domingo, novembro 30, 2008
quando o arco
quando o arco nos atravessa, abrem-se portas que não víamos.
surpreende-nos a nossa própria voz e tocam-nos por mais uma primeira vez as palavras que oficialmente sabemos de cor. o coração do cérebro desce ao seu lugar no meio do peito e tudo está como deveria estar, aqui e agora.
diverte-nos o gesto e a não-palavra que nos cimenta os movimentos, e todos os sentidos do mundo podem encontrar-se nos olhos da contracena.
quando o arco nos atravessa não há que haver pudores em reconhecer que fizemos um espectáculo do caralho.
surpreende-nos a nossa própria voz e tocam-nos por mais uma primeira vez as palavras que oficialmente sabemos de cor. o coração do cérebro desce ao seu lugar no meio do peito e tudo está como deveria estar, aqui e agora.
diverte-nos o gesto e a não-palavra que nos cimenta os movimentos, e todos os sentidos do mundo podem encontrar-se nos olhos da contracena.
quando o arco nos atravessa não há que haver pudores em reconhecer que fizemos um espectáculo do caralho.
sábado, novembro 29, 2008
no lodo do vício
Não se sabe nunca bem. Ninguém sabe, cada par de olhos vê uma luz diferente, e nada se pode fazer quanto a isso. Está bem assim, parece-me, mais não fosse por jamais poder ser de outro modo. Mas podem cair microfones, cair palavras, atrasar entradas de vídeo, podem ressaltar silêncios da tomada de assalto do cansaço, do excesso de malabares, dos percalços da pesquisa, e mesmo assim todo aquele tabuleiro de jogo voltar, mais de meio ano passado, a ser absolutamente nosso, todo aquele lodo estar deliciosamente certo. E trazer do público a vibração que em resposta se entrega. E generosamente agradece.
Tinha saudades de Veneza. E da Placida. O fim de uma trilogia? Ao menos são outras as mulheres da noite que se segue e no próximo palco não corro o risco de levar com um vórtice de feminilidade posto em perseguição do objecto do seu vício. Ou do seu amor. Ou talvez a distinção seja, para efeitos dramáticos, irrelevante.
Tinha saudades de Veneza. E da Placida. O fim de uma trilogia? Ao menos são outras as mulheres da noite que se segue e no próximo palco não corro o risco de levar com um vórtice de feminilidade posto em perseguição do objecto do seu vício. Ou do seu amor. Ou talvez a distinção seja, para efeitos dramáticos, irrelevante.
sexta-feira, novembro 28, 2008
da técnica, da essência, dos sentidos, de tudo, do todo, do nada — ou muito simplesmente, bom dia de chuva!
"Bom, parece-me que o mais difícil já passou" —disse eu um dia ao mestre, quando ele nos anunciava que iríamos começar com novos exercícios. "Aqui temos o costume de aconselhar a quem tem de caminhar cem milhas, que considere as noventa como sendo a metade —respondeu ele. Mas o objectivo desta nova etapa é o atirar ao alvo."
[...]
"As suas setas não atingem o alvo —observou o mestre— porque o seu alcance espiritual é limitado. Deve comportar-se como se o alvo estivesse a uma distância infinita. É um facto conhecido e comprovado pela experiência quotidiana entre nós, mestres arqueiros, que um bom arqueiro munido de um arco de resistência média, atira mais longe que um arqueiro munido do arco mais forte, mas carente de espiritualidade. Logo, o resultado não depende do arco, mas da presença de espírito, vivacidade e atenção com que ele é manejado. Mas para que esse estado de vigília espiritual atinja a tensão máxima, terá de executar a cerimónia de maneira um pouco diferente; mais ou menos como o verdadeiro dançarino executa a sua dança. Se assim o fizer, os movimentos dos seus membros nascerão daquele centro onde dá a respiração correcta. Assim a cerimónia, em vez de se desenrolar como algo aprendido de cor, parecerá criada segundo a inspiração do momento, de tal forma que dança e dançarino sejam um só. (...) Os meus tiros já não eram tão curtos, no entanto ainda não me permitiam atingir o alvo. Isto levou-me a perguntar ao mestre por que razão não nos ensinara ainda a apontar. Deveria existir, supunha eu, uma relação entre o alvo e a ponta da flecha, e com isto um meio comprovado de fazer pontaria, de modo a atingir o alvo.
