sábado, outubro 04, 2008
manhã esclarecedora
Conclusões a tirar de uma visita ao osteopata:
1. ser mulher é mesmo do c#%*o... recebemos menos por trabalho igual, somos reprimidas e sovadas e violentadas desde tempos imemoriais, e a culpa é toda nossa porque somos nós que os educamos, somos nós que nos educamos, somos nós que parimos o mundo senhores, tudo começa e acaba em nós, até devemos ser nós que batemos em nós mesmas quando não há uma porta de armário envolvida na história. No fim de contas somos todas-poderosas. Rejubilai!
[suspiro] Juro que não fui eu que comecei a conversa, aliás, eu e os meus feminismos ainda estávamos na cama, só os meus ossos estavam no consultório. Mas lá consegui dizer, laconicamente, que me faz confusão que ainda se ande à procura da culpa ao invés das soluções. E que se considere que existem facções separadas nesta história, como se este arremedo de tribalismo da caverna que ainda nos assombra não nos afectasse a todos, e não diminuísse imensamente o género masculino na sua fruição da vida e acção sobre ela. Pelos vistos o estado meio adormecido favorece-me. Reduz-me o discurso ao essencial. Ele ficou com olhos de processador, calado. Talvez não tenha sido ao lado...
2. o meu lado esquerdo é mais torto do que o outro; o que se calhar explica muita coisa.
Nota final: desconfiar sempre de um homem que, nos tempos que ainda correm, diz de si mesmo que não é machista. Porra, eu sou gaja e feminista e faço exercícios diários contra o meu machismo latente, inescapável por estar na base da própria civilização que me criou. Realmente, a vã soberba é a qualidade mais democraticamente distribuída.
1. ser mulher é mesmo do c#%*o... recebemos menos por trabalho igual, somos reprimidas e sovadas e violentadas desde tempos imemoriais, e a culpa é toda nossa porque somos nós que os educamos, somos nós que nos educamos, somos nós que parimos o mundo senhores, tudo começa e acaba em nós, até devemos ser nós que batemos em nós mesmas quando não há uma porta de armário envolvida na história. No fim de contas somos todas-poderosas. Rejubilai!
[suspiro] Juro que não fui eu que comecei a conversa, aliás, eu e os meus feminismos ainda estávamos na cama, só os meus ossos estavam no consultório. Mas lá consegui dizer, laconicamente, que me faz confusão que ainda se ande à procura da culpa ao invés das soluções. E que se considere que existem facções separadas nesta história, como se este arremedo de tribalismo da caverna que ainda nos assombra não nos afectasse a todos, e não diminuísse imensamente o género masculino na sua fruição da vida e acção sobre ela. Pelos vistos o estado meio adormecido favorece-me. Reduz-me o discurso ao essencial. Ele ficou com olhos de processador, calado. Talvez não tenha sido ao lado...
2. o meu lado esquerdo é mais torto do que o outro; o que se calhar explica muita coisa.
Nota final: desconfiar sempre de um homem que, nos tempos que ainda correm, diz de si mesmo que não é machista. Porra, eu sou gaja e feminista e faço exercícios diários contra o meu machismo latente, inescapável por estar na base da própria civilização que me criou. Realmente, a vã soberba é a qualidade mais democraticamente distribuída.
sexta-feira, outubro 03, 2008
quinta-feira, outubro 02, 2008
yes, it's only a paper new moon...
... e assim é. Dança-se um bocadinho na passadeira rolante, depois agarra-se na mala e ala, que a viagem tem de seguir. Quando a passadeira já não rola, anda-se pelo próprio pé. Anyway, there's nowhere to go but on.
quarta-feira, outubro 01, 2008
os argumentários
Pois que eu não sou gaja de deixar passar a oportunidade de chatear, pois que não sou. E como tal, lá mandei o meu amélio para cada grupo parlamentar. A primeira resposta veio do Bloco, que por acaso é a origem da proposta que se vai discutir no dia dez. Não sei se o miolo do hemiciclo ainda vai dar sinal de vida, mas a segunda resposta veio da outra ponta da sala, do CDS-PP. E reza assim:
Exma. Senhora
Agradecemos o e-mail que nos enviou.
Cumpre-nos informar que o CDS/PP respeita as opções de vida de cada um, no entanto, declinamos uma alteração ao regime do casamento e à sua natureza jurídica
Apresento a V. Exa. os melhores cumprimentos.
Lisboa e Palácio de S. Bento, 30 de Setembro de 2008
Tive de me desviar num repente, para não ficar esmagada sob o peso dos argumentos apresentados. Ainda assim, atrevi-me a responder...
