Porto, hoje de Janeiro de 2009 —da exposição Os Passos em Volta, de Daniel Blaufuks [Salão Nobre do TNSJ]
O furo anunciado, há quanto tempo estava isto careca? Pronto, é desta que se muda, venha a conta. A manhã radiosa fechando-se, o quente em frio no horizonte lascado em lilás e azuis pálidos. O tempo é relativo, têmo-lo todo, eu sinto-o nenhum, não se dá o que não se tem, porra! A melancolia pede zanga, mas eu não lha entrego, mostro-lhe a língua. Mas não encolho os ombros. E mergulho novamente no silêncio. Israel declarou o cessar-fogo. O Mercador termina amanhã, o enorme Shylock regressa a Braga, o sol põe-se cada dia um pêlo mais tarde e os dias de cena vão tornar-se mais longos. Finalmente. Amanhã vou a casa.
O que eu gosto deste homem. É que é cada tiro cada melro. Ah, ela cheira mal da boca, mas eu amo-a. Ela berra comigo, mas é a mulher que o destino marcou para mim, ai, pobre de mim, que posso eu fazer, amo, estou prisioneiro... não sou dono do meu coração. Ladies and gentlemen, this is not a nonsense moment. Eu posso jurar, aliás, que a coisa menos séria que alguma vez ouvi da boca deste homem foi a tabela de Mendleïev.
And now, to the love song... I'm sure you're familiar with love songs on the order of: "he's just my Bill, my man, my Joe, my Max, and so on; where the girl who sings them tells you that although the man she loves is anti-social, alcoholic, physically repulsive, or just plain unsanitary... that, nevertheless, she is his because he is hers, or something like that. But as far as I know there has never been a popular song from the analogous male point of view, that is to say, of a man who finds himself in love with or, in this case, married to a girl who has nothing whatsoever to recommend her. I have attempted to fill this need.
Porque, aLá seja louvado, o MEC está no seu melhor destilado. E em poucas palavras diz-se tudo. Além de que o título, por motivos óbvios, me agrada de sobremaneira [adoro esta palavra...].
CASAI COM AS MOURAS
Pensei duas vezes antes de escrever sobre o cardeal Policarpo; pensei muito seriamente, consciente de que me vou meter num monte de sarilhos que nem Alá sabe onde acabarão. Mas aqui estou, ao altar da asneira.
Gosto muito do Dom Policarpo, que fuma e faz Bem e diz o que lhe vai na santa cabeça. Disse o que qualquer pai diria. Pedir que se pense duas vezes não é proibir. Acho mesmo que foi consensual no que toca às religiões monoteístas. Nenhum imã ou rabino o contradiria nisso de pensar duas vezes. Ou seja: "Vê lá se o amas o suficiente para conseguires aturar as pancadas religiosas da família dele."
O que me intrigou foi o Dom Policarpo ter-se dirigido só às raparigas. Então e nós, os moços? Quer ele dizer que, devido ao (digamos assim) carácter pró-masculino do Islão, as noivas muçulmanas são outra história? Serão dóceis e submissas como as nossas se recusam a ser?
Será que, apesar destas Fátimas não nos esperarem à porta de casa com um Dry Martini na mão (como se calhar também não espera a Campos Ferreira), as outras inconfessáveis qualidades das moças muçulmanas (não nos porem os cornos, não exporem o pernil em público, poder divorciá-las num minuto) fazem com que valha a pena aprender a amar o chá açucarado de menta acima do gin?
Parece que sim. A misoginia, por muito bem ou mal disfarçada, não é bem um exclusivo do Islão.
Miguel Esteves Cardoso, in Público, 16 de Janeiro de 2009
Em Elsinore, um outro olhar sobre a mesma noite. Porque o post é giro que se farta. Porque gosto de ver a mesma essência numa formulação completamente diversa. E porque gosto de ser bem citada.
Viagens. Umas atrás das outras em apenas uma hora. A profundidade do som, a secura brilhante, o fraseado vivo e controlado, e o piano, sim, tens razão, há momentos em que apetece que expluda, em que parece que só pode explodir. Não se distingue bem se levanta voo ou se se crava no chão, como um animal terrestre em alerta. O foco taurino que sobrevive ao que venha e toda uma árvore genealógica centenária, vibrante em dez dedos, ou num corpo, ou num espírito. Partilhar o espaço com artistas assim vale estantes inteiras de cd's e anos de aulas de História da Música. Murray Perahia. Tão grande que nem se levantou quando, à portuguesa, a Casa da Música deixou que estivesse gente a entrar quando um dos maiores pianistas vivos já estava ao piano, pronto a atacar a sonata em Fá maior, de Mozart. E ele adiou o ataque. Esperou, olhando a sala. E depois seguiu, como se aquele hiato nunca tivesse sequer existido. Eu senti-me envergonhada, mais do que quando se ouviu o telemóvel a meio da primeira partita de Bach. É que há situações em que certos artistas não podem ser colocados. Sobretudo estes, que face a elas mostram apenas a humildade e a paciência. Espero que mais gente se tenha sentido embaraçada.