"Claro que existe —retorquiu o mestre— e poderá facilmente descobrir por si mesmo qual a posição ideal. Porém, se a maioria dos tiros acertar no alvo, não passará de um artista que se pode exibir em público. Para o ambicioso que apenas colecciona tiros certeiros, o alvo não passa de um pobre pedaço de papel que ele desfaz com as suas setas. A Doutrina Magna do tiro com arco considera este procedimento como algo perfeitamente diabólico. Ela ignora o alvo que está colocado a uma determinada distância do arqueiro. Reconhece apenas a meta, que de maneira nenhuma se deixa alcançar através da técnica (...).
(...) Primeiro, não me preocupei com o destino das minhas setas. Mesmo as vezes em que acertava ocasionalmente não me excitavam, pois sabia-as fruto do acaso. Mas com o tempo eu já não suportava este disparar às cegas e caí outra vez na tentação de reflectir sobre o assunto. (...) "O senhor preocupa-se desnecessariamente —disse o mestre, para me consolar.— Afaste de uma vez por todas do seu espírito a preocupação de acertar no alvo! Pode tornar-se um mestre arqueiro, mesmo que não acerte sempre. Os tiros certeiros não passam de provas exteriores e confirmações do grau máximo de ausência de intenção e de libertação do Ego, meditação, ou como lhe queira chamar. Há diversos graus de mestria, e só quem atingiu o último estará em condições de jamais falhar o alvo exterior. (...) O senhor está enganado (...) se pensa que a compreensão, ainda que parcial, desta obscura conexão o poderá ajudar. Trata-se de fenómenos inatingíveis para o entendimento. Não se esqueça de que há harmonias incompreensíveis na natureza, e no entanto são tão reais que nos habituamos a elas, ao ponto de já não as concebermos de outra forma. Dou-lhe um exemplo sobre o qual reflecti muitas vezes: a aranha "dança" a sua teia sem saber que as moscas se prenderão nela. A mosca, dançando despreocupadamente num raio de sol, ignorando o que a aguarda, enreda-se na teia. Mas 'algo' dança através delas, e nesta dança interior e exterior se fundem. Do mesmo modo o arqueiro atinge o alvo, sem ter feito pontaria — e melhor não lhe posso explicar."
[...]
Como se eu, por magia, me tivesse transformado durante a noite, não tornei a cair na tentação de me preocupar com as minhas flechas e o seu destino. O mestre incentivava-me ainda mais nesta atitude, pois constatei que ele nunca observava o alvo, apenas o arqueiro, como se fosse o meio mais seguro de fazer uma leitura do resultado do tiro. Confrontado com a pergunta, admitiu-o sem reservas, e pude mais tarde confirmar como a precisão com que avaliava os tiros não ficava atrás da segurança das suas flechas. Transmitia assim, profundamente concentrado, o espírito da sua arte aos discípulos, e não hesito em afirmar, por experiência própria (da qual duvidei durante bastante tempo) que a tão falada comunicação directa não é uma simples forma retórica, mas sim um fenómeno de realidade tangível. [...]
Um dia, no momento em que o meu tiro se desprendia, o mestre exclamou: "Aí está! Incline-se!" Quando mais tarde olhei para o alvo —infelizmente, não o pude evitar— constatei que a seta apenas roçara a borda. "Este foi um tiro verdadeiro —afirmou o mestre— e é assim que deve começar. Mas por hoje basta, porque senão vai empenhar-se demasiado no próximo tiro e deitar a perder este bom começo." Com o decorrer do tempo foram acontecendo, de vez em quando, mais alguns tiros que atingiam o alvo, embora acompanhados de muitos tiros falhados. Mas ao menor sinal de vaidade, logo o mestre me repreendia com particular rudeza e explodia: "Mas o que é que se passa consigo? Sabe perfeitamente que não se deve incomodar com os tiros falhados. Do mesmo modo, deve abster-se de se alegrar com os tiros bem-sucedidos. Tem de se libertar desse oscilar entre o prazer e o desprazer. Precisa de aprender a manter-se em serena indiferença, e alegrar-se como se tivesse sido outro, que não o senhor, a executar um bom tiro. Não calcula como isto é importante."
