casa é para a semana. mais ou menos de vez. como sempre mais ou menos. hoje risco os dias na parede. e abro a mala para ir guardando o que é supérfluo para uma última semana em que tempo é palavra
que só no palco faz sentido.
terça que vem hei-de estar nas portas de Santo Antão, a ouver o Byrne. para regressar feliz para a minha casa, com a minha luz pela frente. para parar numa lágrima o passado.
houve aquele 2005. a consciência de camisa e bigodinho de feltro seguida do nerone. e depois a elvira de armadura, os fatos cinzentos do reset. e depois o ferrante de cartola. mas com esta eu não contava. só que ela veio. e eu espetei-lhe os dentes, e nos dentes espichou como uma laranja quando é trincada como se fosse amor. estou confortável nesta pele. quero pagar. nu, ao sol, debaixo do grande céu. este excerto já aqui esteve, na noite em que saí do cinema assolapada. eu não pensei nela, neste processo, pensei em homens, nos meus homens, e no que eles não sabem ser de Baal. mas hoje o paulo, que esteve ao meu lado nessa noite assolapada, chama-me, com um grande sorriso, "baal dylan", e só aí caí em mim. e percebi que nem sempre o material que dá espinha ao nosso trabalho está claramente na parte da frente da nossa cabeça. ainda não comprei o filme, mas já vi este clip do youtube vezes que nem conto. eu não sabia, mas a adoração por miss blanchett acendeu-me umas quantas candeias no caminho.
[ando rebentada, feita num caco, sem tempo para cortar as unhas, rebocaram-me o carro hoje, dia de estreia, e a última vez foi há um mês, no dia de estreia [just because you're paranoid, doesn't mean they're not out to get you...]. faço dois espectáculos e três personagens por dia, nos intervalos como, durmo, fumo cigarros e faço testes estúpidos no facebook. estou duas fotografias atrasada. tenho saudades dos meus gatos e do meu Puto, e quando me for, em breve, terei saudades dos meus Gatos e do meu puto. e adoro a minha vida.]
É uma leitura muito encenada. É um texto-menir. É uma adaptação especialmente boa. É um elefante com o yin para um lado e o yang para o outro e a tromba no meio. É uma pequena catarse para mim, mas isso ninguém precisa de saber. E é provavelmente a única oportunidade que terei de fazer um papel que o Mário Viegas já fez. Até à véspera da revolução, sou o yin de Baal à tarde e o Yang de Auguste à noite. Façam o favor de entrar na casa das feras.
de Bertolt Brecht texto Yvette K. Centeno direcção Nuno M Cardoso interpretação Emília Silvestre, Fernando Moreira, Joana Manuel, João Castro, Jorge Mota, Luís Araújo, Marta Freitas, Pedro Almendra, Pedro Frias, Pedro Jorge Ribeiro, Sara Carinhas de 17 a 24 de Abril terça a sábado, às 15h
Nós somos os parasitas, os últimos seres que não são servos, como Baal e Karamazov entre nós. Quanto vale um poema? Quatro camisas, um pão, meia vaca leiteira? Não fazemos mercadoria, só fazemos coisas para oferecer.
talvez um dia te dissesse a verdade. talvez um dia pudesse sonhar a tua pele de olhos abertos. talvez um dia me ensinasses a aprender. talvez um dia percebesses que não sou especialmente trágica nem especialmente cómica, procuro apenas a seriedade de todos os animais. mas levei as mãos ao pescoço. estava farta. como ele.
já não há cães e gatos a cair do céu. respiro. passas. e eu não me volto.
Porto, hoje de Abril de 2009
The Water Jet Cilice - Andrew Bird [pois, o Bird. eu sei, isto é um exagero, mas paixão é paixão, quem nunca empacou num artista durante uns tempos que atire a primeira pedra. ando ouvi-lo em repeat forever, como diria a minha mulher, e se o post não é sobre ele, invariavelmente vem a canção certa no momento certo. é bom.]
