quando ponho sob uma fotografia uma localização, de que falo? quando é próximo é simples. é aqui. mas e isto, é o quê? alcântara? mas se de alcântara apenas se vê um pouco de água, uns metros de rio, alcântara porquê? mais justo seria, talvez, trafaria. mais justo ainda, porque é a luz que dispara, costa, caparica. horizonte? vénus?
mas alcântara?
...
pois, sim, alcântara. é o olho que se vê. aquele ar próximo e respirável onde se reflecte a outra margem. aqui. em mim que olho. alcântara.
quarta-feira, janeiro 07, 2009
a leveza de um animal
São duas vezes em vinte e quatro horas e o assunto recorre. A Noa é nossa. Está em casa. Dá e leva porrada. Enterra o focinho em pêlo alheio, disputa a gamela, lambe os outros, os outros lambem-na, ronrona, conhece o terreno e os espíritos.
A Noa é minha. As últimas resistências parecem ter ido, foram nela, que tem o pêlo já macio e a confiança já ganha, foram em mim, que já não preciso de me vigiar, que já não vejo nela uma intrusa.
E no entanto, três meses depois — só agora dou por isso, mas hoje faz três meses — e apenas três meses depois, me titubeia a língua quando tenho de a repreender, quando não quero que me encha os lençóis de pêlo, quando anda em cima da mesa posta, quando, resumindo, faz merda. Desde o primeiro dia, nunca me acontecera. Era para mim claríssimo que aquele era outro animal e não o que deveria estar no meu espaço, o que ao meu espaço pertencia. E no entanto hoje, que o espaço é dela, hoje, três meses depois, recorrentemente é outro o primeiro nome que me aflora os lábios. Frika.
O primeiro passo no ultrapassar de uma perda é ganhar força para perceber que ainda não se ultrapassou uma perda. E trocar os nomes e poder sorrir face à troca. Às vezes é preciso a leveza de um animal para fazer ressaltar todo o nosso peso.

Noa, Janeiro de 2009
[ainda por cima é gira, a tipa, e esperta: aquela patinha levantada mostra bem que ela topa aquele reverendo manhoso à légua; até agora, só tinha revelado tamanho interesse por docs... National Geographic e John Ford; percebo a ligação, cavalos, homens suados, espaço, luz rasgante, é tudo mais ou menos a mesma coisa... é mesmo minha, o raio da gata]
A Noa é minha. As últimas resistências parecem ter ido, foram nela, que tem o pêlo já macio e a confiança já ganha, foram em mim, que já não preciso de me vigiar, que já não vejo nela uma intrusa.
E no entanto, três meses depois — só agora dou por isso, mas hoje faz três meses — e apenas três meses depois, me titubeia a língua quando tenho de a repreender, quando não quero que me encha os lençóis de pêlo, quando anda em cima da mesa posta, quando, resumindo, faz merda. Desde o primeiro dia, nunca me acontecera. Era para mim claríssimo que aquele era outro animal e não o que deveria estar no meu espaço, o que ao meu espaço pertencia. E no entanto hoje, que o espaço é dela, hoje, três meses depois, recorrentemente é outro o primeiro nome que me aflora os lábios. Frika.
O primeiro passo no ultrapassar de uma perda é ganhar força para perceber que ainda não se ultrapassou uma perda. E trocar os nomes e poder sorrir face à troca. Às vezes é preciso a leveza de um animal para fazer ressaltar todo o nosso peso.
Noa, Janeiro de 2009
[ainda por cima é gira, a tipa, e esperta: aquela patinha levantada mostra bem que ela topa aquele reverendo manhoso à légua; até agora, só tinha revelado tamanho interesse por docs... National Geographic e John Ford; percebo a ligação, cavalos, homens suados, espaço, luz rasgante, é tudo mais ou menos a mesma coisa... é mesmo minha, o raio da gata]
segunda-feira, janeiro 05, 2009
will we ever say never again and mean it?
