quarta-feira, dezembro 31, 2008

from the gutter

São épocas... vão assim uma data deles de seguida, sempre. Hoje foi a Eartha Kitt, na morte unem-se todos na graça dos media. E foi o Freddie Hubbard. E foi o Richard Hickox, há já um mês e cedo, muito cedo. Nas mãos dele, há dez anos no palco da Gulbenkian, a cantar Britten, a fazer, a representar, a respirar Britten, percebi que o que queria ser era actriz. Não há paga para isso.




....


filho da mãe.


Britten: Peter Grimes, Op. 33 - Act 2: From The Gutter - Anthony Rolfe Johnson, Felicity Lott, Etc.; Bernard Haitink: Royal Opera House Orchestra & Chorus

[infelizmente a nossa versão jaz nos arquivos da Gulbe, como tantos momentos que não podem ser descritos; como tantos outros que só podem ser esquecidos, junto com outros que só podem ser ridos. este rasgão em forma de quarteto é dirigido por Bernard Haitink com a orquestra da Royal Opera House. Patricia Payne é a Auntie, as "sobrinhas" são Maria Bovino e Gillian Webster, a soberba Felicity Lott — que vi na Gulbenkian, claro —, é Ellen Orford. Peter Grimes, de Benjamin Britten, acto II]

processo de intoxicação — em casa

sexta, 18 de Junho de 1920

Aborrece-me esta Alemanha. É um pequeno país mediano, as cores são pálidas e as planícies são belas, mas os habitantes! Camponeses derrotados, mas cuja grosseria não cria monstros fabulosos, pelo contrário, um embrutecimento tranquilo, uma classe média engordurada e uma inteligência exausta. O que resta: a América!

Bertolt Brecht, Diários da Juventude




Santa Catarina, 30 de Dezembro de 2008


[sempre espirituoso, como tu dizes, Anonyma, jejeje... vá, a esperança é a última a morrer]

não se discute 3.0


Chiado, 30 de Dezembro de 2008



Ainda bem que a loja estava fechada... não sei se resistia a ter um porco preto no meio da sala. Em cima punha-lhe uma escultura de migas, ui.

terça-feira, dezembro 30, 2008

processo de intoxicação — candeia apagada não alumia o caminho

Vi a luz do mundo em 1898. Os meus pais são da Floresta Negra. A escola primária aborreceu-me durante quatro anos. Durante os meus nove anos de liceu em Augsburgo, não consegui melhorar substancialmente os meus professores. Nunca se fartaram de me tentar quebrar o sentido do ócio e da independência. Na Universidade frequentei medicina e aprendi guitarra. No liceu, através de vários desportos, contraí uma fraqueza do coração, que me introduziu aos mistérios da metafísica. Durante a Revolução, eu trabalhava no hospital como auxiliar de medicina. Depois, escrevi umas peças, e na primavera passada fui parar ao Hospital de Charité por subnutrição. O Arnolt Bronnen não conseguia ajudar-me substancialmente com o seu ordenado de funcionário. Depois de 24 anos de luz do mundo, estou um bocado seco.

Bertolt Brecht, carta a Herbert Jhering, 1922, trad. Jorge Silva Melo

bureau...

Quatro escrituras quatro e pais chatos fiadores e assina e assina e assina, e a notária lê e nós ouvimos, sssshhhhiiii, tanto dinheiro, até me dá vontade de rir, só papel, papel, papel, guarde o papel, entregue no banco, dê cá os cheques azul bébé que nunca serão descontados, é só pa brincar dentro das regras, tá bem?, mais números e números e a minha cabeça em todo o lado e os números bem que se agitam à minha frente mas eu nem os vejo.


A verdade é que me estou nas tintas.


Só sei que vou poupar em prestações da casa o mesmo que o meu outro banco, o de sempre, me pedia de mensalidade para um super-crédito pessoal, dê vida aos seus projectos mesmo que esteja a viver a crédito há três meses. E que a minha gestora de conta sabe com quem está a falar quando fala comigo.

Mas também sei que para o seguro de vida me fizeram um check-up completo e que me ligaram do banco a dizer que estava muito bem de saúde. Que ainda nem vi os resultados dos exames nem sei se vou ver. Que assinei uma autorização para um teste de HIV. Quando o Orwell se concretizar, o meu dinheiro há-de estar na Oceania. O que sobrar da identidade talvez fique pela Eurásia.

segunda-feira, dezembro 29, 2008

brindo




... às noites tranquilas e com batida.

domingo, dezembro 28, 2008

os olhos que sempre me vêem


Hotel Royal —18.º piso
Macau, Outubro de 1999
fotografia de
Rodrigues


[... quando dou por mim assim —absent minded, é a esta imagem que regresso.]

acho que o cérebro meteu férias...