Exm.ºs senhores,
Não querendo desrespeitar as convicções de ninguém, não me é compreensível que o respeito pelas opções de cada um seja compatível com a inconstitucionalidade patente no código civil quanto ao regime do casamento.
Mas aprecio e agradeço a vossa atenção à minha mensagem, assim como a vossa a resposta. Seguem abaixo, se vos prouver dar-lhes alguma atenção, as razões jurídicas pelas quais, como cidadã, considero que a vossa decisão é uma decisão contra a lei-base da nossa democracia. Se outra coisa não está em causa, está pelo menos isso.
Com os melhores cumprimentos,
AJM
Continuo à espera da resposta... mas ainda não perdi a esperança de manter uma animada e democrática tertúlia cibernética com a chefe de gabinete do insigne grupo parlamentar mais à direita, jejeje.
Exma. Senhora
Agradecemos o e-mail que nos enviou.
Cumpre-nos informar que o CDS/PP respeita as opções de vida de cada um, no entanto, declinamos uma alteração ao regime do casamento e à sua natureza jurídica
Apresento a V. Exa. os melhores cumprimentos.
Lisboa e Palácio de S. Bento, 30 de Setembro de 2008
Tive de me desviar num repente, para não ficar esmagada sob o peso dos argumentos apresentados. Ainda assim, atrevi-me a responder...
Exm.ºs senhores,
Não querendo desrespeitar as convicções de ninguém, não me é compreensível que o respeito pelas opções de cada um seja compatível com a inconstitucionalidade patente no código civil quanto ao regime do casamento.
Mas aprecio e agradeço a vossa atenção à minha mensagem, assim como a vossa a resposta. Seguem abaixo, se vos prouver dar-lhes alguma atenção, as razões jurídicas pelas quais, como cidadã, considero que a vossa decisão é uma decisão contra a lei-base da nossa democracia. Se outra coisa não está em causa, está pelo menos isso.
Com os melhores cumprimentos,
AJM
Artigo 13.º
(Princípio da igualdade)
1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.
2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.
(...)
Artigo 36.º
(Família, casamento e filiação)
1. Todos têm o direito de constituir família e de contrair casamento em condições de plena igualdade.
(...)
in Constituição da República Portuguesa, Parte I — direitos e deveres fundamentais, Título I — princípios gerais
Continuo à espera da resposta... mas ainda não perdi a esperança de manter uma animada e democrática tertúlia cibernética com a chefe de gabinete do insigne grupo parlamentar mais à direita, jejeje.
terça-feira, setembro 30, 2008
1.º flash — quinta-feira, 2 de outubro, às 19h30, largo do Chiado
Basta uma folha em branco e uma caneta. E às 19h30, escrever na folha em branco "Acesso ao Casamento Civil", e de seguida erguer a folha para que tod@s a possam ler. Ao fim de um minuto, deves dispersar, como se nada tivesse acontecido.
Nota para um país de atrasados crónicos:
convém estar lá um pouco antes, para que a intervenção tenha o efeito pretendido.
Nota 2 para um país de atrasados crónicos [que ninguém se ofenda, estou a falar de mim também, certo?]:
Não estamos a legislar para gentes remotas e estranhas. Estamos a ampliar as oportunidades de felicidade dos nossos vizinhos, dos nossos colegas de trabalho, dos nossos amigos e das nossas famílias e, ao mesmo tempo, estamos a construir um país mais decente. Porque uma sociedade decente é aquela que não humilha os seus membros".
Foi o argumento final do senhor Zapatero, lembram-se? E bom, na verdade, é tão simples como isto. Tão simples como mudar uma expressão entre vírgulas no código civil para que ele deixe de ser inconstitucional. Não custa dinheiro. É uma premência, num país que se define como uma democracia com base numa lei fundamental que se chama Constituição e que diz, no ponto 2 do art.º13, que "ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual."
Não é uma questão partidária. Não é uma troca de prioridades. Não é um problema secundário. Não é folclore. É algo que é bem mais básico, mais basilar, mais essencial do que isso. É a defesa da plena cidadania, com todos os seus direitos, para quem nunca deixou de ter qualquer dever. É uma questão de decência.
Esta é só a primeira. Dia 8 há mais.
Nota para um país de atrasados crónicos:
convém estar lá um pouco antes, para que a intervenção tenha o efeito pretendido.
Nota 2 para um país de atrasados crónicos [que ninguém se ofenda, estou a falar de mim também, certo?]:
Não estamos a legislar para gentes remotas e estranhas. Estamos a ampliar as oportunidades de felicidade dos nossos vizinhos, dos nossos colegas de trabalho, dos nossos amigos e das nossas famílias e, ao mesmo tempo, estamos a construir um país mais decente. Porque uma sociedade decente é aquela que não humilha os seus membros".
