domingo, janeiro 04, 2009

mural 2.0 [o funeral de Lucy]



No. Human rides a horse until it dies. Then he goes on on foot. Comanche comes along, gets that horse up, rides it twenty more miles. Then he eats it.

mural 1.0




John Ford, The Searchers, 1956

sábado, janeiro 03, 2009

uma estranha tranquilidade

De origem obscura. Não entendo se não me inquieto por não ter razões para tal ou por me ser razoavelmente indiferente.



...

Pelo sim pelo não, agora faço uma pausa nas leituras zen...

contra a violência e o drama entre fígados arrancados à serra eléctrica




Para o AdC, com os desejos de mais um belo ano de resistência canina.




Concepção artística da nossa galáxia Via Láctea realizada pela NASA seguindo as mais recentes observações e teorias. Note-se que a esta escala o Sol só seria observável com um microscópio. Imagem de uso livre. 

bom dia

["o andamento do mindinho", assim baptizado em honra das sublimes entradas dadas aos tímbales pelo urso Michael Zilm]


Beethoven, Sinfonia n.º9 — II.Molto vivace - Presto - Simon Rattle.Wiener Philharmoniker


"Devo prepará-lo apenas para uma coisa. No decorrer destes anos, ambos, tanto o senhor como a sua mulher, se modificaram. Esta é uma consequência da arte do tiro com arco: uma confrontação do arqueiro consigo mesmo, até ao mais profundo e recôndito de si. É provável que mal se tenha apercebido, até agora, dessa transformação, mas irá forçosamente senti-la quando reencontrar, no seu país, amigos e conhecidos: já não sentirá a afinidade de antes. Verá muitas coisas com outros olhos e irá medi-las segundo outros padrões. Comigo também foi assim, e esse é o destino de todo aquele que foi tocado pelo espírito desta arte." À guisa de despedida, que não foi nenhuma despedida, o mestre ofereceu-me o seu melhor arco. "Se atirar com este arco sentirá a presença da mestria do mestre. Não o ponha nas mãos de qualquer curioso! E se um dia ele já estiver ultrapassado, não o guarde como uma recordação! Destrua-o, para que não reste nada, a não ser um punhado de cinzas!"


Eugen Herrigel, Zen e a Arte do Tiro com Arco, trad. Patrícia Lara




Beethoven, Sinfonia n.º9 — IV.Presto - Allegro assai - Simon Rattle.Wiener Philharmoniker

variação — espanta-me


Anjos, 2 de Janeiro de 2009

a cada entardecer como no primeiro assombro.


[não é uma ordem. mas é um pedido.]

sexta-feira, janeiro 02, 2009

jump start

Sem planear, limpar cantos, organizar ideias, plantar uma roseira, ensacar uma hortênsia morta mas antes de tudo atirar com as nove para o leitor de cd's. Sem planear, ouvir oito delas [oitava, primeiro andamento, neste momento] e decidir que a nona é para começar o dia que se segue. Merece. Primeiro plano. Sem provetas, lançado apenas em causa e efeito. Gosto.


Oh yeah, jump start...



Beethoven, Sinfonia n.º8 — I.Allegro vivace e con brio - Simon Rattle.Wiener Philharmoniker

manto furado


Anjos, hoje de Janeiro de 2009


Já no dezembro final te tinha topado, aí pendurado, brilhantinho e orgulhosinho da tua luz tomada de empréstimo. Foi Júpiter que te levou os véus, e esperei duas noites de névoa para que te confirmasses assim. Já percebi, abóbada pessoal cabeça-de-giz: se o que terminou foi o mais lunar dos meus anos, este não o será menos, com a ajuda de Vénus. Não é que augure necessariamente algo de bom, mas a monotonia é que parece não estar no mapa.

everything counts


Praça do Comércio, 1 de Janeiro de 2009

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui por diante vai ser diferente.