[mas o coração, não...]


Anjos, hoje de Dezembro de 2008


[Homme B: Est-ce qu'on perd toutes ses illusions, quand on dort?
Fabrice Melquiot,
En Somme]

sábado, dezembro 27, 2008

convite



... I got a a half a pack o'lucky strikes, man, so come along with me.

puro malte — meditação de fim ano

Durante o século XVIII um número crescente de pensadores foi presumindo que o caminho para o progresso era a destilação. O princípio era muito simples: pegar em tudo o que fora escrito e dito, expurgá-lo de erros, incorrecções e falsidades, e dessa massa extrair a verdade purificada. Num dos livros [proibidos] que mais venderam à época — O Ano 2440, de Louis-Sébastien Mercier — acreditava-se que assim seria possível resumir todo o direito num livrinho pequeno e preservar todo o efectivo conhecimento do mundo numa estante de livros apenas.
Muito do século seguinte viveu sob esta ideia, sempre na busca de uma lei fundamental que permitisse interpretar tudo à nossa volta. Vejamos Darwin: "Toda a evolução das espécies se dá por selecção natural." Ou Marx: "Toda a história da humanidade é a história da luta de classes." O que ambas as frases, de dois autores tão diferentes, têm em comum é este mesmo processo pelo qual se tenta destilar o todo através de uma lei fundamental. O nome que esse pensamento dava a si mesmo era "científico", com mais ou menos propriedade. No século XIX, de Comte a Zola a Seurat a Engels e Kardec, havia humanidades científicas, romances científicos, pintura científica, socialismo científico e até espiritismo científico.
Porém: a destilação não é a única forma de produzir ideias. Há a fermentação. O monoteísmo é destilação; mas o politeísmo é fermentação. Dentro do cristianismo, o protestantismo é mais destilação e o catolicismo mais fermentação. O minimalismo, evidentemente, é destilação; a arte pop é fermentação. Arrumar a mesa é destilação. Espalhar os papéis é fermentação.

Há épocas de destilação e de fermentação. O pós-guerra era destilação, com o seu mundo dividido em dois blocos e o emblema tecnocultural da "televisão para toda a família". Mas a nossa época, com o seu mundo desorganizado multipolarmente e representado pela internet, com a sua intersecção permanente de sítios, blogues e páginas, e sobretudo com as suas camadas caóticas de comentários sobre comentários e réplicas sobre tréplicas — é fermentação.
Isto deixa confundidos e mesmo irritados os intelectuais, que são naturalmente favoráveis às épocas de destilação, com o seu ambiente controlado, as suas opções reduzidas, a sua cerebralidade. As épocas de fermentação, de contornos pouco definidos, deixam-nos um pouco a nu. Na verdade, eles sabem tão pouco do que se está a passar como qualquer outra pessoa. Pior ainda: isso nota-se.
Em particular, os cronistas, os editorialistas e os políticos sentem falta de um mundo decifrável, um mundo onde fosse possível transportarem eles a chave que explicaria a realidade ao resto da humanidade. Como quem diz: viram, meu povo, como tudo se resume — ao mercado, à luta de classes, ao choque de civilizações, à globalização, etc? A ansiedade deles — a nossa ansiedade — é também uma questão de poder, porque organização é poder. Informação a mais para todos não é poder para ninguém em particular.
Há aqui, diria eu, um pouco de neurose. Diz-se que não há pior coisa para dizer a um neurótico do que "tem calma". Mas também não há coisa que ele precise mais de ouvir. Se o panorama é confuso, mais uma razão para olhar com atenção. Se ninguém nos sabe explicar o que se passa, mais interessante ainda deve ser. Se a nossa época é de fermentação, tanto melhor: aproveitem enquanto dura.


Rui Tavares, no Público de 24 de Dezembro de 2008. Nem um ponto a acrescentar. Tenciono apenas continuar a aproveitar.

sexta-feira, dezembro 26, 2008

não há, nunca houve...

... nada a dizer.





I made a terrible mistake when I was young, I think, from which I've never really recovered. I wrote the word "pause" into my first play.

HAROLD PINTER, 10 Out. 1930 — 24 Dez. 2008

já agora...