Foi o argumento final do senhor Zapatero, lembram-se? E bom, na verdade, é tão simples como isto. Tão simples como mudar uma expressão entre vírgulas no código civil para que ele deixe de ser inconstitucional. Não custa dinheiro. É uma premência, num país que se define como uma democracia com base numa lei fundamental que se chama Constituição e que diz, no ponto 2 do art.º13, que "ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual."
Não é uma questão partidária. Não é uma troca de prioridades. Não é um problema secundário. Não é folclore. É algo que é bem mais básico, mais basilar, mais essencial do que isso. É a defesa da plena cidadania, com todos os seus direitos, para quem nunca deixou de ter qualquer dever. É uma questão de decência.
Esta é só a primeira. Dia 8 há mais.
vencer na vida
You don't know what winning is, you're a loser. 'Cause you're dead inside, and you can't live unless you make everything dead around you.
Eu estou triste, pronto. Mesmo se, as far as we know, ganhou tudo o que tinha a ganhar. E eu ganhei alguns dos filmes da minha vida, com o seu rosto na película, ou com o seu olho. O efeito dos raios-gama no comportamento das margaridas é um dos filmes mais misteriosos e cheios que já vi. É o filme de um actor, no que de melhor isso pode ter.
Um filme de mulheres, pois. Não é todo o homem que os sabe fazer. Além de que era lindo que dói. Paul Leonard Newman, 1925-2008. He will be missed.
segunda-feira, setembro 29, 2008
coisas que me fazem chorar
... então se for tocado pelo Puto, é uma pieguice pegada. Seja a luz como for.
com luz, não dá...
O órgão lá ao fundo, por detrás do altar coberto pela toalha branca. Entre o ranger dos bancos a cada movimento de rabo desconfortado —e ainda eram uns quantos rabos—, os sussurros de quem é capaz de aguentar o desconforto da madeira patriarcal apenas para ir trocando banalidades enquanto lá ao fundo se toca muito bem música genial, e a sola de borracha que umas doc pretas não se cansaram de esfregar no chão de pedra bem perto do meu ouvido. E tudo isto potenciado por na Sé não deixarem que o sol se ponha enquanto houver vivalma presente, uma luz amarela, perscrutadora, impertinente, que forçava os olhos a fecharem-se buscando a relapsa concentração. Hans Ola-Ericsson conversou com o público antes de se resguardar entre as cátedras bispais. Eram meditações, o que íamos escutar, do místico génio que se considerava, antes de tudo, ornitólogo, depois escritor de ritmos e só por último compositor de música. Meditações, senhor? Só se for pelo desafio à paciência, que o desespero de ouvir Messiaen com aquela luz faz com que a única atitude possível seja a de beata, inclinada sobre o banco vazio da frente para aliviar os rins —cenas de gaja— e os ouvidos dos sussurros nas minhas costas, os braços inquietos a evitar as mãos postas, os olhos fechados, a cabeça baixa. Ou isso, ou nem um cheirinho de Meditações, quanto mais da sAntíssima tRindade. Mas sim, pronto, meditação. Porque foi um exercício zen, sem dúvida. É que, caramba, há coisas que não devia ser preciso dizer... Antes às escuras, está bem? Ou com uns archotes. Pensem nisso...
*agradecimentos e engraxamentos ao meu JL, pelo plágio... ;)
*agradecimentos e engraxamentos ao meu JL, pelo plágio... ;)
domingo, setembro 28, 2008
domingo
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Which 1950's PIN-UP Girl are you?
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Gosto. Porque gosto da franjinha, que também já tive. Porque gosto do rosto, que não me lembro de não reconhecer, dos olhos azul-cinza como os da minha Rodrigues, do cabelo asa-de-corvo como o da minha Lalão. Porque gosto da biografia, que podia ser apenas mais uma e no fim de contas é a de uma mulher que nunca fez senão o que lhe deu na real gana. Gosto, porque correu mundo e não voltou burra. Gosto porque, apesar das bondage shoots, não era fácil uma mulher ter tão poucas amarras nos anos cinquenta. Gosto porque não sucumbiu aos barbitúricos nem ao poder masculino, gosto porque tenho por certo que quando olhava para o espelho não via uma vítima. Nem um carrasco. Gosto porque naquele baralho de pin-ups com o qual tanta sueca se jogou —na minha infância, ó indecência, na minha infância!—, ela era a única que se distinguia pela alma que a fotografia lhe pedia emprestada. Gosto porque também adoro a Bette Davis. Gosto que o quiz tonto tenha dado ex-aequo com miss Audrey H., que parecendo diametralmente oposta, é, na realidade, um seu par. Gosto que o empate tenha sido a 69. Por cento. Gosto porque esta era a foto mais bonita do baralho.
