quinta-feira, dezembro 18, 2008

insónia


La marée haute - Lhasa de Sela

amor amplificado

Quando 'Amor' ficou pronto, fui logo me perguntando: "Meu Deus, o que é isto?". E, vez ou outra, me perguntaram sobre 'Amor': "Meu Deus, o que é isto?". Demorei um pouco para perceber que 'Amor' é um poema. Mas continuo a me perguntar se é um poema mesmo. Uma coisa é certa: 'Amor' é bem melhor quando falado, quando lido em voz alta. Uma questão musical. E música é uma coisa que pode ser interpretada de vários modos diferentes. Às vezes sou convidado a ler 'Amor', interpretar 'Amor' em leituras e eventos literários. Quando faço isso, geralmente me pergunto: "Meu Deus, quem sou eu?". Ao que logo respondo: "Sei lá".

André Sant'Anna


Entre venenos vários e côncavas convexidades, entre os corpos e os tantos olhos de uma actriz, entre a dor de corno e a dor de ser aqui, é esta a pergunta que me fica e que afinal estava escrita pelo autor no programa que só agora li. Sou a raiva ou a irrisão, o distanciamento supremo do riso? Ou sou a dor no espelho? Ou sou a neutralidade abandonada do nosso Português de vogais fechadas e exuberância reprimida? Ou sou apenas a distorção da guitarra, o som bruto abaulado por uma alavanca? Pois, isso. Sei lá. Há realmente perguntas sem resposta. Mas só são honestas se o seu motor for uma honesta procura da resposta. E uma honesta resignação a que a resposta possa não vir. E esperá-la, ainda assim. E honrá-la, ainda assim. Pois, sei lá. Que sei eu?




Sei, e é essa a razão deste post, que está uma actriz com um texto à sua altura em Guimarães até domingo. Ou um texto com sorte na actriz. Distinção, esta sim, desnecessária. No Teatro Oficina, Flávia Gusmão dá-nos 'Amor'. Haja quem o saiba receber.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

[]

nos meus dias mais recentes tem-se falado muito de perguntas lançadas ao éter. curiosamente nunca se fala das respostas.

a verdade...

... é que de facto há coisas que não são para todos. sobretudo, não são para aqueles em quem normalmente se pensa como privilegiados.




terça-feira, dezembro 16, 2008

para não estranhar, mesmo — ou os diálogos possíveis


Tito e Rita, 15 de Dezembro de 2008
ambos têm olhos, embora não pareça.
e mexem, embora não pareça. 
e ela é um gato, embora pareça mais uma bola anti-stress com muito pêlo.


— Mas tens a certeza? No chão?
— Sim. Já sabes que eu durmo no chão. Preciso de espaço é para os lados, não para baixo. Solteiro para mim não dá, vou sair daqui com as pernas gangrenadas.
— Mas eu vou-te comprar o estrado. Assim ficas muito perto do chão, e o pêlo?
— Não é preciso estrado nenhum, eu estou habituada. E os gatos não entram no quarto, pronto.
— Mas assim parece que estás a fazer campismo! E tens luz suficiente?...
— Olha, isso é que... Ah, que lindos. Vês, eles sabem o que é bom.
— Eles são gatos, Joana!
— Sim, mas são uns gatos muito burgueses...

segunda-feira, dezembro 15, 2008

apêndice

noites que falam

queria saber desligar-me em automático
e vigiar apenas por detrás da lente
morrer por dentro da gaiola
— de felicidade
ao ver-me derreter por fora as grades —
deixar o cheiro plástico sujar o ar
deixá-lo no seu tempo desvendar a nuvem
limpa
que precede.

saber esperar por mim.

moon




[está ainda o riso ou só arde o sorriso?]

domingo, dezembro 14, 2008

objects in the mirror are closer than they appear



Guimarães, hoje de Dezembro de 2008


Esta manhã alguém sonhou que não era bom comunicar apenas pelo silêncio. Mas não fui eu.






Romeo Is Bleeding - Tom Waits

ringue livre

plano b


Porto, hoje de Dezembro de 2008

Há sempre um. Posso pôr o casco na cabeça, ou arriscar uma fenda. Posso agarrar com as mãos ou pendurar com os braços. Posso olhar apenas para o reboque e tentar calcular se o quadrado metálico suportaria tudo o que eu pateticamente tomaria por indispensável. Posso imaginar no ferro militar uma capacidade ilimitada para atravessar fronteiras. E no vão da escada deixar as impossibilidades, limitadas pelo veludo dos sofás, pela fauna lisa e cinza e pelos nossos risos, pelas nossas leituras, bichos de observação com tolerância limitada ao rockabilly. Há sempre um plano b. Há uma infinidade de bês.



Rainbow Sleeves [Tom Waits] - Rickie Lee Jones


...e ...

