatória; escolas nocturnas foram criadas e todas as escolas passaram a ser de sexo misto;
18. imagens santas foram derretidas e sociedades de discussão foram adoptadas nas Igrejas;
19. a Igreja de Brea, erguida em memória de um dos homens envolvidos na repressão da Revolução de 1848 foi demolida; o confessionário de Luís XVI e a coluna Vendôme também;
20. a Bandeira Vermelha foi adoptada como símbolo da Unidade Federal da Humanidade;
21. o internacionalismo foi posto em prática: o facto de ser estrangeiro tornou-se irrelevante; os integrantes da Comuna incluíam belgas, italianos, polacos, húngaros;
22. instituiu-se um escritório central de imprensa;
23. emitiu-se um apelo à Associação Internacional dos Trabalhadores;
24. o serviço militar obrigatório e o exército regular foram abolidos;
25. todas as finanças foram reorganizadas, incluindo os correios, a assistência pública e os telégrafos;
26. havia um plano para a rotação de trabalhadores;
27. considerou-se instituir uma Escola Nacional de Serviço Público, da qual a actual ENA francesa é uma cópia;
28. os artistas passaram a autogerir os teatros e editoras;
29. o salário dos professores foi duplicado.

A paz com a Alemanha e a consequente libertação de prisioneiros de guerra para recompor as forças de Versailles, a cumplicidade entre os poderes face às legítimas aspirações dos donos da cidade, a sua carne, ditou o destino da Comuna de Paris. A semana sangrenta em que 15 mil milicianos communards defenderam a sua casa contra 100 mil soldados das forças de Versailles, acumulou corpos e pôs fim ao sonho. David perdeu, e Golias, furioso, não o matou, desmembrou-o, sangrou-o, incinerou-o. No topo da colina que vigiava os moinhos que alimentavam a cidade, a Igreja exigiu que se erguesse um magnífico marco em homenagem às "vítimas da Comuna", não os communards mortos, mas os 100 reféns por eles executados e os 900 por eles mortos na legítima defesa de Paris. O Sacré Coeur ergue-se branco sobre a cidade, as paredes decoradas com lápides que falam de amor universal, de magnanimidade. 1000 mortos às mãos dos communards cercados, contra 50 a 80 mil deles esmagados pelas tropas de Versailles. 40 mil foram presos e executados, alguns por falsa denúncia ou por serem confundidos com membros da Comuna. As execuções pararam apenas por medo de que a multiplicação de cadáveres provocasse uma epidemia de doenças na cidade.

Ontem roubei um livro de €20 do sagrado mercadinho dentro deste tão ecuménico monumento, mesmo debaixo do nariz de duas freiras. Cada um vinga-se como pode.




Montmartre, 5 Dez 2009

quarta-feira, dezembro 02, 2009

terça-feira, dezembro 01, 2009

it takes time — moto perpetuo




[nearly gone, nearly back, nearly beaten down, nearly up for anything, nearly alive, nearly beginig, nearly complete, nearly here, nearly destroyed, nearly reborn, nearly a circle, nearly a broken cycle.]

quinta-feira, novembro 26, 2009

tiempo es silencio

sabia já. tinha havido aquele sonho estranho na terra-mãe, comboios e alcatifa e um manípulo de janela. era claro como a luz em quase inverno. é aquela coisa sem nome que se ri da quilometragem alheia, vai para onde quer, como quer, quando quer. os sonhos que queremos crer territórios da liberdade pura, são a presa preferida. e caem sempre que nem patos.

é melhor saber. perguntar. já está visto, está feito, porque não deixar que se amasse em poucas palavras? e agora...

e agora nada muda. incompreensivelmente, nada muda nunca, não tuge nem muge. não treme o ar. só o peito pede um dreno rápido, um furo que o esvazie de ar estéril, esterilizado, e leve da noite aquele momento em que ela o puxou de repente e o sorriso dele esperava um beijo roubado, quando ela só queria que ele andasse mais devagar. o tempo é cinema. é para rasgar.


sábado, novembro 21, 2009

não me apetece.