Durante estas semanas e meses fiz a escola mais dura da minha vida. E nem sempre me era fácil adaptar-me, aprendi com o tempo o quanto lhe devo. Ela eliminou as minhas últimas veleidades da necessidade de ocupar-me de mim mesmo e das flutuações do meu estado de espírito. "Compreende agora —perguntou-me certo dia o mestre, depois de um tiro particularmente feliz— o que quer dizer: algo atira, algo acerta?"
"Receio bem já não entender rigorosamente mais nada —respondi—, até o mais simples se torna confuso. Sou eu quem estira o arco, ou é o arco que me leva à tensão máxima? Sou eu quem acerta no alvo, ou é o alvo que acerta em mim? Esse algo é espiritual aos olhos do corpo, ou corporal aos olhos do espírito, ambas as coisas, ou nenhuma? Todas estas coisas, arco, seta, alvo e Eu enredam-se de tal maneira que já não os consigo separar. Até o desejo de o fazer desapareceu, pois assim que agarro o arco e disparo, tudo fica tão claro, tão inequívoco, tão ridiculamente simples..."
O mestre interrompeu-me e disse: "Neste preciso momento a corda do arco acaba de o atravessar."
Eugen Herrigel, Zen e a Arte do Tiro com Arco
em viseu a venalidade de veneza

Hoje e amanhã. E continua saga das reposições. Entre ajustes técnicos ao aconchego deste palco, cá vamos observando os caminhos que se abrem continuamente. A repetição tem virtudes insuspeitas.
quinta-feira, novembro 27, 2008
um dois nove
lembro-me bem da última vez que aqui estive, mais de cinco anos e as imagens tão nítidas. lembro-me da vivenda de santa comba e do swing e da pinga com limão. lembro-me do vasco com cara de grão-de-bico. lembro-me do teu corpo e dos cardos que habitaram sempre o nosso conforto. da miséria que sempre nos minou as riquezas de transeuntes perdidos, procurando carris na penumbra do seu apeadeiro rodoviário. lembro-me do amor e da ternura imensa que no seu cimento emparedava as impossibilidades. havia em nós ainda esperança. mais do que isso, havia em nós certezas do que estava certo, os pés ferrados sobre os túmulos dos impossíveis. lembro-me dos teus olhos de menino consigo mesmo aterrorizado, doces e violentos, pedindo mentiras ao mundo, pedindo-me a mim. ainda ontem os li, esses olhos, tão vulneráveis, tão profundamente cegos e amorosos. e sei que estão na minha vida, que ficarão, que queremos ambos que fiquem. e espero vê-los felizes, não espero vê-los mudar.
terça-feira, novembro 25, 2008
ora põe-me a etiqueta no frasquinho [dip me in chocolate and throw me to the lesbians] — adenda
Repete-me de Elsinore a Carla, deixa-os falar, Manel. Eu deixo-os falar, sim. Não escrevi o post a que agora adendo por me preocupar um pêlo que seja com aquilo que se possa fantasiar sobre as minhas preferências sexuais. Dizer que as mulheres não são a minha cena parece-me bastante inócuo, face à panóplia de possibilidades. Ok, risca-se uma, e depois? Eu disse por acaso que sou outra coisa qualquer? Que sou, por exemplo, heterossexual [ai até coro a escrever tal coisa...]? Ah pois, não disse. Que me lembre, o que está escrito ali em baixo é "não sou lésbica". E agora?... Ai, lá se vão outra vez os rótulos de quem tenha ficado com a anónima boca de ladecos.
O que me preocupa não é que falem, antes a visível e provinciana incapacidade de viver sem um rótulo, sem um caixote. Os dois lados dessa incapacidade. O lado que tem o autocolante sempre pronto para colar em cara alheia, e o lado que se refugia na inacção, por medo que lhe colem um autocolante. É uma ditadura tremenda.
