segunda-feira, setembro 22, 2008
o outono é uma época propícia a definições pessoais
Não sou um músico. Sou uma actriz com um passado obscuro. E um futuro aberto, graças a Apolo.
equinócio de outono
Anjos, Setembro de 2008
É nos dias das mudanças que esta cidade me rouba mais o fôlego. Bom outono, gente!
domingo, setembro 21, 2008
as divergências significantes: relâmpagos
Reportagem da SIC sobre acompanhantes de luxo. Um homem diz uma frase engraçada: não pagar em mãos, depositar o dinheiro numa conta é menos humilhante. Pergunta a jornalista, menos humilhante para quem? Ele responde sem hesitar: —Para ela e para mim.
Uma das acompanhantes mais caras em actividade em Portugal diz que não é paga por sexo. E repete e repete. É paga pela companhia, o eventual sexo é bónus. Conta como começou na actividade, estava num restaurante, foi abordada por um homem, lançou um valor alto que pensou que ele não aceitasse e afinal foi com ele para um quarto de hotel. Depois, nunca mais se cruzaram e ela floresceu no negócio. Mas repete que não é paga por sexo. Como quem se diz a si mesma: —Elizabeth Butterfly, tu não és uma prostituta.
Um outro homem diz também que não paga pelo sexo, que só acontece de vez em quando. Paga pela companhia, para conversar, para ter carinho, atenção, porque todos precisamos de carinho. Mas pronto, paga, porque tem isto tudo "sem nada de emocional", nas suas próprias palavras. Tudo o que compra são substantivos da emoção —carinho, atenção, companhia—, mas insiste que "é sem nada de emocional". Ah, resta dizer que compra os serviços sempre à mesma pessoa. Mas... "sem nada de emocional".
Essa pessoa, bastante simples e terra-a-terra, diz que houve um tempo em que se sentia menos digna por fazer o que fazia. Mas que hoje considera que muitas outras mulheres são pagas pelo sexo, mas por um cliente que oficialmente com elas partilha o leito.
O mesmo homem do início diz que nunca teria uma relação estável com alguém que já tivesse estado no negócio. Não diz que aquelas mulheres, que chama pelo nome e pelas quais parece ter algum apreço, não encontrem alguém quando mudarem de vida. Mas, e cito, se for alguém como ele, nunca poderá saber do passado da mulher. Ele mesmo, portanto, se vê nessa mesma situação. A honestidade tem caminhos ínvios.
Uma das acompanhantes mais caras em actividade em Portugal diz que não é paga por sexo. E repete e repete. É paga pela companhia, o eventual sexo é bónus. Conta como começou na actividade, estava num restaurante, foi abordada por um homem, lançou um valor alto que pensou que ele não aceitasse e afinal foi com ele para um quarto de hotel. Depois, nunca mais se cruzaram e ela floresceu no negócio. Mas repete que não é paga por sexo. Como quem se diz a si mesma: —Elizabeth Butterfly, tu não és uma prostituta.
Um outro homem diz também que não paga pelo sexo, que só acontece de vez em quando. Paga pela companhia, para conversar, para ter carinho, atenção, porque todos precisamos de carinho. Mas pronto, paga, porque tem isto tudo "sem nada de emocional", nas suas próprias palavras. Tudo o que compra são substantivos da emoção —carinho, atenção, companhia—, mas insiste que "é sem nada de emocional". Ah, resta dizer que compra os serviços sempre à mesma pessoa. Mas... "sem nada de emocional".
Essa pessoa, bastante simples e terra-a-terra, diz que houve um tempo em que se sentia menos digna por fazer o que fazia. Mas que hoje considera que muitas outras mulheres são pagas pelo sexo, mas por um cliente que oficialmente com elas partilha o leito.