Carlos Drummond de Andrade





Everything Counts [Live] - Depeche Mode

na noite


Santo Amaro de Oeiras, 1 de Janeiro de 2009


Na noite
Na noite
Eu uni-me à noite
À noite sem limites
À noite.

Minha, bela, minha.
Noite.
Noite natalícia
Que me enches do meu grito
Das minhas espigas
Tu que me invades
Que ondulas ondulas
Que ondulas a toda a volta
E fumegas, e és tão densa
E muges
És a noite.
Noite que jaz, Noite implacável.
E a sua fanfarra, e a sua praia,
A praia ao alto, a praia em todo o lado,
A praia bebe, seu peso reina, e sob ele tudo se verga.
Sob ele, sob mais ténue que um fio,
Sob a noite
A Noite.

in
Doze Dias Numa Corda, poemas mudados para português por Herberto Hélder

quinta-feira, janeiro 01, 2009

o ano comum

No próximos trezentos e sessenta e cinco, andarei também por aqui. De olho no caminho aberto, e em boa companhia.

aos meus irmãos



Bom dia!



Caxias, 1 de Janeiro de 2009

quarta-feira, dezembro 31, 2008

from the gutter

São épocas... vão assim uma data deles de seguida, sempre. Hoje foi a Eartha Kitt, na morte unem-se todos na graça dos media. E foi o Freddie Hubbard. E foi o Richard Hickox, há já um mês e cedo, muito cedo. Nas mãos dele, há dez anos no palco da Gulbenkian, a cantar Britten, a fazer, a representar, a respirar Britten, percebi que o que queria ser era actriz. Não há paga para isso.




....


filho da mãe.


Britten: Peter Grimes, Op. 33 - Act 2: From The Gutter - Anthony Rolfe Johnson, Felicity Lott, Etc.; Bernard Haitink: Royal Opera House Orchestra & Chorus

[infelizmente a nossa versão jaz nos arquivos da Gulbe, como tantos momentos que não podem ser descritos; como tantos outros que só podem ser esquecidos, junto com outros que só podem ser ridos. este rasgão em forma de quarteto é dirigido por Bernard Haitink com a orquestra da Royal Opera House. Patricia Payne é a Auntie, as "sobrinhas" são Maria Bovino e Gillian Webster, a soberba Felicity Lott — que vi na Gulbenkian, claro —, é Ellen Orford. Peter Grimes, de Benjamin Britten, acto II]

processo de intoxicação — em casa

sexta, 18 de Junho de 1920

Aborrece-me esta Alemanha. É um pequeno país mediano, as cores são pálidas e as planícies são belas, mas os habitantes! Camponeses derrotados, mas cuja grosseria não cria monstros fabulosos, pelo contrário, um embrutecimento tranquilo, uma classe média engordurada e uma inteligência exausta. O que resta: a América!

Bertolt Brecht, Diários da Juventude




Santa Catarina, 30 de Dezembro de 2008


[sempre espirituoso, como tu dizes, Anonyma, jejeje... vá, a esperança é a última a morrer]

não se discute 3.0


Chiado, 30 de Dezembro de 2008



Ainda bem que a loja estava fechada... não sei se resistia a ter um porco preto no meio da sala. Em cima punha-lhe uma escultura de migas, ui.

terça-feira, dezembro 30, 2008

processo de intoxicação — candeia apagada não alumia o caminho

Vi a luz do mundo em 1898. Os meus pais são da Floresta Negra. A escola primária aborreceu-me durante quatro anos. Durante os meus nove anos de liceu em Augsburgo, não consegui melhorar substancialmente os meus professores. Nunca se fartaram de me tentar quebrar o sentido do ócio e da independência. Na Universidade frequentei medicina e aprendi guitarra. No liceu, através de vários desportos, contraí uma fraqueza do coração, que me introduziu aos mistérios da metafísica. Durante a Revolução, eu trabalhava no hospital como auxiliar de medicina. Depois, escrevi umas peças, e na primavera passada fui parar ao Hospital de Charité por subnutrição. O Arnolt Bronnen não conseguia ajudar-me substancialmente com o seu ordenado de funcionário. Depois de 24 anos de luz do mundo, estou um bocado seco.