George Sand por Eugéne Delacroix


O homem não foi feito para pensar constantemente. Quando pensa demais torna-se louco, do mesmo modo que se torna estúpido quando não pensa o suficiente. Pascal o disse: "Não somos nem anjos nem bestas". [George Sand, Histoire de ma vie — IV]

valha-nos uma boa conversa...

... se nos traz esta carta à memória. Desenterrada dos arquivos de 2004, ano em que o insigne senhor Manel da Truta teve a honra de ser Rena por um dia.

a Gustave Flaubert
Nohant, 14 de Setembro, 1871

Mas que queres, que eu deixe de amar? Queres que diga que me enganei toda a vida, que a humanidade é desprezível, odiosa, que assim o foi sempre e sempre será assim? E censuras a minha dor como uma fraqueza, como o pueril remorso de uma ilusão perdida? Afirmas que o povo sempre foi feroz, o padre sempre hipócrita, o burguês sempre indolente, o soldado sempre salteador, o camponês sempre estúpido? Dizes sabê-lo desde a tua juventude e rejubilas de nunca de tal teres duvidado, porque assim a idade madura não te trouxe qualquer decepção: nunca foste jovem, portanto. Ah! Distinguimo-nos bem, pois eu nunca deixei de o ser, se ser jovem não é mais que amar sempre!

Como propões tu, então, que me isole dos meus semelhantes, dos meus compatriotas, da minha raça, da grande família no seio da qual a minha família particular mais não é que uma espiga na seara terrestre? E se (…), como tu dizes, pudéssemos viver para alguns seres privilegiados, abstraindo-nos de todos os outros! - Mas é impossível e a tua sólida razão acomoda-se à mais irrealizável das utopias. Em que Éden, em que fantástico El Dorado esconderás tu a tua família, o teu pequeno grupo de amigos, a tua íntima felicidade (…)? Se queres ser feliz por apenas alguns, é preciso que esses alguns, os favoritos dos teu coração, sejam felizes por eles mesmos. Poderão eles sê-lo? Podes tu assegurar-lhes a mínima segurança?

[…]

No entanto, viver feliz em família, apesar de tudo, é sem dúvida um bem relativo, a única consolação que podemos e queremos experimentar. Mas mesmo supondo que o mal exterior não penetre em nossas casas, o que não é de todo possível, sabe-lo bem, eu não saberia admitir que pudéssemos tomar partido de quem pratica o mal público.

Tudo isto era previsível… Sim, certamente, previ-o tão bem como quem quer que seja! Vi crescer a tempestade, assisti, como todos aqueles que não vivem sem reflexões, aos sensíveis avanços do cataclismo. Será uma consolação ver contorcer-se em sofrimento o doente de cuja doença conhecemos a fundo as origens? (…)

Não, não, não nos isolemos, não rompamos as ligações do sangue, não mal-digamos, não desprezemos a própria espécie. A humanidade não é uma palavra vã. A nossa vida é feita de amor e deixar de amar é deixar de viver.

O povo, dizes tu! O povo és tu e eu, defender-nos-íamos em vão. Não existem duas raças, a distinção entre classes não estabelece mais do que desigualdades relativas e o mais do tempo ilusórias. (…) Os primeiros homens foram caçadores e pastores, depois lavradores e soldados. A pilhagem de sucesso coroada fez nascer as primeiras distinções sociais. Não existe, talvez, um único título que não tenha sido criado sobre sangue humano. (…) O povo sempre feroz, dizes tu; eu digo: A nobreza sempre selvagem!

[…]

Mas eu quero seguir-te e perguntar-te sobre o quê se constrói esta distinção. É na maior ou menor educação? O limite não é aferível. Se vês letrados e sábios no topo da burguesia; se vês selvagens e brutos no mais baixo do proletariado, não serás menos representado pela multidão dos intermédios, aqui proletários inteligentes e sábios, ali burgueses que não são nem sábios nem inteligentes. A maior parte dos cidadãos civilizados data de ontem e muitos dos que sabem ler e escrever têm ainda pai e mãe que penosamente assinam o próprio nome.

[…]

Os homens não estão por cima ou debaixo uns dos outros senão pelo que possuem de razão e de moralidade. A instrução que apenas desenvolve a sensualidade egoísta não vale a ignorância do proletariado honesto por instinto e por hábito. Esta instrução obrigatória que desejamos todos por respeito pelo direito humano não é, portanto, uma panaceia da qual deva exagerar-se os milagres. (…) Ela será, como todas as coisas de que os homens abusam, o veneno e o antídoto. Encontrar um remédio infalível para os nossos males é ilusório. É preciso que todos busquemos, dia-a-dia, por todos os meios.

