sábado, janeiro 24, 2009
a uma boa provocação
Dupla, porque não contente com o linque, o senhor Barbosa até me mandou um e-mail a desafiar-me para o ringue, a mim e à Raquel, que também respondeu na ponta da unha. Mas eu hoje de manhã cantei uns quantos om's, estou na frequência ghandi. Resistência pacífica. Lamento desapontá-lo, meu caro. Mas espero que reconheça o meu esforço, neste comentário que até deu post. ;)
Primeiro gostava de pedir que relessem o que diz o MEC. Ele começa por dizer que as declarações do Policarpo não têm nada de mais. Essa parte fica esclarecida no primeiro parágrafo. E eu concordo. Aos muçulmanos que se chateiam com isto — e ao caviar ou à direita-sande-de-torresmo — só posso responder: get a life. Aí acho que estamos de acordo. Quanto aos costumes, bom, petições contra a excisão na Europa e não só [há coisas fundamentais em que me estou mesmo nas tintas para as fronteiras], contra a lapidação, contra o enforcamento por homossexualidade, falem comigo. Portanto, a carapuça do relativismo étnico-moral não me serve. O equilíbrio é sempre o que dá mais trabalho. Levantar a voz é sempre o que dá mais pica. É tudo sempre uma questão de escolha.
A minha pergunta é simples: a declaração do senhor Policarpo é ofensiva para quem? Para o Islão? Concordo com o MEC, não me parece. Para as mulheres? Institucionalmente infantilizadas, uma e outra vez? Menorizadas? Vitimizadas? Aí já fia mais fino. Então uma mulher não pode casar com um muçulmano porquê? O senhor conhece todos os muçulmanos? Não há muçulmanos casados pelo civil? Não há realidades alternativas? Há crimes? Há, sabemos que os há, como há na boa casa portuguesa. É para isso que existe a lei e é essa a beleza do estado laico — em teoria, não há excepções. Não metamos dEus onde eLe é tudo menos chamado.
Sim, sei, não é igual. Não há-de ser pêra doce, ser mulher de um muçulmano, moderado que ele seja. Mas ser marido também não, e não falo de cor. E ser mulher de um ocidental, é farinha? Estarei louca, ou só eu é que levo com a nossa cultura androcêntrica todos os dias? Terei falhado algum comprimido? Ainda hoje me disseram que há pelas nossas bandas quem fale de mim com menos consideração porque, e cito, "estás sozinha", leia-se, uma mulher sem um homem não vale nada. Leia-se, "uma mulher sem marido é um antro de blasfémia", como diz Balicke logo no primeiro acto dos Tambores [e a peça passa-se na Europa em 1919, não em 1219, note-se].
A segunda pergunta é esta: estamos a falar da religião que preconiza o dar a outra face; mas as potenciais vítimas têm de ser protegidas; já os potenciais carrascos, 'tá-se bem, assim como assim entram na cena para mandar. Mas que raio de princípio humano, teológico, filosófico, é este? Os católicos sentem-se confortáveis com isto?
Só para me pôr no mesmo pé que os meus interlocutores, e porque nestes assuntos é bom limpar os pratos: pois sim, sou ateia. Uma religiosíssima ateia, como tu sabes, querida Raquel.
Primeiro gostava de pedir que relessem o que diz o MEC. Ele começa por dizer que as declarações do Policarpo não têm nada de mais. Essa parte fica esclarecida no primeiro parágrafo. E eu concordo. Aos muçulmanos que se chateiam com isto — e ao caviar ou à direita-sande-de-torresmo — só posso responder: get a life. Aí acho que estamos de acordo. Quanto aos costumes, bom, petições contra a excisão na Europa e não só [há coisas fundamentais em que me estou mesmo nas tintas para as fronteiras], contra a lapidação, contra o enforcamento por homossexualidade, falem comigo. Portanto, a carapuça do relativismo étnico-moral não me serve. O equilíbrio é sempre o que dá mais trabalho. Levantar a voz é sempre o que dá mais pica. É tudo sempre uma questão de escolha.