O mesmo homem do início diz que nunca teria uma relação estável com alguém que já tivesse estado no negócio. Não diz que aquelas mulheres, que chama pelo nome e pelas quais parece ter algum apreço, não encontrem alguém quando mudarem de vida. Mas, e cito, se for alguém como ele, nunca poderá saber do passado da mulher. Ele mesmo, portanto, se vê nessa mesma situação. A honestidade tem caminhos ínvios.
dimensão quatro e meio [resposta flanco a flanco]
Belo. Presente. Naturalmente digno e sem alpendre de onde chamar a seja o que for que se recolha. Ainda é fluidamente que o pó aceita a ordem de deita e fica, como um cão ao contrário. Pode ser algo mais espesso, mas o ideal continua a ser água. Salgada. O horizonte serve-se às metades com o sol a tentar outra coisa e o motorista sem volante. A porta ainda não fecha. O pó adormeceu por uns instantes e já foi amanhã.
o cheiro
Lisboa, 18 de Setembro de 2008
Ela já não está lá. Foi a mãe lisboeta a quem o meu pai alentejano pagava a renda do quarto —sempre que podia, pelo menos—, mas era jovem demais para ser uma avó. Era mais do que isso. Era a madrinha. A Gida. A típica coquette de São Bento, familiar de cada pedra da calçada entre a Praça das Flores e a Baixa, para mim, que vim tarde, foi sempre velha sem idade, a única visita de família que me entusiasmava, a única que se tornou minha quando a família deixou de ter poder para impor visitas. A Gida era uma beleza. Cheia de luz e de bondade, de alegria e de vontade das pessoas que amava, feliz do seu passado e transbordando presente. Também porque pôde, uma vida burguesa, sem filhos e sem percalços de maior, assistindo acordada às convulsões e vendo-as passar, com a cidade, com viagens, com muita conversa e muito riso e algum vinho, com espaço para todo o amor que encontrava espaço dentro dela. Muito espaço. A Gida era tão nova que nunca num milhão de anos o bilhete de identidade poderia ter razão, não na data, porque a Gida era tão nova que só podia ter o século estampado nos olhos, mas no nome, porque a Gida não se chamava Hermenegilda, como eu descobri em pasmo no primeiro ano da minha alfabetização. Hermenegilda Sande. E é mentira. Porque era a Gida. E não me lembro se alguma vez lhe recordei o apelido de solteira, mas Sande não era ela, era o Zé. E o Zé era, sim, o padrinho, o doce padrinho, mas acima de tudo, era o marido da Gida, não por qualquer relação de poder estabelecida, mas por uma natural organização daquele sistema solar, a Gida, o Sande, e os periquitos que saíam no ombro à rua e que ela ensinava a falar. E a prova é que quando o sol se apagou todos o pensámos, mas só alguns o dissemos a medo triste, ele não dura mais do que um ano. E um ano depois, contado, foi do Zé que nos despedimos. E o meu pai um pouco mais velho, mais triste, mais órfão.
A Gida usava base e riscava os olhos de preto e tinha um sorriso que comia qualquer batôn vermelho que aos seus lábios se atrevesse. E claro, cheirava sempre quanto bastasse a um perfume quente e transparente, o perfume a que eu achava que cheiravam todas as senhoras velhotas que pintavam o cabelo e a cara. Mas só na Gida era transparente, nas outras era apenas quente. E ligeiramente enjoativo. A Gida amou-me-nos, a todos em seu redor, incondicionalmente, sem juízos, sem negrumes, sempre de braços abertos. Tratou uma sogra acamada em casa até à morte como mais uma simples inevitabilidade, uma feliz inevitabilidade, afinal quantos se podem orgulhar de morrer nos anos 80 seguintes aos anos 80 em que nasceram? A Gida gostava de touradas e de casinos e divertiu-se imenso connosco na festa do Avante!, afinal o Alto da Ajuda até ficava ali mesmo à mão. E gostava de gente boa. E de mim, que não gosto de touradas e vejo nos casinos uma espécie de jardim zoológico. Há demasiado tempo que a Gida já não está lá, no prédio cor-de-rosa de São Marçal, mas estou eu à sua porta, e de repente toda a memória volta e preenche a rua sem trânsito e a janela fechada da casa aonde não voltei. Espanto-me com o ar da tarde que faz passar o perfume dela, quente e transparente, sob o meu nariz. E então percebo tranquila que foi por acaso que ao fim de tantos anos a passar a poucos metros, fui ali matar saudades.
sábado, setembro 20, 2008
sexta-feira, setembro 19, 2008
as dúvidas pertinentes
Na rádio discute-se a nova lei do divórcio, no beco sem saída que é um contrato estatal oficializante de relações afectivas. Um ouvinte escreve perguntando se estas novas disposições se aplicarão ao casamento homossexual, no caso dele vir a ser aprovado [esteja descansado, digo eu, que ainda se vai marrar um bocadinho até que isso aconteça]. Diz a pessoa que está a responder: —Ah, não faço a mínima ideia, isso vai ter de perguntar ao PS.