tudo o que bate certo
É estranha, esta coisa das referências. Pois há uma canção tua —ou mais— para cada momento da minha vida, presente passada e futura. E sei que algumas ainda estão nessa antecâmara do futuro, à espera que se lhes abra o tabuleiro de jogo. É estranha, esta coisa da familiaridade, ter-te em argamassa da minha própria construção, de tal modo que me saem por vezes as tuas palavras como se minhas fossem, e agora fazer-te rir com um simples "tu viste-me crescer, não deste foi por isso". É relativa, esta coisa do tempo, pois que por isso mesmo não consigo localizar o encontro. Trabalhámos juntos em 2005, essa primeira vez de farejamento e reconhecimento de um território que muito cedo se intuíu comum, dançámos na cave da Rua da Alegria e o mundo também gingou e a ligação ficou feita. E logo a seguir, uns meses depois, partilhávamos palavras com as quais me cresci, dividíamos malhas e microfones, subíamos o Guadiana em busca de um porto de abrigo. Mas é daí que nos conhecemos? Porque esses olhares, essas poucas palavras e momentos partilhados ainda no meu anonimato, continuam espelhados aqui e agora, pois que pouco me parecem três anos para uma tão natural ternura, para tão simples entendimento. Pouco parecem três anos para que, entre galhofa e confissões, me digas "eh pá, desculpa lá ter composto essa canção...". Para que seja tão nossa a brincadeira dos sons e dos sentidos, tão nosso o poder dos silêncios. Há coisas doces, nesta vida. E uma das boas é constatar que um ídolo não tem pés de barro, mas de gente; conhecer um ícone muito nosso e poder continuar a amá-lo. Até te agradecia, mas não se agradece a alguém por ser fiel a si próprio. E como não acredito em nada daquilo em que acredito, a quem agradeço eu termos cruzado as nossas estradas? Talvez melhor que a ninguém, porque tudo o que há nelas de acaso há também de vontade. “A harbour shall be that is to found and-oh! Ever again-conquered”.
sábado, setembro 27, 2008
dissertações sobre os clássicos numa tarde lenta
Quando há dúvidas se são os Beatles que escutamos, basta tomar atenção à bateria. Se for indigente e perfeita ao mesmo tempo, só pode ser o Ringo.
I got blisters on my fingers!
I got blisters on my fingers!
sexta-feira, setembro 26, 2008
carrasco involuntário — ou do karma
Ora bolas... e estava o dia a correr tão bem. Trolha mais uma vez, lixa, massa e pladour, caixilhos e borrifadores, poeira e acidentes de percurso e riso. Lisboa entardecendo sobre o rio, o toque dos azulejos, a carícia da luz, a companhia-irmão-trolha, olho vivo e alma aberta, conversa boa que faz desaparecer o trânsito e perspectivar a estrada. E quando estou mesmo a chegar já prevendo a peregrinação em busca de estacionamento neste bairro tão colonizado, o reflexo que tarda por uma fracção de segundo, como todos os que tardam demais, e o engulho no asfalto, o pneu que atropela e estala e esmaga sob a inacção gelada das minhas mãos. Mas que merda! O sacana do pombo doente não estava bem onde estava de manhã, aninhado à beira do passeio?!! Não se mexe não se mexe, e vai-se a ver agora está praticamente no meio da rua escura e de noite todos os pombos são pardos.
Arranjei lugar à porta. Tenho três explicações metafísicas para o facto. O karma não é, definitivamente, instantâneo, e what goes around comes around... later. Ou, o karma é instantâneo e eu não fiz mais do que dar o golpe de misericórdia num ser em sofrimento há já umas quantas horas, e o meu prémio foi um lugar à larga, à porta, numa zona onde o próprio Buda vociferaria por uma vespa. Ou ainda, o karma é mesmo instantâneo e neste momento alguém está a tratar de um belo galo na cabeça, por se ter armado em deus ex-machina e posto o desgraçado do bicho ali à mão de ser eutanasiado.
Arranjei lugar à porta. Tenho três explicações metafísicas para o facto. O karma não é, definitivamente, instantâneo, e what goes around comes around... later. Ou, o karma é instantâneo e eu não fiz mais do que dar o golpe de misericórdia num ser em sofrimento há já umas quantas horas, e o meu prémio foi um lugar à larga, à porta, numa zona onde o próprio Buda vociferaria por uma vespa. Ou ainda, o karma é mesmo instantâneo e neste momento alguém está a tratar de um belo galo na cabeça, por se ter armado em deus ex-machina e posto o desgraçado do bicho ali à mão de ser eutanasiado.
quinta-feira, setembro 25, 2008
eu tinha perdido a cabeça — pandã
E os Beatles diriam, I'm fixing a hole where the rain gets in, and keeps my mind from wandering... e eu diria, ahan.