A minha pergunta é simples: a declaração do senhor Policarpo é ofensiva para quem? Para o Islão? Concordo com o MEC, não me parece. Para as mulheres? Institucionalmente infantilizadas, uma e outra vez? Menorizadas? Vitimizadas? Aí já fia mais fino. Então uma mulher não pode casar com um muçulmano porquê? O senhor conhece todos os muçulmanos? Não há muçulmanos casados pelo civil? Não há realidades alternativas? Há crimes? Há, sabemos que os há, como há na boa casa portuguesa. É para isso que existe a lei e é essa a beleza do estado laico — em teoria, não há excepções. Não metamos dEus onde eLe é tudo menos chamado.
Sim, sei, não é igual. Não há-de ser pêra doce, ser mulher de um muçulmano, moderado que ele seja. Mas ser marido também não, e não falo de cor. E ser mulher de um ocidental, é farinha? Estarei louca, ou só eu é que levo com a nossa cultura androcêntrica todos os dias? Terei falhado algum comprimido? Ainda hoje me disseram que há pelas nossas bandas quem fale de mim com menos consideração porque, e cito, "estás sozinha", leia-se, uma mulher sem um homem não vale nada. Leia-se, "uma mulher sem marido é um antro de blasfémia", como diz Balicke logo no primeiro acto dos Tambores [e a peça passa-se na Europa em 1919, não em 1219, note-se].
A segunda pergunta é esta: estamos a falar da religião que preconiza o dar a outra face; mas as potenciais vítimas têm de ser protegidas; já os potenciais carrascos, 'tá-se bem, assim como assim entram na cena para mandar. Mas que raio de princípio humano, teológico, filosófico, é este? Os católicos sentem-se confortáveis com isto?
Só para me pôr no mesmo pé que os meus interlocutores, e porque nestes assuntos é bom limpar os pratos: pois sim, sou ateia. Uma religiosíssima ateia, como tu sabes, querida Raquel.
sexta-feira, janeiro 23, 2009
e guantanamo...
... fechada num ano. Ele não anda aqui a brincar aos presidentes, temos um adulto na casa caiadinha. I think I'm in love. Oh gOd, make it last!
lost frame 2.0

Bolhão, 22 de Janeiro 2009
[Às vezes preferia vazio.] Sim sim, bem bonito este roxo todo que se insinua. E é quase comovente a forma como a chuva não existe realmente, mais uma aspersão de origem indeterminada, não vem de lado nenhum, não vem de cima, isso é certo, mas nem de parte alguma, está aqui, envolve-nos apenas, encharca-nos devagarinho como uma doença. [Já desceu. Porra. Estava a ver se poetizava este gesto, talvez não seja completamente tarde.] Não não, é chuva que limpo, esta humidade que se me instalou sobre as maçãs. Não é minha esta água. Apenas me movo pelo meio de uma nuvem lacrimal. [Acho que assim passa.]
Racing Like A Pro - The National
ponto.
Numa conversa, qualquer que ela seja, convém ouvir as frases do outro até ao fim. Mesmo quando não se está a falar alemão.
Quando não se o faz, das duas uma.
É-se surdo.
É-se reizinho do seu próprio jogo de poder.
E sobre o assunto não me apetece acrescentar mais nada. Pelo menos por hoje.
Quando não se o faz, das duas uma.
É-se surdo.
É-se reizinho do seu próprio jogo de poder.
E sobre o assunto não me apetece acrescentar mais nada. Pelo menos por hoje.
quarta-feira, janeiro 21, 2009
lost frame — variação [canção de david]

intercidades, 21 de Janeiro de 2009
Rock in this pocket (song of David) - Suzanne Vega
— mais nada a declarar?
— hmmm... não, nem por isso.
— muito bem, pode guardar a fisga, então.
dealing the same old new dream

Porque ao contrário do que ouvi a algumas pessoas, não foi um discurso banal e não, não poderia ter sido feito por qualquer presidente dos últimos sessenta anos. Porque, sempre desconfiada, dei por mim a sorrir e a acreditar e a comover-me com os detalhes que fazem uma enorme, bruta, corajosa diferença. Porque ele sabe o peso dos silêncios, e os seus não são apenas cénicos, mas enfáticos, corajosos, funcionais. Porque as escolhas são claras, mantêm-se claras, cheiram a certo.
