quarta-feira, janeiro 07, 2009

et in saecula saeculorum.




Fui matar saudades do meu mano Possante [como se elas se matassem assim...] e recebo de prenda este momento. Nas suas próprias palavras, "o maior Olisipo de sempre" [pois, em 2001 em São Bento da Vitória éramos seis e já era bué da people] no último festival de São Roque — por falar nisso, já reabriu o museu, parece que vale a pena. A música é daquela de fazer sangrar os ouvidos nos ensaios de leitura, e depois é tão perfeita que nunca mais se esquece: a fuga final do Dixit Dominus de G.F.Händel. A primeira obra que me pôs seriamente a questionar o meu ateísmo: é bela demais, perfeita demais, parece não-criada, parece revelada.


Registe-se que os questionamentos continuam vivos. E o ateísmo também. Porque depois mergulhei em Bach para não mais sair, e não havendo perfeição maior, não há também uma proporção que não seja sanguínea, encarnada, humana. Só um mortal poderia traduzi-la. Dixit Dominus Domino meo.

objecto—sujeito

quando ponho sob uma fotografia uma localização, de que falo? quando é próximo é simples. é aqui. mas e isto, é o quê? alcântara? mas se de alcântara apenas se vê um pouco de água, uns metros de rio, alcântara porquê? mais justo seria, talvez, trafaria. mais justo ainda, porque é a luz que dispara, costa, caparica. horizonte? vénus?

mas alcântara?
...

pois, sim, alcântara. é o olho que se vê. aquele ar próximo e respirável onde se reflecte a outra margem. aqui. em mim que olho. alcântara.

luz dos meus olhos — inversão


Alcântara, 6 de Janeiro de 2009

a leveza de um animal

São duas vezes em vinte e quatro horas e o assunto recorre. A Noa é nossa. Está em casa. Dá e leva porrada. Enterra o focinho em pêlo alheio, disputa a gamela, lambe os outros, os outros lambem-na, ronrona, conhece o terreno e os espíritos.

A Noa é minha. As últimas resistências parecem ter ido, foram nela, que tem o pêlo já macio e a confiança já ganha, foram em mim, que já não preciso de me vigiar, que já não vejo nela uma intrusa.

E no entanto, três meses depois — só agora dou por isso, mas hoje faz três meses — e apenas três meses depois, me titubeia a língua quando tenho de a repreender, quando não quero que me encha os lençóis de pêlo, quando anda em cima da mesa posta, quando, resumindo, faz merda. Desde o primeiro dia, nunca me acontecera. Era para mim claríssimo que aquele era outro animal e não o que deveria estar no meu espaço, o que ao meu espaço pertencia. E no entanto hoje, que o espaço é dela, hoje, três meses depois, recorrentemente é outro o primeiro nome que me aflora os lábios. Frika.


O primeiro passo no ultrapassar de uma perda é ganhar força para perceber que ainda não se ultrapassou uma perda. E trocar os nomes e poder sorrir face à troca. Às vezes é preciso a leveza de um animal para fazer ressaltar todo o nosso peso.



Noa, Janeiro de 2009


[ainda por cima é gira, a tipa, e esperta: aquela patinha levantada mostra bem que ela topa aquele reverendo manhoso à légua; até agora, só tinha revelado tamanho interesse por docs... National Geographic e John Ford; percebo a ligação, cavalos, homens suados, espaço, luz rasgante, é tudo mais ou menos a mesma coisa... é mesmo minha, o raio da gata]

segunda-feira, janeiro 05, 2009

ela tinha momentos...



... em que achava que havia mais,



mas...

da noite

[vá lá, caraças, que tenho uma manhã de aulas pela frente... raio de sina.]

will we ever say never again and mean it?

Já se multiplicam pelo mundo. Pois, dir-se-á, é a conversa do costume. E os moralistas de sofá gozam mais uma guerra frente ao televisor. Mas sim, já se multiplicam pelo mundo, e não, não são igual a nada. Em Telaviv, semitas dos dois lados dos muros marcharam lado a lado contra a medusa, em Lisboa começamos a marcha no local onde se ergueu um memorial para não deixar apagar o sangue. Não poderia ser melhor escolhido.






