quinta-feira, novembro 26, 2009

tiempo es silencio

sabia já. tinha havido aquele sonho estranho na terra-mãe, comboios e alcatifa e um manípulo de janela. era claro como a luz em quase inverno. é aquela coisa sem nome que se ri da quilometragem alheia, vai para onde quer, como quer, quando quer. os sonhos que queremos crer territórios da liberdade pura, são a presa preferida. e caem sempre que nem patos.

é melhor saber. perguntar. já está visto, está feito, porque não deixar que se amasse em poucas palavras? e agora...

e agora nada muda. incompreensivelmente, nada muda nunca, não tuge nem muge. não treme o ar. só o peito pede um dreno rápido, um furo que o esvazie de ar estéril, esterilizado, e leve da noite aquele momento em que ela o puxou de repente e o sorriso dele esperava um beijo roubado, quando ela só queria que ele andasse mais devagar. o tempo é cinema. é para rasgar.


sábado, novembro 21, 2009

não me apetece.

dizer que está a chegar ao fim. não o amor. só o mês. dizer que tenho tanto dia em cada dia que a noite nunca teve tanto silêncio. dizer que o amor em volta ecoa mais que os passos. não me tem apetecido, pronto. dizer que não tenho mãos para contar as pessoas os olhos os peitos que se me abrem, na rua uns, em casas outros, ou nas distâncias em que os irmãos, em que os amores profundos não se deixam morrer. não ando para aí virada. para contar que fez um ano que me casei com uma luta que sempre foi minha mesmo antes de se oficializar tão duradouramente. que sempre fui euoutrx antes de estar entre nósoutrxs. que um follow é mais uma contracena e que metade do palco está dentro de quem entra nele. que se canta como se fala e se fala como se ama e sofre e ri. não me sai, não estou para me esforçar. para dizer que fez um ano também que a Frika morreu. e que um ano depois a Valeria me disse quase casualmente, numa conversa entre a madrugada de Lisboa e a tarde porteña, que dias depois da despedida lhe apareceu uma bebé abandonada que cuidou até à adopção e a quem chamou Frika, lembrando-se daquele bichinho que nunca viu e que do outro lado do grande charco se tinha esvaziado com o dente ferrado no meu braço direito e as minhas lágrimas por cima. não me apetece dizer que passou um ano e a marca quase já não se vê. e que a Valeria me pôs a chorar frente ao écran, cheia de uma estranha felicidade, a pensar numa gata viva chamada Frika algures em Buenos Aires. não me apetece, pronto, dizer que a Noa ainda nem percebe bem como é que já vai para o segundo inverno de conforto e é tão minha quanto eu sou dela e no entanto o lugar continua vácuo, a falta permanece, a usurpação é impossível, o espaço sobrepõe-se, partilha-se e assina-se com um miar doce e um olhar de mel amarelo. não me apetece dizer que, ao fim de mais de um ano sem parar e a uma velocidade quase descontrolada, vou finalmente pirar-me daqui e olhar para o céu à espera de ver sobre Montmartre a neve que nunca há-de vir. não me apetece dizer, estou preguiçosa, pronto.



Talking Heads - Naive Melody (This Must Be The Place)

aCreationMonster | Vídeo do MySpace

sexta-feira, novembro 20, 2009

hoje estou aqui.



... ele não sabe mesmo cantar a duas vozes. mas não pestaneja, não desiste. porque o mundo está para lá daquilo que já nascemos a saber.

quinta-feira, novembro 19, 2009

what an actor needs from a director.




life. love. flaw. coffee. and "blue" written on the wall.

segunda-feira, novembro 16, 2009

falando nisso...




Eu e a minha Raquel já fizemos um ano de casadas. And we're still in love. A foto não é minha, é capaz de ser da minha noiva linda.

UM SITIOZINHO ONDEM PODEM DIZER DE VOSSA JUSTIÇA EM TEMPO REAL. NÃO A REFERENDOS SOBRE DIREITOS CÍVICOS FUNDAMENTAIS.

"É o que chamo aos apelos ao referendo quanto a este assunto: manobras de diversão. É o artigo 13.º da Constituição que está em causa, temos um código civil anticonstitucional. Quem exige o referendo está apenas a tentar empatar um avanço que é inevitável numa sociedade livre e que se quer a cada dia mais equalitária. Não se pretende discutir o assunto, pretende-se atolá-lo, ganhar tempo, empatar, literalmente.