[…]

Que importam tal ou tal grupos de homens, tal nome próprio tornado bandeira, tais personalidades tornadas propaganda? Apenas conheço sábios e tolos, inocentes ou culpados. Não me pergunto onde estão os meus amigos e os meus inimigos. Estão para onde a tormenta os atirou. Aqueles que merecem que eu os ame e que não vêem pelos meus olhos não me são menos caros. A repreensão irreflectida daqueles que me abandonam não me faz considerá-los como inimigos. Toda a amizade injustamente retirada repousa intacta no coração que não mereceu o ultraje. Esse coração é superior ao amor-próprio, sabe aguardar o despertar da justiça e da afeição.

[…]

As grandezas passadas não têm lugar a tomar na história dos homens. São feitas apenas de reis que exploravam os povos, são feitas apenas de povos explorados que consentiram na sua própria humilhação.

Eis a razão pela qual estamos doentes e a minha alma se quebra.

[…]

A igualdade é algo que não se impõe, é uma livre planta que apenas cresce sobre os terrenos férteis no ar salubre. Ela não cria raízes sobre as barricadas, sabemo-lo agora! Ela é imediatamente esmagada aos pés do vencedor, qualquer que ele seja. Tenhamos o ensejo de estabelecê-la nos nossos usos, a vontade de a consagrar nas nossas ideias. (…)

[…]

E tu, amigo, tu queres que eu veja estas coisas com uma estóica indiferença! Queres que diga: O homem é assim feito; o crime é a sua expressão, a infâmia a sua natureza?

Não, cem vezes não. A humanidade indigna-se em mim e comigo. Esta indignação que é uma das formas mais apaixonadas do amor, não é de dissimular nem de tentar esconder.

George Sand, [carta publicada, sem indicação de destinatário, no Le Temps de 3 de Outubro de 1871, sob o título "Lettre a un ami"]

Para a leitura integral da carta - e críticas à tradução - ver aqui.

project failed

Sempre são dez anos de ritual, caramba, estrondosamente inaugurados por um Fight Club que caíu mal a algumas rabanadas, mas que se impôs na sua generosa evasão vespertina do enfardanço do dia N. Vários se tornaram clássicos, o ex-libris é, pois claro, Our Christmas, que para o dia de natal melhor que Fincher só mesmo Ferrara. Com Efe, claro. Mas na história ficam o Bond, o Tati, o Corbijn do ano passado. São dez anitos de tradição, à vontade, quebrados apenas uma vez pelo Conto de Natal dos Primeiros Sintomas, que malta que está em cena a sério no 25/12 merece ter público. Dez anos de ponto final saboreado plano por plano e de fim de dia cheio de olhos palavras ideias. E alguns arrotos, vá. Mas enfim, algum dia havia de correr menos bem, e não se pode ser perfeito todos os anos. Lá se reuniu o gang para a sessão das sete. Os irmãos Dardenne, pois sim, está-se bem no King e quase toda a gente já viu o Bond.

Registe-se que eu queria ir ver o Madagáscar.



E pelo primeiro ano, saímos a respingar. Porque é triste ver um fabuloso argumento deitado ao lixo num filme sem forma, sem espinha, sem sopro. Para não falar nos raccords, na barba que há no plano e desaparece na sequência, na bolsa que faz voltar atrás e acaba por ficar para trás, enfim... querem só poesia, senhores, façam poemas. A mim apetecia-me mesmo ter visto um filme, hoje. E o argumento é, realmente, um portento. Está lá absolutamente tudo para um grande filme. Está pathos, está poder, está dinheiro, está compaixão, está incomunicação, homicídio, alucinação, humanidade, sexo, culpa, projecção, dependência, encarceramento, misoginia, abuso, mundos paralelos em cruzamentos fatais. Tudo, literalmente tudo e nada em excesso. E um filme... ai, que dor. Estou irritada, pronto.