A outra questão é a de sempre: porque é que nos intervalos entre peças, enquanto o pianista se retira por curtos minutos, ninguém tosse?
Mas volto de barriga cheia. Feliz. Por, ao fim de anos de escolas de música, ter redescoberto finalmente a primeira partita nas mãos de pianista feito, nas mãos de pianista génio. Pela felicidade retorcida que nasce sempre de um Mozart bem servido. Pelo Händel relido sofregamente por Brahms. Mas sobretudo pela Appassionata, pela natureza revolvida, pelos tornados interrompidos em brisas quentes e doces, em noite escura e claridade.
Ludwig van Beethoven, Sonata No. 14 em Dó# menor, Op. 27 No. 2, "Mondscheinsonate", por Murray Perahia; não encontrei a Appassionata, mas este terceiro andamento tem cá tudo também...
[Ah, é verdade... Ó Nuno!!! Eu não quero tocar o Beethoven, tenho medo... :|]
quinta-feira, janeiro 15, 2009
há dias em que um carro bloqueado é apenas um ponto na paisagem. podem ser estranhos, não se pode dizer que sejam maus.
Dependurada na parede tenho uma escultura de madeira japonesa A máscara dum demónio pintado a laca dourada. Sentindo com ela, vejo As veias inchadas da testa, indicando Quanto esforço custa ser mau.
Porque no que toca à obra humana, as palavras são matéria-prima. E não tendo propriamente fé, tenho esperança. Ou esperanças. São afirmações muito claras, na voz de quem mais poder tem para as fazer valer. Ou não...
Ainda nem passaram seis meses sobre a primeira vez que aqui postei este vídeo. Mas seis meses é muito tempo. Daqui a seis meses falamos outra vez, Nina, que há coisas que são tão necessárias como um fígado. Gracias a la vida, que me ha dado un cuerpo.
Recebi isto por e-mail da organização Jewish Voice for Peace, e o Jon Stewart cai-me sempre que nem ginjas. Quando se entra noutro tipo de fanatismos, sou absolutamente indiferente a acusações palermas de anti-americanismo, nunca poderia ser contra um país que produz isto, e isto é apenas uma de tantas fascinantes contradições. Mas uma coisa que o Oz diz na conferência transcrita em parte ali em baixo, é que o maior dos antídotos do fanatismo é o humor. O fanático tem sarcasmo, não sentido de humor. Ou melhor, tem-no, mas não o usa.
AQUI têm a transcrição, para o caso de escapar alguma coisa. Ah, e não fui à manif de dia 8, porque na primeira alguém gritou morte aos judeus! e não vi nenhuma reacção convicta para lá da minha, e há momentos em que o silêncio não é uma afirmação, é uma cobardia. E estávamos no largo de São Domingos. Esta coisa do funambulismo é desconfortável p'a caraças, mas bate certo.
Ontem, inesperadamente, acabei a jantar no sítio onde fiz dezoito anos, um corredor de azulejos em Alfama agora pintado de fresco, mas ainda assim reconhecível ao primeiro transpor da porta da rua. Lembro-me das pessoas, lembro-me das fotografias, lembro de nesse ano o meu Tiago, com pezinhos de lã, me ter revelado a sua homossexualidade e de eu me ter desatado a rir na cara dele à porta do Sétimo Céu. Lembro-me de nesse jantar o apresentar ao Octávio e da conversa ter dado para a noite toda e, creio, para alumiar algumas noites que ainda o esperavam no percurso que finalmente decidira iniciar. Lembro-me do Joaquim, agora já pai, do Francisco, já perdido, da Rita sempre repetente, desde os quinze anos, ontem o jantar era dela e dos seus trinta e dois, seis meses atrás dos meus. Tenho de ter cuidado quando o tinto vem de seguida para a mesa. Começo a falar alto. Começo a não pedir desculpa por pensar e sentir — um mau hábito de infância, ando a trabalhá-lo já há uns tempos, confesso. E começam a olhar-me de lado. Mau, a gaja não suporta uma televisão enorme num espaço fechado, goza com o Vangelis e agora nem a Elis a satisfaz?!...