Ok. A ver. O ouvinte já é estúpido por fazer a pergunta, mas da senhora que é suposto estar a esclarecer, nem sei o que hei-de dizer. Porque é que não foi mais imaginativa, se queria dizer uma coisa idiota, sei lá, dê largas à criatividade. Por exemplo, os gays para se divorciarem vão ter de o fazer em parada a descer a avenida, com saltos compensados se forem homens, com o buço por depilar se forem mulheres. Ou, o Estado não deve interferir na partilha das purpurinas e das boás. Ou, é preciso, numa relação entre homens, defender o que tende a ser passivo na relação física [isto para usar um termo simples e directo, que nunca percebi muito bem o que é isso de ser passivo, mas pronto...], e numa relação entre mulheres é preciso defender a que depila o buço e não tem ar de camionista, certamente as partes mais fracas destes peculiares casamentos.
Era por mim, a brincadeira. Porque assim começava o dia com uma boa gargalhada, em vez de com o sobrolho levantado, a tentar desviar-me desta sensação esquisita de que em Portugal as gerações se contam como as idades caninas —mas em direcção ao passado. Cada ano vale sete. E nem era assim tão mau. Mais um bocadinho e esta senhora, que me soa a trintinha ou trintona, estaria deliciada com a ambrósia servida por Safo na ilha de Lesbos...
Ok. A ver. O ouvinte já é estúpido por fazer a pergunta, mas da senhora que é suposto estar a esclarecer, nem sei o que hei-de dizer. Porque é que não foi mais imaginativa, se queria dizer uma coisa idiota, sei lá, dê largas à criatividade. Por exemplo, os gays para se divorciarem vão ter de o fazer em parada a descer a avenida, com saltos compensados se forem homens, com o buço por depilar se forem mulheres. Ou, o Estado não deve interferir na partilha das purpurinas e das boás. Ou, é preciso, numa relação entre homens, defender o que tende a ser passivo na relação física [isto para usar um termo simples e directo, que nunca percebi muito bem o que é isso de ser passivo, mas pronto...], e numa relação entre mulheres é preciso defender a que depila o buço e não tem ar de camionista, certamente as partes mais fracas destes peculiares casamentos.
Era por mim, a brincadeira. Porque assim começava o dia com uma boa gargalhada, em vez de com o sobrolho levantado, a tentar desviar-me desta sensação esquisita de que em Portugal as gerações se contam como as idades caninas —mas em direcção ao passado. Cada ano vale sete. E nem era assim tão mau. Mais um bocadinho e esta senhora, que me soa a trintinha ou trintona, estaria deliciada com a ambrósia servida por Safo na ilha de Lesbos...
quinta-feira, setembro 18, 2008
pois, mas é que é isso mesmo, estúpido!
Está tudo muito escandalizado com as gasolineiras. E elas justificam-se com o mercado, todo o mercado e nada mais que o mercado. E têm razão. O mercado não é a lei da justiça, da proporção, mas a lei da oferta e da procura. Se há procura, o lucro pode ser praticamente ilimitado e pronto. Mesmo que seja um bem de primeira necessidade. De que se queixa o pessoal? Afinal não é o mercado livre a panaceia para todos os males? Ah, espera, já lá estivemos... e deu merda. E há-de continuar a dar. History will teach us nothing.
heavy metal
Pronto, eu não resisto. Isto é muito, muito bom. Até se percebe o "flügel weilt" que o soprano canta nos sis agudos. E há uma frase ali no meio, meia simples dúzia de compassos, alle Menschen werden Brüder, onde oiço toda a emoção que sentia ao cantá-la, quando do outro lado da sala do coro o nosso urso de estimação —grrrroufff— me dizia que ver a minha expressão naquele momento era uma das melhores partes do ensaio. Todo o mundo está na gana com que se grita que diesen Kuss der ganzen Welt! Esta sinfonia, toda ela, dá cabo de mim. E este final é uma das razões pelas quais tenho vontade de rir na maior parte das vezes em que vejo gajos cabeludos a partir guitarras eléctricas contra os amplificadores.
mambo!