CONTRA O MASSACRE DE GAZA - CONCENTRAÇÃO EM LISBOA, DIAS 5 e 8

5 de Janeiro a partir das 18h
no Largo de S. Domingos, junto ao memorial às vítimas da intolerância

8 de Janeiro a partir das 18h
em frente do check-point que a embaixada israelita instalou na Rua António Enes, nº 16, a S. Sebastião




Quem tencionar deixar comentários ruidosos acerca do assunto, tenha a bondade, se assim o entender, de espreitar esta página primeiro. E depois então fale de muçulmanos terroristas e israelitas vitimizados.

and the moon was hanging from the ceiling of my bedroom


Anjos, 5 de Janeiro de 2009



Modern Moonlight - The Dresden Dolls

domingo, janeiro 04, 2009

a purple dance

da duração

Se o filme não é mudo, não se suporta o silêncio durante muito tempo. E mesmo que o seja, o ouvido socorre-se sempre do piano mecânico. E na sua ausência, do mecanismo ruidoso da projecção.

cut!

We won't need more than one take, will we?...

mural 4.0




[silêncio, para se terminar como se começa.]

mural 3.0 [o díptico à distância]




Porque o desfasamento geográfico e temporal das cartas faz alguns dos momentos mais caprichosos de um pintor sem aparentes caprichos. E porque este Charlie-guy é um dos mais irritantemente deliciosos pequenos cromos do cinema.


[foi pintor que escrevi? ora, pois sim, é isso...]

mural 2.0 [o funeral de Lucy]



No. Human rides a horse until it dies. Then he goes on on foot. Comanche comes along, gets that horse up, rides it twenty more miles. Then he eats it.

mural 1.0




John Ford, The Searchers, 1956

sábado, janeiro 03, 2009

uma estranha tranquilidade

De origem obscura. Não entendo se não me inquieto por não ter razões para tal ou por me ser razoavelmente indiferente.



...

Pelo sim pelo não, agora faço uma pausa nas leituras zen...

contra a violência e o drama entre fígados arrancados à serra eléctrica




Para o AdC, com os desejos de mais um belo ano de resistência canina.




Concepção artística da nossa galáxia Via Láctea realizada pela NASA seguindo as mais recentes observações e teorias. Note-se que a esta escala o Sol só seria observável com um microscópio. Imagem de uso livre. 

bom dia

["o andamento do mindinho", assim baptizado em honra das sublimes entradas dadas aos tímbales pelo urso Michael Zilm]


Beethoven, Sinfonia n.º9 — II.Molto vivace - Presto - Simon Rattle.Wiener Philharmoniker


"Devo prepará-lo apenas para uma coisa. No decorrer destes anos, ambos, tanto o senhor como a sua mulher, se modificaram. Esta é uma consequência da arte do tiro com arco: uma confrontação do arqueiro consigo mesmo, até ao mais profundo e recôndito de si. É provável que mal se tenha apercebido, até agora, dessa transformação, mas irá forçosamente senti-la quando reencontrar, no seu país, amigos e conhecidos: já não sentirá a afinidade de antes. Verá muitas coisas com outros olhos e irá medi-las segundo outros padrões. Comigo também foi assim, e esse é o destino de todo aquele que foi tocado pelo espírito desta arte." À guisa de despedida, que não foi nenhuma despedida, o mestre ofereceu-me o seu melhor arco. "Se atirar com este arco sentirá a presença da mestria do mestre. Não o ponha nas mãos de qualquer curioso! E se um dia ele já estiver ultrapassado, não o guarde como uma recordação! Destrua-o, para que não reste nada, a não ser um punhado de cinzas!"


Eugen Herrigel, Zen e a Arte do Tiro com Arco, trad. Patrícia Lara




Beethoven, Sinfonia n.º9 — IV.Presto - Allegro assai - Simon Rattle.Wiener Philharmoniker

variação — espanta-me


Anjos, 2 de Janeiro de 2009

a cada entardecer como no primeiro assombro.