Ando numa fase arredia, é verdade. Quando a Elis aparece na sessão aleatória, é rara a vez que a deixo cantar, mas a canção em causa era um caso especial. A própria Violeta Parra que ma viesse cantar sob a varanda, e levava com um balde de água em cima. Mas pela Elis ainda me é mais insuportável. Falo de Gracias a la Vida, esse clássico das mal-amadas que preferem não chorar e assim nunca abrem a porta do amor. É a canção da negação. É falsa. É irritante. É o total oposto da biologia esmagadora de uma Nina cantando Ain't got no—I got life. É mentira. E pela Elis, mulher transbordante de verdade, ainda me enerva mais. Sobretudo porque um dia, no Porto, comprei em dvd um estranho programa da Globo chamado Elis Regina Carvalho Costa, em que o aluimento Atrás da Porta é um bizarro e admirável momento de reality tv antes do tempo. É a solidão iluminada da arena. É a verdade da vida que lhe deu tudo o que tirou e mais as lágrimas. Aqui fica o meu statement: o Gracias a la Vida sucks. Ponto.
AQUI no estranho circo televisivo. E aqui em baixo, em glória.
Só quem ama pode converter-se num traidor. A traição não é o reverso do amor; é uma das suas opções. Traidor, julgo, é quem muda aos olhos daqueles que não podem mudar e não mudarão, daqueles que detestam mudar e não podem conceber a mudança, apesar de quererem sempre mudar os outros. Por outras palavras, traidor, aos olhos do fanático, é qualquer um que muda. É difícil a escolha entre converter-se num fanático ou converter-se num traidor. Não converter-se num fanático significa ser, até certo ponto e de alguma forma, um traidor aos olhos do fanático. Eu fiz a minha escolha (...).
[...]
(...) com alguma frequência, os fanáticos são sentimentais incuráveis: preferem muitas vezes sentir do que pensar, e têm uma fascinação especial pela sua própria morte. Desprezam este mundo e estão impacientes por trocá-lo pelo "Paraíso". No entanto, o seu Paraíso é geralmente imaginado como o final de um mau filme.
(...) Um querido amigo e colega meu, o admirável romancista israelita Sammy Michael, passou uma vez pela experiência, por que todos nós passamos de vez em quando, de andar de táxi durante um bom tempo com um condutor que lhe ia dando a típica palestra sobre como é importante para nós, Judeus, matar todos os Árabes. Sammy ouvia-o e, em vez de lhe gritar, "Que homem horrível que você é! É nazi ou fascista?", decidiu ir por outro caminho e perguntou-lhe: "E quem acha que deveria matar todos os Árabes?" O taxista disse-lhe: "O que quer dizer com isso? Nós! Os Judeus Israelitas! Temos de o fazer! Não há escolha. Veja só o que nos fazem todos os dias!" "Mas quem, especificamente, é que deveria fazer o trabalho? A polícia? Ou o exército talvez? O corpo de bombeiros ou as equipas médicas? Quem deveria fazer o trabalho?" O taxista coçou a cabeça e disse: "Penso que devíamos dividi-lo em partes iguais entre cada um de nós, cada um de nós devia matar alguns." E Sammy Michael, ainda no mesmo jogo, disse: "Pois bem, suponha que a si lhe toca um determinado bloco residencial da sua cidade natal, Haifa, e que bate às portas ou toca às campainhas, e pergunta: 'Desculpe, senhor, ou desculpe, senhora. Por acaso é árabe?' E se a resposta for afirmativa, você dispara. Quando acaba o seu bloco, dispõe-se a regressar a casa, mas ao fazê-lo," continuou Sammy "ouve, algures no quarto andar do seu bloco, o choro de um bebé. Voltaria para matar o bebé? Sim ou não?" Houve um momento de silêncio e, então, o taxista disse a Sammy: "Sabe, o senhor é um homem muito cruel." Esta é uma história muito significativa, porque há algo na natureza do fanático que, essencialmente, é muito sentimental e, ao mesmo tempo, carece de imaginação. E isto, às vezes, dá-me esperança — naturalmente, muito limitada — de que injectando alguma imaginação nas pessoas, talvez as ajudemos a reduzir o fanático que trazem dentro de si e a sentirem-se incomodados. Não é um remédio rápido, não é uma cura rápida, mas pode ajudar.
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Shakespeare pode ajudar muito: todo o extremismo, toda a cruzada intransigente, toda a forma de fanatismo em Shakespeare acaba, mais tarde ou mais cedo, em tragédia ou em comédia. No final o fanático nunca está mais feliz ou mais satisfeito, ora morrendo ora convertendo-se em bobo. É uma boa injecção. E Gogol também pode ajudar: faz com que, grotescamente, os seus leitores tomem consciência do pouco que sabemos, mesmo quando estamos convencidos de ter cem por cento de razão. Gogol ensina-nos que o nosso próprio nariz pode transformar-se num inimigo terrível, num inimigo fanático até. E pode acontecer que acaemos por perseguir fanaticamente o nosso próprio nariz. Em si, não é uma má lição. Kafka é um bom educador a este respeito, se bem que tenho a certeza de que ele nunca pretendeu leccionar contra o fanatismo. Mas Kafka mostra-nos que também existe escuridão e enigma e engano quando pensamos que não fizemos absolutamente nada de mal. Isso ajuda. E William Faulkner pode ajudar. O poeta israelita Yehuda Amijai expressa tudo isto melhor do que eu poderia fazer, quando afirma: "Onde temos razão não podem crescer flores."