"Hoje estamos aqui reunidos porque escolhemos a esperança em detrimento do medo, a unidade de propósito em vez do conflito e da discórdia."
Porque a maneira como ele as coloca, não deixa lugar a dúvidas — não, não acho que o léxico de Obama seja abstracto. Cada vez acho menos, aliás.
"Starting today we must pick ourselves up, dust ourselves off and begin again the work of remaking America."
Porque, ao contrário do que o mundo esperava, foi um discurso para os norte-americanos. E outras imagens nele se leriam se assim não fosse. Mas não foi o apelar a uma América autista. É do equilíbrio de contrários que vive qualquer iluminação.
"Vamos recolocar a ciência no seu devido lugar e dominar a tecnologia para elevar a qualidade do serviço de saúde e diminuir o seu custo. Vamos domar o sol e os ventos e a terra para abastecer os nossos carros e pôr a funcionar as nossas fábricas. E vamos transformar as nossas escolas e universidades para satisfazer as exigências de uma nova era."
Porque nada do que é realmente importante ficou de fora ou em meias-tintas.
"O sucesso da nossa economia sempre dependeu, não apenas do tamanho do nosso produto interno bruto, mas do alcance da nossa prosperidade; na capacidade de estender a oportunidade a cada espírito que a deseje — não por caridade, mas porque é a estrada mais segura para o nosso bem comum."
Mesmo nada.
"Quanto à Defesa, rejeitamos por falsa a escolha entre a nossa segurança e os nossos ideais."
De nada.
"Pois sabemos que a nossa herança miscigenada é uma força, não uma fraqueza. Somos uma nação de cristãos e muçulmanos, judeus e hindús e não-crentes. Somos formados por cada língua e cultura, nascidas de cada canto obscuro deste planeta."
Porque um bom dirigente tem consciência do devir.
"Marquemos então este dia com a memória de quem somos e da distância que já percorremos."
Porque o testemunho que ele escolheu deixar, aquele com que escolheu encerrar, é a tal tocha pela qual se deve guiar a reflexão e a acção políticas. Aquele que da França da revolução longa e sangrenta, foi assentar praça em Liberty Island.
"Que os filhos dos nossos filhos digam que quando fomos postos à prova nos recusámos a deixar que esta viagem acabasse, que não virámos as costas nem hesitámos; e com os olhos fixos no horizonte e a graça de Deus sobre nós, carregámos sempre essa grande dádiva que é a liberdade para a entregar em segurança às gerações futuras."
O discurso inteiro, em vídeo e transcrito, AQUI. Não tenho a certeza se exige login, mas digo-vos já que é gratuito. É só um dos melhores jornais do mundo. Mas pronto, se quiserem, vão antes ao Público.
Está longe de ser um discurso banal. Não teve recuos face aos da famosa convenção democrata, ou aos da campanha. Não deixou cair uma linha. Não falou para um império, mas para um país. Sim, eles andaram muito. E não por causa da cor, um descendente de escravos de nome muçulmano os serve agora de livre vontade, após oito anos de idade média. Confirmou-se um líder político. Acho, meus amigos, que o século XXI começou ontem. Bom ano!

fotos New York Times
adenda:
porque o timing é importante e o concreto já começa a tomar forma no recém-inaugurado sítio oficial. Sim, demorei tempo para explodir, embora o feeling já cá esteja há algum tempo; mas deu-se a posse e o discurso mantém-se; e é nas palavras que o gajo me apanha; é que acho mesmo que são importantes, sempre achei. —
"Obama and Biden will embrace the Millennium Development Goal of cutting extreme poverty and hunger around the world in half by 2015, and they will double our foreign assistance to achieve that goal. This will help the world's weakest states build healthy and educated communities, reduce poverty, develop markets, and generate wealth."
terça-feira, janeiro 20, 2009
a pergunta
Onde estavas no dia vinte de janeiro de 2009 às cinco da tarde?

GMT, convém especificar. Porque a pergunta será feita em muitos fusos horários.

GMT, convém especificar. Porque a pergunta será feita em muitos fusos horários.
o calafrio
Eu podia ter escrito este post.