O que eu acho é que para o caso — como para quase todos, aliás — a minha orientação [que é a oeste] deveria ser indiferente. Porque o é. Estou a defender direitos que aparentemente são para outros, mas que são directamente para mim na medida em que sou mais cidadã se a sociedade em me incluo for mais justa. E que o pessoal dos frasquinhos compreendesse isto, isso é que era de valor, como se diz lá na minha outra casa. A beleza do um e um igual a dois, de que há dias falava o Nuno Crato. [óóó—óóóó, os ventos cá dentro]
O que me preocupa não é que falem, antes a visível e provinciana incapacidade de viver sem um rótulo, sem um caixote. Os dois lados dessa incapacidade. O lado que tem o autocolante sempre pronto para colar em cara alheia, e o lado que se refugia na inacção, por medo que lhe colem um autocolante. É uma ditadura tremenda.
O que eu acho é que para o caso — como para quase todos, aliás — a minha orientação [que é a oeste] deveria ser indiferente. Porque o é. Estou a defender direitos que aparentemente são para outros, mas que são directamente para mim na medida em que sou mais cidadã se a sociedade em me incluo for mais justa. E que o pessoal dos frasquinhos compreendesse isto, isso é que era de valor, como se diz lá na minha outra casa. A beleza do um e um igual a dois, de que há dias falava o Nuno Crato. [óóó—óóóó, os ventos cá dentro]
aguarela
Este bairro tem sido um dos meus grandes lucros dos últimos anos. E uma constante facada nas minhas intenções de ser mais e mais resistente à tentação respigadora, pois se uma amiga já levou do meu lixo uma belíssima manequim a quem pôs o lindo nome de "sally" [e ó, se lhe fica a matar...], já houve quem acartasse poltronas estacionadas à minha porta, mesas de cabeceira, cadeiras, e cá em casa já moram um carrinho-de-mão em palhinha vermelha, duas molduras de madeira que adoramos e ainda não percebemos porquê, e uma televisão a preto e branco, pequenina e cor-de-laranja, com écran de vidro e a funcionar em beleza, um verdadeiro vintage cuja propriedade ainda não está plenamente esclarecida [para já o usufruto é meu, não me queixo — é que é linda!].
Mas hoje ia entrar no prédio e deparo-me com este Cézanne. Nem a mínima dúvida me cruzou o espírito de que se tratava de um original, mercê das alturas indiscutivelmente inalcançáveis pela mais insidiosa das cópias. Realmente, há quem deite fora verdadeiras preciosidades...

Anjos, 25 de Novembro de 2008
Mas hoje ia entrar no prédio e deparo-me com este Cézanne. Nem a mínima dúvida me cruzou o espírito de que se tratava de um original, mercê das alturas indiscutivelmente inalcançáveis pela mais insidiosa das cópias. Realmente, há quem deite fora verdadeiras preciosidades...
Anjos, 25 de Novembro de 2008
hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito...
Anjos, hoje de Novembro de 2008
dia em que só a mentira é verdade
só o impalpável, denso.
no embalo da luz quente
resistente
resta apenas ombrear com o chumbo
atingi-lo com todas as cores
possíveis —
e sonhadas
e nascidas
e anunciadas
— de uma vez.
deixar o coração no arco.
... chego a mudar de calçada quando aparece uma flor, ah pois! [ssshhhh... mentira.]
segunda-feira, novembro 24, 2008
para o jogador, sempre, para o dono da casa de jogo, nem por isso...
Estefânia, hoje de Novembro de 2008
é um hoje por acaso e nunca um acaso seria
—o rei, quero o rei, já disse
o ás não resultou, pode ser agora que o rei ajude
e o resultado?
o valete.
o valete?
de espadas—
nunca por acaso outro dia seria
para o acaso de hoje se resguardou
—o jogo está feito
e o perigo espreita de todo o lado
só para o dono da casa de jogo não
cautela jogador
confias demais nas caprichosas vazas
vagas
assobias ao vento—
insolente
o julgas
parte da mesa finita
manca
só por isso ainda não topaste
a tua espada morta
valete entre folhas secas.
