quinta-feira, agosto 27, 2009

dois pontos.

ponto 1. Quando eu tinha onze anos, obrigaram-me a repetir uma prova de velocidade porque não era possível que eu tivesse tido tempos melhores que os rapazes todos. Claro que os meus tempos repetidos foram piores que os primeiros, sob a desconfiança geral da turma e da professora pressionada a repetir porque o cronómetro estava avariado de certeza. Só alguns anos depois consegui fazer sentido desse pequeno acontecimento.




ponto 2. Mulheres com mais testoterona que o normal sempre existiram, mas escondem-se. Semenya está à vista e impõe-se. A diferença é essa. Em vez de ser a mulher barbada de um circo ou mendicante nas ruas, pulveriza os tempos considerados aceitáveis para "o sexo fraco" [aqui aplica-se às mil maravilhas]. Se se tratasse de uma mera e lícita desconfiança não se tinha montado este circo todo à volta da mulher que só pode ser homem. Se o freak não vai ao circo, o circo vai ao freak.

Digo eu.

um novo ano...

... estás prestes a começar.

o portador de água

A brisa sopra de T'ai Chi — na montanha,
Ch'ien e K'un estão juntos em ti,
Sol e lua — homem e mulher,
Ela está em ti e tu nela.
O teu começo está novamente em ti —
A bênção do ar é como uma pérola entre os dois.

E ao longo da estrada poeirenta, como conta a história,
Chega um homem à tua aldeia transportando água
Saúda-te silenciosamente com os seus brilhantes olhos azuis,
O céu com uma capa à volta dele, atrás dele.

E dá-ta.

in
I-Ching, o livro das mutações, Hexagrama 11 — T'ai



Hotel Royal, 1999
foto de Rodrigues
lá em baixo, no Jardim Vasco da Gama, os leques vermelhos acordavam connosco às oito da manhã, transportando na sua leveza lenta todo o peso do ar.

segunda-feira, agosto 24, 2009

le chat sur les mur murs

havia a fotografia. e a ela, com tanto Avignon dentro da objectiva, faltavam-lhe as palavras. e se no fim da imagem encontrasse as palavras, ela confiava encontrar também o cinema. depois descobriu que não era bem assim. e no caminho para essa viuvez branca da inocência que se quer perdida, construíu-se em ruas e areia, em vagas sucessivas, em espelhos, em amor e perda, na doença, no documento dos filhos que lhe cresceram na película. e tudo está ali resumido, a velha de costas e o pequeno Jacquot ausente, a imagem parece geométrica, mas o pé esquerdo apoia-se no ferro e o direito encosta-se àquele discreto desequilíbrio que subverte essa aparente solidez da imagem. a imagem tomba. e pode bem passar por nós sem que notemos porquê. e tudo se me resume ali. na velha branca encapuzada, na viúva branca sentada na sua cadeira, no pequenino desequilíbrio de traços que lhe assina a imagem.






mas no fundo não é mais do que isto. le film d'une petite vieille bien-vivante, une cinéaste qui aime faire du cinema. só isso. porque nisso está tudo.

escada 3 — as duas luas

Carousels twirl all around exited youth/I do not mind at all/We’re tonight in a world full of thrills - it can carry me up, far above it all.

It’s a long way down from here to the sound/Watch the faces go ‘round
to the stars/then the ground.

Ferris wheels carried us away/not so long ago/Times I’ve betrayed/Where would we be now if I had taken your hand?/Well the years they pass by slow/don’t they?

It’s a long way down from here to the sound/Watch the faces go ‘round
to the stars/then the ground.



Carousels - Beirut

vê, é este o caso. fazes contas à luz e vês de que lado estás e de que lado podes estar. giras-lhe o compasso e a vista é outra, o reflexo extenuado não fura a penumbra, ténue, cada vez mais ténue. é a diferença entre teres o primeiro degrau no chão ou já a meio caminho, atenuado na medida em que sobe enquanto desce. na projecção da caverna, as duas luas riem-se da forma uma da outra, cada uma julgando-se a própria, a impostura esquecendo que quem não vê formas não vê corações, ainda que estes fluoresçam. vê, é este o caso. rectângulos são construção, círculos inevitabilidade. e nada mais pende do teu tecto além do teu próprio casquilho.




rumo do fumo, Julho de 2009

quinta-feira, agosto 20, 2009

segunda-feira, agosto 17, 2009

'cuz if we ain't we're murderers.




