A máscara do mal
Dependurada na parede tenho uma escultura de madeira japonesa
A máscara dum demónio pintado a laca dourada.
Sentindo com ela, vejo
As veias inchadas da testa, indicando
Quanto esforço custa ser mau.
Bertolt Brecht, adapt. Paulo Quintela
quarta-feira, janeiro 14, 2009
on faith and politics
Porque no que toca à obra humana, as palavras são matéria-prima. E não tendo propriamente fé, tenho esperança. Ou esperanças. São afirmações muito claras, na voz de quem mais poder tem para as fazer valer. Ou não...
O tempo dirá.
[obrigada, João.]
segunda-feira, janeiro 12, 2009
repetente
Ainda nem passaram seis meses sobre a primeira vez que aqui postei este vídeo. Mas seis meses é muito tempo. Daqui a seis meses falamos outra vez, Nina, que há coisas que são tão necessárias como um fígado. Gracias a la vida, que me ha dado un cuerpo.
geografia absoluta
mudo já. porque é onde já está a minha cabeça. [life is what happens to you while you're busy making other plans...]

Praça da Batalha, Maio de 2006

Praça da Batalha, Maio de 2006
welcome to tijuana — tequilla sexo y marijuana [ou olho por olho como de costume]
Recebi isto por e-mail da organização Jewish Voice for Peace, e o Jon Stewart cai-me sempre que nem ginjas. Quando se entra noutro tipo de fanatismos, sou absolutamente indiferente a acusações palermas de anti-americanismo, nunca poderia ser contra um país que produz isto, e isto é apenas uma de tantas fascinantes contradições. Mas uma coisa que o Oz diz na conferência transcrita em parte ali em baixo, é que o maior dos antídotos do fanatismo é o humor. O fanático tem sarcasmo, não sentido de humor. Ou melhor, tem-no, mas não o usa.
AQUI têm a transcrição, para o caso de escapar alguma coisa. Ah, e não fui à manif de dia 8, porque na primeira alguém gritou morte aos judeus! e não vi nenhuma reacção convicta para lá da minha, e há momentos em que o silêncio não é uma afirmação, é uma cobardia. E estávamos no largo de São Domingos. Esta coisa do funambulismo é desconfortável p'a caraças, mas bate certo.
The Daily Show With Jon StewartM - Th 11p / 10c
AQUI têm a transcrição, para o caso de escapar alguma coisa. Ah, e não fui à manif de dia 8, porque na primeira alguém gritou morte aos judeus! e não vi nenhuma reacção convicta para lá da minha, e há momentos em que o silêncio não é uma afirmação, é uma cobardia. E estávamos no largo de São Domingos. Esta coisa do funambulismo é desconfortável p'a caraças, mas bate certo.
domingo, janeiro 11, 2009
mas ando noutra, realmente
Porque nada a propósito, e vá-se lá saber porquê, o que me apetece ver é isto.
graças a mim, que sei chorar
Ontem, inesperadamente, acabei a jantar no sítio onde fiz dezoito anos, um corredor de azulejos em Alfama agora pintado de fresco, mas ainda assim reconhecível ao primeiro transpor da porta da rua. Lembro-me das pessoas, lembro-me das fotografias, lembro de nesse ano o meu Tiago, com pezinhos de lã, me ter revelado a sua homossexualidade e de eu me ter desatado a rir na cara dele à porta do Sétimo Céu. Lembro-me de nesse jantar o apresentar ao Octávio e da conversa ter dado para a noite toda e, creio, para alumiar algumas noites que ainda o esperavam no percurso que finalmente decidira iniciar. Lembro-me do Joaquim, agora já pai, do Francisco, já perdido, da Rita sempre repetente, desde os quinze anos, ontem o jantar era dela e dos seus trinta e dois, seis meses atrás dos meus. Tenho de ter cuidado quando o tinto vem de seguida para a mesa. Começo a falar alto. Começo a não pedir desculpa por pensar e sentir — um mau hábito de infância, ando a trabalhá-lo já há uns tempos, confesso. E começam a olhar-me de lado. Mau, a gaja não suporta uma televisão enorme num espaço fechado, goza com o Vangelis e agora nem a Elis a satisfaz?!...