[não é uma ordem. mas é um pedido.]

sexta-feira, janeiro 02, 2009

jump start

Sem planear, limpar cantos, organizar ideias, plantar uma roseira, ensacar uma hortênsia morta mas antes de tudo atirar com as nove para o leitor de cd's. Sem planear, ouvir oito delas [oitava, primeiro andamento, neste momento] e decidir que a nona é para começar o dia que se segue. Merece. Primeiro plano. Sem provetas, lançado apenas em causa e efeito. Gosto.


Oh yeah, jump start...



Beethoven, Sinfonia n.º8 — I.Allegro vivace e con brio - Simon Rattle.Wiener Philharmoniker

manto furado


Anjos, hoje de Janeiro de 2009


Já no dezembro final te tinha topado, aí pendurado, brilhantinho e orgulhosinho da tua luz tomada de empréstimo. Foi Júpiter que te levou os véus, e esperei duas noites de névoa para que te confirmasses assim. Já percebi, abóbada pessoal cabeça-de-giz: se o que terminou foi o mais lunar dos meus anos, este não o será menos, com a ajuda de Vénus. Não é que augure necessariamente algo de bom, mas a monotonia é que parece não estar no mapa.

everything counts


Praça do Comércio, 1 de Janeiro de 2009

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui por diante vai ser diferente.

Carlos Drummond de Andrade





Everything Counts [Live] - Depeche Mode

na noite


Santo Amaro de Oeiras, 1 de Janeiro de 2009


Na noite
Na noite
Eu uni-me à noite
À noite sem limites
À noite.

Minha, bela, minha.
Noite.
Noite natalícia
Que me enches do meu grito
Das minhas espigas
Tu que me invades
Que ondulas ondulas
Que ondulas a toda a volta
E fumegas, e és tão densa
E muges
És a noite.
Noite que jaz, Noite implacável.
E a sua fanfarra, e a sua praia,
A praia ao alto, a praia em todo o lado,
A praia bebe, seu peso reina, e sob ele tudo se verga.
Sob ele, sob mais ténue que um fio,
Sob a noite
A Noite.

in
Doze Dias Numa Corda, poemas mudados para português por Herberto Hélder

quinta-feira, janeiro 01, 2009

o ano comum

No próximos trezentos e sessenta e cinco, andarei também por aqui. De olho no caminho aberto, e em boa companhia.

aos meus irmãos



Bom dia!



Caxias, 1 de Janeiro de 2009

quarta-feira, dezembro 31, 2008

from the gutter

São épocas... vão assim uma data deles de seguida, sempre. Hoje foi a Eartha Kitt, na morte unem-se todos na graça dos media. E foi o Freddie Hubbard. E foi o Richard Hickox, há já um mês e cedo, muito cedo. Nas mãos dele, há dez anos no palco da Gulbenkian, a cantar Britten, a fazer, a representar, a respirar Britten, percebi que o que queria ser era actriz. Não há paga para isso.




....


filho da mãe.


Britten: Peter Grimes, Op. 33 - Act 2: From The Gutter - Anthony Rolfe Johnson, Felicity Lott, Etc.; Bernard Haitink: Royal Opera House Orchestra & Chorus

[infelizmente a nossa versão jaz nos arquivos da Gulbe, como tantos momentos que não podem ser descritos; como tantos outros que só podem ser esquecidos, junto com outros que só podem ser ridos. este rasgão em forma de quarteto é dirigido por Bernard Haitink com a orquestra da Royal Opera House. Patricia Payne é a Auntie, as "sobrinhas" são Maria Bovino e Gillian Webster, a soberba Felicity Lott — que vi na Gulbenkian, claro —, é Ellen Orford. Peter Grimes, de Benjamin Britten, acto II]

processo de intoxicação — em casa

sexta, 18 de Junho de 1920

Aborrece-me esta Alemanha. É um pequeno país mediano, as cores são pálidas e as planícies são belas, mas os habitantes! Camponeses derrotados, mas cuja grosseria não cria monstros fabulosos, pelo contrário, um embrutecimento tranquilo, uma classe média engordurada e uma inteligência exausta. O que resta: a América!

Bertolt Brecht, Diários da Juventude




Santa Catarina, 30 de Dezembro de 2008


[sempre espirituoso, como tu dizes, Anonyma, jejeje... vá, a esperança é a última a morrer]