Bertolt Brecht, carta a Herbert Jhering, 1922, trad. Jorge Silva Melo

bureau...

Quatro escrituras quatro e pais chatos fiadores e assina e assina e assina, e a notária lê e nós ouvimos, sssshhhhiiii, tanto dinheiro, até me dá vontade de rir, só papel, papel, papel, guarde o papel, entregue no banco, dê cá os cheques azul bébé que nunca serão descontados, é só pa brincar dentro das regras, tá bem?, mais números e números e a minha cabeça em todo o lado e os números bem que se agitam à minha frente mas eu nem os vejo.


A verdade é que me estou nas tintas.


Só sei que vou poupar em prestações da casa o mesmo que o meu outro banco, o de sempre, me pedia de mensalidade para um super-crédito pessoal, dê vida aos seus projectos mesmo que esteja a viver a crédito há três meses. E que a minha gestora de conta sabe com quem está a falar quando fala comigo.

Mas também sei que para o seguro de vida me fizeram um check-up completo e que me ligaram do banco a dizer que estava muito bem de saúde. Que ainda nem vi os resultados dos exames nem sei se vou ver. Que assinei uma autorização para um teste de HIV. Quando o Orwell se concretizar, o meu dinheiro há-de estar na Oceania. O que sobrar da identidade talvez fique pela Eurásia.

segunda-feira, dezembro 29, 2008

brindo




... às noites tranquilas e com batida.

domingo, dezembro 28, 2008

os olhos que sempre me vêem


Hotel Royal —18.º piso
Macau, Outubro de 1999
fotografia de
Rodrigues


[... quando dou por mim assim —absent minded, é a esta imagem que regresso.]

acho que o cérebro meteu férias...

[mas o coração, não...]


Anjos, hoje de Dezembro de 2008


[Homme B: Est-ce qu'on perd toutes ses illusions, quand on dort?
Fabrice Melquiot,
En Somme]

sábado, dezembro 27, 2008

convite



... I got a a half a pack o'lucky strikes, man, so come along with me.

puro malte — meditação de fim ano

Durante o século XVIII um número crescente de pensadores foi presumindo que o caminho para o progresso era a destilação. O princípio era muito simples: pegar em tudo o que fora escrito e dito, expurgá-lo de erros, incorrecções e falsidades, e dessa massa extrair a verdade purificada. Num dos livros [proibidos] que mais venderam à época — O Ano 2440, de Louis-Sébastien Mercier — acreditava-se que assim seria possível resumir todo o direito num livrinho pequeno e preservar todo o efectivo conhecimento do mundo numa estante de livros apenas.
Muito do século seguinte viveu sob esta ideia, sempre na busca de uma lei fundamental que permitisse interpretar tudo à nossa volta. Vejamos Darwin: "Toda a evolução das espécies se dá por selecção natural." Ou Marx: "Toda a história da humanidade é a história da luta de classes." O que ambas as frases, de dois autores tão diferentes, têm em comum é este mesmo processo pelo qual se tenta destilar o todo através de uma lei fundamental. O nome que esse pensamento dava a si mesmo era "científico", com mais ou menos propriedade. No século XIX, de Comte a Zola a Seurat a Engels e Kardec, havia humanidades científicas, romances científicos, pintura científica, socialismo científico e até espiritismo científico.
Porém: a destilação não é a única forma de produzir ideias. Há a fermentação. O monoteísmo é destilação; mas o politeísmo é fermentação. Dentro do cristianismo, o protestantismo é mais destilação e o catolicismo mais fermentação. O minimalismo, evidentemente, é destilação; a arte pop é fermentação. Arrumar a mesa é destilação. Espalhar os papéis é fermentação.