Passeia-se pelas palavras da malta apanhada de surpresa e a imagem é recorrente. Muito mosh fiz eu à conta da pica de palco do João Aguardela. Foi um modo de vida, a alegria em cotovelos e botas cardadas. E nódoas negras. Muitas amizades começaram com a ajuda da gravidade e um hematoma por selo. Há qualquer coisa estranha neste nosso estar, inocente e atormentado. Disseram-nos que éramos os filhos da revolução, mas na realidade somos as sobras do longo tempo que a precedeu. Quiseram convencer-nos de que éramos luzes, mas sempre fomos comboios de sombras resilientes. E o João apagou-se ontem.
Passeia-se pelas palavras da malta apanhada de surpresa e a imagem é recorrente. Muito mosh fiz eu à conta da pica de palco do João Aguardela. Foi um modo de vida, a alegria em cotovelos e botas cardadas. E nódoas negras. Muitas amizades começaram com a ajuda da gravidade e um hematoma por selo. Há qualquer coisa estranha neste nosso estar, inocente e atormentado. Disseram-nos que éramos os filhos da revolução, mas na realidade somos as sobras do longo tempo que a precedeu. Quiseram convencer-nos de que éramos luzes, mas sempre fomos comboios de sombras resilientes. E o João apagou-se ontem.
para a Dri, com um beijo enorme
Parabéns, amiga. Muito obrigada pela noite. E pelos palhaços, aqueles de quem tenho sempre saudades e que em teu redor se reencontram, por estes de que falaste [puta da Dama, até ao fim era capaz de jurar que esta treta tinha sido gravada no palco!...]. E pelos teus. Belíssimos. Luminosos. Tristes e com um vermelho redondo e imenso no lugar do nariz. Estão por todo o lado. Et je m'en fous.
segunda-feira, janeiro 19, 2009
behavioury
A bolsa está aberta. E na mesa está a base. Mas eu não licito. Abro antes as mãos, deixo o íman ao vento, a polaridade fará o seu trabalho se ele legítimo for. Declino o leilão. É coisa que desmagnetiza.
How My Heart Behaves - Feist
How My Heart Behaves - Feist
domingo, janeiro 18, 2009
não desvies o olhar
trailer 1: Rúbia
É-me difícil falar de uma obra de alguém de quem gosto ao ponto de ter contraído matrimónio, fantasma antigo de traumas por divórcios que nunca deveriam ter ficado por acontecer, apropriadamente averbado como uma doença que invade sem ser desejada. Mas, quase uma semana passada sobre a noite em que apenas abracei a Raquel à saída da sala, já o seu filme desceu por mim e foi soltando o abraço imediato que me mexia com a articulação das ideias em palavras.
Começo por fazer um mea culpa: não vi o Rasganço. A Raquel de quem gosto, assumo-o, é a mulher e a activista, não a cineasta, embora nenhuma das coisas exista isolada. Enfim, a primeira, talvez, se a Raquel é uma mulher com as letras todas, escreva que palavras escrever com elas. Bom, mas sem Rasganço no currículo, não tenho termo de comparação. E o que me fica é uma doce sensação de ter acompanhado os passos de alguém que procura a sua própria linguagem de cinema, que se preocupou mais em inscrever-se no granito da Ribeira do que numa qualquer corrente artística. Aqui o sexo impera, porque impera o amor e a falta e o desejo e a perda e a culpa. Aqui as penetrações sentem-se como as recusas, e as púbis existem, os corpos nús não terminam na cintura e não se entende se é mais verdadeiro o amor na sua dureza, no seu poder, ou se é apenas uma maravilhosa patranha como o outro, o doce, o vulnerável, o rendido, o que enlouquece de ausência. Aqui há corpos e fodas e nada nos passa ao lado. E nada, nem um momento, é obsceno. Porque por essa genital inocência pode passear-se sem pudores uma amoralidade desarmante de tão franca, de tão entregue, de tão assente na dúvida e no vermelho-sangue.
