sexta-feira, fevereiro 06, 2009

italiana tirada à alemã

Finalmente uma carreira que nos vai permitir sentir a cafeína nas veias durante mais do que um rápido trago. Até dia 22, pronto, que dizer, no sítio do costume.

Toda a merda, como sempre, é bem-vinda. Estejam à vontade.



O Café
de Rainer Werner Fassbinder
tradução Claudia J. Fischer direcção Nuno M Cardoso com a colaboração de Ricardo Pais música VortexSoundTech desenho de luz Rui Simão preparação vocal e elocução João Henriques interpretação Fernando Moreira, Joana Manuel, João Castro, Jorge Mota, José Eduardo Silva, Lígia Roque, Marta Freitas, Paulo Freixinho, Pedro Almendra, Pedro Frias e Tatsumaki (música ao vivo)

6 a 22 de Fevereiro, no Teatro Nacional São João





Não é Milão, belo conde, é Turim. Turim, e não Milão.

sweet web

Sinto-me uma adolescente... bom, não ando aos pulos e aos gritos pela casa, mas estou de queixo caído há quase duas horas e estou aqui a escrever este post, portanto... Fazendo um post mete-se nojo a meio mundo, com a ilusão de que em vez da coisa soar tonta, soa antes fresca. Mas é que não consigo fazer abrandar o meu coraçãozinho de groupie [caramba, cresci nos anos oitenta, é algo que não posso mudar]: a razão da regressão ligeiramente histérica é que fui convidada para ser amiga dos Strokes no imeem! Eu recebi um e-mail dos Strokes! Mais precisamente do baixista, Nikolai Fraiture [o Niko, portanto] — o que bate certo com a minha história com baixos eléctricos e contrabaixos. E em vez de me chatear por causa do Red Light aqui postado há pouco tempo, convida-me para o círculo de amigos. Caramba. Se hoje estivesse em Lisboa e não tivesse uma estreia amanhã, acho que fazia questão de ir para a noite e acabar no Incógnito.





... e depois perguntam-me por que é que gosto tanto da net. Oh amazing modern age!...

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

half awake




Ao longo do meu tempo, acordei demais para voltar a adormecer. Por isso hoje durmo. Tranquila.


[para M, encore une fois]

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

dia por dia


praça da Batalha, 3 de fevereiro de 2009

Chove há três semanas, digo eu. Mas não, respondem-me, parece mais. E vem um rasguinho de luz, e foi-se. E despenha-se um granizo furioso no tempo de um cigarro. E vai-se. E vai o dia escorregando por aí, reluzindo. Um filme que traz uma chave quando começa por acordar uma tranca. Dois braços abertos. E mais dois. E ainda outros dois. Um quarto só para si cuja porta se descerra no descer insuspeito da escada eléctrica. Um viver verdadeiro que enche as circunstâncias imaginárias por hora e meia. Do outro lado do vidro há um pássaro que canta demasiado cedo. E no entanto, tudo bate certo.

no ponto de fuga da mais humana estupidez [ou da mais estúpida humanidade]

Um motorista italiano foi entrevistado por um jornalista português. Já não sei qual o jornal que publicou a entrevista porque isto se passou há largos anos. O que nunca mais esqueci foi uma pergunta que saltou dessa entrevista. Ao tempo, pareceu-me digna de registo. E nesta nossa actualidade tem-me ocorrido à lembrança com uma frequência lamentável.

O motorista conduzia um camião frigorífico que vinha quinzenalmente a Setúbal buscar peixe destinado às bocas italianas. Ao longo da entrevista falou com entusiasmo das muitas coisas que apreciava na vida, desde a ópera até à qualidade especial de certo tinto — tudo isso na Itália. O entrevistador fez a pergunta que se impunha: "E Portugal?"

"Não gosto", respondeu o italiano. E logo lamentou que a profissão o obrigasse a vir até nós constantemente. Para se explicar também não se fez rogado: declarou que achava os portugueses muito tristes, que a nossa via pública era um mostruário de rostos abatidos. Coisa que o inquietava tanto que lhe apetecia interpelar os transeuntes desta forma: "O que é que vos aconteceu?"

