havia a fotografia. e a ela, com tanto Avignon dentro da objectiva, faltavam-lhe as palavras. e se no fim da imagem encontrasse as palavras, ela confiava encontrar também o cinema. depois descobriu que não era bem assim. e no caminho para essa viuvez branca da inocência que se quer perdida, construíu-se em ruas e areia, em vagas sucessivas, em espelhos, em amor e perda, na doença, no documento dos filhos que lhe cresceram na película. e tudo está ali resumido, a velha de costas e o pequeno Jacquot ausente, a imagem parece geométrica, mas o pé esquerdo apoia-se no ferro e o direito encosta-se àquele discreto desequilíbrio que subverte essa aparente solidez da imagem. a imagem tomba. e pode bem passar por nós sem que notemos porquê. e tudo se me resume ali. na velha branca encapuzada, na viúva branca sentada na sua cadeira, no pequenino desequilíbrio de traços que lhe assina a imagem.
mas no fundo não é mais do que isto. le film d'une petite vieille bien-vivante, une cinéaste qui aime faire du cinema. só isso. porque nisso está tudo.
segunda-feira, agosto 24, 2009
escada 3 — as duas luas
Carousels twirl all around exited youth/I do not mind at all/We’re tonight in a world full of thrills - it can carry me up, far above it all.
It’s a long way down from here to the sound/Watch the faces go ‘round
to the stars/then the ground.
Ferris wheels carried us away/not so long ago/Times I’ve betrayed/Where would we be now if I had taken your hand?/Well the years they pass by slow/don’t they?
It’s a long way down from here to the sound/Watch the faces go ‘round
to the stars/then the ground.
Carousels - Beirut
vê, é este o caso. fazes contas à luz e vês de que lado estás e de que lado podes estar. giras-lhe o compasso e a vista é outra, o reflexo extenuado não fura a penumbra, ténue, cada vez mais ténue. é a diferença entre teres o primeiro degrau no chão ou já a meio caminho, atenuado na medida em que sobe enquanto desce. na projecção da caverna, as duas luas riem-se da forma uma da outra, cada uma julgando-se a própria, a impostura esquecendo que quem não vê formas não vê corações, ainda que estes fluoresçam. vê, é este o caso. rectângulos são construção, círculos inevitabilidade. e nada mais pende do teu tecto além do teu próprio casquilho.

rumo do fumo, Julho de 2009
It’s a long way down from here to the sound/Watch the faces go ‘round
to the stars/then the ground.
Ferris wheels carried us away/not so long ago/Times I’ve betrayed/Where would we be now if I had taken your hand?/Well the years they pass by slow/don’t they?
It’s a long way down from here to the sound/Watch the faces go ‘round
to the stars/then the ground.
Carousels - Beirut
vê, é este o caso. fazes contas à luz e vês de que lado estás e de que lado podes estar. giras-lhe o compasso e a vista é outra, o reflexo extenuado não fura a penumbra, ténue, cada vez mais ténue. é a diferença entre teres o primeiro degrau no chão ou já a meio caminho, atenuado na medida em que sobe enquanto desce. na projecção da caverna, as duas luas riem-se da forma uma da outra, cada uma julgando-se a própria, a impostura esquecendo que quem não vê formas não vê corações, ainda que estes fluoresçam. vê, é este o caso. rectângulos são construção, círculos inevitabilidade. e nada mais pende do teu tecto além do teu próprio casquilho.

rumo do fumo, Julho de 2009
quinta-feira, agosto 20, 2009
segunda-feira, agosto 17, 2009
domingo, agosto 16, 2009
sábado, agosto 15, 2009
post em feicebuquês — em que estás a pensar?
Manel acha a lei da vida uma grande foda. e também acha indecente que a Isabel Alves Costa ainda tenha visto morrer o seu Rivoli antes de si. e está triste, para além de tudo. e cá fica, a pensar no Porto.
sexta-feira, agosto 14, 2009
quinta-feira, agosto 13, 2009
You is nothing and still there is nothing but You.