—e não saberás nunca parar de perder—
domingo, novembro 23, 2008
sábado, novembro 22, 2008
em lUzboa o pOrto trago 2.0
Porto, 21 de Novembro de 2008
O crepúsculo ontem foi assim. E isto já são só os restos, depois de uma corrida escada abaixo para resgatar o terceiro olho, calmamente repousado na sala branca. Este ano... não estou a repetir-me, pois não?
Ah... pois. Esta é parte do panorama da nossa sala de fumo. [cof cof...] Às vezes também é um bom sítio para almoçar. Privilégios menos dependentes do ministério das phinanças, enfim.
em lUzboa o pOrto trago 1.0
Porto, Novembro de 2008
Bom prefácio. Em quatro límpidos parágrafos.
E não, este não é um ano normal. Lisboa está há meses irreal. E a luz do Porto parece a de Lisboa. Cinza claro, o duro granito acariciado.
quinta-feira, novembro 20, 2008
a lição do ano do rato
Não é mau não ter controlo sobre as emoções. Mau é não ter clareza.
[e bom bom é estar metida no meio destes coros a la satellite of love...]
[e bom bom é estar metida no meio destes coros a la satellite of love...]
ora põe-me a etiqueta no frasquinho [lista de relações causa-efeito quando damos o corpo ao manifesto]
ou ainda
a lógica do aquário
1. Direitos dos animais.
És um cão. Ou um impala, se tiveres a mania de que és exótic@.
2. Direitos de livre circulação de pessoas.
És mexican@. Ou argelin@. Ou brasileir@.
Ou de outro sítio qualquer do lado de baixo do equador.
Ah, ou pret@.
3. Direitos do trabalho.
És comunista.
4. Distribuição de riqueza.
És comunista.
5. Direito à educação pública gratuita e de qualidade.
És comunista.
6. Direito a fumar ganzas.
És do Bloco.
Ou és ganzad@.
Ou ambos.
Também pode ser que sejas dealer.
Ou até pior, pode ser que sejas comunista.
7. Direito a não respirar fumo em espaços públicos fechados.
És um sacana de um moralista não-fumador.
Ou tens acções de um fabricante de extractores de fumo.
8. Direito a fumar sem levar com o moralismo dos outros, incluindo em alguns espaços fechados.
Andas-te a matar, parece impossível.
Ou tens acções da Phillip Morris.
9. Igualdade de género.
Sejas lá o que fores, não és homem de certeza.
E hoje fico por aqui, gosto de terminar em números ímpares.
a lógica do aquário
1. Direitos dos animais.
És um cão. Ou um impala, se tiveres a mania de que és exótic@.
2. Direitos de livre circulação de pessoas.
És mexican@. Ou argelin@. Ou brasileir@.
Ou de outro sítio qualquer do lado de baixo do equador.
Ah, ou pret@.
3. Direitos do trabalho.
És comunista.
4. Distribuição de riqueza.
És comunista.
5. Direito à educação pública gratuita e de qualidade.
És comunista.
6. Direito a fumar ganzas.
És do Bloco.
Ou és ganzad@.
Ou ambos.
Também pode ser que sejas dealer.
Ou até pior, pode ser que sejas comunista.
7. Direito a não respirar fumo em espaços públicos fechados.
És um sacana de um moralista não-fumador.
Ou tens acções de um fabricante de extractores de fumo.
8. Direito a fumar sem levar com o moralismo dos outros, incluindo em alguns espaços fechados.
Andas-te a matar, parece impossível.
Ou tens acções da Phillip Morris.
9. Igualdade de género.
Sejas lá o que fores, não és homem de certeza.