Se esta pergunta forte fosse feita agora, penso que toda a resposta a ela iria dar ao 25 de Abril. A variação seria consoante o bode expiatório político escolhido por quem respondesse. Mas a entrevista ocorreu quando Salazar gozava de saúde forte e feia.

Os democratas da perseguida oposição ao salazarismo devem ter pensado, lendo a entrevista, que a situação retrógrada originada pela ditadura era a causa exclusiva da tristeza geral que tanto perturbara o motorista italiano. Quanto aos salazaristas, esses sempre acusaram a democracia anterior ao 28 de Maio como a grande culpada do atraso português (quando ousavam confiar uns aos outros que havia atraso).

Na democracia anterior ao 28 de Maio, as acusações foram tantas e jorraram de tantos lados que é impossível resumi-las senão dizendo que os republicanos se acusaram uns aos outros e aos monárquicos, os quais, por sua vez, viam na República a fonte de todos os vícios e acusavam a Coroa de, por brandura, não ter sabido impedir a implantação da Republica. Este género de reflexão leva-nos a recordar que os monárquicos absolutistas olharam sempre para os monárquicos liberais como agentes enviados pelo demónio a fim de provocar a perdição de Portugal. Quanto aos males sobrevindos ao longo do absolutismo, eles foram explicados por vários adeptos do absolutismo como consequência de um declínio que a Restauração da Independência em 1640 não logrou deter. O leitor, neste ponto, já está a entrever (e bem) o sebastianismo resultante da derrota de Alcácer-Quibir. Mas convém lembrar que essa derrota proveio de uma expedição que Camões receitou a D.Sebastião para curar Portugal da apagada e vil tristeza diagnosticada n'
Os Lusíadas.

Bem, parece que a marcha atrás na História não resulta. Dou meia volta para recordar um episódio. Verídico.

Numa noite de santo popular, houve uma disputa num arraial. De leve que começou, deu em aquecer tanta gente e de tal modo que a pancadaria grossa estava quase a rebentar. Subitamente, um homem muito alto abriu caminho ao encontrão, até alcançar o epicentro da contenda. Aí chegado ele soltou um "Alto aí" de autoridade imensa. A reforçar o berro, meteu a mão no bolso interior do casaco, enquanto fuzilava os circunstantes com um olhar de algemas. As pessoas imobilizaram-se, mesmo as mais acaloradas. E toda aquela gente aguardou, resignada, que o desconhecido exibisse um
crachat da Polícia.

Mas sucedeu que a mão oculta no casaco reapareceu empunhando uma gaita de beiços, que o homem logo meteu à boca para começar a tocar o fandango. Estalou uma gargalhada geral, seguida de uma salva de palmas. E a zaragata que estava prestes a estragar tudo não se deu.

À luz deste episódio, eu responderia à pergunta do motorista italiano dizendo que nos tem faltado o homem da gaita, e que a ausência dele tem deixado por explorar a face oculta da nossa lua: a capacidade para rir e desarmar com esse riso a solenidade e dramatização que trazem a nossa vida colectiva de sobrolho carregado. E, por tabela, a nossa vida individual.

O riso a que me refiro não é o riso
contra, ou o riso à custa de alguém. É o riso que salvou o arraial no episódio que narrei, e no qual a propensão para o humor puro prevaleceu sobre códigos de homens ali prestes a ditarem mais uma cena de violência inútil.

Quando me recordo dos debates parlamentares a que assisti em Londres, penso que o que mais me impressionou foi o recurso constante ao sentido de humor, que mantém respirável a atmosfera que os problemas graves e as tensões políticas carregam, inevitavelmente. O que o homem da gaita conseguiu com o seu gesto foi mostrar que a agressividade ali crescente era evitável por desnecessária. Mas tal só foi possível graças à resposta que o seu gesto obteve. Isto, que aconteceu num beco de Lisboa, não será possível no beco nacional?


Nuno Bragança, 1929-1985; o JL [não o meu João Luc, mas o Jornal de Letras] vai no número 1000 e quem ganha é quem ainda não lia quando saíu esta crónica — que se chamou A Pergunta, mas também se poderia inscrever nas conferências sobre o fanatismo publicadas por Amos Oz. Ainda vivo, porque de língua viva, este nosso ómãi qe dava pulus.