The Brain — is wider than the Sky —
For — put them side by side —
The one the other will contain
With ease — and You — beside —
The Brain is deeper than the sea —
For — hold them — Blue to Blue —
The one the other will absorb —
As Sponges — Buckets — do —
The Brain is just the weight of God —
For — Heft them — Pound for Pound —
And they will differ — if they do —
As Syllable from Sound —
Emily Dickinson
AQUI está a nascer um espectáculo.
For — put them side by side —
The one the other will contain
With ease — and You — beside —
The Brain is deeper than the sea —
For — hold them — Blue to Blue —
The one the other will absorb —
As Sponges — Buckets — do —
The Brain is just the weight of God —
For — Heft them — Pound for Pound —
And they will differ — if they do —
As Syllable from Sound —
Emily Dickinson
AQUI está a nascer um espectáculo.
segunda-feira, agosto 10, 2009
no surprises
que me custe respirar na proximidade.
que estiques o pescoço na distância à procura de um olhar.
que eu não o faça.
que não venhas, que não cruzes e nunca possas saber que não te fugi, simplesmente não te procurei.
que não tenhas coragem de descobrir se eu te responderia caso me dissesses olá.
que não intuas porque é o olhar na distância apenas mais uma peça do jogo que eu recuso.
que tenha de te manter calado na minha cabeça para que ela não se afogue uma e outra vez.
que o aquário redondo não vaze de repente.
que a noite me tire o tapete e a luz te projecte nos meus olhos.
sem surpresas, portanto.
...
emagreceste.
domingo, agosto 09, 2009
sábado, agosto 08, 2009
do pastoreio
vejo e não se perde nas artes do pastoreio. as antenas vibram. captam todos os sinais e o único erro está em fechá-los. tranquilizam-se os lábios, abranda o coração. entre iguais é mais fácil.
o projector
valeu a viagem antecipada umas horas para o cheiro possível. búfalos em colisão. o almodôvar toca sax alto. o violoncelo enrola-se no corpo que se enrola nele. o baterista possante faz vir toda a sua música na subtileza das vassouras. e o piano desconstrutivista não consegue resistir a impôr o seu romantismo. e de repente sente-se uma luz inesperada a acariciar a têmpora direita, e espontaneamente o pescoço move-se para descobrir que o projector é aquele que ninguém liga e que chega ao concerto quando bem entende. três noites e muito sol, jazz no vento ao regresso. pois, foi pouco. mas foi na lua cheia, pode ser que chegue. amanhã recomeça a engrenagem. ala arriba.

Gulbenkian, 7 de agosto de 2009
terça-feira, agosto 04, 2009
magritte em lisboa

Lisboa, 2 de agosto de 2009
gosto. assim, camada de luz, camada de sombra, pontos de luz, reflexo na fachada. resumo de cidade. o risco fez-se cheirar, passou a poucos milímetros da nuca, e eu entro em agosto. ela ficou para trás, o risco instalou-se-lhe por dentro, ela foi para a frente e deixa peitos vazios. e eu fico assim, em estupefacção, em aperto, em saudade dos que vão ficar, em braços para as lágrimas que me procuram. e nem falo. não posso. é muito. entro em agosto. resumo para mim. e chega.
domingo, agosto 02, 2009
entre os leques
nem sempre é com as mãos que consigo. observo os meus dedos e os limites são o que lhes é tudo. e é assim, resignação em pele. tanto que começa e acaba com este mês e que não cabe nas mãos, e que não se gasta num toque, num afago, tanto que só agora começou. incerteza — e a dúvida a rir-se. e muito calor na água fria. e cabelos ruivos, luz de sol, numa escova. e um mamilo com glitter vermelho. e olhos grandes e corações do tamanho dos olhos a bombar sob um par de baquetas que tocam orquestras inteiras, e a voz a esticar com o corpo que entre os lábios se fala, e apenas porque sim, porque está lá e funciona e mexe todos os dias, dá ao rabo, morde. amigos não se fazem, reconhecem-se. e pouco tempo para pousar e o sul e ao sul à espera e em espera. e eu. outra vez com aquele ar de macau em outubro, a olhar pela janela, a sentir os pés descalços na madeira. e a tentar ver-me entre os leques na praça lá em baixo.