Não são os "erres" iniciais dos nomes que unem Raquel a Rosa, Rita, Rúbia, mas um olhar que se sente partilhado pelas suas actrizes, uma troca boa entre quem vê e quem se dá a ver, quem vive e quem regista algo que de si já saíu vivo. Há dois nomes que têm de ser ditos no elenco principal: Sofia Marques e Margarida Carvalho. No pequeno elenco, Luísa Cruz, imaculada sempre, obscura sempre, seja em santa seja em puta. As mulheres, pois, motores do filme seja pelo poder ou pela submissão ou pela auto-destruição. Se o Veneno Cura —e assim o indicam os laboratórios farmacêuticos e séculos de xamanismo —, este é um filme para encarar sem um desvio do olhar. Para chorar, para sofrer, para sorrir, para recusar ou para lamber. Como o sangue. Ele afinal não queria saber que a amava. E ela no fim de tudo, com os braços cheios, não quer estar feliz. E a Dalila da voz doce trazia a tesoura em punho. Ainda traz.
sábado, janeiro 17, 2009
i know not why

Porto, hoje de Janeiro de 2009
—da exposição Os Passos em Volta, de Daniel Blaufuks [Salão Nobre do TNSJ]
O furo anunciado, há quanto tempo estava isto careca? Pronto, é desta que se muda, venha a conta. A manhã radiosa fechando-se, o quente em frio no horizonte lascado em lilás e azuis pálidos. O tempo é relativo, têmo-lo todo, eu sinto-o nenhum, não se dá o que não se tem, porra! A melancolia pede zanga, mas eu não lha entrego, mostro-lhe a língua. Mas não encolho os ombros. E mergulho novamente no silêncio. Israel declarou o cessar-fogo. O Mercador termina amanhã, o enorme Shylock regressa a Braga, o sol põe-se cada dia um pêlo mais tarde e os dias de cena vão tornar-se mais longos. Finalmente. Amanhã vou a casa.
Home Ill Never Be - Tom Waits
da dualidade de critérios — às mouras
O que eu gosto deste homem. É que é cada tiro cada melro. Ah, ela cheira mal da boca, mas eu amo-a. Ela berra comigo, mas é a mulher que o destino marcou para mim, ai, pobre de mim, que posso eu fazer, amo, estou prisioneiro... não sou dono do meu coração. Ladies and gentlemen, this is not a nonsense moment. Eu posso jurar, aliás, que a coisa menos séria que alguma vez ouvi da boca deste homem foi a tabela de Mendleïev.
She's My Girl - Tom Lehrer
And now, to the love song... I'm sure you're familiar with love songs on the order of: "he's just my Bill, my man, my Joe, my Max, and so on; where the girl who sings them tells you that although the man she loves is anti-social, alcoholic, physically repulsive, or just plain unsanitary... that, nevertheless, she is his because he is hers, or something like that. But as far as I know there has never been a popular song from the analogous male point of view, that is to say, of a man who finds himself in love with or, in this case, married to a girl who has nothing whatsoever to recommend her. I have attempted to fill this need.
She's My Girl - Tom Lehrer
And now, to the love song... I'm sure you're familiar with love songs on the order of: "he's just my Bill, my man, my Joe, my Max, and so on; where the girl who sings them tells you that although the man she loves is anti-social, alcoholic, physically repulsive, or just plain unsanitary... that, nevertheless, she is his because he is hers, or something like that. But as far as I know there has never been a popular song from the analogous male point of view, that is to say, of a man who finds himself in love with or, in this case, married to a girl who has nothing whatsoever to recommend her. I have attempted to fill this need.
palavra por palavra
Porque, aLá seja louvado, o MEC está no seu melhor destilado. E em poucas palavras diz-se tudo. Além de que o título, por motivos óbvios, me agrada de sobremaneira [adoro esta palavra...].
CASAI COM AS MOURAS
Pensei duas vezes antes de escrever sobre o cardeal Policarpo; pensei muito seriamente, consciente de que me vou meter num monte de sarilhos que nem Alá sabe onde acabarão. Mas aqui estou, ao altar da asneira.