São os direitos cívicos dos cidadãos que estão em causa. Permitir que tudo fique na mesma é aceitar que o Código Civil diga que o preconceito e a homofobia são legais. É negar direitos legais a casais e famílias que já existem, haja ou não haja referendos, e que vêem os seus direitos limitados pelo puro preconceito consagrado pelo direito civil. Direitos cívicos e fundamentais não se referendam. Imaginem o que teria sido referendar a pena de morte quando ela foi abolida, ou os casamentos inter-raciais quando foram legalizados. Faz sentido? Não, porque a democracia é um horizonte de avanço de mentalidades, de procura e de justiça. Não é, não pode ser, uma ditadura de maiorias. Maiorias, aliás, muito discutíveis, cada vez mais discutíveis."


Botem discurso AQUI, de preferência antes da senhora Campos Ferreira fechar o estaminé desta noite.

It is the very last inch of us. But within that inch we are free.



This will always make me cry.

segunda-feira, novembro 09, 2009

twenty years and still building... imagens para o dia de hoje, vinte anos depois.



West Belfast peaceline — protestant side
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US-Mexico Wall
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Israeli West Bank Barrier
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Süßigkeit (docinho)

und der Himmel geöffnet über Berlin




dois anos antes, Wenders filmou a cena que me apaixonou definitivamente pela língua alemã. o muro não aparece, mas está por todo o lado. até que os anjos começaram a chover sobre Berlim. vinte anos depois, o muro ainda não parou de cair, ainda lá está. mas a nove do onze de oitenta e nove, choveram anjos.


domingo, novembro 08, 2009

the Bill has passed.

É esta a frase do dia. A violência estala nos Estados Unidos de uma forma que não nos chega — a mim chegou-me, para lá do NYTimes, de fontes directas e presenciais. O extremismo anda a mostrar claramente a sua face. Mas... the Bill has passed. O Sistema Nacional de Saúde norte-americano começa a reclamar o seu nome, a sua função. Por cinco votos e ainda tem de subir aos senadores, mas the Bill has passed. O nobel da Paz está a saber levar as suas guerras. E eu continuo a achar que em Janeiro vai fazer um ano que começou o século XXI.

walk.

é essa raiz da alegria. essa ligação quase fantasma ao caule, ao coração. aquele ponto que só a tristeza infinita por vezes nos faz alcançar, aquela pequena transparência onde moramos verdadeiramente nómadas. muito lá dentro. quando encontrada pode-se manter tranquila no centro, deixar-se cheirar os cantos à casa para ocupá-la com tempo até à ponta dos dedos, em vez de correr desenfreada para limpar as teias de aranha a cada canto. é esse indizível, bicho que foge às palavras, que prefere fazer cócegas a explicar-se, essa ligação frágil e resiliente que só a tristeza infinita comprova, que é a raiz da alegria. há coisas muito erradamente associadas à melancolia.


sexta-feira, novembro 06, 2009

out of darkness (para o K.)

não sei ainda.

fez barulho? (para a Jo-Ba)

são tantos. por todos os lados. aqueles em cujo os olhos podemos encontrar tesouros, às vezes até com um pouco de esforço, vão resistindo às próprias máscaras, sabem-se mesmo que nunca ninguém os aprenda. e depois há aquele mar de gente infeliz. aquele mar de contradições trágicas com pernas, que destila medo e infelicidade. mas só para fora, só para quem de fora está atento. lá dentro tudo se mistura naquela névoa marítima onde às vezes bate a luz da marginal ao fim da manhã para queimar sem agravo o caminho às retinas. e eles acham-se bem, não conseguem fazer mira em volta a outro lugar que seja melhor, ou pelo menos um bocadinho diferente. não o vêem. têm medo de o procurar. e são tantos. não reconhecem a infelicidade, vedaram-se. não se reconhecem infelizes. portanto, não podem sê-lo. e no entanto destilam-na, a infelicidade. fazem-me pensar se não é, ela mesma, uma coisa, uma matéria, uma larva que se vai tornando numa condição biológica. mas eles, nada. e no entanto, dir-se-ia que se cheira. parece até que se ouve.