[boca direitinha para um jardim de Praga: aguardo-vos em Veneza, bem como ao ómãi qe dava pulus ;)]

terça-feira, fevereiro 03, 2009

no fio da meada [esta não vem no Sun Tzu]

Qualquer fortaleza solidamente erguida é um bom refúgio para a cobardia.

troika

Os meus contemporâneos falam muito
e dizem: "Então é assim",
com o ar desenvolto de quem se alimenta
do som da própria voz, quando começam
a explicar longamente as actuais tendências
das artes ou das letras ou das sociedades
a pouco e pouco iguais umas às outras
neste primeiro mundo em que nascemos,
agora que o segundo deixou de existir
e que o terceiro, mais guerra, menos fome,
continua abstracto, em folclore distante.

Parece que está morta a metafísica
e que a verdade adormeceu, sonâmbula,
nos corredores vazios onde, às escuras,
se vão cruzando alguns milhões de frases
dos meus contemporâneos. Todavia,
falam de tudo com o entusiasmo
de quem lança "propostas" decisivas
e percorre as "vertentes" de novos caminhos
para a humanidade, enquanto saboreiam
a cerveja sem álcool, o café
sem cafeína e sobretudo
o amor sem amor, para conservarem
o equilíbrio físico e mental.

Os meus contemporâneos dizem quase sempre
que não são moralistas, e é por isso
que forçam toda a gente, mesmo quem não quer,
a ser livre, saudável e feliz:
proíbem o tabaco e o açúcar
e se por vezes sofrem, tomam comprimidos
porque a alegria é uma questão de química
e convém tê-la a horas certas, como
o prazer vigiado por preservativos
e outros sempre obrigatórios cintos
de segurança, pra que um dia possam
sentir que morrem cheios de saúde.

Quando contemplo os meus contemporâneos
entre as conversas
trendy e os lugares da moda,
"tropeço de ternura", queria ser
plo menos tão ingénuo como eles,
partilhar cada frémito dos lábios,
a labareda vã das gargalhadas
pela madrugada fora. No entanto,
assedia-me a acédia de ficar
assim, mais preguiçoso do que um Oblomov
à escala portuguesa — ó doce anestesia
a invadir-me o corpo, a libertar-me
desse feitiço a que se chama o "espírito
do tempo" em que vivemos, sob escombros
de um céu esmoronado, em mil pequenos cacos
ainda luminosos, virtuais
estrelas que se apagam e acendem
à flor de todos os
écrans
que os meus contemporâneos ligam e desligam
cada dia que passa, nunca se esquecendo
de carregar nas teclas necessárias
para a operação
save
e assim alcançarem a eternidade.

Fernando Pinto do Amaral, "Zeitgeist", in
Às Cegas


Stay Tuned - Robert Wyatt

DON MARZIO Então, já ressuscitaste de entre os mortos?
TRAPPOLO Uma pessoa não morre assim tão facilmente, Don Marzio, agarra-se à vida. Tendes sorte, tendes entendimento na cabeça. Eu não. Estou mal arranjado.
DON MARZIO Pois, o entendimento tem que se lhe diga.

Rainer Werner Fassbinder,
Das Kaffeehaus [nach Goldoni], Acto III, trad.:Cláudia Fischer

estado meditacional

As teias. Mas não somos aranhas. Talvez, num passado muito muito longínquo que para todos os efeitos foi só há um bocadinho, o tenhamos sido ou parecido. Mas não somos. Não queremos ser. Por isso abstractizamos, e alargamos os desejos, porque não nos satisfaz a mosca. Só que ao fazê-lo fazemos crescer as necessidades, que com subtis avisos se auto-degeneram em vícios. Até que nada vejamos para lá da mosca. E depois de andarmos em círculos, até nos esquecemos que de Buda a Maquiavel a distância não é assim tão extensa. You run it on the flip of a coin.

Pois eu cá não papo moscas. Om Shanti Om.

domingo, fevereiro 01, 2009

não é? [para o L.]