Gosto muito do Dom Policarpo, que fuma e faz Bem e diz o que lhe vai na santa cabeça. Disse o que qualquer pai diria. Pedir que se pense duas vezes não é proibir. Acho mesmo que foi consensual no que toca às religiões monoteístas. Nenhum imã ou rabino o contradiria nisso de pensar duas vezes. Ou seja: "Vê lá se o amas o suficiente para conseguires aturar as pancadas religiosas da família dele."
O que me intrigou foi o Dom Policarpo ter-se dirigido só às raparigas. Então e nós, os moços? Quer ele dizer que, devido ao (digamos assim) carácter pró-masculino do Islão, as noivas muçulmanas são outra história? Serão dóceis e submissas como as nossas se recusam a ser?
Será que, apesar destas Fátimas não nos esperarem à porta de casa com um Dry Martini na mão (como se calhar também não espera a Campos Ferreira), as outras inconfessáveis qualidades das moças muçulmanas (não nos porem os cornos, não exporem o pernil em público, poder divorciá-las num minuto) fazem com que valha a pena aprender a amar o chá açucarado de menta acima do gin?
Parece que sim. A misoginia, por muito bem ou mal disfarçada, não é bem um exclusivo do Islão.
Miguel Esteves Cardoso, in Público, 16 de Janeiro de 2009
CASAI COM AS MOURAS
Pensei duas vezes antes de escrever sobre o cardeal Policarpo; pensei muito seriamente, consciente de que me vou meter num monte de sarilhos que nem Alá sabe onde acabarão. Mas aqui estou, ao altar da asneira.
Gosto muito do Dom Policarpo, que fuma e faz Bem e diz o que lhe vai na santa cabeça. Disse o que qualquer pai diria. Pedir que se pense duas vezes não é proibir. Acho mesmo que foi consensual no que toca às religiões monoteístas. Nenhum imã ou rabino o contradiria nisso de pensar duas vezes. Ou seja: "Vê lá se o amas o suficiente para conseguires aturar as pancadas religiosas da família dele."
O que me intrigou foi o Dom Policarpo ter-se dirigido só às raparigas. Então e nós, os moços? Quer ele dizer que, devido ao (digamos assim) carácter pró-masculino do Islão, as noivas muçulmanas são outra história? Serão dóceis e submissas como as nossas se recusam a ser?
Será que, apesar destas Fátimas não nos esperarem à porta de casa com um Dry Martini na mão (como se calhar também não espera a Campos Ferreira), as outras inconfessáveis qualidades das moças muçulmanas (não nos porem os cornos, não exporem o pernil em público, poder divorciá-las num minuto) fazem com que valha a pena aprender a amar o chá açucarado de menta acima do gin?
Parece que sim. A misoginia, por muito bem ou mal disfarçada, não é bem um exclusivo do Islão.
Miguel Esteves Cardoso, in Público, 16 de Janeiro de 2009
sexta-feira, janeiro 16, 2009
ainda a vida na ponta dos dedos
Em Elsinore, um outro olhar sobre a mesma noite. Porque o post é giro que se farta. Porque gosto de ver a mesma essência numa formulação completamente diversa. E porque gosto de ser bem citada.
orgulho da sua mamã...
Não faço ideia do que é este blog, mas sei algumas coisas que não é. Uma, musicalmente monótono.
noites perfeitas começadas cedo
Viagens. Umas atrás das outras em apenas uma hora. A profundidade do som, a secura brilhante, o fraseado vivo e controlado, e o piano, sim, tens razão, há momentos em que apetece que expluda, em que parece que só pode explodir. Não se distingue bem se levanta voo ou se se crava no chão, como um animal terrestre em alerta. O foco taurino que sobrevive ao que venha e toda uma árvore genealógica centenária, vibrante em dez dedos, ou num corpo, ou num espírito. Partilhar o espaço com artistas assim vale estantes inteiras de cd's e anos de aulas de História da Música. Murray Perahia. Tão grande que nem se levantou quando, à portuguesa, a Casa da Música deixou que estivesse gente a entrar quando um dos maiores pianistas vivos já estava ao piano, pronto a atacar a sonata em Fá maior, de Mozart. E ele adiou o ataque. Esperou, olhando a sala. E depois seguiu, como se aquele hiato nunca tivesse sequer existido. Eu senti-me envergonhada, mais do que quando se ouviu o telemóvel a meio da primeira partita de Bach. É que há situações em que certos artistas não podem ser colocados. Sobretudo estes, que face a elas mostram apenas a humildade e a paciência. Espero que mais gente se tenha sentido embaraçada.
