quinta-feira, setembro 10, 2009

a Incrível Tasca Móvel convoca Lisboa



esta noite, a partir das 21h30, os O'questrada tomam conta do Martim Moniz. Ou seja, não só da cidade, mas do mundo inteiro.

cara de bolacha


namouche, setembro de 2009
fotografia de Kristin Grace Eriksson

and in the end...

... the love you take is equal to the love you make.


terça-feira, setembro 08, 2009

entrecortado


Marc Chagall, Dança dos ciganos
sketch para o bailado
Aleko



- Sou. Tu sabes.
- Eu sei. Mas isto já não é acerca do que tu és, é acerca do que eu sou. O que tu és, é lá contigo.
- Então vou dançar.

(silêncio)

- Fazes bem.

freaky fucking amusing octaves.


namouche, setembro de 2009



there are people whose mere presence opens your doors and freezes your windy halls. and then you're just glad to look in, discover you have it, put it out and be up to them. and they are quite tall. ei i ai ou u. and then sushi. happiness is a small freaky octave.

sábado, setembro 05, 2009

You is nothing and still there is nothing but You 2.0

há a cara, aquela zona toda acima do pescoço onde achamos que mora a identidade, mas um morto é ainda reconhecível e no BI é também a ponta do indicador direito que deixamos. o eu é a identidade? é mais que isso? quão mais? será identidade assim tão pouco?

há aquela pergunta, recorre se não me falha: como é que a carne se transforma em espírito? mas está ao contrário, a pergunta, diz a vozinha dentro da minha cabeça-invólucro. se matéria é energia, então a pergunta está ao contrário. a não ser que a pergunta, científica por convicção, seja na realidade religiosa por inevitabilidade. de tanto querer fugir à noção de alma, trunca-se e cola-se-lhe. a matéria não é a origem, é um resultado. o cientista nega-se a si próprio se a negação se tornar mais importante do que a afirmação. a superstição materialista é quase tão supersticiosa como qualquer outra. mas sobretudo em relação com as outras superstições, é um forte inviolável.

e há a borboleta que justifica para a ciência a recusa do óbvio, que tira ao público o tapete que ele quer pisar, que instala a dúvida naquilo em que intimamente queremos acreditar: o amor e o eu.


e há o duplicado. o duplicado seguiu, o original ficou, o original é o excesso porque toda a memória, toda a história que fala do seu eu gramatical está a viver a experiência da sua vida, que lhe foi negada. mas na realidade o duplicado não está a viver esta experiência única de se saber duplicado e a mais, de se saber, sem sombra para dúvidas, o original. mas porque não surge essa sombra? será a carga simbólica que se põe numa aliança de casamento válida para desvalidar tudo? ou simplesmente, livrando-nos dela —da sombra— cremos resolver um problema dramatúrgico, porque realidades paralelas ou "uma vida, dois destinos" eram já outros quinhentos?

destes três pontos, foi a borboleta que me deu mais teatro, e esse lugar de dúvida entre o que é neurológico e o que extravasa, essa zona de névoa — palavra importante — é onde me está o teatro, o conflito entre a resistência e a fé. mas os autores não lhe dão a mesma importância.


não fiquei a morrer de amores pelo texto. é tímido, ocorre-me escrever. mas ia-me deitar sem tresvariar um bocadinho e não consegui. porque o espectáculo, o olho e os actores conseguiram trazer-mo a pontos em que ressoa. fiquem eles em que latitude do meu corpo ficarem.




Ego
de Mick Gordon e Paul Brooks
encenação de João Pedro Vaz
com Catarina Lacerda, Gonçalo Waddington e António Fonseca
Teatro Nacional D.Maria II — sala estúdio
até 11 de Outubro

sexta-feira, setembro 04, 2009

quarta-feira, setembro 02, 2009

subtilezas da linguagem

Aqui na sala, como aliás é hábito em situações semelhantes, não sabemos se rimos mais do sócrates que só sabe que tudo sabe, do paulinho das feiras ou da dótora cunha e sá. A bidimensionalidade reina, e nós rendêmo-nos e rimos, pois, que remédio, not with them but at them. E de repente vem um daqueles momentos que valem ouro. Sócrates diz "nós temos mais polícias agora blá blá blá blá blá do que quando o senhor foi governo" e Portas logo, "não têm não, ah não têm não."