Mais enervante do que pessoas que acabam as frases com "não é?", são as que as acabam com um "hã?!" que soa a intimidação misturada com surdez. Pode não ser nem uma coisa nem outra, mas por mais entusiasmante que seja o discurso, dá vontade de interromper constantemente com um solícito "não não, eu não disse nada..."

mão no fogo [post para mim]


Porto, hoje de Janeiro de 2009


As estórias repetem-se em roda, encuraladora, enredemoinhadora. Impõe-se o duro trabalho da indiferença. Não jogo. Não gosto. Não é o poder o motor da minha vida. Não dou esse poder a ninguém. É precisamente para isto que servem os descansos. Um bom tinto à lareira, muita palheta clara e franca e amorosa, as peças da semana louca caindo à vez no puzzle e dois ou três passos atrás para alargar a angular. E para ganhar balanço. Água a potes para limpar a lente. I've writt'it ten times or more, it's about to be writ again as I ask you to focus on...




Life On Mars? - David Bowie

sábado, janeiro 31, 2009

fotografia de cena — reedição [ou entre Berlim e Veneza ainda vou sabendo quem sou]


Rossio, Janeiro de 2009




... sempre gostei de peças nas quais o elenco está no palco mesmo quando não está em cena.

sexta-feira, janeiro 30, 2009

o resumo do dia

E a pergunta, "quem é mau jogador porque não aceita as regras...?"
E o Dré, de indicador na minha direcção, sem hesitar, "ela."
E eu deliciada e pasmada. Porque é mesmo verdade, mas o que é mesmo mesmo grave é que gosto disso. E gosto que o teu indicador não hesite.


[para o Dré, com um beijo]

eu sei que estão a ouvir, eu sei que não estão a esquecer

São duas da manhã. Amanhã tenho mais um dia comprido e o cérebro não pôde abrandar o dia todo. Tenho, portanto, duas escolhas: esperar por tempo e disponibilidade mental para me pôr para aqui a tentar esfarelar umas quantas imagens e palavras [e ei-la, a imagem de Beckett] ou dizer-vos já que têm mais cinco noites para se babarem para cima do trabalho de actor do Pedro Penim, para serem provocados, picados, para se rirem, para pensarem sem parar e sem querer parar, para questionarem até o que não percebem que questionam, para comer bolo-mundo, para escolher, para fazer sentidos e rir deles a seguir. Para perceber que não se percebe nada da Europa. Nem do teatro. Para ver disparar a espingarda.




EUROVISION, na Fábrica
com Pedro Penim e André e.Teodósio
29, 30 e 31 Janeiro 5, 6 e 7 de Fevereiro 2009 às 22h00
na Fábrica da Rua da Alegria (nº341) no Porto.
5€ (normal) e 3€ (alunos ESMAE e BALLETEATRO)
Reservas: 918547050 / 918541945 / producao@teatropraga.com

quinta-feira, janeiro 29, 2009

é ou não é...?

Em Guimarães, amanhã, no Centro Cultural Vila Flor, pode quem queira tirar a limpo da minha im—parcialidade quando aprecio as qualidades extra-afectivas dos amigos [lembram-se deste post?]. Ser fadista não é mágoa, a Marla é o próprio fado. Para usar a expressão recorrente: a não perder. Mesmo.


guignol

Dizem-me que é da chuva. Do tempo escuro, cinza. E é, eu sei. O tempo potencia. Se já estiveres cinza, voas.

E no entanto nestes dias a chuva tem-me passado ao lado.

[tens mais em que pensar]


Há fenómenos estranhos em meu redor. Informação que não peço. Pequeninos monstros que se desfazem aos poucos e em últimos estertores tentam atingir-me com resíduos. Para eles sou lisa. Não, nem um pouco de atrito, tudo escorrega. Hoje um mesquinho vórtice de escuridão veio cheirar-me, veio sondar-me o espaço vital, veio tentar perturbá-lo. E eu mal lhe reconheci a presença. Apesar de o ter lido claramente, de fio a pavio. Alguma coisa está a funcionar bem. Entre o Brecht e o Sun Tzu, nem o Thoreau vilmente afastado do seu caminho me está a fazer falta.