Ando numa fase arredia, é verdade. Quando a Elis aparece na sessão aleatória, é rara a vez que a deixo cantar, mas a canção em causa era um caso especial. A própria Violeta Parra que ma viesse cantar sob a varanda, e levava com um balde de água em cima. Mas pela Elis ainda me é mais insuportável. Falo de Gracias a la Vida, esse clássico das mal-amadas que preferem não chorar e assim nunca abrem a porta do amor. É a canção da negação. É falsa. É irritante. É o total oposto da biologia esmagadora de uma Nina cantando Ain't got no—I got life. É mentira. E pela Elis, mulher transbordante de verdade, ainda me enerva mais. Sobretudo porque um dia, no Porto, comprei em dvd um estranho programa da Globo chamado Elis Regina Carvalho Costa, em que o aluimento Atrás da Porta é um bizarro e admirável momento de reality tv antes do tempo. É a solidão iluminada da arena. É a verdade da vida que lhe deu tudo o que tirou e mais as lágrimas. Aqui fica o meu statement: o Gracias a la Vida sucks. Ponto.
AQUI no estranho circo televisivo. E aqui em baixo, em glória.
Ando numa fase arredia, é verdade. Quando a Elis aparece na sessão aleatória, é rara a vez que a deixo cantar, mas a canção em causa era um caso especial. A própria Violeta Parra que ma viesse cantar sob a varanda, e levava com um balde de água em cima. Mas pela Elis ainda me é mais insuportável. Falo de Gracias a la Vida, esse clássico das mal-amadas que preferem não chorar e assim nunca abrem a porta do amor. É a canção da negação. É falsa. É irritante. É o total oposto da biologia esmagadora de uma Nina cantando Ain't got no—I got life. É mentira. E pela Elis, mulher transbordante de verdade, ainda me enerva mais. Sobretudo porque um dia, no Porto, comprei em dvd um estranho programa da Globo chamado Elis Regina Carvalho Costa, em que o aluimento Atrás da Porta é um bizarro e admirável momento de reality tv antes do tempo. É a solidão iluminada da arena. É a verdade da vida que lhe deu tudo o que tirou e mais as lágrimas. Aqui fica o meu statement: o Gracias a la Vida sucks. Ponto.
AQUI no estranho circo televisivo. E aqui em baixo, em glória.
"quem ousaria pensar que ao século xx se seguiria de imediato o século xi?"
Só quem ama pode converter-se num traidor. A traição não é o reverso do amor; é uma das suas opções. Traidor, julgo, é quem muda aos olhos daqueles que não podem mudar e não mudarão, daqueles que detestam mudar e não podem conceber a mudança, apesar de quererem sempre mudar os outros. Por outras palavras, traidor, aos olhos do fanático, é qualquer um que muda. É difícil a escolha entre converter-se num fanático ou converter-se num traidor. Não converter-se num fanático significa ser, até certo ponto e de alguma forma, um traidor aos olhos do fanático. Eu fiz a minha escolha (...).
[...]
(...) com alguma frequência, os fanáticos são sentimentais incuráveis: preferem muitas vezes sentir do que pensar, e têm uma fascinação especial pela sua própria morte. Desprezam este mundo e estão impacientes por trocá-lo pelo "Paraíso". No entanto, o seu Paraíso é geralmente imaginado como o final de um mau filme.