Eu queria ir ver o Madagáscar.

quinta-feira, dezembro 25, 2008

nat... nattt... aham... nat... [que se lixe, acho que não consigo mesmo dizer]




Caxias, 25 de Dezembro de 2008



Primeiro o primeiro. Muita comida. Tâmaras e bacon e açorda de perdiz e bacalhau e vinho e broa e o teatro materno a cada cigarro enrolado e o jogo de poder paterno a cada ano mais desmontado, a cada ano mais inócuo, quase enternecedor. Em cada banquete, uma vitória. Nunca há imagens porque os repórteres de guerra já estão bêbados —e fartos. Por fim o outro primeiro se pusermos o pé na estrada a partir do ponto oposto. Os amores escolhidos, mesmo se correm no sangue, pormenores são apenas pormenores, escolhidos no escorrer dos dias. Aqueles que num sofá sossegado conseguem soltar das páginas da nossa vida o cheiro da fruta fresca.



The White Whale - Beirut

quarta-feira, dezembro 24, 2008

faz o que te apetece...

e porque se fala em obras da boa ICAR. e porque de qualquer modo esta é uma época de excessos. e é preciso falar do que é sagrado e respeita a obra de dEus. e é preciso rir, também, e cantar. e dançar. é um tudo em um.


terça-feira, dezembro 23, 2008

prioridades em tempo de paz

Diz o Bento XVI que a homossexualidade é a destruição da obra de dEus. Alguém devia avisar o senhor de que a coisa, por princípio, não implica martelos. Mas fica-lhe bem a preocupação. De acordo. Também acho que há obras de dEus que devem ser defendidas. Umas mais que outras, enfim...

e vice-versa.

Porque não resisto. E sempre é a altura dos doces. Não estou é a ver como é que ele fará azevias...


palermices em estilo

A melhor mensagem palerma que recebi foi um linque para aqui:




Porque um clássico é sempre um clássico.

casa





Às vezes é tão larga e melancólica, parece um fantasma de ruas cheias.


Lisboa, hoje de Dezembro de 2008

segunda-feira, dezembro 22, 2008

já começa...

Pronto, é crise instalada, está tudo a contar tostões, não é? Ou seja, só posso sentir-me importante quando começo a receber mensagens calorosas de natal e fim de ano de pessoas com quem falo tão frequentemente que nem as tenho na lista de contactos do telemóvel. Paz e prosperidade às operadoras, pois que nesta quinzena vai haver muita boa onda e muito amor a circular. Por onde, por onde? Pelo éter, naturalmente.

interregno analítico

tantas vezes se escreve sem sentido definido, com uma carne qualquer que se palpa, é certo, mas pondo na forma a brincadeira, a proporção, tudo o que é periférico ao sentido —e depois, na releitura, saltam todas as razões para que assim seja e não de outro modo. o mais ilustrativo não se deixa desenhar, brota.

e esses são, geralmente, dias bons.

carta de navegação

é no olho do furacão, Youkali. onde mais?





para M.

discurso fluído com suspensão avariada

j
á
te
sei
m
as não me habituo
apontas para os lábios
como quem fala
e o que sai é o mesmo s
ilêncio de sempre

esperas que te salve as palavras

m
as não posso fazê-lo.
nunca o tentei e não será agora
e não p
edirei perdão por

i
s
so.

domingo, dezembro 21, 2008

mudar de pele



Societas Raffaello Sanzio — "Hey Girl!"

sábado, dezembro 20, 2008

noa

Já lhe sinto a falta, já é minha. Ou já sou dela.


Anjos, Novembro de 2008


Amarrámos um ramo de flores brancas
entrelaçámos uma grinalda de
sephali:
enchemos a bandeja com espigas de cereal novo.
Vem, Deusa do Outono, na
carruagem da nuvem branca,
vem pela larga estrada azul,
pelas colinas verdes recém-lavadas
brilhando ao sol.
Vem com o nenúfar branco salpicado
de gotas frias de orvalho na corola.
Na tranquila alameda na margem do Ganges
o cisne está à espera de abrir
as asas aos teus pés.
Toca suavemente a tua harpa de ouro, e as alegres notas
misturar-se-ão com uma leve tristeza;
toma a mágica jóia dos teus cabelos
e toca os nossos pensamentos,
e todas as preocupações transformar-se-ão em ouro,
e a escuridão tornar-se-á luz!

Rabindranath Tagore, trad. José Agostinho Baptista




Forks And Knives (La Fête) - Beirut

a primeira vez

Há coisas que têm sabores incomparáveis. Se tivesse de fazer uma lista, há muito que o número um estaria escolhido: beijar alguém pela primeira vez. Mas há um lugar especial reservado, muito próprio e desafiador das hierarquias. O da primeira vez que a esse alguém se provoca uma boa gargalhada.