E hoje fico por aqui, gosto de terminar em números ímpares.
quarta-feira, novembro 19, 2008
ora põe-me a etiqueta no frasquinho [dip me in chocolate and throw me to the lesbians]
Houve uns pequenos pormenores acerca do meu casamento com a minha bela Raquel Freire que me foram particularmente gratos. Acidentes. Foi uma acção montada de véspera, numa cave ali para o Marquês, e nem eu e a Raquel caíamos bem ao vestido de noiva, feito para aquelas medidas entre mim e ela, as consideradas "normais". Ficou para mim, mas fiz questão que ela levasse o véu, para me sentir menos subvalorizada por a minha noiva não se dar ao trabalho de pôr mais que um vestido de praia para casar comigo, olh'á lata. Vieram os pins, para compensar o meu IMC abaixo do mínimo requerido pelo vestido, mas ainda assim os pins não chegavam, sobretudo com o constante boicote do Trotski-ainda-sem-picareta. Acendeu então a lampadinha: vou grávida! Os abdominais dispensavam a sauna de malha que sofreram por duas horas, mas o resultado foi a grávida a levantar o véu da noiva para a beijar antes dela atirar o ramo. Nada planeado, apenas peças encaixando umas nas outras.
Ora outra coisa que me está a divertir são as ondas que em círculo à minha volta ainda se fazem sentir. Na noite em que cheguei ao Porto e me serviram a melhor francesinha dos últimos tempos, o sr. António, sorrindo, diz que me viu na televisão. Que me viram todos. E que disse a alguns clientes que comentavam, que "não não, ela vem aqui e a gente conhece-a, ela só foi lá... para protestar". Os olhinhos semicerrados rogam-me que confirme, de algum modo, pedem-me um assentimento, quase dizem "por favor, diz-me que não és fufa". O sorriso enternece-me, e tenho de reconhecer, os olhinhos também. Não o quero com palpitações, mas não lhe vou fazer a vontade por causa disso. "Deixe-os falar, senhor António, deixe-os falar."
É isto o meu Porto, espelho ingénuo do que no sul se me esconde. Sei que se especula em Lisboa. E acho graça. Acho graça, sobretudo, porque ninguém, nem uma só pessoa, me interpelou a mim. Um amigo chegou a responder a alguém que tinha vivido comigo seis anos, sabia do que falava. A minha resposta continua a ser a mesma... deixa-os falar.
Mas pronto, hoje deu-me para o soro da verdade, e cá vai ela. Atenção à BOMBA! Eu não sou lésbica! Mas isso, como dizer, para mim não tem significado absolutamente nenhum. Porque é apenas uma constatação da realidade, não um ponto de partida. Até agora, é gajos, pronto. Mas não penso que seja mais que uma contingência. E se for pela lógica da liberdade dos afectos, tenho de dizer que até acho que é um certo handicap. Mas pronto, é onde estou. Repito. Não é o que sou. É onde estou. E como não sou árvore, não preciso de raizes.
A conclusão final impele-me, no entanto, a deixar-vos, à laia de serviço público, um rol das causas a que devem ponderar a vossa dedicação, a bem da vossa imagem social. Fica aberta a actualizações, estejam à vontade para sugerir.
Ora outra coisa que me está a divertir são as ondas que em círculo à minha volta ainda se fazem sentir. Na noite em que cheguei ao Porto e me serviram a melhor francesinha dos últimos tempos, o sr. António, sorrindo, diz que me viu na televisão. Que me viram todos. E que disse a alguns clientes que comentavam, que "não não, ela vem aqui e a gente conhece-a, ela só foi lá... para protestar". Os olhinhos semicerrados rogam-me que confirme, de algum modo, pedem-me um assentimento, quase dizem "por favor, diz-me que não és fufa". O sorriso enternece-me, e tenho de reconhecer, os olhinhos também. Não o quero com palpitações, mas não lhe vou fazer a vontade por causa disso. "Deixe-os falar, senhor António, deixe-os falar."
É isto o meu Porto, espelho ingénuo do que no sul se me esconde. Sei que se especula em Lisboa. E acho graça. Acho graça, sobretudo, porque ninguém, nem uma só pessoa, me interpelou a mim. Um amigo chegou a responder a alguém que tinha vivido comigo seis anos, sabia do que falava. A minha resposta continua a ser a mesma... deixa-os falar.