Quando se diz, falando de um Estado, nós temos isto e não temos aquilo, parece-me que a resposta espontânea quando há uma interpretação de comunidade e de serviço, de democracia real, seria "não temos não, não temos não". Afinal é de um país que se fala, do qual todos fazemos parte, eu como a dona Helena como a família Portas, certo?

pois...

Mas não é nada dessa treta da comunidade, do serviço, do povo, que está em causa. E bem dita espontaneidade do discurso, que descerra intenções, ambições e tutanos. Portanto a resposta é o que é: não têm não, os meus são mais que os teus, com esses eu não tenho nada a ver, foste tu que os arranjaste.


Pequenos pelinhos da linguagem...


demasiado tempo

terça-feira, setembro 01, 2009

divergências significantes: a moral

[Uma história policial] mantém de certo modo presente o facto de a própria civilização ser o mais sensacional dos desvios e a mais romântica das rebeldias. Num romance policial, quando o detective, de uma forma um tanto estupidamente temerária, se vê sozinho perante facas e punhos no covil dos bandidos, isso serve certamente para nos fazer lembrar que é o agente da justiça social que constitui a figura original e poética, enquanto os ladrões e assaltantes são apenas velhos e plácidos conservadores cósmicos, felizes na respeitabilidade imemorial de macacos e lobos. [O romance policial] baseia-se no facto de a moral ser a mais negra e ousada das conspirações.

G.K. Chesterton, A defense of Detective Stories [trad. Luís Leitão]



segunda-feira, agosto 31, 2009

repito-me...




... porque é assim que me apetece começar o ano. e porque uma das pessoas que mais me faltou à noite de 28 veio hoje, pela primeira vez, cheirar-me os cantos à casa. e porque é bom quando saem quatro pessoas e a casa fica cheia na mesma, entre duas humanas e três gatos. cheia de riso e de tudo o mais de que ele é sintoma.

quinta-feira, agosto 27, 2009

às vezes o tempo certo não é o tempo pré-determinado

Aqui é onde vivo e é quasi primavera. Vê-se.
Antigamente, isto é, antes, as coisas deste lugar, as pedras, as plantas, os sons, tomavam-me como se de passagem.
Agora vivo aqui. Perceberam que vivo aqui.
Viver num lugar obriga a acertas atitudes conjugadas com esse lugar.
Tenho que estar atenta.

Há aqui uma velha glicínia que se finje morta.
Dos velhos troncos da glicínia espreitam-me uma infinidade de olhos e eu tenho que estar atenta.
Eu sei que subitamente, julgando-me desprevenida, ela vai estalar.
De riso para me perturbar.
Pela manhã estará cheia de flores abertas, feliz por me ter enganado fingindo-se morta.
Porque nunca vivi aqui antes e ela floriu para outros cada ano e eu não sei os seus costumes, nem sei como os outros para quem ela floriu antes aceitavam o seu jogo de florir e se ela se fingiu morta cada ano para eles como este ano se fingiu morta para mim, não sei se deva mostrar-lhe espanto.
É uma velha glicínia...
Os velhos (que idade tenho hoje?), os velhos gostam que se mostre espanto pelas coisas que fazem e pelas coisas que fizeram, como se as fizessem ou tivessem feito de uma forma única, pessoal, descoberta por si próprios ao longo do esforço do seu esforço de viver.
É uma velha glicínia.
Devo, portanto, mostrar-lhe espanto pela sua renovada novidade de florir.

Que idade é preciso ter para saber coisas como estas pequenas coisas, tais como perceber o que as criaturas não querem que se perceba abertamente, mas sim de uma maneira adivinhada e não dita?
Afinal sou muito mais velha do que a velha glicínia. Porque os velhos são sábios. Além de pueris.
Quando lhe mostrar espanto por vê-la florida serei tão velha como se sua mãe.
Mas o gosto de a ver florida far-me-á tão nova como cada uma das suas flores novas.