... e sorriria.
quarta-feira, setembro 24, 2008
complexo de Cassandra — só
A sensação de previsibilidade não vem de sentir nos ouvidos o futuro sussurrado pelas vozes dos deuses, vem do passado deitado no divã em turbilhão de associações livres. Freud até nos explica. A merda é que não nos conserta. Nem consola.
as proporções — complexo de Cassandra 3.0
Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra; macadamizai estradas; fazei caminhos de ferro; construí passarolas de Ícaro, para andar, a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa, como tendes feito esta que Deus nos deu, tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal; comprai, vendei, agiotai. — No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas-políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico. — Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já deve de andar orçado o número de almas que é preciso vender ao Diabo, o número de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro — seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.
Logo, a nação mais feliz não é a mais rica. Logo, o princípio utilitário é a mamona da injustiça e da reprovação. Logo...
There are more things in heaven and earth, Horatio,
Than are dreamt of in your phylosophy.
A ciência deste século é uma grandessíssima tola.
E, como tal, presunçosa e cheia de orgulho dos néscios.
Almeida Garrett, Viagens na minha terra, capítulo III, 1846
Logo, a nação mais feliz não é a mais rica. Logo, o princípio utilitário é a mamona da injustiça e da reprovação. Logo...
There are more things in heaven and earth, Horatio,
Than are dreamt of in your phylosophy.
A ciência deste século é uma grandessíssima tola.
E, como tal, presunçosa e cheia de orgulho dos néscios.
Almeida Garrett, Viagens na minha terra, capítulo III, 1846
a indiferença — complexo de Cassandra 2.0
Naturalmente, pois, logicamente, claro, o Brecht ressuscita um pouco por todo o lado. Para parafrasear o próprio, que tempos estes, em que falar de árvores é quase um crime porque implica não falar de todas as barbaridades que pedem para ser gritadas. Antes que seja tarde.
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho o meu emprego
Também não me importei
Agora levam-me a mim
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
... ou, como já alguém disse algures em 1933, quando a crise também justificava tudo, quando me levaram já tinham levado toda a gente, não sobrava ninguém para se opôr.
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho o meu emprego
Também não me importei
Agora levam-me a mim
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
... ou, como já alguém disse algures em 1933, quando a crise também justificava tudo, quando me levaram já tinham levado toda a gente, não sobrava ninguém para se opôr.
os alvos — complexo de Cassandra
Eu ando preocupada com isto, não posso dizer que não ando. Em poucos dias ouvi muita gente a desembocar precisamente no mesmo ponto, por um caminho ou por outro. E não, não acho que seja leve, inconsequente, insignificante. É a própria matéria das mentalidades que forma o presente e consequentemente o futuro —para não dizer o passado, já que ele não é mais do que a lente com que o lemos. É a vox populi, é a facilidade com que se aceita certas explicações, com que se adopta as teses, com que se tira negrume aos germes do ódio, ciclicamente reacendidos para dar à classe média em apuros um saco de pancada que amorteça a revolta.
Não ponho em causa que o marido da irmã da prima de alguém esteja no SEF a trabalhar e afirme que há dois gangues provenientes das favelas brasileiras a operar em Portugal —também não ponho em causa que a pessoa em questão tenha visto a Tropa de Elite há pouco tempo e nunca tenha pensado muito sobre a Cidade de Deus. Não ponho sequer em causa que haja imigrantes aldrabões, preguiçosos, oportunistas, como tantos portugueses o são e o foram por esse mundo fora. Nem ponho em causa que haja imigrantes, com ou sem papéis, envolvidos nesta famosa onda de insegurança que repete alarmismos de há cinco, dez, cem, mil anos atrás. Tu queres ver que os imigrantes são gente, tão reles como quase toda a gente? E tu queres ver que houve em tempos um escritor que escreveu um romance em que um homem pobre se tornava prisioneiro e depois foragido por ter roubado um pão para alimentar a família? Liberté, égalité, fraternité, era um belo romance, ainda não havia era prémios Nobel...