dizer que está a chegar ao fim. não o amor. só o mês. dizer que tenho tanto dia em cada dia que a noite nunca teve tanto silêncio. dizer que o amor em volta ecoa mais que os passos. não me tem apetecido, pronto. dizer que não tenho mãos para contar as pessoas os olhos os peitos que se me abrem, na rua uns, em casas outros, ou nas distâncias em que os irmãos, em que os amores profundos não se deixam morrer. não ando para aí virada. para contar que fez um ano que me casei com uma luta que sempre foi minha mesmo antes de se oficializar tão duradouramente. que sempre fui euoutrx antes de estar entre nósoutrxs. que um follow é mais uma contracena e que metade do palco está dentro de quem entra nele. que se canta como se fala e se fala como se ama e sofre e ri. não me sai, não estou para me esforçar. para dizer que fez um ano também que a Frika morreu. e que um ano depois a Valeria me disse quase casualmente, numa conversa entre a madrugada de Lisboa e a tarde porteña, que dias depois da despedida lhe apareceu uma bebé abandonada que cuidou até à adopção e a quem chamou Frika, lembrando-se daquele bichinho que nunca viu e que do outro lado do grande charco se tinha esvaziado com o dente ferrado no meu braço direito e as minhas lágrimas por cima. não me apetece dizer que passou um ano e a marca quase já não se vê. e que a Valeria me pôs a chorar frente ao écran, cheia de uma estranha felicidade, a pensar numa gata viva chamada Frika algures em Buenos Aires. não me apetece, pronto, dizer que a Noa ainda nem percebe bem como é que já vai para o segundo inverno de conforto e é tão minha quanto eu sou dela e no entanto o lugar continua vácuo, a falta permanece, a usurpação é impossível, o espaço sobrepõe-se, partilha-se e assina-se com um miar doce e um olhar de mel amarelo. não me apetece dizer que, ao fim de mais de um ano sem parar e a uma velocidade quase descontrolada, vou finalmente pirar-me daqui e olhar para o céu à espera de ver sobre Montmartre a neve que nunca há-de vir. não me apetece dizer, estou preguiçosa, pronto.



Talking Heads - Naive Melody (This Must Be The Place)

aCreationMonster | Vídeo do MySpace

sexta-feira, novembro 20, 2009

hoje estou aqui.



... ele não sabe mesmo cantar a duas vozes. mas não pestaneja, não desiste. porque o mundo está para lá daquilo que já nascemos a saber.

quinta-feira, novembro 19, 2009

what an actor needs from a director.




life. love. flaw. coffee. and "blue" written on the wall.

segunda-feira, novembro 16, 2009

falando nisso...




Eu e a minha Raquel já fizemos um ano de casadas. And we're still in love. A foto não é minha, é capaz de ser da minha noiva linda.

UM SITIOZINHO ONDEM PODEM DIZER DE VOSSA JUSTIÇA EM TEMPO REAL. NÃO A REFERENDOS SOBRE DIREITOS CÍVICOS FUNDAMENTAIS.

"É o que chamo aos apelos ao referendo quanto a este assunto: manobras de diversão. É o artigo 13.º da Constituição que está em causa, temos um código civil anticonstitucional. Quem exige o referendo está apenas a tentar empatar um avanço que é inevitável numa sociedade livre e que se quer a cada dia mais equalitária. Não se pretende discutir o assunto, pretende-se atolá-lo, ganhar tempo, empatar, literalmente.

São os direitos cívicos dos cidadãos que estão em causa. Permitir que tudo fique na mesma é aceitar que o Código Civil diga que o preconceito e a homofobia são legais. É negar direitos legais a casais e famílias que já existem, haja ou não haja referendos, e que vêem os seus direitos limitados pelo puro preconceito consagrado pelo direito civil. Direitos cívicos e fundamentais não se referendam. Imaginem o que teria sido referendar a pena de morte quando ela foi abolida, ou os casamentos inter-raciais quando foram legalizados. Faz sentido? Não, porque a democracia é um horizonte de avanço de mentalidades, de procura e de justiça. Não é, não pode ser, uma ditadura de maiorias. Maiorias, aliás, muito discutíveis, cada vez mais discutíveis."


Botem discurso AQUI, de preferência antes da senhora Campos Ferreira fechar o estaminé desta noite.