[bem diz o feiticeiro Oz, está tudo escrito, panaceia a panaceia]


As marionetas dançam no guignol e eu sorrio. Vejo-as passar nervosas, de moca na mão tentando atingir tudo e todos. Mas a realidade tem as suas fronteiras bem definidas, quando é de jogos de crianças que falamos. As armas brandidas na colorida barraca de madeira têm a escala de quem as empunha. O mais que podem ser, quando arremessadas para lá das fronteiras de cena, são ciscos, pequenos incómodos nos olhos do público de carne e osso. Que pode parar de rir por um bocadinho, mas é só enquanto se coça. As gargalhadas retomam-se imediatamente, testemunhas pesadas da moeda da farsa e da tragédia. Tanto Brecht só pode levar a aforismos marxistas, claro.


[mas é o Llosa que diz que contra a tempestade de merda que é a vida, o teu melhor guarda-chuva é a arte]



As noites sabem bem e os dias não custam a começar e duram e duram e duram. E crescem. E repousam. E protestam. E riem. As pessoas são mesmo muito estranhas. Mas a verdade é que o filme é mesmo muito engraçado.


[não sei bem qual foi o momento, mas parece-me que há bem pouco tempo subi um degrau]




Strange Weather (Live) - Tom Waits

segunda-feira, janeiro 26, 2009

do poder do actor 3.0 [já que falei no venerável senhor]

Acting is the ability to live truthfully under imaginary circumstances.


Sanford Meisner [que por acaso começou por ser pianista]

do poder do actor 2.0

Só um ser corajosamente motivado pela consciência dos seus limites e das suas aspirações pode levar a cabo o combate interior necessário à morte da sua personagem.

Serge Wilfart*



[nem sei bem porquê, mas acordei a pensar nesta frase e andei assim o dia todo, um véu por detrás de uma viagem de pé na tábua e conversa mesmo mesmo boa, um fantasma atrás de um ensaio estranho, mas saboroso. ou se calhar sei, nunca soube outra coisa e por isso mesmo vim parar a este sublime manicómio.]


*que por acaso é professor de canto lírico em Paris e que se saiba nunca trocou dois dedos de conversa com o Meisner.

domingo, janeiro 25, 2009

déjà vu [o que nem sempre é uma falha no sistema]


Santa Catarina, Setembro de 2008
foto de David B.


Fim de ressaca com as melhores amêijoas do mundo. Porque as boas combinações são para repetir, ad infinitum. Até já, mano Grande!



Blackbird - The Beatles

e a noite chegará...

... em que me será absolutamente indiferente, em que um leve sorriso será o reflexo mais intenso, em que a onda de choque não se repercutirá em réplicas sísmicas quase imperceptíveis pelas horas fora. Chegará a noite mais próxima que longínqua. A verdade é que o meu corpo reage, como a um trauma antigo, mas o meu espírito já nem do riso se lembra bem. Quando volta, arde, e quando arde cicatriza um pouco mais [o veneno cura, o veneno cura]. E depois vem a luz da manhã, a verdadeira, a que não imita nada, a que não precisa de se ir alimentar da energia da água que se deixa aprisionar nas turbinas. E recorda-me que o caminho nunca se fecha. E que sou suficientemente fluida para me esvair e escapar e voltar a completar.



Santa Catarina, hoje de Janeiro de 2009



Ver o dia nascer é um dos maiores privilégios de estar vivo.

sábado, janeiro 24, 2009

dos olhos negros [para o João B.]

O ghandi dentro de mim tem qualquer coisa de muhammad ali.

do poder do actor

O ponto a que a sinceridade nos comove faz prova do tempo que passamos a mentir.

a uma boa provocação

Dupla, porque não contente com o linque, o senhor Barbosa até me mandou um e-mail a desafiar-me para o ringue, a mim e à Raquel, que também respondeu na ponta da unha. Mas eu hoje de manhã cantei uns quantos om's, estou na frequência ghandi. Resistência pacífica. Lamento desapontá-lo, meu caro. Mas espero que reconheça o meu esforço, neste comentário que até deu post. ;)

Primeiro gostava de pedir que relessem o que diz o MEC. Ele começa por dizer que as declarações do Policarpo não têm nada de mais. Essa parte fica esclarecida no primeiro parágrafo. E eu concordo. Aos muçulmanos que se chateiam com isto — e ao caviar ou à direita-sande-de-torresmo — só posso responder: get a life. Aí acho que estamos de acordo. Quanto aos costumes, bom, petições contra a excisão na Europa e não só [há coisas fundamentais em que me estou mesmo nas tintas para as fronteiras], contra a lapidação, contra o enforcamento por homossexualidade, falem comigo. Portanto, a carapuça do relativismo étnico-moral não me serve. O equilíbrio é sempre o que dá mais trabalho. Levantar a voz é sempre o que dá mais pica. É tudo sempre uma questão de escolha.