Mas choca-me, preocupa-me, e muito, que as bocas da classe-média em crise vejam na "imigração descontrolada" a causa basilar dessa tal insegurança [eu devo ser ET, já passei por incontáveis épocas de caça ao gatuno, e passa-me sempre o ambiente sin city ao lado... sou burra, com certeza]. Tem sido recorrente. Conto, sem pensar, três conversas semelhantes na mesma semana, com pessoas diferentes. A crise, e basta andar só um bocadinho atento às análises mais terra-a-terra da coisa, tem vencedores e vencidos, não é um machado aleatório, a acumulação selvagem de capital só pode, porque só pode senhores, espalhar miséria. E a miséria e a legalidade nunca se deram, pois só há regras iguais para iguais, entre iguais, e a igualdade não se compadece com a mimese de selva que os seres humanos gostam de construir nas suas colmeias. Ah, eu sou um leão, vou comer-vos a todos, ó carneirinhos, grrrrrr, tu vais primeiro, que és preto, a norma é que as ovelhas sejam brancas, ó ameaça!!! De quem é a culpa da falência da Lehman Brothers? De algum dono de boca de um qualquer morro perdido no Rio de Janeiro? Ou não, já sei, deve ser de um funcionário público português —ui, esses devem ceder de bom grado aos brasileiros o lugar de bode expiatório.
O problema, dizem-me portanto, é a imigração. As máfias. Os que vêm "para viver à conta". Os ex-favelados. Ninguém se pergunta nada, ninguém se questiona nada. Ninguém revê a matéria dada, as incontáveis tragédias que se construíram em cima de afirmações nem bem nem mal-intencionadas, apenas vantajosas aos poderes que se alimentam da preguiça de pensar, da preguiça de viver, da ânsia intrínseca de sobrevivência, da cobardia generalizada. O médico deixou morrer o doente? Bate-se no enfermeiro. O patrão fechou a fábrica? Espanca-se o motorista. Os direitos adquiridos e as nações estão a saque? A culpa é dos brasileiros. Está certo. Fiquemos no nosso cantinho, que isto há-de passar e alguém nos há-de dar um torrãozinho a chupar, se balirmos afinados. Isto se não passarmos nós próprios pela grelha primeiro...
Não ponho em causa que o marido da irmã da prima de alguém esteja no SEF a trabalhar e afirme que há dois gangues provenientes das favelas brasileiras a operar em Portugal —também não ponho em causa que a pessoa em questão tenha visto a Tropa de Elite há pouco tempo e nunca tenha pensado muito sobre a Cidade de Deus. Não ponho sequer em causa que haja imigrantes aldrabões, preguiçosos, oportunistas, como tantos portugueses o são e o foram por esse mundo fora. Nem ponho em causa que haja imigrantes, com ou sem papéis, envolvidos nesta famosa onda de insegurança que repete alarmismos de há cinco, dez, cem, mil anos atrás. Tu queres ver que os imigrantes são gente, tão reles como quase toda a gente? E tu queres ver que houve em tempos um escritor que escreveu um romance em que um homem pobre se tornava prisioneiro e depois foragido por ter roubado um pão para alimentar a família? Liberté, égalité, fraternité, era um belo romance, ainda não havia era prémios Nobel...
Mas choca-me, preocupa-me, e muito, que as bocas da classe-média em crise vejam na "imigração descontrolada" a causa basilar dessa tal insegurança [eu devo ser ET, já passei por incontáveis épocas de caça ao gatuno, e passa-me sempre o ambiente sin city ao lado... sou burra, com certeza]. Tem sido recorrente. Conto, sem pensar, três conversas semelhantes na mesma semana, com pessoas diferentes. A crise, e basta andar só um bocadinho atento às análises mais terra-a-terra da coisa, tem vencedores e vencidos, não é um machado aleatório, a acumulação selvagem de capital só pode, porque só pode senhores, espalhar miséria. E a miséria e a legalidade nunca se deram, pois só há regras iguais para iguais, entre iguais, e a igualdade não se compadece com a mimese de selva que os seres humanos gostam de construir nas suas colmeias. Ah, eu sou um leão, vou comer-vos a todos, ó carneirinhos, grrrrrr, tu vais primeiro, que és preto, a norma é que as ovelhas sejam brancas, ó ameaça!!! De quem é a culpa da falência da Lehman Brothers? De algum dono de boca de um qualquer morro perdido no Rio de Janeiro? Ou não, já sei, deve ser de um funcionário público português —ui, esses devem ceder de bom grado aos brasileiros o lugar de bode expiatório.