(...) Um querido amigo e colega meu, o admirável romancista israelita Sammy Michael, passou uma vez pela experiência, por que todos nós passamos de vez em quando, de andar de táxi durante um bom tempo com um condutor que lhe ia dando a típica palestra sobre como é importante para nós, Judeus, matar todos os Árabes. Sammy ouvia-o e, em vez de lhe gritar, "Que homem horrível que você é! É nazi ou fascista?", decidiu ir por outro caminho e perguntou-lhe: "E quem acha que deveria matar todos os Árabes?" O taxista disse-lhe: "O que quer dizer com isso? Nós! Os Judeus Israelitas! Temos de o fazer! Não há escolha. Veja só o que nos fazem todos os dias!" "Mas quem, especificamente, é que deveria fazer o trabalho? A polícia? Ou o exército talvez? O corpo de bombeiros ou as equipas médicas? Quem deveria fazer o trabalho?" O taxista coçou a cabeça e disse: "Penso que devíamos dividi-lo em partes iguais entre cada um de nós, cada um de nós devia matar alguns." E Sammy Michael, ainda no mesmo jogo, disse: "Pois bem, suponha que a si lhe toca um determinado bloco residencial da sua cidade natal, Haifa, e que bate às portas ou toca às campainhas, e pergunta: 'Desculpe, senhor, ou desculpe, senhora. Por acaso é árabe?' E se a resposta for afirmativa, você dispara. Quando acaba o seu bloco, dispõe-se a regressar a casa, mas ao fazê-lo," continuou Sammy "ouve, algures no quarto andar do seu bloco, o choro de um bebé. Voltaria para matar o bebé? Sim ou não?" Houve um momento de silêncio e, então, o taxista disse a Sammy: "Sabe, o senhor é um homem muito cruel." Esta é uma história muito significativa, porque há algo na natureza do fanático que, essencialmente, é muito sentimental e, ao mesmo tempo, carece de imaginação. E isto, às vezes, dá-me esperança — naturalmente, muito limitada — de que injectando alguma imaginação nas pessoas, talvez as ajudemos a reduzir o fanático que trazem dentro de si e a sentirem-se incomodados. Não é um remédio rápido, não é uma cura rápida, mas pode ajudar.
[...]
Shakespeare pode ajudar muito: todo o extremismo, toda a cruzada intransigente, toda a forma de fanatismo em Shakespeare acaba, mais tarde ou mais cedo, em tragédia ou em comédia. No final o fanático nunca está mais feliz ou mais satisfeito, ora morrendo ora convertendo-se em bobo. É uma boa injecção. E Gogol também pode ajudar: faz com que, grotescamente, os seus leitores tomem consciência do pouco que sabemos, mesmo quando estamos convencidos de ter cem por cento de razão. Gogol ensina-nos que o nosso próprio nariz pode transformar-se num inimigo terrível, num inimigo fanático até. E pode acontecer que acaemos por perseguir fanaticamente o nosso próprio nariz. Em si, não é uma má lição. Kafka é um bom educador a este respeito, se bem que tenho a certeza de que ele nunca pretendeu leccionar contra o fanatismo. Mas Kafka mostra-nos que também existe escuridão e enigma e engano quando pensamos que não fizemos absolutamente nada de mal. Isso ajuda. E William Faulkner pode ajudar. O poeta israelita Yehuda Amijai expressa tudo isto melhor do que eu poderia fazer, quando afirma: "Onde temos razão não podem crescer flores."
[...]
Nenhum homem é uma ilha, disse John Donne, mas atrevo-me humildemente a acrescentar: nenhum homem e nenhuma mulher é uma ilha, mas cada um de nós é uma península, com uma metade unida à terra firme e a outra a olhar para o oceano — uma metade ligada à família, aos amigos, à cultura, à tradição, ao país, à nação, ao sexo e à linguagem e a muitas outras coisas, e a outra metade a desejar que a deixem sozinha a contemplar o oceano. Penso que deviam deixar-nos continuar a ser penínsulas. Todo o sistema político e social que converte cada um de nós numa ilha donneana e o resto da humanidade em inimigo ou rival é uma monstruosidade. Mas ao mesmo tempo, todo o sistema ideológico, político e social que apenas nos quer transformar em moléculas do continente, também é uma monstruosidade, A condição de península é a própria condição humana. É o que somos e o que merecemos continuar a ser.
[...]
Amos Oz, Da natureza do fanatismo — conferência de 23 de Janeiro de 2002
[para o Fernando, com um beijo peninsular]
[...]
(...) com alguma frequência, os fanáticos são sentimentais incuráveis: preferem muitas vezes sentir do que pensar, e têm uma fascinação especial pela sua própria morte. Desprezam este mundo e estão impacientes por trocá-lo pelo "Paraíso". No entanto, o seu Paraíso é geralmente imaginado como o final de um mau filme.