sexta-feira, julho 31, 2009
quarta-feira, julho 29, 2009
divergências troglodíticas — o cro-magnon
no telejornal da 1 fala-se na captura de um foragido que há meia-dúzia de anos vivia em grutas, desde que se evadira da cadeia. a malta gosta destas operações especiais, que levam nome e tudo. ainda são restos da M:I, não a do Tom Cruise, que essa não marcou ninguém. no rodapé aparecem escritas as costumeiras informações: o nome de quem fala para a câmara [devo dizer que muita abertura de mentalidades se deve a estes rodapés, já que tanta vez não bate a letra com a caneta que a imagem que tenho da Dona Adelina é a de um respeitável e viril oficial fardado], a localização, e, claro, o nome da operação de caça ao troglodita.
"Operação Cromanhon".
E face a esta grafia revolucionária, a reportagem policial no terreno torna-se num "quem é quem?"
"Operação Cromanhon".
E face a esta grafia revolucionária, a reportagem policial no terreno torna-se num "quem é quem?"
terça-feira, julho 28, 2009
a quadrinha popular...
... que calha sempre mal ao manjerico, impertinente ponto preto na verdura, fraco sorriso da formosura bairrista. mas julho está já no fim e o ritmo dos dias já não é de marcha. é mais refinado. compensa o quadrado.
Ser Aquele - Camané
Se estou só, quero não estar,
Se não estou, quero estar só,
Enfim, quero sempre estar
Da maneira que não estou.
Ser feliz é ser aquele.
E aquele não é feliz,
Porque pensa dentro dele
E não dentro do que eu quis.
A gente faz o que quer
Daquilo que não é nada,
Mas falha se o não fizer,
Fica perdido na estrada.
Fernando Pessoa
Ser Aquele - Camané
Se estou só, quero não estar,
Se não estou, quero estar só,
Enfim, quero sempre estar
Da maneira que não estou.
Ser feliz é ser aquele.
E aquele não é feliz,
Porque pensa dentro dele
E não dentro do que eu quis.
A gente faz o que quer
Daquilo que não é nada,
Mas falha se o não fizer,
Fica perdido na estrada.
Fernando Pessoa
silence is a delusion of the senses
hexagrama 51
Chen
[Trauma]
Faça uma oferenda, pois os traumas perturbam imenso, mas ele está a tagarelar e a rir. O trauma assusta todos aqueles que se encontram a centenas de quilómetros de distância, contudo nem uma gota de vinho sagrado cai da colher.
I—Ching, o Livro das Mutações, Livraria Civilização Editora
[este hexagrama já esteve aqui publicado, num contexto completamente diferente mas ainda vivo na minha memória. preferia que tivesse saído outro, mas talvez eu não tenha feito a pergunta certa. e há que ser honesto com a sorte. fare thee well, Merce.]
on chance and questions and answers
A pivot da 2 diz que Merce e Cage desenvolveram uma longa parceria artística e... [as reticências estavam mesmo lá] sentimental. Se um deles fosse mulher, a pareceria seria, sem hesitações, descrita como amorosa. Mas vá, já ouvi pior do que parceria sentimental. Se bem que soa um bocadinho lamechas, convenhamos. Oh well, they loved each other for sentimental reasons...
... if I get the answers and no doors open, it means my questions were superficial and not radical.
... if I get the answers and no doors open, it means my questions were superficial and not radical.
domingo, julho 26, 2009
do the right thing
é tudo o que se quer. excepto naqueles momentos em que só o erro está certo, de tão desumano que é o acerto. e é aí que entra a tristeza, em alquimias de cheiros e sons, e de poros, e da memória da pele ou de um relance do olho rasgado, de um aferir da grossura dos lábios. só errar é humano. mas a paralisia vem nos momentos reptilíneos, em que dançar como a cobra não chega.
quarta-feira, julho 22, 2009
nota sem culpa.
pois, é também por causa desta democonfusão que o Blue! tem estado em modo poupança de energia. este fim de temporada está a ser uma prenda, mas o cansaço deixa traço. ando sem pica.
aqui, quer dizer. ando a pensar até no blogoimobiliário. au suivant!
aqui, quer dizer. ando a pensar até no blogoimobiliário. au suivant!
a desconstrução civil!