O problema, dizem-me portanto, é a imigração. As máfias. Os que vêm "para viver à conta". Os ex-favelados. Ninguém se pergunta nada, ninguém se questiona nada. Ninguém revê a matéria dada, as incontáveis tragédias que se construíram em cima de afirmações nem bem nem mal-intencionadas, apenas vantajosas aos poderes que se alimentam da preguiça de pensar, da preguiça de viver, da ânsia intrínseca de sobrevivência, da cobardia generalizada. O médico deixou morrer o doente? Bate-se no enfermeiro. O patrão fechou a fábrica? Espanca-se o motorista. Os direitos adquiridos e as nações estão a saque? A culpa é dos brasileiros. Está certo. Fiquemos no nosso cantinho, que isto há-de passar e alguém nos há-de dar um torrãozinho a chupar, se balirmos afinados. Isto se não passarmos nós próprios pela grelha primeiro...
terça-feira, setembro 23, 2008
Assunto: No dia 10 de Outubro, SIM à liberdade e à igualdade.
"No próximo dia 10 de Outubro, a Assembleia da República será chamada a votar projectos que estabelecem finalmente a igualdade no acesso ao casamento.
Esta é uma questão de direitos fundamentais, é uma questão de cidadania, é uma questão que determina a qualidade da nossa democracia. Trata-se de acabar com a humilhação de muitas mulheres e muitos homens que são ainda discriminadas/os na própria lei por causa da sua orientação sexual. Trata-se de afirmar finalmente que gays e lésbicas não são cidadãos e cidadãs de segunda.
A Assembleia da República terá finalmente a oportunidade de afirmar o seu empenho nesta luta pela igualdade e pela liberdade – e a oportunidade de contribuir de forma particularmente simples para a felicidade de muitas pessoas.
O fim da exclusão de gays e lésbicas no acesso ao casamento consegue-se com uma pequena alteração no texto de uma lei, que não implica custos nem afecta a liberdade de outras pessoas. Porém, será um enorme passo no sentido da igualdade e contra a discriminação. E como demonstraram as discussões sobre o voto para as mulheres ou sobre o fim do apartheid racista na África do Sul, o preconceito que existe na sociedade não pode nunca justificar a negação de direitos fundamentais. Pelo contrário, votar contra a igualdade é legitimar e encorajar a discriminação.
Esta votação representa por isso uma enorme responsabilidade, pelas implicações que terá no reforço ou na recusa do preconceito.
Porque recuso a discriminação na lei portuguesa e porque esta é a oportunidade de repor a justiça e cumprir o princípio constitucional da igualdade, seguirei com atenção esta votação - e apelo ao voto favorável de todos os membros deste Grupo Parlamentar e à defesa intransigente da igualdade no próximo dia 10 de Outubro."
Esta mensagem anda a circular por mail, mas não é demais deixá-la aqui. É necessariamente uma sugestão, passível de ser alterada ou substituída, desde que assinada e identificada, por uma questão de validade. E pronto. Aqui têm. Não tenho nada a acrescentar. Não, tenho isto a acrescentar:
blocoar@ar.parlamento.pt
gp_pcp@pcp.parlamento.pt
gp_pev@ar.parlamento.pt
gp_pp@pp.parlamento.pt
gp_ps@ps.parlamento.pt
gp_psd@psd.parlamento.pt
Esta é uma questão de direitos fundamentais, é uma questão de cidadania, é uma questão que determina a qualidade da nossa democracia. Trata-se de acabar com a humilhação de muitas mulheres e muitos homens que são ainda discriminadas/os na própria lei por causa da sua orientação sexual. Trata-se de afirmar finalmente que gays e lésbicas não são cidadãos e cidadãs de segunda.
A Assembleia da República terá finalmente a oportunidade de afirmar o seu empenho nesta luta pela igualdade e pela liberdade – e a oportunidade de contribuir de forma particularmente simples para a felicidade de muitas pessoas.
O fim da exclusão de gays e lésbicas no acesso ao casamento consegue-se com uma pequena alteração no texto de uma lei, que não implica custos nem afecta a liberdade de outras pessoas. Porém, será um enorme passo no sentido da igualdade e contra a discriminação. E como demonstraram as discussões sobre o voto para as mulheres ou sobre o fim do apartheid racista na África do Sul, o preconceito que existe na sociedade não pode nunca justificar a negação de direitos fundamentais. Pelo contrário, votar contra a igualdade é legitimar e encorajar a discriminação.
Esta votação representa por isso uma enorme responsabilidade, pelas implicações que terá no reforço ou na recusa do preconceito.
Porque recuso a discriminação na lei portuguesa e porque esta é a oportunidade de repor a justiça e cumprir o princípio constitucional da igualdade, seguirei com atenção esta votação - e apelo ao voto favorável de todos os membros deste Grupo Parlamentar e à defesa intransigente da igualdade no próximo dia 10 de Outubro."