A minha pergunta é simples: a declaração do senhor Policarpo é ofensiva para quem? Para o Islão? Concordo com o MEC, não me parece. Para as mulheres? Institucionalmente infantilizadas, uma e outra vez? Menorizadas? Vitimizadas? Aí já fia mais fino. Então uma mulher não pode casar com um muçulmano porquê? O senhor conhece todos os muçulmanos? Não há muçulmanos casados pelo civil? Não há realidades alternativas? Há crimes? Há, sabemos que os há, como há na boa casa portuguesa. É para isso que existe a lei e é essa a beleza do estado laico — em teoria, não há excepções. Não metamos dEus onde eLe é tudo menos chamado.

Sim, sei, não é igual. Não há-de ser pêra doce, ser mulher de um muçulmano, moderado que ele seja. Mas ser marido também não, e não falo de cor. E ser mulher de um ocidental, é farinha? Estarei louca, ou só eu é que levo com a nossa cultura androcêntrica todos os dias? Terei falhado algum comprimido? Ainda hoje me disseram que há pelas nossas bandas quem fale de mim com menos consideração porque, e cito, "estás sozinha", leia-se, uma mulher sem um homem não vale nada. Leia-se, "uma mulher sem marido é um antro de blasfémia", como diz Balicke logo no primeiro acto dos Tambores [e a peça passa-se na Europa em 1919, não em 1219, note-se].


A segunda pergunta é esta: estamos a falar da religião que preconiza o dar a outra face; mas as potenciais vítimas têm de ser protegidas; já os potenciais carrascos, 'tá-se bem, assim como assim entram na cena para mandar. Mas que raio de princípio humano, teológico, filosófico, é este? Os católicos sentem-se confortáveis com isto?


Só para me pôr no mesmo pé que os meus interlocutores, e porque nestes assuntos é bom limpar os pratos: pois sim, sou ateia. Uma religiosíssima ateia, como tu sabes, querida Raquel.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

e guantanamo...

... fechada num ano. Ele não anda aqui a brincar aos presidentes, temos um adulto na casa caiadinha. I think I'm in love. Oh gOd, make it last!

lost frame 2.0


Bolhão, 22 de Janeiro 2009



[Às vezes preferia vazio.] Sim sim, bem bonito este roxo todo que se insinua. E é quase comovente a forma como a chuva não existe realmente, mais uma aspersão de origem indeterminada, não vem de lado nenhum, não vem de cima, isso é certo, mas nem de parte alguma, está aqui, envolve-nos apenas, encharca-nos devagarinho como uma doença. [Já desceu. Porra. Estava a ver se poetizava este gesto, talvez não seja completamente tarde.] Não não, é chuva que limpo, esta humidade que se me instalou sobre as maçãs. Não é minha esta água. Apenas me movo pelo meio de uma nuvem lacrimal. [Acho que assim passa.]



Racing Like A Pro - The National

ponto.

Numa conversa, qualquer que ela seja, convém ouvir as frases do outro até ao fim. Mesmo quando não se está a falar alemão.


Quando não se o faz, das duas uma.

É-se surdo.

É-se reizinho do seu próprio jogo de poder.



E sobre o assunto não me apetece acrescentar mais nada. Pelo menos por hoje.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

lost frame — variação [canção de david]


intercidades, 21 de Janeiro de 2009



Rock in this pocket (song of David) - Suzanne Vega


— mais nada a declarar?
— hmmm... não, nem por isso.
— muito bem, pode guardar a fisga, então.

dealing the same old new dream




Porque ao contrário do que ouvi a algumas pessoas, não foi um discurso banal e não, não poderia ter sido feito por qualquer presidente dos últimos sessenta anos. Porque, sempre desconfiada, dei por mim a sorrir e a acreditar e a comover-me com os detalhes que fazem uma enorme, bruta, corajosa diferença. Porque ele sabe o peso dos silêncios, e os seus não são apenas cénicos, mas enfáticos, corajosos, funcionais. Porque as escolhas são claras, mantêm-se claras, cheiram a certo.