Ontem floriu neste lugar a grande amendoeira.
Que idade tinha eu ontem (ou no mês passado), quando floriu a grande amendoeira de flores brancas?
Floriu para mim, suponho. Gostei muito.
Encostei-me ao seu tronco e olhei para cima.
Ela arredondou-se como uma grande esfera, como uma cúpula de flores brancas e riu-se de gozo.
Pensei nas coisas deslumbrantes que me dão.
Pensei no que me tens dado.

Depois disso floriu a amendoeira das flores cor de rosa.
Mas essas, as flores cor de rosa, correram por aqui e por ali por entre as ramadas das oliveiras para me fazer rir, para que eu as procurasse uma a uma por entre as ramadas das oliveiras.
Eram flores para os olhos e para o riso, enquanto as outras, as flores brancas da grande amendoeira, eram flores tranquilas para o conjunto de ver, de respirar, de amar as coisas em volta, mesmo as coisas que não tinham que ver com a grande amendoeira e a sua cúpula de flores brancas.

Que idade tive nesses dias?
Menos talvez do que amanhã ou talvez incrivelmente mais.
Que idade terei amanhã?

Que idade tenho quando te vejo do meu lado esquerdo?
Isso não tem que ver com a idade que terei amanhã. Nem com a idade que tive ontem.
Mas tem seguramente que ver com a idade que tenho hoje.
Com a minha idade de todos os dias que são exactamente os dias de hoje.
Chamo dias de hoje aos dias que decorrem dentro de uma grande lucidez.
Forçosamente, coloquei-te dentro dos dias extremamente lúcidos.
Hoje.
Olhando-te vejo-te imóvel na tua idade inalterável.
Vejo o teu lado direito.
Nunca me será dado ver o teu lado esquerdo. Porque, mesmo que abrisses para mim as tuas janelas, eu só poderia ver nelas, olhando-as, o teu rosto.
Um rosto é uma peça hermética.

É de difícil acesso, o nosso lado esquerdo.

Tu pertences aos dias extremamente lúcidos e agora estou falando apenas nos dias das minhas idades mutáveis e incertas e deste lugar que vivo agora onde me permito sair do tempo às vezes.
E nada me impede de fazer anos amanhã. Ou depois de amanhã. Vou festejá-los como é costume, em superfície e no primeiro plano.


in
Árvores de Domingo, Maria Keil



Gérard Castello-Lopes, Lisboa 1956

dois pontos.

ponto 1. Quando eu tinha onze anos, obrigaram-me a repetir uma prova de velocidade porque não era possível que eu tivesse tido tempos melhores que os rapazes todos. Claro que os meus tempos repetidos foram piores que os primeiros, sob a desconfiança geral da turma e da professora pressionada a repetir porque o cronómetro estava avariado de certeza. Só alguns anos depois consegui fazer sentido desse pequeno acontecimento.




ponto 2. Mulheres com mais testoterona que o normal sempre existiram, mas escondem-se. Semenya está à vista e impõe-se. A diferença é essa. Em vez de ser a mulher barbada de um circo ou mendicante nas ruas, pulveriza os tempos considerados aceitáveis para "o sexo fraco" [aqui aplica-se às mil maravilhas]. Se se tratasse de uma mera e lícita desconfiança não se tinha montado este circo todo à volta da mulher que só pode ser homem. Se o freak não vai ao circo, o circo vai ao freak.

Digo eu.

um novo ano...

... estás prestes a começar.

o portador de água

A brisa sopra de T'ai Chi — na montanha,
Ch'ien e K'un estão juntos em ti,
Sol e lua — homem e mulher,
Ela está em ti e tu nela.
O teu começo está novamente em ti —
A bênção do ar é como uma pérola entre os dois.

E ao longo da estrada poeirenta, como conta a história,
Chega um homem à tua aldeia transportando água
Saúda-te silenciosamente com os seus brilhantes olhos azuis,
O céu com uma capa à volta dele, atrás dele.