Já se multiplicam pelo mundo. Pois, dir-se-á, é a conversa do costume. E os moralistas de sofá gozam mais uma guerra frente ao televisor. Mas sim, já se multiplicam pelo mundo, e não, não são igual a nada. Em Telaviv, semitas dos dois lados dos muros marcharam lado a lado contra a medusa, em Lisboa começamos a marcha no local onde se ergueu um memorial para não deixar apagar o sangue. Não poderia ser melhor escolhido.
CONTRA O MASSACRE DE GAZA - CONCENTRAÇÃO EM LISBOA, DIAS 5 e 8
5 de Janeiro a partir das 18h
no Largo de S. Domingos, junto ao memorial às vítimas da intolerância
8 de Janeiro a partir das 18h
em frente do check-point que a embaixada israelita instalou na Rua António Enes, nº 16, a S. Sebastião
Quem tencionar deixar comentários ruidosos acerca do assunto, tenha a bondade, se assim o entender, de espreitar esta página primeiro. E depois então fale de muçulmanos terroristas e israelitas vitimizados.
CONTRA O MASSACRE DE GAZA - CONCENTRAÇÃO EM LISBOA, DIAS 5 e 8
5 de Janeiro a partir das 18h
no Largo de S. Domingos, junto ao memorial às vítimas da intolerância
8 de Janeiro a partir das 18h
em frente do check-point que a embaixada israelita instalou na Rua António Enes, nº 16, a S. Sebastião
Quem tencionar deixar comentários ruidosos acerca do assunto, tenha a bondade, se assim o entender, de espreitar esta página primeiro. E depois então fale de muçulmanos terroristas e israelitas vitimizados.
domingo, janeiro 04, 2009
da duração
Se o filme não é mudo, não se suporta o silêncio durante muito tempo. E mesmo que o seja, o ouvido socorre-se sempre do piano mecânico. E na sua ausência, do mecanismo ruidoso da projecção.
mural 3.0 [o díptico à distância]
Porque o desfasamento geográfico e temporal das cartas faz alguns dos momentos mais caprichosos de um pintor sem aparentes caprichos. E porque este Charlie-guy é um dos mais irritantemente deliciosos pequenos cromos do cinema.
[foi pintor que escrevi? ora, pois sim, é isso...]
mural 2.0 [o funeral de Lucy]
No. Human rides a horse until it dies. Then he goes on on foot. Comanche comes along, gets that horse up, rides it twenty more miles. Then he eats it.
sábado, janeiro 03, 2009
uma estranha tranquilidade
De origem obscura. Não entendo se não me inquieto por não ter razões para tal ou por me ser razoavelmente indiferente.
...
Pelo sim pelo não, agora faço uma pausa nas leituras zen...
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Pelo sim pelo não, agora faço uma pausa nas leituras zen...
contra a violência e o drama entre fígados arrancados à serra eléctrica
Para o AdC, com os desejos de mais um belo ano de resistência canina.

Concepção artística da nossa galáxia Via Láctea realizada pela NASA seguindo as mais recentes observações e teorias. Note-se que a esta escala o Sol só seria observável com um microscópio. Imagem de uso livre.
bom dia
["o andamento do mindinho", assim baptizado em honra das sublimes entradas dadas aos tímbales pelo urso Michael Zilm]
Beethoven, Sinfonia n.º9 — II.Molto vivace - Presto - Simon Rattle.Wiener Philharmoniker
"Devo prepará-lo apenas para uma coisa. No decorrer destes anos, ambos, tanto o senhor como a sua mulher, se modificaram. Esta é uma consequência da arte do tiro com arco: uma confrontação do arqueiro consigo mesmo, até ao mais profundo e recôndito de si. É provável que mal se tenha apercebido, até agora, dessa transformação, mas irá forçosamente senti-la quando reencontrar, no seu país, amigos e conhecidos: já não sentirá a afinidade de antes. Verá muitas coisas com outros olhos e irá medi-las segundo outros padrões. Comigo também foi assim, e esse é o destino de todo aquele que foi tocado pelo espírito desta arte." À guisa de despedida, que não foi nenhuma despedida, o mestre ofereceu-me o seu melhor arco. "Se atirar com este arco sentirá a presença da mestria do mestre. Não o ponha nas mãos de qualquer curioso! E se um dia ele já estiver ultrapassado, não o guarde como uma recordação! Destrua-o, para que não reste nada, a não ser um punhado de cinzas!"