(...) Um querido amigo e colega meu, o admirável romancista israelita Sammy Michael, passou uma vez pela experiência, por que todos nós passamos de vez em quando, de andar de táxi durante um bom tempo com um condutor que lhe ia dando a típica palestra sobre como é importante para nós, Judeus, matar todos os Árabes. Sammy ouvia-o e, em vez de lhe gritar, "Que homem horrível que você é! É nazi ou fascista?", decidiu ir por outro caminho e perguntou-lhe: "E quem acha que deveria matar todos os Árabes?" O taxista disse-lhe: "O que quer dizer com isso? Nós! Os Judeus Israelitas! Temos de o fazer! Não há escolha. Veja só o que nos fazem todos os dias!" "Mas quem, especificamente, é que deveria fazer o trabalho? A polícia? Ou o exército talvez? O corpo de bombeiros ou as equipas médicas? Quem deveria fazer o trabalho?" O taxista coçou a cabeça e disse: "Penso que devíamos dividi-lo em partes iguais entre cada um de nós, cada um de nós devia matar alguns." E Sammy Michael, ainda no mesmo jogo, disse: "Pois bem, suponha que a si lhe toca um determinado bloco residencial da sua cidade natal, Haifa, e que bate às portas ou toca às campainhas, e pergunta: 'Desculpe, senhor, ou desculpe, senhora. Por acaso é árabe?' E se a resposta for afirmativa, você dispara. Quando acaba o seu bloco, dispõe-se a regressar a casa, mas ao fazê-lo," continuou Sammy "ouve, algures no quarto andar do seu bloco, o choro de um bebé. Voltaria para matar o bebé? Sim ou não?" Houve um momento de silêncio e, então, o taxista disse a Sammy: "Sabe, o senhor é um homem muito cruel." Esta é uma história muito significativa, porque há algo na natureza do fanático que, essencialmente, é muito sentimental e, ao mesmo tempo, carece de imaginação. E isto, às vezes, dá-me esperança — naturalmente, muito limitada — de que injectando alguma imaginação nas pessoas, talvez as ajudemos a reduzir o fanático que trazem dentro de si e a sentirem-se incomodados. Não é um remédio rápido, não é uma cura rápida, mas pode ajudar.
[...]
Shakespeare pode ajudar muito: todo o extremismo, toda a cruzada intransigente, toda a forma de fanatismo em Shakespeare acaba, mais tarde ou mais cedo, em tragédia ou em comédia. No final o fanático nunca está mais feliz ou mais satisfeito, ora morrendo ora convertendo-se em bobo. É uma boa injecção. E Gogol também pode ajudar: faz com que, grotescamente, os seus leitores tomem consciência do pouco que sabemos, mesmo quando estamos convencidos de ter cem por cento de razão. Gogol ensina-nos que o nosso próprio nariz pode transformar-se num inimigo terrível, num inimigo fanático até. E pode acontecer que acaemos por perseguir fanaticamente o nosso próprio nariz. Em si, não é uma má lição. Kafka é um bom educador a este respeito, se bem que tenho a certeza de que ele nunca pretendeu leccionar contra o fanatismo. Mas Kafka mostra-nos que também existe escuridão e enigma e engano quando pensamos que não fizemos absolutamente nada de mal. Isso ajuda. E William Faulkner pode ajudar. O poeta israelita Yehuda Amijai expressa tudo isto melhor do que eu poderia fazer, quando afirma: "Onde temos razão não podem crescer flores."
[...]
Nenhum homem é uma ilha, disse John Donne, mas atrevo-me humildemente a acrescentar: nenhum homem e nenhuma mulher é uma ilha, mas cada um de nós é uma península, com uma metade unida à terra firme e a outra a olhar para o oceano — uma metade ligada à família, aos amigos, à cultura, à tradição, ao país, à nação, ao sexo e à linguagem e a muitas outras coisas, e a outra metade a desejar que a deixem sozinha a contemplar o oceano. Penso que deviam deixar-nos continuar a ser penínsulas. Todo o sistema político e social que converte cada um de nós numa ilha donneana e o resto da humanidade em inimigo ou rival é uma monstruosidade. Mas ao mesmo tempo, todo o sistema ideológico, político e social que apenas nos quer transformar em moléculas do continente, também é uma monstruosidade, A condição de península é a própria condição humana. É o que somos e o que merecemos continuar a ser.