E dá-ta.

in
I-Ching, o livro das mutações, Hexagrama 11 — T'ai



Hotel Royal, 1999
foto de Rodrigues
lá em baixo, no Jardim Vasco da Gama, os leques vermelhos acordavam connosco às oito da manhã, transportando na sua leveza lenta todo o peso do ar.

segunda-feira, agosto 24, 2009

le chat sur les mur murs

havia a fotografia. e a ela, com tanto Avignon dentro da objectiva, faltavam-lhe as palavras. e se no fim da imagem encontrasse as palavras, ela confiava encontrar também o cinema. depois descobriu que não era bem assim. e no caminho para essa viuvez branca da inocência que se quer perdida, construíu-se em ruas e areia, em vagas sucessivas, em espelhos, em amor e perda, na doença, no documento dos filhos que lhe cresceram na película. e tudo está ali resumido, a velha de costas e o pequeno Jacquot ausente, a imagem parece geométrica, mas o pé esquerdo apoia-se no ferro e o direito encosta-se àquele discreto desequilíbrio que subverte essa aparente solidez da imagem. a imagem tomba. e pode bem passar por nós sem que notemos porquê. e tudo se me resume ali. na velha branca encapuzada, na viúva branca sentada na sua cadeira, no pequenino desequilíbrio de traços que lhe assina a imagem.






mas no fundo não é mais do que isto. le film d'une petite vieille bien-vivante, une cinéaste qui aime faire du cinema. só isso. porque nisso está tudo.

escada 3 — as duas luas

Carousels twirl all around exited youth/I do not mind at all/We’re tonight in a world full of thrills - it can carry me up, far above it all.

It’s a long way down from here to the sound/Watch the faces go ‘round
to the stars/then the ground.

Ferris wheels carried us away/not so long ago/Times I’ve betrayed/Where would we be now if I had taken your hand?/Well the years they pass by slow/don’t they?

It’s a long way down from here to the sound/Watch the faces go ‘round
to the stars/then the ground.



Carousels - Beirut

vê, é este o caso. fazes contas à luz e vês de que lado estás e de que lado podes estar. giras-lhe o compasso e a vista é outra, o reflexo extenuado não fura a penumbra, ténue, cada vez mais ténue. é a diferença entre teres o primeiro degrau no chão ou já a meio caminho, atenuado na medida em que sobe enquanto desce. na projecção da caverna, as duas luas riem-se da forma uma da outra, cada uma julgando-se a própria, a impostura esquecendo que quem não vê formas não vê corações, ainda que estes fluoresçam. vê, é este o caso. rectângulos são construção, círculos inevitabilidade. e nada mais pende do teu tecto além do teu próprio casquilho.




rumo do fumo, Julho de 2009

quinta-feira, agosto 20, 2009

segunda-feira, agosto 17, 2009

'cuz if we ain't we're murderers.




Boa semana!


[bem-vinda, Puto. :)]

sábado, agosto 15, 2009

post em feicebuquês — em que estás a pensar?

Manel acha a lei da vida uma grande foda. e também acha indecente que a Isabel Alves Costa ainda tenha visto morrer o seu Rivoli antes de si. e está triste, para além de tudo. e cá fica, a pensar no Porto.

sexta-feira, agosto 14, 2009

quinta-feira, agosto 13, 2009

You is nothing and still there is nothing but You.

The Brain — is wider than the Sky —
For — put them side by side —
The one the other will contain
With ease — and You — beside —



The Brain is deeper than the sea —
For — hold them — Blue to Blue —
The one the other will absorb —
As Sponges — Buckets — do —



The Brain is just the weight of God —
For — Heft them — Pound for Pound —
And they will differ — if they do —
As Syllable from Sound —

Emily Dickinson


AQUI está a nascer um espectáculo.

boca — variação






Tell Me Where It Hurts - Kevin Blechdom

segunda-feira, agosto 10, 2009

no surprises



que me custe respirar na proximidade.
que estiques o pescoço na distância à procura de um olhar.
que eu não o faça.
que não venhas, que não cruzes e nunca possas saber que não te fugi, simplesmente não te procurei.
que não tenhas coragem de descobrir se eu te responderia caso me dissesses olá.
que não intuas porque é o olhar na distância apenas mais uma peça do jogo que eu recuso.
que tenha de te manter calado na minha cabeça para que ela não se afogue uma e outra vez.
que o aquário redondo não vaze de repente.
que a noite me tire o tapete e a luz te projecte nos meus olhos.

sem surpresas, portanto.


...

emagreceste.

you can't beat me, for I am your lord.




... well, lord, you're in the wrong place tonight.