Mas pronto, hoje deu-me para o soro da verdade, e cá vai ela. Atenção à BOMBA! Eu não sou lésbica! Mas isso, como dizer, para mim não tem significado absolutamente nenhum. Porque é apenas uma constatação da realidade, não um ponto de partida. Até agora, é gajos, pronto. Mas não penso que seja mais que uma contingência. E se for pela lógica da liberdade dos afectos, tenho de dizer que até acho que é um certo handicap. Mas pronto, é onde estou. Repito. Não é o que sou. É onde estou. E como não sou árvore, não preciso de raizes.
A conclusão final impele-me, no entanto, a deixar-vos, à laia de serviço público, um rol das causas a que devem ponderar a vossa dedicação, a bem da vossa imagem social. Fica aberta a actualizações, estejam à vontade para sugerir.
anti-biológico
A vida é uma coisa maravilhosa. Mas hoje tinha larvas nas clementinas. E não gostei nada.
para grandes males 2.0
Eu acordei muito cedo hoje. Foi isso. Dia comprido, cheio, turbulento, luminoso. Deve ser disso, a minha cabecinha já não é o que era.
Ou será que o Vítor Constâncio disse mesmo aquilo?
Será que o testa de ferro dos tubarões, o habitante do estrato das reformas milionárias imunes às crises, o guarda-nocturno da finança nacional, o mesmo a quem passa ao lado o crime organizado que toda a gente vê, será mesmo que esta pessoa [é a única definição que lhe posso dar sem entrar em insultos, "pessoa", pronto] teve cara para dizer que o subsídio de desemprego é demasiado generoso e por isso o grande responsável pelo desemprego de longo termo?
Será? Ele disse mesmo aquilo?
E o Salazar, apareceu em sonhos à Ferreira Leite vestido de Pina Manique e com a cabeça do Bocage debaixo do braço?
E o Manel Pinho ex-BES, é um anjo bem-feitor ao nomear o seu ex-procurador nos negócios escuros com o BES e actual inquilino, para um cargo de controlo democrático das instituições financeiras?
E ao Sócrates, apareceu-lhe o Pina Manique vestido de Salazar com a cabeça do Marquês de Pombal debaixo do braço?
Ou será que o Vítor Constâncio disse mesmo aquilo?
Será que o testa de ferro dos tubarões, o habitante do estrato das reformas milionárias imunes às crises, o guarda-nocturno da finança nacional, o mesmo a quem passa ao lado o crime organizado que toda a gente vê, será mesmo que esta pessoa [é a única definição que lhe posso dar sem entrar em insultos, "pessoa", pronto] teve cara para dizer que o subsídio de desemprego é demasiado generoso e por isso o grande responsável pelo desemprego de longo termo?
Será? Ele disse mesmo aquilo?
E o Salazar, apareceu em sonhos à Ferreira Leite vestido de Pina Manique e com a cabeça do Bocage debaixo do braço?
E o Manel Pinho ex-BES, é um anjo bem-feitor ao nomear o seu ex-procurador nos negócios escuros com o BES e actual inquilino, para um cargo de controlo democrático das instituições financeiras?
E ao Sócrates, apareceu-lhe o Pina Manique vestido de Salazar com a cabeça do Marquês de Pombal debaixo do braço?
para grandes males
Interpelado sobre a crise instalada entre escolas públicas e ministério, Cavaco Silva tem a resposta na ponta da língua: ponha-se lá a Manuela Ferreira Leite durante seis meses, para endireitar as coisas. Talvez com uma tropa de choque a assistir, sempre se acelera o processo.
Ou talvez tenha só dito que tinha "muita pena". Agora já não me lembro bem.
Ou talvez tenha só dito que tinha "muita pena". Agora já não me lembro bem.
segunda-feira, novembro 17, 2008
a tarefa
A tarefa de um homem livre é saber-se mortal e manter-se de pé à beira do abismo.
Cornelius Castoriadis, Uma Sociedade à Deriva
Regresso. Tenho a tábua à minha espera e o corpo à espera delas, a boca à espera das suas palavras. De novo ao encontro do que me encontrou para me mostrar a clareza do perigo no verdadeiro equílibrio. No outro lado da casa. Na outra casa cá dentro. E seguindo pela vida no trilho deste filme: um gigantesco flop, como só uma obra-prima sabe ser.