[...]
Amos Oz, Da natureza do fanatismo — conferência de 23 de Janeiro de 2002
[para o Fernando, com um beijo peninsular]
os verdadeiros problemas 2.0
Diz que há um piloto que partiu o mindinho da mão direita. É chato, agora como é que ele bebe chá?
os verdadeiros problemas 1.0
Não consigo entender. Sim, pois, é a marca, e a marca é tudo. Até modelos de automóveis levam o carimbo, o que é que iam fazer, mudá-los todos para "Valparaíso"? Mas não me passa, desculpem lá, por alminha de quem se chama Dakar a um rali que acaba de entrar no Chile. Quando muito uma adaptaçãozita, tipo, Dakar Deluxe War Refugees. Tipo.
sábado, janeiro 10, 2009
divergências significantes: a preguiça
Já não foi ontem que dei por mim a pensar que o caminho do meio não é o da virtude, é o do funâmbulo. Não é um caminho arroteado entre dois atalhos misteriosos, um cheio de luz, o outro negro. É um arame. Apenas. Não se lhe foge por ser virtuoso, não se lhe foge por ser plano, não se lhe foge pela força do que em fraqueza se chama tentação.
Foge-se-lhe porque se cai.
Porque dá trabalho.
E nós somos preguiçosos.

Santa Catarina, 9 de Janeiro de 2009
Dont blame me [take 1] - Thelonious Monk
Foge-se-lhe porque se cai.
Porque dá trabalho.
E nós somos preguiçosos.
Santa Catarina, 9 de Janeiro de 2009
Dont blame me [take 1] - Thelonious Monk
sexta-feira, janeiro 09, 2009
três vezes
Janelas Verdes, hoje de Janeiro de 2009
Acima de tudo não nos é possível deixar de viver no presente. Bendito entre todos os mortais o que não perde um momento de vida presente a relembrar o passado. A nossa filosofia está atrasada, excepto quando ouve o galo cantar em todos os quintais que há no raio do horizonte. Em geral, esse canto recorda-me que estamos cada vez mais obsoletos no que fazemos, e nas rotinas do pensamento. A sua filosofia chega a uma época mais recente do que a nossa. Algo possui que sugere um mais novo testamento — o evangelho segundo o momento actual. Não foi ultrapassado; cedo se levantou e ficou desperto para estar onde lhe for possível acompanhar as estações, na guarda avançada do tempo. É uma expressão da saúde e do perfeito estado da Natureza, uma jactância dirigida ao mundo inteiro — uma salubridade que é como um jorro a brotar de uma nascente, uma nova fonte das Musas para celebrar este último ponto do tempo. Onde ele vive não se promulgam leis sobre escravos. Quem já não traíu muitas vezes o seu senhor depois de ter ouvido esta nota pela derradeira vez?
O mérito desta melodia de ave está em mostrar-se alheia a qualquer queixume. O cantor pode levar-nos facilmente às lágrimas ou ao riso. Mas onde está aquele que é capaz de provocar-nos uma alegria puramente matinal? Pesado de humor, quando sinto o terrível silêncio dominical das sendas da nossa floresta, ou, porventura, o velório numa casa mortuária cortado por um galo que, perto ou longe, entoa a a sua vitória, digo a mim próprio: "Ao menos há um dos nossos que está de bem com a vida" — e, com um inesperado frémito, recupero o ânimo.
Henry David Thoreau, in Caminhar, trad. António Moura
logos n.2
logos n.2 - AJManuel
[não sei a quem pertencem as mãos azuis que vão abrindo as portas sufocadas da cidade. mas gosto delas.]
quinta-feira, janeiro 08, 2009
processo de intoxicação — sagte ich nicht "nein!"
Quarta, 7 de Julho de 1920
Tudo o que escrevo nestes dias é mau e vulgar, batatas para pobres, embora não faça mais nada a não ser escrever. Talvez a razão seja esta: os dias estão quentes e cheios de sol, o asfalto nada me diz, a cabeça pesa-me. E com isto o tempo vai passando, não o uso, mas fico contente quando ele se vai como a pele depois de um escaldão ao sol. Acho que tudo tem culpa disto, mesmo a grande janela que descobre um céu falsificado, enevoado pela vidraça. Para o Galgei só me falta o impulso, na concepção está tudo alright. Nunca consigo escrever, aumentam as dores de cabeça. Não acredito que no inferno se passem coisas terríveis. Não se passa é nada de nada. Sauve qui peut.