Teatramos a cantar, desconstruímo-nos com a Kevin, o Christopher e o Andres, atiramo-nos aos crocodilos dispostos a arcar com as amputações porque esperamos sempre o nascimento de novos membros a cada noite, especialmente porque isso não tem lógica nenhuma na sequência, bombamos rock e country e centrifugamos as referências que saltam dos sabores descobertos em línguas diferentes, desdenhamo-las e deixamos que elas nos redesconstruam. Curtimos que nem uns malucos. E tentamos que os salpicos da consciência e da festa cheguem ao segundo balcão.
E às vezes conseguimos. Até 2 de Agosto, no São Luiz, caos instalado, mercado do vomitado, anarquia, trissomia, demolição, hemofilia, a música de uma americana deliciosamente destravada, as palavras em Praga com cheiro a Vieira Mendes, a alta filosofia e os vídeos do youtube, a baixa política e o genocídio, a sequência sem lógica e uma cosmogonia endemoinhada.

rua antónio maria cardoso, Julho de 2009
DEMO
Teatro Municipal de São Luiz, de quinta a sábado às 21h, domingo às 17h30
até 2 de Agosto
Uma criação Teatro Praga com música original de Kevin Blechdom, Christopher Fleeger e Andres Lõo
Com André e. Teodósio, André Godinho, Andres Lõo, Carlos António, Christopher Fleeger, Cláudia Jardim, Joana Barrios, Joana Manuel, José Maria Vieira Mendes, Kevin Blechdom, Luís Madureira, Miguel Bonneville, Patrícia da Silva, Pedro Penim e Rita Só
Participação Especial Rão Kyao
Crocodilos André Campino, Diogo Bento e mulher bala
Colaboração Vasco Araújo
Iluminação e Direcção Técnica Daniel Worm d’Assumpção
Apoio vocal Luís Madureira
Apoio coreográfico João Galante
Produção Cristina Correia, Joana Gusmão e Pedro Pires
Co-produção SLTM / Teatro Praga
Uma encomenda do São Luiz Teatro Municipal ao Teatro Praga.
Apoio O Espaço do Tempo / DEVIR / Goethe Institute / O Rumo do Fumo
Demo é uma encomenda do São Luiz Teatro Municipal ao Teatro Praga e em co-produção com o Teatro Praga.
Co-apresentação Festival de Almada
E às vezes conseguimos. Até 2 de Agosto, no São Luiz, caos instalado, mercado do vomitado, anarquia, trissomia, demolição, hemofilia, a música de uma americana deliciosamente destravada, as palavras em Praga com cheiro a Vieira Mendes, a alta filosofia e os vídeos do youtube, a baixa política e o genocídio, a sequência sem lógica e uma cosmogonia endemoinhada.

rua antónio maria cardoso, Julho de 2009
DEMO
Teatro Municipal de São Luiz, de quinta a sábado às 21h, domingo às 17h30
até 2 de Agosto
Uma criação Teatro Praga com música original de Kevin Blechdom, Christopher Fleeger e Andres Lõo
Com André e. Teodósio, André Godinho, Andres Lõo, Carlos António, Christopher Fleeger, Cláudia Jardim, Joana Barrios, Joana Manuel, José Maria Vieira Mendes, Kevin Blechdom, Luís Madureira, Miguel Bonneville, Patrícia da Silva, Pedro Penim e Rita Só
Participação Especial Rão Kyao
Crocodilos André Campino, Diogo Bento e mulher bala
Colaboração Vasco Araújo
Iluminação e Direcção Técnica Daniel Worm d’Assumpção
Apoio vocal Luís Madureira
Apoio coreográfico João Galante
Produção Cristina Correia, Joana Gusmão e Pedro Pires
Co-produção SLTM / Teatro Praga
Uma encomenda do São Luiz Teatro Municipal ao Teatro Praga.
Apoio O Espaço do Tempo / DEVIR / Goethe Institute / O Rumo do Fumo
Demo é uma encomenda do São Luiz Teatro Municipal ao Teatro Praga e em co-produção com o Teatro Praga.
Co-apresentação Festival de Almada
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