Há épocas de destilação e de fermentação. O pós-guerra era destilação, com o seu mundo dividido em dois blocos e o emblema tecnocultural da "televisão para toda a família". Mas a nossa época, com o seu mundo desorganizado multipolarmente e representado pela internet, com a sua intersecção permanente de sítios, blogues e páginas, e sobretudo com as suas camadas caóticas de comentários sobre comentários e réplicas sobre tréplicas — é fermentação.
Isto deixa confundidos e mesmo irritados os intelectuais, que são naturalmente favoráveis às épocas de destilação, com o seu ambiente controlado, as suas opções reduzidas, a sua cerebralidade. As épocas de fermentação, de contornos pouco definidos, deixam-nos um pouco a nu. Na verdade, eles sabem tão pouco do que se está a passar como qualquer outra pessoa. Pior ainda: isso nota-se.
Em particular, os cronistas, os editorialistas e os políticos sentem falta de um mundo decifrável, um mundo onde fosse possível transportarem eles a chave que explicaria a realidade ao resto da humanidade. Como quem diz: viram, meu povo, como tudo se resume — ao mercado, à luta de classes, ao choque de civilizações, à globalização, etc? A ansiedade deles — a nossa ansiedade — é também uma questão de poder, porque organização é poder. Informação a mais para todos não é poder para ninguém em particular.
Há aqui, diria eu, um pouco de neurose. Diz-se que não há pior coisa para dizer a um neurótico do que "tem calma". Mas também não há coisa que ele precise mais de ouvir. Se o panorama é confuso, mais uma razão para olhar com atenção. Se ninguém nos sabe explicar o que se passa, mais interessante ainda deve ser. Se a nossa época é de fermentação, tanto melhor: aproveitem enquanto dura.


Rui Tavares, no Público de 24 de Dezembro de 2008. Nem um ponto a acrescentar. Tenciono apenas continuar a aproveitar.

sexta-feira, dezembro 26, 2008

não há, nunca houve...

... nada a dizer.





I made a terrible mistake when I was young, I think, from which I've never really recovered. I wrote the word "pause" into my first play.

HAROLD PINTER, 10 Out. 1930 — 24 Dez. 2008

já agora...


George Sand por Eugéne Delacroix


O homem não foi feito para pensar constantemente. Quando pensa demais torna-se louco, do mesmo modo que se torna estúpido quando não pensa o suficiente. Pascal o disse: "Não somos nem anjos nem bestas". [George Sand, Histoire de ma vie — IV]

valha-nos uma boa conversa...

... se nos traz esta carta à memória. Desenterrada dos arquivos de 2004, ano em que o insigne senhor Manel da Truta teve a honra de ser Rena por um dia.

a Gustave Flaubert
Nohant, 14 de Setembro, 1871

Mas que queres, que eu deixe de amar? Queres que diga que me enganei toda a vida, que a humanidade é desprezível, odiosa, que assim o foi sempre e sempre será assim? E censuras a minha dor como uma fraqueza, como o pueril remorso de uma ilusão perdida? Afirmas que o povo sempre foi feroz, o padre sempre hipócrita, o burguês sempre indolente, o soldado sempre salteador, o camponês sempre estúpido? Dizes sabê-lo desde a tua juventude e rejubilas de nunca de tal teres duvidado, porque assim a idade madura não te trouxe qualquer decepção: nunca foste jovem, portanto. Ah! Distinguimo-nos bem, pois eu nunca deixei de o ser, se ser jovem não é mais que amar sempre!

Como propões tu, então, que me isole dos meus semelhantes, dos meus compatriotas, da minha raça, da grande família no seio da qual a minha família particular mais não é que uma espiga na seara terrestre? E se (…), como tu dizes, pudéssemos viver para alguns seres privilegiados, abstraindo-nos de todos os outros! - Mas é impossível e a tua sólida razão acomoda-se à mais irrealizável das utopias. Em que Éden, em que fantástico El Dorado esconderás tu a tua família, o teu pequeno grupo de amigos, a tua íntima felicidade (…)? Se queres ser feliz por apenas alguns, é preciso que esses alguns, os favoritos dos teu coração, sejam felizes por eles mesmos. Poderão eles sê-lo? Podes tu assegurar-lhes a mínima segurança?