Se eu fosse pintor! São como as mulheres, podem sempre. E mortificar-se no trabalho! O cheiro das cores, a resistência dos materiais, a eterna disponibilidade do objecto desafiam e saciam.
Bertolt Brecht, Diários da Juventude
on the nickel
Bairro Alto, Janeiro de 2009
I Found A Reason (Velvet Underground) - Cat Power
[mais uma para a bagagem... less is more.]
retroescavadora
Chiado, 7 de Janeiro de 2009
[para a minha noiva, com um beijo.]
Between the devil and the deep blue sea [take 1] - Thelonious Monk
desmontagem...
... graças aos rEis!

Porque há anos que a praça não estava tão feia como neste natal. Foi um transitório crime urbanístico praticado pela santa casa. Obrigadinha. Gostei mais do ano em que tínhamos o Bocelli a sair aos berros de uns megafones de campo de concentração.

Rossio, Janeiro de 2009
Porque há anos que a praça não estava tão feia como neste natal. Foi um transitório crime urbanístico praticado pela santa casa. Obrigadinha. Gostei mais do ano em que tínhamos o Bocelli a sair aos berros de uns megafones de campo de concentração.
Rossio, Janeiro de 2009
quarta-feira, janeiro 07, 2009
et in saecula saeculorum.
Fui matar saudades do meu mano Possante [como se elas se matassem assim...] e recebo de prenda este momento. Nas suas próprias palavras, "o maior Olisipo de sempre" [pois, em 2001 em São Bento da Vitória éramos seis e já era bué da people] no último festival de São Roque — por falar nisso, já reabriu o museu, parece que vale a pena. A música é daquela de fazer sangrar os ouvidos nos ensaios de leitura, e depois é tão perfeita que nunca mais se esquece: a fuga final do Dixit Dominus de G.F.Händel. A primeira obra que me pôs seriamente a questionar o meu ateísmo: é bela demais, perfeita demais, parece não-criada, parece revelada.
Registe-se que os questionamentos continuam vivos. E o ateísmo também. Porque depois mergulhei em Bach para não mais sair, e não havendo perfeição maior, não há também uma proporção que não seja sanguínea, encarnada, humana. Só um mortal poderia traduzi-la. Dixit Dominus Domino meo.
objecto—sujeito
quando ponho sob uma fotografia uma localização, de que falo? quando é próximo é simples. é aqui. mas e isto, é o quê? alcântara? mas se de alcântara apenas se vê um pouco de água, uns metros de rio, alcântara porquê? mais justo seria, talvez, trafaria. mais justo ainda, porque é a luz que dispara, costa, caparica. horizonte? vénus?
mas alcântara?
...
pois, sim, alcântara. é o olho que se vê. aquele ar próximo e respirável onde se reflecte a outra margem. aqui. em mim que olho. alcântara.
mas alcântara?
...
pois, sim, alcântara. é o olho que se vê. aquele ar próximo e respirável onde se reflecte a outra margem. aqui. em mim que olho. alcântara.
a leveza de um animal
São duas vezes em vinte e quatro horas e o assunto recorre. A Noa é nossa. Está em casa. Dá e leva porrada. Enterra o focinho em pêlo alheio, disputa a gamela, lambe os outros, os outros lambem-na, ronrona, conhece o terreno e os espíritos.
A Noa é minha. As últimas resistências parecem ter ido, foram nela, que tem o pêlo já macio e a confiança já ganha, foram em mim, que já não preciso de me vigiar, que já não vejo nela uma intrusa.
E no entanto, três meses depois — só agora dou por isso, mas hoje faz três meses — e apenas três meses depois, me titubeia a língua quando tenho de a repreender, quando não quero que me encha os lençóis de pêlo, quando anda em cima da mesa posta, quando, resumindo, faz merda. Desde o primeiro dia, nunca me acontecera. Era para mim claríssimo que aquele era outro animal e não o que deveria estar no meu espaço, o que ao meu espaço pertencia. E no entanto hoje, que o espaço é dela, hoje, três meses depois, recorrentemente é outro o primeiro nome que me aflora os lábios. Frika.