"Hoje estamos aqui reunidos porque escolhemos a esperança em detrimento do medo, a unidade de propósito em vez do conflito e da discórdia."

Porque a maneira como ele as coloca, não deixa lugar a dúvidas — não, não acho que o léxico de Obama seja abstracto. Cada vez acho menos, aliás.

"Starting today we must pick ourselves up, dust ourselves off and begin again the work of remaking America."

Porque, ao contrário do que o mundo esperava, foi um discurso para os norte-americanos. E outras imagens nele se leriam se assim não fosse. Mas não foi o apelar a uma América autista. É do equilíbrio de contrários que vive qualquer iluminação.

"Vamos recolocar a ciência no seu devido lugar e dominar a tecnologia para elevar a qualidade do serviço de saúde e diminuir o seu custo. Vamos domar o sol e os ventos e a terra para abastecer os nossos carros e pôr a funcionar as nossas fábricas. E vamos transformar as nossas escolas e universidades para satisfazer as exigências de uma nova era."

Porque nada do que é realmente importante ficou de fora ou em meias-tintas.

"O sucesso da nossa economia sempre dependeu, não apenas do tamanho do nosso produto interno bruto, mas do alcance da nossa prosperidade; na capacidade de estender a oportunidade a cada espírito que a deseje — não por caridade, mas porque é a estrada mais segura para o nosso bem comum."

Mesmo nada.

"Quanto à Defesa, rejeitamos por falsa a escolha entre a nossa segurança e os nossos ideais."

De nada.

"Pois sabemos que a nossa herança miscigenada é uma força, não uma fraqueza. Somos uma nação de cristãos e muçulmanos, judeus e hindús e não-crentes. Somos formados por cada língua e cultura, nascidas de cada canto obscuro deste planeta."

Porque um bom dirigente tem consciência do devir.

"Marquemos então este dia com a memória de quem somos e da distância que já percorremos."


Porque o testemunho que ele escolheu deixar, aquele com que escolheu encerrar, é a tal tocha pela qual se deve guiar a reflexão e a acção políticas. Aquele que da França da revolução longa e sangrenta, foi assentar praça em Liberty Island.

"Que os filhos dos nossos filhos digam que quando fomos postos à prova nos recusámos a deixar que esta viagem acabasse, que não virámos as costas nem hesitámos; e com os olhos fixos no horizonte e a graça de Deus sobre nós, carregámos sempre essa grande dádiva que é a liberdade para a entregar em segurança às gerações futuras."


O discurso inteiro, em vídeo e transcrito, AQUI. Não tenho a certeza se exige login, mas digo-vos já que é gratuito. É só um dos melhores jornais do mundo. Mas pronto, se quiserem, vão antes ao Público.

Está longe de ser um discurso banal. Não teve recuos face aos da famosa convenção democrata, ou aos da campanha. Não deixou cair uma linha. Não falou para um império, mas para um país. Sim, eles andaram muito. E não por causa da cor, um descendente de escravos de nome muçulmano os serve agora de livre vontade, após oito anos de idade média. Confirmou-se um líder político. Acho, meus amigos, que o século XXI começou ontem. Bom ano!


fotos New York Times


adenda:
porque o timing é importante e o concreto já começa a tomar forma no recém-inaugurado sítio oficial. Sim, demorei tempo para explodir, embora o feeling já cá esteja há algum tempo; mas deu-se a posse e o discurso mantém-se; e é nas palavras que o gajo me apanha; é que acho mesmo que são importantes, sempre achei. —
"Obama and Biden will embrace the Millennium Development Goal of cutting extreme poverty and hunger around the world in half by 2015, and they will double our foreign assistance to achieve that goal. This will help the world's weakest states build healthy and educated communities, reduce poverty, develop markets, and generate wealth."