[…]

No entanto, viver feliz em família, apesar de tudo, é sem dúvida um bem relativo, a única consolação que podemos e queremos experimentar. Mas mesmo supondo que o mal exterior não penetre em nossas casas, o que não é de todo possível, sabe-lo bem, eu não saberia admitir que pudéssemos tomar partido de quem pratica o mal público.

Tudo isto era previsível… Sim, certamente, previ-o tão bem como quem quer que seja! Vi crescer a tempestade, assisti, como todos aqueles que não vivem sem reflexões, aos sensíveis avanços do cataclismo. Será uma consolação ver contorcer-se em sofrimento o doente de cuja doença conhecemos a fundo as origens? (…)

Não, não, não nos isolemos, não rompamos as ligações do sangue, não mal-digamos, não desprezemos a própria espécie. A humanidade não é uma palavra vã. A nossa vida é feita de amor e deixar de amar é deixar de viver.

O povo, dizes tu! O povo és tu e eu, defender-nos-íamos em vão. Não existem duas raças, a distinção entre classes não estabelece mais do que desigualdades relativas e o mais do tempo ilusórias. (…) Os primeiros homens foram caçadores e pastores, depois lavradores e soldados. A pilhagem de sucesso coroada fez nascer as primeiras distinções sociais. Não existe, talvez, um único título que não tenha sido criado sobre sangue humano. (…) O povo sempre feroz, dizes tu; eu digo: A nobreza sempre selvagem!

[…]

Mas eu quero seguir-te e perguntar-te sobre o quê se constrói esta distinção. É na maior ou menor educação? O limite não é aferível. Se vês letrados e sábios no topo da burguesia; se vês selvagens e brutos no mais baixo do proletariado, não serás menos representado pela multidão dos intermédios, aqui proletários inteligentes e sábios, ali burgueses que não são nem sábios nem inteligentes. A maior parte dos cidadãos civilizados data de ontem e muitos dos que sabem ler e escrever têm ainda pai e mãe que penosamente assinam o próprio nome.

[…]

Os homens não estão por cima ou debaixo uns dos outros senão pelo que possuem de razão e de moralidade. A instrução que apenas desenvolve a sensualidade egoísta não vale a ignorância do proletariado honesto por instinto e por hábito. Esta instrução obrigatória que desejamos todos por respeito pelo direito humano não é, portanto, uma panaceia da qual deva exagerar-se os milagres. (…) Ela será, como todas as coisas de que os homens abusam, o veneno e o antídoto. Encontrar um remédio infalível para os nossos males é ilusório. É preciso que todos busquemos, dia-a-dia, por todos os meios.

[…]

Que importam tal ou tal grupos de homens, tal nome próprio tornado bandeira, tais personalidades tornadas propaganda? Apenas conheço sábios e tolos, inocentes ou culpados. Não me pergunto onde estão os meus amigos e os meus inimigos. Estão para onde a tormenta os atirou. Aqueles que merecem que eu os ame e que não vêem pelos meus olhos não me são menos caros. A repreensão irreflectida daqueles que me abandonam não me faz considerá-los como inimigos. Toda a amizade injustamente retirada repousa intacta no coração que não mereceu o ultraje. Esse coração é superior ao amor-próprio, sabe aguardar o despertar da justiça e da afeição.

[…]

As grandezas passadas não têm lugar a tomar na história dos homens. São feitas apenas de reis que exploravam os povos, são feitas apenas de povos explorados que consentiram na sua própria humilhação.

Eis a razão pela qual estamos doentes e a minha alma se quebra.