Boa semana!


[bem-vinda, Puto. :)]

sábado, agosto 15, 2009

post em feicebuquês — em que estás a pensar?

Manel acha a lei da vida uma grande foda. e também acha indecente que a Isabel Alves Costa ainda tenha visto morrer o seu Rivoli antes de si. e está triste, para além de tudo. e cá fica, a pensar no Porto.

sexta-feira, agosto 14, 2009

quinta-feira, agosto 13, 2009

You is nothing and still there is nothing but You.

The Brain — is wider than the Sky —
For — put them side by side —
The one the other will contain
With ease — and You — beside —



The Brain is deeper than the sea —
For — hold them — Blue to Blue —
The one the other will absorb —
As Sponges — Buckets — do —



The Brain is just the weight of God —
For — Heft them — Pound for Pound —
And they will differ — if they do —
As Syllable from Sound —

Emily Dickinson


AQUI está a nascer um espectáculo.

boca — variação






Tell Me Where It Hurts - Kevin Blechdom

segunda-feira, agosto 10, 2009

no surprises



que me custe respirar na proximidade.
que estiques o pescoço na distância à procura de um olhar.
que eu não o faça.
que não venhas, que não cruzes e nunca possas saber que não te fugi, simplesmente não te procurei.
que não tenhas coragem de descobrir se eu te responderia caso me dissesses olá.
que não intuas porque é o olhar na distância apenas mais uma peça do jogo que eu recuso.
que tenha de te manter calado na minha cabeça para que ela não se afogue uma e outra vez.
que o aquário redondo não vaze de repente.
que a noite me tire o tapete e a luz te projecte nos meus olhos.

sem surpresas, portanto.


...

emagreceste.

you can't beat me, for I am your lord.




... well, lord, you're in the wrong place tonight.

domingo, agosto 09, 2009

forever undead




[but there must be some kind of new life in the aftermath...]

sábado, agosto 08, 2009

do pastoreio

vejo e não se perde nas artes do pastoreio. as antenas vibram. captam todos os sinais e o único erro está em fechá-los. tranquilizam-se os lábios, abranda o coração. entre iguais é mais fácil.

semicerrado

[vi. mas ainda me custa olhar.]

o projector



valeu a viagem antecipada umas horas para o cheiro possível. búfalos em colisão. o almodôvar toca sax alto. o violoncelo enrola-se no corpo que se enrola nele. o baterista possante faz vir toda a sua música na subtileza das vassouras. e o piano desconstrutivista não consegue resistir a impôr o seu romantismo. e de repente sente-se uma luz inesperada a acariciar a têmpora direita, e espontaneamente o pescoço move-se para descobrir que o projector é aquele que ninguém liga e que chega ao concerto quando bem entende. três noites e muito sol, jazz no vento ao regresso. pois, foi pouco. mas foi na lua cheia, pode ser que chegue. amanhã recomeça a engrenagem. ala arriba.


Gulbenkian, 7 de agosto de 2009

terça-feira, agosto 04, 2009

magritte em lisboa


Lisboa, 2 de agosto de 2009



gosto. assim, camada de luz, camada de sombra, pontos de luz, reflexo na fachada. resumo de cidade. o risco fez-se cheirar, passou a poucos milímetros da nuca, e eu entro em agosto. ela ficou para trás, o risco instalou-se-lhe por dentro, ela foi para a frente e deixa peitos vazios. e eu fico assim, em estupefacção, em aperto, em saudade dos que vão ficar, em braços para as lágrimas que me procuram. e nem falo. não posso. é muito. entro em agosto. resumo para mim. e chega.