Boldog szuletesnapot, John!

sábado, dezembro 13, 2008

limpeza



15 cents, please.

as matilhas

Cinco da manhã. depois dos números do costume, então, mas vais sozinha?, estás bem?, está a chover e está tão escuro, não queres que te leve?, não queres apanhar um táxi?

Não, carago. Nestas coisas a minha inspiração é o barbeiro de Chaplin, um ghandi fora de tempo no gueto de Varsóvia: há limites para a falta de educação. E eu, porra, gaja ou não gaja, moura ou não moura, tenho o direito de cruzar sozinha o centro do Porto se não me apetece companhia. Chove. A Trindade está deserta e debaixo de um toldo abrigam-se cinco ou seis vultos masculinos. Respiro fundo. Tenho uma escolha. Ou passo perigosamente perto deles, ou contorno o marco de correio e saio do passeio. Não, vou em frente, pronto. Não sou nenhuma gazela na savana, vá, mandem lá as vossas broas. À medida que me aproximo a pequena matilha inquieta-se e prepara-se para o seu número. Não me desvio, nem desvio o olhar. "Ó boneca, quanto é que levas?". Não respondo, não respondo, é melhor não abusar da sorte, mas ele, ele que está encostado à parede de madrugada, teve a lata de me chamar de puta, e a minha voz é muito independente e depois de uma leve gargalhada oiço-me a dizer, "E tu, filho, quanto é que tu levas?". Os risos voltam-se para o interior do grupo, e o porta-voz fica aflito. "Dez euros. Não, cinquenta, cinquenta!". Sigo, rindo para dentro e com uma deixa da Placida na cabeça, "Cinquenta euros? Olho para si e quer que eu acredite nisso?"

sexta-feira, dezembro 12, 2008

insinuação


Porto, hoje de Dezembro de 2008

[pois está bem. estás aí, já vi. atrás do véu, já vi. em esconde-esconde. pois. está bem.]

lingote


Porto, hoje de Dezembro de 2008

quarta-feira, dezembro 10, 2008

musta had the highway blues


Porto, Dezembro de 2007
fotografia de Inês M.M.


In the empty lot where the ladies play blindman's bluff with the key chain
And the all-night girls they whisper of escapades out on the "D" train
We can hear the night watchman click his flashlight
Ask himself if it's him or them that's really insane
Louise, she's all right, she's just near
She's delicate and seems like the mirror
But she just makes it all too concise and too clear
That Johanna's not here
The ghost of 'lectricity howls in the bones of her face
Where these visions of Johanna have now taken my place

... Inside the museums, Infinity goes up on trial
Voices echo this is what salvation must be like after a while



Visions of Johanna - Bob Dylan

branco no preto






Chave de ouro para um dia de emoções fortes. Curioso, ter encontrado esta montagem alternativa para o final. Porque hoje, como sempre que vejo a famosa cena 6b, pensei para mim que estes cabrões encontraram o sentido da vida nesta sequência. Está bem onde está, com o final a seco que decepa a versão final. Mas é um ponto de chegada, sem dúvida. E por isso mesmo, de partida.


... e aí vou eu outra vez estrada fora. Sentido: norte.

preto no branco



terça-feira, dezembro 09, 2008

arco sem bandeira


Junqueira, hoje de Dezembro de 2008

Eis-te, o meu puto pianista. Leoa que às vezes disso se esquece.
Mereces
um beijo por teres feito a fuga falar
um chuto nas canelas pela maneira como atacaste o Brahms e
um abraço apertado por não te teres rendido a esse início e
teres deixado que toda a música encontrasse o lugar dos teus dedos
e uma lágrima discreta por cada vez que o arco te atravessou
especialmente naquela hipnotizante sonata desse hipnotizado Berg


e não foram poucas.


Agora podes seguir no dicionário. Bach, Beethoven, Brahms, Berg... Há qualquer coisa com esta letra. Estes quatro numa ilha deserta e um piano. Isso sim, é uma definição de éden. E o meu puto está livre que nem uma cadência romântica. Diz que agora é dótora duas vezes, olh'ó luxo!

segunda-feira, dezembro 08, 2008

e na dos homens era isto que se ouvia...

Waffers wc mix — Jacinto Lucas Pires/Vítor Rua [Arranha-Céus] - Joana Manuel


Os Waffers são uma banda inventada por Jacinto Lucas Pires para a sua peça "Arranha-Céus". A música é de Vítor Rua, e nesta brincadeira de casa-de-banho estão quatro canções numa. A gaja, pois, sou eu.

falta

Há um ano, esta era a voz que se ouvia numa das cabines da casa-de-banho das mulheres. É a do António Durães, o sublime Shylock que regressará ao palco do TNSJ em Janeiro. E são de Sarah Kane as palavras de amor tão dolorosas e belas e abandonadas. Foi há um ano, nos Actos de Rua dirigidos por Nuno Carinhas para o Portogofone. Esmagou-me então. Esmaga-me ainda. [passou um ano sobre o primeiro fim.]