Lançar os restos à hélice. Se não se extirpa do ar este silêncio, que se desfaça e se lance no vento. Sai-me da pele, pelo menos. A lua está quase cheia. Deveria ser nova, mas não nos entendemos assim tão bem. Anda lá vá, eu chego para ti. It took a calculated blow to the head. But I did it.
In the salsify mains of what was thought but unsaid/ All the calcified arhythmitists were doing the math/ It would take a calculated blow to the head/ To light the eyes of all the harmless sociopaths/ Oh arm and arm we are the harmless sociopaths/ Calcium mines were buried deep in your chest.
[e claro, quando se tem um i-pod novo que permite meter mais música sem decidir o que apagar — decisions, decisions, decisions, off with them! — torna-se mais fácil enfrentar a lua, armada de garganta e ritmo]
... quando pára a música é que vêm os engulhos ao de cima. viver todos os dias cansa. por isso hoje decidi ver apenas a vida passar. e quase sem dar por ela, houve uns quantos eixos que se recalibraram na rotação. I'll just keep my little head from falling in the snow.
este homem dá cabo de mim. falha uma, falha duas, e quando engrena a beleza é tanta que nem apetece dizer mais nada. senão que é óbvio que é um nerd, só podia ser um nerd. Dylan por Bird. quem disse que não se pode ter tudo?
Essas pessoas existem. as pessoas que não dão trabalho. com quem tudo é simples. com as quais estar numa relação não é ser um entertainer, as pessoas que aproveitam tudo o que tu tens para dar, que não desperdiçam nada, que ainda te ensinam a dar mais e a receber mais e melhor, que se abrem e te fazem abrir, que não te querem aos pedaços, só o corpo, só a cabeça, que te amam como um todo, essas pessoas existem e não são para toda a gente.
essas pessoas estão reservadas para as pessoas que amam como tu.
de braços abertos.
alguém, há dois dias, escreveu isto para mim. alguém que sabe que não ser ninguém é muito mais difícil do que ser o que é. alguém com todos os sentidos de sentinela, sem hierarquia. alguém que aterrou há pouco tempo na minha vida — a brincar a brincar, já lá vão uns meses largos —, mas que parece ter tido sempre nela um lugar reservado. um lugar que estava vazio, portanto. alguém que não precisa que eu lhe diga para que serve o amor. 1715 km já o fizeram.
hoje voltei a sentir prazer. foda-se, o que me custaram os últimos dois espectáculos, o que eu não queria estar onde estava. saíu-me tudo do pelo. mas saíu. sobrevivi, e bem, atrevo-me a pensar. e hoje, de repente, estava no melhor lugar do mundo, a viver verdadeiramente sob reais circunstâncias imaginárias, a deixar-me ir feliz. hoje não me custou o fígado a leveza silenciosa que o primeiro acto me pede. e bom, depois da polaroid da puta vermelha acabada, aqui fica a minha vitoriana criada, com uma predilecção por Beethoven e bons charutos. e por jornalistas míopes de cabelo grisalho. um docinho, uma prenda que o excelentíssimo senhor Carinhas me deu. e a prova de que um papel não se mede às linhas de texto.
os meus fins-de-semana começam a meter-me medo. só no palco é que o fim da peça é mau, mas conhecido. cá fora as coisas andam um bocado desorientadas, desfocadas, encavalitadas umas nas outras, não há descanso. não há descanso. depois chego à cama e o corpo bem quer levar a cabeça de arrasto. mas a cabra tem cá um apego à independência...
e no entanto, hoje apetecia-me estar em todo o lado menos ali. há dias em que o que mais se ama é, só pode ser, a maior tortura. há dias em que 300 km são anos-luz.
ainda assim, feliz dia mundial do teatro, malta. é hoje, não é?
[pela frente ou por detrás do espelho, não tenho medo. tenho aqui qualquer coisa. está em mim, aconchega-se. t(r)eme pela tua tristeza, mas afaga-te à distância e sossega-se no escuro onde te recorda. há abraços longos demais para os dias. até já. este azul não é reflexo. é matéria.]