Eugen Herrigel, Zen e a Arte do Tiro com Arco, trad. Patrícia Lara
Beethoven, Sinfonia n.º9 — IV.Presto - Allegro assai - Simon Rattle.Wiener Philharmoniker
Beethoven, Sinfonia n.º9 — II.Molto vivace - Presto - Simon Rattle.Wiener Philharmoniker
"Devo prepará-lo apenas para uma coisa. No decorrer destes anos, ambos, tanto o senhor como a sua mulher, se modificaram. Esta é uma consequência da arte do tiro com arco: uma confrontação do arqueiro consigo mesmo, até ao mais profundo e recôndito de si. É provável que mal se tenha apercebido, até agora, dessa transformação, mas irá forçosamente senti-la quando reencontrar, no seu país, amigos e conhecidos: já não sentirá a afinidade de antes. Verá muitas coisas com outros olhos e irá medi-las segundo outros padrões. Comigo também foi assim, e esse é o destino de todo aquele que foi tocado pelo espírito desta arte." À guisa de despedida, que não foi nenhuma despedida, o mestre ofereceu-me o seu melhor arco. "Se atirar com este arco sentirá a presença da mestria do mestre. Não o ponha nas mãos de qualquer curioso! E se um dia ele já estiver ultrapassado, não o guarde como uma recordação! Destrua-o, para que não reste nada, a não ser um punhado de cinzas!"
Eugen Herrigel, Zen e a Arte do Tiro com Arco, trad. Patrícia Lara
Beethoven, Sinfonia n.º9 — IV.Presto - Allegro assai - Simon Rattle.Wiener Philharmoniker
variação — espanta-me
Anjos, 2 de Janeiro de 2009
a cada entardecer como no primeiro assombro.
[não é uma ordem. mas é um pedido.]
sexta-feira, janeiro 02, 2009
jump start
Sem planear, limpar cantos, organizar ideias, plantar uma roseira, ensacar uma hortênsia morta mas antes de tudo atirar com as nove para o leitor de cd's. Sem planear, ouvir oito delas [oitava, primeiro andamento, neste momento] e decidir que a nona é para começar o dia que se segue. Merece. Primeiro plano. Sem provetas, lançado apenas em causa e efeito. Gosto.
Oh yeah, jump start...
Beethoven, Sinfonia n.º8 — I.Allegro vivace e con brio - Simon Rattle.Wiener Philharmoniker
Oh yeah, jump start...
Beethoven, Sinfonia n.º8 — I.Allegro vivace e con brio - Simon Rattle.Wiener Philharmoniker
manto furado
Anjos, hoje de Janeiro de 2009
Já no dezembro final te tinha topado, aí pendurado, brilhantinho e orgulhosinho da tua luz tomada de empréstimo. Foi Júpiter que te levou os véus, e esperei duas noites de névoa para que te confirmasses assim. Já percebi, abóbada pessoal cabeça-de-giz: se o que terminou foi o mais lunar dos meus anos, este não o será menos, com a ajuda de Vénus. Não é que augure necessariamente algo de bom, mas a monotonia é que parece não estar no mapa.
everything counts
Praça do Comércio, 1 de Janeiro de 2009
Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui por diante vai ser diferente.
Carlos Drummond de Andrade
Everything Counts [Live] - Depeche Mode
na noite
Santo Amaro de Oeiras, 1 de Janeiro de 2009
Na noite
Na noite
Eu uni-me à noite
À noite sem limites
À noite.
Minha, bela, minha.
Noite.
Noite natalícia
Que me enches do meu grito
Das minhas espigas
Tu que me invades
Que ondulas ondulas
Que ondulas a toda a volta
E fumegas, e és tão densa
E muges
És a noite.