Esta mensagem anda a circular por mail, mas não é demais deixá-la aqui. É necessariamente uma sugestão, passível de ser alterada ou substituída, desde que assinada e identificada, por uma questão de validade. E pronto. Aqui têm. Não tenho nada a acrescentar. Não, tenho isto a acrescentar:
blocoar@ar.parlamento.pt
gp_pcp@pcp.parlamento.pt
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conversas de café: quem sai aos seus é de Campolide
Uma senhora reclama da democraticidade dos passes de estudante, quem tem dinheiro para pôr o filho a estudar num colégio, também tem para pagar o passe, andamos nós a pagar para eles. Consigo entender as suas razões, mas quem dera fosse esse o grande exemplo da má distribuição das benesses sociais e da justiça contributiva, às claras ou às obscuras. Mas pronto, a malta atira ao alvo que vê melhor, certo? E assim ficam os utilizadores do passe a espingardar entre si, em vez de espingardarem para o topo da pirâmide. É o que se quer, esta senhora não faz mais do que cumprir a sua função tapetoforme. Não consigo é perceber como é que a conversa vira para a autoridade dos professores, aparentemente também reduzida a 50%, como o preço do passe.
—No meu tempo a professora chegava e nós fazíamos duas filas, rapazes de um lado, raparigas do outro, para ela passar.
Gosto do tom de orgulho na voz; repito para mim própria, cala-te Manel, não tens nada a ver com a conversa, mas não me sai da cabeça que os alunos de hoje também fazem duas filas para deixar passar o professor... chama-se Corredor da Morte, é um jogo já antigo.
—A culpa não é dos miúdos, nem dos professores, a culpa é dos pais que não os educam —diz esta senhora que a meio da tarde está no café a deitar conversa, e ouvidos, fora. Alguém atalha:
—Os pais são todos diferentes, e alguns fazem o melhor que podem. A culpa é do Estado, que não dá condições para se acompanhar os filhos como deve ser.
—Ora, o Estado, o Estado, o Estado não tem nada a ver com o que se passa na minha casa!
Cala-te Manel, não lhe digas, que sorte, minha senhora, na minha casa o cabrão do Estado interfere p'a caraças...
—O Estado não tem nada a ver. Eu trabalhei a vida toda e nunca os meus filhos foram mal-educados para ninguém...
Chave de ouro. Encontro assim o Big Brother em pessoa num cafézito de Campolide. E fico ansiosa por conhecer os filhos desta senhora. Devem ser qualquer coisa... Espera, agora fiquei baralhada. A senhora, bem-posta, tinha idade para estar a falar dos passes dos netos, dignos representantes da geração de corrécios que aterroriza as escolas secundárias... hmmm... educados pelos seus filhos, portanto, hmmm... educados por ela, portanto. Hmmmm...
—No meu tempo a professora chegava e nós fazíamos duas filas, rapazes de um lado, raparigas do outro, para ela passar.
Gosto do tom de orgulho na voz; repito para mim própria, cala-te Manel, não tens nada a ver com a conversa, mas não me sai da cabeça que os alunos de hoje também fazem duas filas para deixar passar o professor... chama-se Corredor da Morte, é um jogo já antigo.
—A culpa não é dos miúdos, nem dos professores, a culpa é dos pais que não os educam —diz esta senhora que a meio da tarde está no café a deitar conversa, e ouvidos, fora. Alguém atalha:
—Os pais são todos diferentes, e alguns fazem o melhor que podem. A culpa é do Estado, que não dá condições para se acompanhar os filhos como deve ser.
—Ora, o Estado, o Estado, o Estado não tem nada a ver com o que se passa na minha casa!
Cala-te Manel, não lhe digas, que sorte, minha senhora, na minha casa o cabrão do Estado interfere p'a caraças...
—O Estado não tem nada a ver. Eu trabalhei a vida toda e nunca os meus filhos foram mal-educados para ninguém...
Chave de ouro. Encontro assim o Big Brother em pessoa num cafézito de Campolide. E fico ansiosa por conhecer os filhos desta senhora. Devem ser qualquer coisa... Espera, agora fiquei baralhada. A senhora, bem-posta, tinha idade para estar a falar dos passes dos netos, dignos representantes da geração de corrécios que aterroriza as escolas secundárias... hmmm... educados pelos seus filhos, portanto, hmmm... educados por ela, portanto. Hmmmm...
segunda-feira, setembro 22, 2008
duas casas
Foz, Janeiro de 2008
fotografia de Paulo F.
No Porto gosto mais do inverno mesmo inverno, quando a luz se torna ouro naqueles dias em que o chumbo não toma conta de tudo. As verdadeiras metamorfoses dos outonos e das primaveras estão todas aqui, no nosso céu alfacinha.
Luzboa é mais show-off... no Porto é preciso um bocadinho mais de silêncio mental para apreciar. Por isso é que às vezes custa tanto. Falo por mim, claro.
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