A outra questão é a de sempre: porque é que nos intervalos entre peças, enquanto o pianista se retira por curtos minutos, ninguém tosse?
Mas volto de barriga cheia. Feliz. Por, ao fim de anos de escolas de música, ter redescoberto finalmente a primeira partita nas mãos de pianista feito, nas mãos de pianista génio. Pela felicidade retorcida que nasce sempre de um Mozart bem servido. Pelo Händel relido sofregamente por Brahms. Mas sobretudo pela Appassionata, pela natureza revolvida, pelos tornados interrompidos em brisas quentes e doces, em noite escura e claridade.
Ludwig van Beethoven, Sonata No. 14 em Dó# menor, Op. 27 No. 2, "Mondscheinsonate", por Murray Perahia; não encontrei a Appassionata, mas este terceiro andamento tem cá tudo também...
[Ah, é verdade... Ó Nuno!!! Eu não quero tocar o Beethoven, tenho medo... :|]
A outra questão é a de sempre: porque é que nos intervalos entre peças, enquanto o pianista se retira por curtos minutos, ninguém tosse?
Mas volto de barriga cheia. Feliz. Por, ao fim de anos de escolas de música, ter redescoberto finalmente a primeira partita nas mãos de pianista feito, nas mãos de pianista génio. Pela felicidade retorcida que nasce sempre de um Mozart bem servido. Pelo Händel relido sofregamente por Brahms. Mas sobretudo pela Appassionata, pela natureza revolvida, pelos tornados interrompidos em brisas quentes e doces, em noite escura e claridade.
Ludwig van Beethoven, Sonata No. 14 em Dó# menor, Op. 27 No. 2, "Mondscheinsonate", por Murray Perahia; não encontrei a Appassionata, mas este terceiro andamento tem cá tudo também...
[Ah, é verdade... Ó Nuno!!! Eu não quero tocar o Beethoven, tenho medo... :|]
quinta-feira, janeiro 15, 2009
há dias em que um carro bloqueado é apenas um ponto na paisagem. podem ser estranhos, não se pode dizer que sejam maus.
The Canals of Our City - Beirut
The Canals of Our City - Beirut
quarta-feira, janeiro 14, 2009
processo de intoxicação — as palavras e o acaso
A um leão chinês feito de raiz de chá
Os maus têm medo das tuas garras.
Os bons alegram-se com a tua graça.
Coisas destas gostava eu de ouvir dos meus versos.
Bertolt Brecht, adapt. Paulo Quintela
Os maus têm medo das tuas garras.
Os bons alegram-se com a tua graça.
Coisas destas gostava eu de ouvir dos meus versos.
Bertolt Brecht, adapt. Paulo Quintela
processo de intoxicação — pequenas verdades universais
A máscara do mal
Dependurada na parede tenho uma escultura de madeira japonesa
A máscara dum demónio pintado a laca dourada.
Sentindo com ela, vejo
As veias inchadas da testa, indicando
Quanto esforço custa ser mau.
Bertolt Brecht, adapt. Paulo Quintela
Dependurada na parede tenho uma escultura de madeira japonesa
A máscara dum demónio pintado a laca dourada.
Sentindo com ela, vejo
As veias inchadas da testa, indicando
Quanto esforço custa ser mau.
Bertolt Brecht, adapt. Paulo Quintela
on faith and politics
Porque no que toca à obra humana, as palavras são matéria-prima. E não tendo propriamente fé, tenho esperança. Ou esperanças. São afirmações muito claras, na voz de quem mais poder tem para as fazer valer. Ou não...
O tempo dirá.
[obrigada, João.]
segunda-feira, janeiro 12, 2009
repetente
Ainda nem passaram seis meses sobre a primeira vez que aqui postei este vídeo. Mas seis meses é muito tempo. Daqui a seis meses falamos outra vez, Nina, que há coisas que são tão necessárias como um fígado. Gracias a la vida, que me ha dado un cuerpo.
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