[…]

A igualdade é algo que não se impõe, é uma livre planta que apenas cresce sobre os terrenos férteis no ar salubre. Ela não cria raízes sobre as barricadas, sabemo-lo agora! Ela é imediatamente esmagada aos pés do vencedor, qualquer que ele seja. Tenhamos o ensejo de estabelecê-la nos nossos usos, a vontade de a consagrar nas nossas ideias. (…)

[…]

E tu, amigo, tu queres que eu veja estas coisas com uma estóica indiferença! Queres que diga: O homem é assim feito; o crime é a sua expressão, a infâmia a sua natureza?

Não, cem vezes não. A humanidade indigna-se em mim e comigo. Esta indignação que é uma das formas mais apaixonadas do amor, não é de dissimular nem de tentar esconder.

George Sand, [carta publicada, sem indicação de destinatário, no Le Temps de 3 de Outubro de 1871, sob o título "Lettre a un ami"]

Para a leitura integral da carta - e críticas à tradução - ver aqui.

project failed

Sempre são dez anos de ritual, caramba, estrondosamente inaugurados por um Fight Club que caíu mal a algumas rabanadas, mas que se impôs na sua generosa evasão vespertina do enfardanço do dia N. Vários se tornaram clássicos, o ex-libris é, pois claro, Our Christmas, que para o dia de natal melhor que Fincher só mesmo Ferrara. Com Efe, claro. Mas na história ficam o Bond, o Tati, o Corbijn do ano passado. São dez anitos de tradição, à vontade, quebrados apenas uma vez pelo Conto de Natal dos Primeiros Sintomas, que malta que está em cena a sério no 25/12 merece ter público. Dez anos de ponto final saboreado plano por plano e de fim de dia cheio de olhos palavras ideias. E alguns arrotos, vá. Mas enfim, algum dia havia de correr menos bem, e não se pode ser perfeito todos os anos. Lá se reuniu o gang para a sessão das sete. Os irmãos Dardenne, pois sim, está-se bem no King e quase toda a gente já viu o Bond.

Registe-se que eu queria ir ver o Madagáscar.



E pelo primeiro ano, saímos a respingar. Porque é triste ver um fabuloso argumento deitado ao lixo num filme sem forma, sem espinha, sem sopro. Para não falar nos raccords, na barba que há no plano e desaparece na sequência, na bolsa que faz voltar atrás e acaba por ficar para trás, enfim... querem só poesia, senhores, façam poemas. A mim apetecia-me mesmo ter visto um filme, hoje. E o argumento é, realmente, um portento. Está lá absolutamente tudo para um grande filme. Está pathos, está poder, está dinheiro, está compaixão, está incomunicação, homicídio, alucinação, humanidade, sexo, culpa, projecção, dependência, encarceramento, misoginia, abuso, mundos paralelos em cruzamentos fatais. Tudo, literalmente tudo e nada em excesso. E um filme... ai, que dor. Estou irritada, pronto.


Eu queria ir ver o Madagáscar.

quinta-feira, dezembro 25, 2008

nat... nattt... aham... nat... [que se lixe, acho que não consigo mesmo dizer]




Caxias, 25 de Dezembro de 2008



Primeiro o primeiro. Muita comida. Tâmaras e bacon e açorda de perdiz e bacalhau e vinho e broa e o teatro materno a cada cigarro enrolado e o jogo de poder paterno a cada ano mais desmontado, a cada ano mais inócuo, quase enternecedor. Em cada banquete, uma vitória. Nunca há imagens porque os repórteres de guerra já estão bêbados —e fartos. Por fim o outro primeiro se pusermos o pé na estrada a partir do ponto oposto. Os amores escolhidos, mesmo se correm no sangue, pormenores são apenas pormenores, escolhidos no escorrer dos dias. Aqueles que num sofá sossegado conseguem soltar das páginas da nossa vida o cheiro da fruta fresca.



The White Whale - Beirut