domingo, agosto 02, 2009

entre os leques

nem sempre é com as mãos que consigo. observo os meus dedos e os limites são o que lhes é tudo. e é assim, resignação em pele. tanto que começa e acaba com este mês e que não cabe nas mãos, e que não se gasta num toque, num afago, tanto que só agora começou. incerteza — e a dúvida a rir-se. e muito calor na água fria. e cabelos ruivos, luz de sol, numa escova. e um mamilo com glitter vermelho. e olhos grandes e corações do tamanho dos olhos a bombar sob um par de baquetas que tocam orquestras inteiras, e a voz a esticar com o corpo que entre os lábios se fala, e apenas porque sim, porque está lá e funciona e mexe todos os dias, dá ao rabo, morde. amigos não se fazem, reconhecem-se. e pouco tempo para pousar e o sul e ao sul à espera e em espera. e eu. outra vez com aquele ar de macau em outubro, a olhar pela janela, a sentir os pés descalços na madeira. e a tentar ver-me entre os leques na praça lá em baixo.

quando entro nesta passadeira...




... parece que não há maneira de sair.

sexta-feira, julho 31, 2009

quarta-feira, julho 29, 2009

divergências troglodíticas — o cro-magnon

no telejornal da 1 fala-se na captura de um foragido que há meia-dúzia de anos vivia em grutas, desde que se evadira da cadeia. a malta gosta destas operações especiais, que levam nome e tudo. ainda são restos da M:I, não a do Tom Cruise, que essa não marcou ninguém. no rodapé aparecem escritas as costumeiras informações: o nome de quem fala para a câmara [devo dizer que muita abertura de mentalidades se deve a estes rodapés, já que tanta vez não bate a letra com a caneta que a imagem que tenho da Dona Adelina é a de um respeitável e viril oficial fardado], a localização, e, claro, o nome da operação de caça ao troglodita.

"Operação Cromanhon".

E face a esta grafia revolucionária, a reportagem policial no terreno torna-se num "quem é quem?"

terça-feira, julho 28, 2009

a quadrinha popular...

... que calha sempre mal ao manjerico, impertinente ponto preto na verdura, fraco sorriso da formosura bairrista. mas julho está já no fim e o ritmo dos dias já não é de marcha. é mais refinado. compensa o quadrado.


Ser Aquele - Camané

Se estou só, quero não estar,
Se não estou, quero estar só,
Enfim, quero sempre estar
Da maneira que não estou.

Ser feliz é ser aquele.
E aquele não é feliz,
Porque pensa dentro dele
E não dentro do que eu quis.

A gente faz o que quer
Daquilo que não é nada,
Mas falha se o não fizer,
Fica perdido na estrada.

Fernando Pessoa

silence is a delusion of the senses




hexagrama 51
Chen
[Trauma]

Faça uma oferenda, pois os traumas perturbam imenso, mas ele está a tagarelar e a rir. O trauma assusta todos aqueles que se encontram a centenas de quilómetros de distância, contudo nem uma gota de vinho sagrado cai da colher.


I—Ching, o Livro das Mutações, Livraria Civilização Editora


[este hexagrama já esteve aqui publicado, num contexto completamente diferente mas ainda vivo na minha memória. preferia que tivesse saído outro, mas talvez eu não tenha feito a pergunta certa. e há que ser honesto com a sorte. fare thee well, Merce.]

on chance and questions and answers

A pivot da 2 diz que Merce e Cage desenvolveram uma longa parceria artística e... [as reticências estavam mesmo lá] sentimental. Se um deles fosse mulher, a pareceria seria, sem hesitações, descrita como amorosa. Mas vá, já ouvi pior do que parceria sentimental. Se bem que soa um bocadinho lamechas, convenhamos. Oh well, they loved each other for sentimental reasons...





... if I get the answers and no doors open, it means my questions were superficial and not radical.

domingo, julho 26, 2009

do the right thing

é tudo o que se quer. excepto naqueles momentos em que só o erro está certo, de tão desumano que é o acerto. e é aí que entra a tristeza, em alquimias de cheiros e sons, e de poros, e da memória da pele ou de um relance do olho rasgado, de um aferir da grossura dos lábios. só errar é humano. mas a paralisia vem nos momentos reptilíneos, em que dançar como a cobra não chega.