It is the very last inch of us. But within that inch we are free.



This will always make me cry.

segunda-feira, novembro 09, 2009

twenty years and still building... imagens para o dia de hoje, vinte anos depois.



West Belfast peaceline — protestant side
.



US-Mexico Wall
.





Israeli West Bank Barrier
.

Süßigkeit (docinho)

und der Himmel geöffnet über Berlin




dois anos antes, Wenders filmou a cena que me apaixonou definitivamente pela língua alemã. o muro não aparece, mas está por todo o lado. até que os anjos começaram a chover sobre Berlim. vinte anos depois, o muro ainda não parou de cair, ainda lá está. mas a nove do onze de oitenta e nove, choveram anjos.


domingo, novembro 08, 2009

the Bill has passed.

É esta a frase do dia. A violência estala nos Estados Unidos de uma forma que não nos chega — a mim chegou-me, para lá do NYTimes, de fontes directas e presenciais. O extremismo anda a mostrar claramente a sua face. Mas... the Bill has passed. O Sistema Nacional de Saúde norte-americano começa a reclamar o seu nome, a sua função. Por cinco votos e ainda tem de subir aos senadores, mas the Bill has passed. O nobel da Paz está a saber levar as suas guerras. E eu continuo a achar que em Janeiro vai fazer um ano que começou o século XXI.

walk.

é essa raiz da alegria. essa ligação quase fantasma ao caule, ao coração. aquele ponto que só a tristeza infinita por vezes nos faz alcançar, aquela pequena transparência onde moramos verdadeiramente nómadas. muito lá dentro. quando encontrada pode-se manter tranquila no centro, deixar-se cheirar os cantos à casa para ocupá-la com tempo até à ponta dos dedos, em vez de correr desenfreada para limpar as teias de aranha a cada canto. é esse indizível, bicho que foge às palavras, que prefere fazer cócegas a explicar-se, essa ligação frágil e resiliente que só a tristeza infinita comprova, que é a raiz da alegria. há coisas muito erradamente associadas à melancolia.


sexta-feira, novembro 06, 2009

out of darkness (para o K.)

não sei ainda.

fez barulho? (para a Jo-Ba)

são tantos. por todos os lados. aqueles em cujo os olhos podemos encontrar tesouros, às vezes até com um pouco de esforço, vão resistindo às próprias máscaras, sabem-se mesmo que nunca ninguém os aprenda. e depois há aquele mar de gente infeliz. aquele mar de contradições trágicas com pernas, que destila medo e infelicidade. mas só para fora, só para quem de fora está atento. lá dentro tudo se mistura naquela névoa marítima onde às vezes bate a luz da marginal ao fim da manhã para queimar sem agravo o caminho às retinas. e eles acham-se bem, não conseguem fazer mira em volta a outro lugar que seja melhor, ou pelo menos um bocadinho diferente. não o vêem. têm medo de o procurar. e são tantos. não reconhecem a infelicidade, vedaram-se. não se reconhecem infelizes. portanto, não podem sê-lo. e no entanto destilam-na, a infelicidade. fazem-me pensar se não é, ela mesma, uma coisa, uma matéria, uma larva que se vai tornando numa condição biológica. mas eles, nada. e no entanto, dir-se-ia que se cheira. parece até que se ouve.

quinta-feira, novembro 05, 2009

terça-feira, novembro 03, 2009

remember to forget.

semana de novos nomes, novos amores. Josh, Amy, Maguida, Pol, Sandra, Vasco, João Pedro, Maria, Ana Rita, e mais e mais e mais. e de conversas de café sérias de sedução e questionamento, de partilha e desafio, e palestras cantadas, e dança e festa e abraços e olhos bem fechados para ouvidos bem abertos. sopros e luzes que se me colam à pele, que tornam doce o cheiro da noite contra a gripe, contra a exaustão, contra angústias, contra medos, contra normas, contra o contra. nós somos outros nós somos X géneros. nós somos intercontinentais, nós somos transcontinentais, transfronteiras, transódios, transjuízos, transferventes com vida e voz e tacto e luz. our best machines are made of sunshine. I'll remember to remember.