Cornelius Castoriadis, Uma Sociedade à Deriva
Regresso. Tenho a tábua à minha espera e o corpo à espera delas, a boca à espera das suas palavras. De novo ao encontro do que me encontrou para me mostrar a clareza do perigo no verdadeiro equílibrio. No outro lado da casa. Na outra casa cá dentro. E seguindo pela vida no trilho deste filme: um gigantesco flop, como só uma obra-prima sabe ser.
domingo, novembro 16, 2008
hoje dei por mim a pensar várias vezes nesta foto da minha rOdrigues
Algo está suspenso

O mesmo arco
Eu diria que não vejo nada e que não sei.
Algo está suspenso. A hora repousa.
Eu quero estar vivo como uma ferida, como um signo,
não mais do que um rumor de coisa nua.
Neste momento nada é confuso nem opaco.
Os labirintos são trémulos, transparentes.
Dir-se-ia que atravesso um jardim e toda a vida
repousa entre as forças da cinza
e o fulgor da chama. E adormeço
sentindo a beleza e o tempo, o mesmo arco
iluminado.
António Ramos Rosa
[post de Truta Vermelha, aka, Rodrigues, aqui em 2004]

O mesmo arco
Eu diria que não vejo nada e que não sei.
Algo está suspenso. A hora repousa.
Eu quero estar vivo como uma ferida, como um signo,
não mais do que um rumor de coisa nua.
Neste momento nada é confuso nem opaco.
Os labirintos são trémulos, transparentes.
Dir-se-ia que atravesso um jardim e toda a vida
repousa entre as forças da cinza
e o fulgor da chama. E adormeço
sentindo a beleza e o tempo, o mesmo arco
iluminado.
António Ramos Rosa
[post de Truta Vermelha, aka, Rodrigues, aqui em 2004]
sábado, novembro 15, 2008
Bond Le Carré
Também eu, no natal de 2006, fui de pé atrás com o loiro — um preconceito como qualquer outro. E também eu me rendi à primeira cena. É o melhor desde Sean Connery, dizem, mas eu atrevo-me a dizer que é o melhor. Ponto. Não existiria sem Connery, a césar o que é de césar, mas com o tempo e o enraizamento do mito, soube arriscar o humano, a terra, a falha, a mossa. E fez crescer a persona para lá do seu requintado appeal de cartão. Já nem sabe bem o que bebe, é shaken e stirred e bloody como nunca foi, dá-se ao luxo de sentir, tem amplitude para o amor e para a raiva. Sem nunca deixar de ser James Bond. Continuamos a ter genéricos brutais, a música sinfonicamente na acção, o ruído e o vácuo súbito brilhantemente geridos, e três espectaculares perseguições na primeira meia-hora, mas quem paga este bilhete também paga a montanha-russa, ou não sabe ao que vai. E a história, como Bond, vai acordando do seu sonho a preto e branco, e desde a mortal caricatura do agente americano até ao admirável Matthis de Giancarlo Giannini, o bem e o mal, ainda e sempre presentes, tornam-se mais pardos. É da idade, como diz Giannini, Bond está velho, felizmente. E a intriga pode dar-se ao luxo de fantasiar sobre o mundo real, trazendo à frente a carga política e amoral da espionagem. Aliás, o argumento tem o dedo do senhor Paul Haggis, e nota-se. Belo terminar de semana, é o que tenho a dizer.
E apeteceu-me rever esta primeira perseguição do Bond-em-forma-de-Craig, onde o herói se apresenta competindo no terreno do Parkour com um campeão que, qual espelho invertido, reflecte as suas limitações, as suas incapacidades, a sua deselegância, a sua sujidade. Bond lives. At last.
E apeteceu-me rever esta primeira perseguição do Bond-em-forma-de-Craig, onde o herói se apresenta competindo no terreno do Parkour com um campeão que, qual espelho invertido, reflecte as suas limitações, as suas incapacidades, a sua deselegância, a sua sujidade. Bond lives. At last.
sexta-feira, novembro 14, 2008
quinta-feira, novembro 13, 2008
quarta-feira, novembro 12, 2008
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