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Nenhum homem é uma ilha, disse John Donne, mas atrevo-me humildemente a acrescentar: nenhum homem e nenhuma mulher é uma ilha, mas cada um de nós é uma península, com uma metade unida à terra firme e a outra a olhar para o oceano — uma metade ligada à família, aos amigos, à cultura, à tradição, ao país, à nação, ao sexo e à linguagem e a muitas outras coisas, e a outra metade a desejar que a deixem sozinha a contemplar o oceano. Penso que deviam deixar-nos continuar a ser penínsulas. Todo o sistema político e social que converte cada um de nós numa ilha donneana e o resto da humanidade em inimigo ou rival é uma monstruosidade. Mas ao mesmo tempo, todo o sistema ideológico, político e social que apenas nos quer transformar em moléculas do continente, também é uma monstruosidade, A condição de península é a própria condição humana. É o que somos e o que merecemos continuar a ser.
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Amos Oz, Da natureza do fanatismo — conferência de 23 de Janeiro de 2002
Não consigo entender. Sim, pois, é a marca, e a marca é tudo. Até modelos de automóveis levam o carimbo, o que é que iam fazer, mudá-los todos para "Valparaíso"? Mas não me passa, desculpem lá, por alminha de quem se chama Dakar a um rali que acaba de entrar no Chile. Quando muito uma adaptaçãozita, tipo, Dakar Deluxe War Refugees. Tipo.
Já não foi ontem que dei por mim a pensar que o caminho do meio não é o da virtude, é o do funâmbulo. Não é um caminho arroteado entre dois atalhos misteriosos, um cheio de luz, o outro negro. É um arame. Apenas. Não se lhe foge por ser virtuoso, não se lhe foge por ser plano, não se lhe foge pela força do que em fraqueza se chama tentação. Foge-se-lhe porque se cai. Porque dá trabalho. E nós somos preguiçosos.
Acima de tudo não nos é possível deixar de viver no presente. Bendito entre todos os mortais o que não perde um momento de vida presente a relembrar o passado. A nossa filosofia está atrasada, excepto quando ouve o galo cantar em todos os quintais que há no raio do horizonte. Em geral, esse canto recorda-me que estamos cada vez mais obsoletos no que fazemos, e nas rotinas do pensamento. A sua filosofia chega a uma época mais recente do que a nossa. Algo possui que sugere um mais novo testamento — o evangelho segundo o momento actual. Não foi ultrapassado; cedo se levantou e ficou desperto para estar onde lhe for possível acompanhar as estações, na guarda avançada do tempo. É uma expressão da saúde e do perfeito estado da Natureza, uma jactância dirigida ao mundo inteiro — uma salubridade que é como um jorro a brotar de uma nascente, uma nova fonte das Musas para celebrar este último ponto do tempo. Onde ele vive não se promulgam leis sobre escravos. Quem já não traíu muitas vezes o seu senhor depois de ter ouvido esta nota pela derradeira vez?
O mérito desta melodia de ave está em mostrar-se alheia a qualquer queixume. O cantor pode levar-nos facilmente às lágrimas ou ao riso. Mas onde está aquele que é capaz de provocar-nos uma alegria puramente matinal? Pesado de humor, quando sinto o terrível silêncio dominical das sendas da nossa floresta, ou, porventura, o velório numa casa mortuária cortado por um galo que, perto ou longe, entoa a a sua vitória, digo a mim próprio: "Ao menos há um dos nossos que está de bem com a vida" — e, com um inesperado frémito, recupero o ânimo.
Henry David Thoreau, in Caminhar, trad. António Moura
Tudo o que escrevo nestes dias é mau e vulgar, batatas para pobres, embora não faça mais nada a não ser escrever. Talvez a razão seja esta: os dias estão quentes e cheios de sol, o asfalto nada me diz, a cabeça pesa-me. E com isto o tempo vai passando, não o uso, mas fico contente quando ele se vai como a pele depois de um escaldão ao sol. Acho que tudo tem culpa disto, mesmo a grande janela que descobre um céu falsificado, enevoado pela vidraça. Para o Galgei só me falta o impulso, na concepção está tudo alright. Nunca consigo escrever, aumentam as dores de cabeça. Não acredito que no inferno se passem coisas terríveis. Não se passa é nada de nada. Sauve qui peut.
Se eu fosse pintor! São como as mulheres, podem sempre. E mortificar-se no trabalho! O cheiro das cores, a resistência dos materiais, a eterna disponibilidade do objecto desafiam e saciam.