quinta-feira, novembro 05, 2009

terça-feira, novembro 03, 2009

remember to forget.

semana de novos nomes, novos amores. Josh, Amy, Maguida, Pol, Sandra, Vasco, João Pedro, Maria, Ana Rita, e mais e mais e mais. e de conversas de café sérias de sedução e questionamento, de partilha e desafio, e palestras cantadas, e dança e festa e abraços e olhos bem fechados para ouvidos bem abertos. sopros e luzes que se me colam à pele, que tornam doce o cheiro da noite contra a gripe, contra a exaustão, contra angústias, contra medos, contra normas, contra o contra. nós somos outros nós somos X géneros. nós somos intercontinentais, nós somos transcontinentais, transfronteiras, transódios, transjuízos, transferventes com vida e voz e tacto e luz. our best machines are made of sunshine. I'll remember to remember.

sábado, outubro 31, 2009

too much to say.



faz dois anos por esta altura. lembro-me de quase tudo, minuto a minuto. mas guardo as melhores luzes que alguma vez vi num concerto. e umas pernas que arrumam a Tina Turner a um canto. hoje, é a canção da noite, honras feitas ao maestro JPS, leia-se JotaPêEsse, que não há maquineta que seja mãe para ele.

quarta-feira, outubro 28, 2009

all our oddities.





feita num feixe. estafada. cheia de nervos e estrica. e feliz. é, parece que é cíclico.

segunda-feira, outubro 26, 2009

it spins




para o K., com um beijo.

domingo, outubro 25, 2009

sequenza

releitura com menos palavras — eu também (reedição a vinte meses)




Often in a scene, the room and the light together signify a mood. So even if the room isn't perfect, you can work it with the light and get it to feel correct, so that it has the mood that came with the original idea. The light can make all the difference in a film, even in a character. I love seeing people come out of darkness.


David Lynch, Catching the big fish, Jeremy P.Tarcher/Penguin, 2007

sábado, outubro 24, 2009

entre nósoutrxs

semana cortada em duas, como a cabeça. dois mundos em nada similares mas que se interseccionam sempre, como sempre que em texturas diferentes se procura uma verdade. ou várias. a semana perfeita para adoecer, portanto, para ter de gerir fôlegos e horas de sono, para encaixar rossios em betesgas hora após hora, comprimido após comprimido. há vidas mais fáceis, mas... o que vale é que estou entre nósoutrxs e entre nósoutrxs está-se muito bem. alem de que amanhã muda a hora. e muda para melhor.

pretérito perfeito em espelho

esta noite sonhei na repetição.
era o fundador. era a estação. a luz um pouco diferente, mas ainda demasiado contente de si.
demasiado insegura.
pediste o quarto.
disseste timidez.
tocaste devagar.
deixaste tudo fechado, disseste que era para respirar.
caminhaste até ao carril na manhã descorada,
cantando que o teu corpo te encerra.
que vives numa casa de cardos.
que o espectáculo é lento como tem de ser o turbilhão.

e eu, longe do corpo, assisti.
só havia comboios, desta vez, não procuravas autocarros.
mas continuavas a temer a viagem
como se o medo fosse o tudo.
não sei se te sorri. se te lamentei.
se me lamentei.


terça-feira, outubro 20, 2009

qué niebla, no se ve nada.




tenho de escrever escrever escrever. agarrar os relâmpagos. como é que se agarra um relâmpago? sem queimar a mão, quer dizer. estão cá os feixes todos, reflectem em alta velocidade as paredes do labirinto, inscrevem gritos nas paredes, slogans, frases de combate, e deixam espalhado nos corredores tudo o que escorrega das paredes, tudo o que na sua essência não se grava. ou melhor, tudo o que, no seu avanço, se tecnologiza e passa a registar-se por gravação molecular. está lá, linha por linha, palavra por palavra. só não se lê. o que faz com que apenas a sua energia dispersa nos corredores pareça sinal da sua existência, o que faz crer que se aspergiu, se desmaterializou. engano. nada disso. moleculou-se. insidiou-se. mas está lá. só tem de ser sugado outra vez. e depois há-de morder os relâmpagos.