Noite que jaz, Noite implacável.
E a sua fanfarra, e a sua praia,
A praia ao alto, a praia em todo o lado,
A praia bebe, seu peso reina, e sob ele tudo se verga.
Sob ele, sob mais ténue que um fio,
Sob a noite
A Noite.
in Doze Dias Numa Corda, poemas mudados para português por Herberto Hélder
quinta-feira, janeiro 01, 2009
o ano comum
No próximos trezentos e sessenta e cinco, andarei também por aqui. De olho no caminho aberto, e em boa companhia.
quarta-feira, dezembro 31, 2008
from the gutter
São épocas... vão assim uma data deles de seguida, sempre. Hoje foi a Eartha Kitt, na morte unem-se todos na graça dos media. E foi o Freddie Hubbard. E foi o Richard Hickox, há já um mês e cedo, muito cedo. Nas mãos dele, há dez anos no palco da Gulbenkian, a cantar Britten, a fazer, a representar, a respirar Britten, percebi que o que queria ser era actriz. Não há paga para isso.
....
filho da mãe.
Britten: Peter Grimes, Op. 33 - Act 2: From The Gutter - Anthony Rolfe Johnson, Felicity Lott, Etc.; Bernard Haitink: Royal Opera House Orchestra & Chorus
[infelizmente a nossa versão jaz nos arquivos da Gulbe, como tantos momentos que não podem ser descritos; como tantos outros que só podem ser esquecidos, junto com outros que só podem ser ridos. este rasgão em forma de quarteto é dirigido por Bernard Haitink com a orquestra da Royal Opera House. Patricia Payne é a Auntie, as "sobrinhas" são Maria Bovino e Gillian Webster, a soberba Felicity Lott — que vi na Gulbenkian, claro —, é Ellen Orford. Peter Grimes, de Benjamin Britten, acto II]
....
filho da mãe.
Britten: Peter Grimes, Op. 33 - Act 2: From The Gutter - Anthony Rolfe Johnson, Felicity Lott, Etc.; Bernard Haitink: Royal Opera House Orchestra & Chorus
[infelizmente a nossa versão jaz nos arquivos da Gulbe, como tantos momentos que não podem ser descritos; como tantos outros que só podem ser esquecidos, junto com outros que só podem ser ridos. este rasgão em forma de quarteto é dirigido por Bernard Haitink com a orquestra da Royal Opera House. Patricia Payne é a Auntie, as "sobrinhas" são Maria Bovino e Gillian Webster, a soberba Felicity Lott — que vi na Gulbenkian, claro —, é Ellen Orford. Peter Grimes, de Benjamin Britten, acto II]
processo de intoxicação — em casa
sexta, 18 de Junho de 1920
Aborrece-me esta Alemanha. É um pequeno país mediano, as cores são pálidas e as planícies são belas, mas os habitantes! Camponeses derrotados, mas cuja grosseria não cria monstros fabulosos, pelo contrário, um embrutecimento tranquilo, uma classe média engordurada e uma inteligência exausta. O que resta: a América!
Bertolt Brecht, Diários da Juventude


Santa Catarina, 30 de Dezembro de 2008
[sempre espirituoso, como tu dizes, Anonyma, jejeje... vá, a esperança é a última a morrer]
Aborrece-me esta Alemanha. É um pequeno país mediano, as cores são pálidas e as planícies são belas, mas os habitantes! Camponeses derrotados, mas cuja grosseria não cria monstros fabulosos, pelo contrário, um embrutecimento tranquilo, uma classe média engordurada e uma inteligência exausta. O que resta: a América!
Bertolt Brecht, Diários da Juventude
Santa Catarina, 30 de Dezembro de 2008
[sempre espirituoso, como tu dizes, Anonyma, jejeje... vá, a esperança é a última a morrer]
não se discute 3.0
Chiado, 30 de Dezembro de 2008
Ainda bem que a loja estava fechada... não sei se resistia a ter um porco preto no meio da sala. Em cima punha-lhe uma escultura de migas, ui.
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