O primeiro passo no ultrapassar de uma perda é ganhar força para perceber que ainda não se ultrapassou uma perda. E trocar os nomes e poder sorrir face à troca. Às vezes é preciso a leveza de um animal para fazer ressaltar todo o nosso peso.

Noa, Janeiro de 2009
[ainda por cima é gira, a tipa, e esperta: aquela patinha levantada mostra bem que ela topa aquele reverendo manhoso à légua; até agora, só tinha revelado tamanho interesse por docs... National Geographic e John Ford; percebo a ligação, cavalos, homens suados, espaço, luz rasgante, é tudo mais ou menos a mesma coisa... é mesmo minha, o raio da gata]
A Noa é minha. As últimas resistências parecem ter ido, foram nela, que tem o pêlo já macio e a confiança já ganha, foram em mim, que já não preciso de me vigiar, que já não vejo nela uma intrusa.
E no entanto, três meses depois — só agora dou por isso, mas hoje faz três meses — e apenas três meses depois, me titubeia a língua quando tenho de a repreender, quando não quero que me encha os lençóis de pêlo, quando anda em cima da mesa posta, quando, resumindo, faz merda. Desde o primeiro dia, nunca me acontecera. Era para mim claríssimo que aquele era outro animal e não o que deveria estar no meu espaço, o que ao meu espaço pertencia. E no entanto hoje, que o espaço é dela, hoje, três meses depois, recorrentemente é outro o primeiro nome que me aflora os lábios. Frika.
O primeiro passo no ultrapassar de uma perda é ganhar força para perceber que ainda não se ultrapassou uma perda. E trocar os nomes e poder sorrir face à troca. Às vezes é preciso a leveza de um animal para fazer ressaltar todo o nosso peso.
Noa, Janeiro de 2009
[ainda por cima é gira, a tipa, e esperta: aquela patinha levantada mostra bem que ela topa aquele reverendo manhoso à légua; até agora, só tinha revelado tamanho interesse por docs... National Geographic e John Ford; percebo a ligação, cavalos, homens suados, espaço, luz rasgante, é tudo mais ou menos a mesma coisa... é mesmo minha, o raio da gata]
segunda-feira, janeiro 05, 2009
will we ever say never again and mean it?
Já se multiplicam pelo mundo. Pois, dir-se-á, é a conversa do costume. E os moralistas de sofá gozam mais uma guerra frente ao televisor. Mas sim, já se multiplicam pelo mundo, e não, não são igual a nada. Em Telaviv, semitas dos dois lados dos muros marcharam lado a lado contra a medusa, em Lisboa começamos a marcha no local onde se ergueu um memorial para não deixar apagar o sangue. Não poderia ser melhor escolhido.
CONTRA O MASSACRE DE GAZA - CONCENTRAÇÃO EM LISBOA, DIAS 5 e 8
5 de Janeiro a partir das 18h
no Largo de S. Domingos, junto ao memorial às vítimas da intolerância
8 de Janeiro a partir das 18h
em frente do check-point que a embaixada israelita instalou na Rua António Enes, nº 16, a S. Sebastião
Quem tencionar deixar comentários ruidosos acerca do assunto, tenha a bondade, se assim o entender, de espreitar esta página primeiro. E depois então fale de muçulmanos terroristas e israelitas vitimizados.
CONTRA O MASSACRE DE GAZA - CONCENTRAÇÃO EM LISBOA, DIAS 5 e 8
5 de Janeiro a partir das 18h
no Largo de S. Domingos, junto ao memorial às vítimas da intolerância
8 de Janeiro a partir das 18h
em frente do check-point que a embaixada israelita instalou na Rua António Enes, nº 16, a S. Sebastião
Quem tencionar deixar comentários ruidosos acerca do assunto, tenha a bondade, se assim o entender, de espreitar esta página primeiro. E depois então fale de muçulmanos terroristas e israelitas vitimizados.
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