Crave—Falta [Sarah Kane] . monólogo - António Durães

And I want to play hide-and-seek and give you my clothes and tell you I like your shoes and sit on the steps while you take a bath and massage your neck and kiss your feet and hold your hand and go for a meal and not mind when you eat my food and meet you at Rudy's and talk about the day and type your letters and carry your boxes and laugh at your paranoia and give you tapes you don't listen to and watch great films and watch terrible films and complain about the radio and take pictures of you when you're sleeping and get up to fetch you coffee and bagels and Danish and go to Florent and drink coffee at midnight and have you steal my cigarettes and never be able to find a match and tell you about the the programme I saw the night before and take you to the eye hospital and not laugh at your jokes and want you in the morning but let you sleep for a while and kiss your back and stroke your skin and tell you how much I love your hair your eyes your lips your neck your breasts your arse your
and sit on the steps smoking till your neighbour comes home and sit on the steps smoking till you come home and worry when you're late and be amazed when you're early and give you sunflowers and go to your party and dance till I'm black and be sorry when I'm wrong and happy when you forgive me and look at your photos and wish I'd known you forever and hear your voice in my ear and feel your skin on my skin and get scared when you're angry and your eye has gone red and the other eye blue and your hair to the left and your face oriental and tell you you're gorgeous and hug you when you're anxious and hold you when you hurt and want you when I smell you and offend you when I touch you and whimper when I'm next to you and whimper when I'm not and dribble on your breast and smother you in the night and get cold when you take the blanket and hot when you don't and melt when you smile and dissolve when you laugh and not understand why you think I'm rejecting you when I'm not rejecting you and wonder how you could think I'd ever reject you and wonder who you are but accept you anyway and tell you about the tree angel enchanted forest boy who flew across the ocean because he loved you and write poems for you and wonder why you don't believe me and have a feeling so deep I can't find words for it and want to buy you a kitten I'd get jealous of because it would get more attention than me and keep you in bed when you have to go and cry like a baby when you finally do and get rid of the roaches and buy you presents you don't want and take them away again and ask you to marry me and you say no again but keep on asking because though you think I don't mean it I do always have from the first time I asked you and wander the city thinking it's empty without you and want want you want and think I'm losing myself but know I'm safe with you and tell you the worst of me and try to give you the best of me because you don't deserve any less and answer your questions when I'd rather not and tell you the truth when I really dont' want to and try to be honest because I know you prefer it and think it's all over but hang on in for just ten more minutes before you throw me out of your life and forget who I am and try to get closer to you because it's a beautiful learning to know you and well worth the effort and speak German to you badly and Hebrew to you worse and make love with you at three in the morning and somehow somehow somehow communicate some of the overwhelming undying overpowering unconditional all-encompassing heart-enriching mind-expanding on-going never-ending love I have for you.


Sarah Kane, in
Crave, 1998

domingo, dezembro 07, 2008

sem asas [para o diogo]


Porto, Dezembro de 2008


[não há anjos, meu doce amigo. ao contrário do que gostamos de pensar, nunca nos caíram as asas. antes se fizeram braços. que também se abrem, das costas à ponta dos dedos. não há anjos. houve pássaros.]

não há planaltos

Por vezes derrapa
derrama-se
e o plano parece querer ficar
inclinado
ou para melhor
torto
desafiante
escuro e com um dente
de ouro reflectindo a esfera

entregue
a superfície lisa ainda
ainda lisa
até quando?
mas ainda
abandona-se
e desliza.

Ganha lanço.

pano preto

Do bom teatro pode sair-se de rastos, na exacta medida da purificação alcançada. E da claridade fria fugir para o fumo das texturas e dos sabores. Por uma questão de sobrevivência.

La confession - Lhasa de Sela

Of course I love you, you saved my life... I wish you hadn't.*



Porto, Dezembro de 2008



* Sarah Kane, in 4.48 Psycosis, citado no espectáculo Oczyszczeni [Cleansed], de Krzysztof Warlikowski

sábado, dezembro 06, 2008

os riffs recorrentes

Hoje é este outra vez. Bom dia!

nota de actriz farta de mulheres sofredoramente apaixonadas ou vice-versa em peregrinação por amor ao seu macho

Ah porra, finalmente uma puta!


*pedimos desculpa pela linguagem deste post; o Blue! voltará à sua lírica normalidade pequeno-burguesa-armada-ao-anarquista logo que possível.

a minha cama no porto


Rita, Dezembro de 2008

... que é para não estranhar.


A Rita - Chico Buarque