Este é o encore nos BBC Proms de 2007, feito para o espectáculo e é o que é, um espectáculo, a velocidade, a pica, a alegria, o swing [que tantas vezes não se compadece desta aceleração toda]. Desde 1975 que com Beethoven e quejandos, El sistema ajuda uns quantos miúdos a fintar a pobreza. Parte deles soa assim. Simon Rattle diz que este puto Dudamel é um dos "most astonishingly gifted conductors" com quem já topou, e o puto ainda não tem trinta anos. As orquestras têm destas coisas: são espaços de disciplina e felicidade, como podem ser espaços de repressão e morte-viva. A diferença de resultados diz-nos muito do tecido celular de cada uma. Como em qualquer equipa de trabalho, digo eu, maior ou menor.
Querem semblantes mais sérios, para tirar teimas? Ora passeiem-se pelo youtube, procurando a Simón Bolívar Youth Orchestra e/ou Gustavo Dudamel. E boa viagem.
a sombra do caçador
Bairro Alto, 18 de Setembro de 2008
exercício proposto:
tentar dizer a cor com que a palavra é escrita, em vez da cor escrita pela palavra.
quarta-feira, setembro 17, 2008
a história é como um idiota chamado mercado
To European, US and world leaders:
We urge you to take a lead in fixing the fundamental flaws and loopholes which made the global financial crisis possible, including basic problems of debt and risk, incentives and transparency. We need you to work together to protect the public good by framing stronger rules for all parts of the global financial system. Be bold, and we will support you.
Aos dirigentes políticos mundiais:
Incitamo-vos a tomar posição no sentido de consertar as falhas e vazios que tornaram possível a crise financeira global, incluindo problemas básicos de dívida e risco, incentivos e transparência. É preciso que trabalhem em conjunto para proteger o bem público, reforçando as regras aplicadas a todas as partes do sistema financeiro global. Sejam ousados, e terão o nosso apoio.

foto: Boris Roessler/EPA
Assinem AQUI se não querem ser mais uma voz que nunca se ouve porque tudo é em vão. Enquanto os grandes financeiros não começam a cair das janelas de Wall Street, como em 1929.
We urge you to take a lead in fixing the fundamental flaws and loopholes which made the global financial crisis possible, including basic problems of debt and risk, incentives and transparency. We need you to work together to protect the public good by framing stronger rules for all parts of the global financial system. Be bold, and we will support you.
Aos dirigentes políticos mundiais:
Incitamo-vos a tomar posição no sentido de consertar as falhas e vazios que tornaram possível a crise financeira global, incluindo problemas básicos de dívida e risco, incentivos e transparência. É preciso que trabalhem em conjunto para proteger o bem público, reforçando as regras aplicadas a todas as partes do sistema financeiro global. Sejam ousados, e terão o nosso apoio.

foto: Boris Roessler/EPA
Assinem AQUI se não querem ser mais uma voz que nunca se ouve porque tudo é em vão. Enquanto os grandes financeiros não começam a cair das janelas de Wall Street, como em 1929.
terça-feira, setembro 16, 2008
tv guia
Estreia hoje uma série de reportagens em redor de "10 bairros problemáticos de origem e história muito diversas", uma encomenda da RTP que deu polémica. Sendo da autoria de uma jornalista de excepção, dona de uma clareza e de uma inteligência raras [ou de uso raro na profissão, melhor dizendo] e pouco dada a clientelas, isso não interessa nada porque diz que parece que consta que a senhora é namorada do Sócrates. É a vidinha à portuguesa, que a Fernanda Câncio tão bem conhece. Aliás, a ser verdade, só abona em favor dela, que continua independente e autónoma, e em desfavor dele, que desperdiça miseravelmente uma boa influência.
Mas independentemente das tricas para fazer tagarelar o povinho, A vida normalmente estreia hoje, na 2, às 23h30 e parece-me que é arranque a não perder. O primeiro bairro sob escuta é o da Abelheira, na Quarteira.
Mas independentemente das tricas para fazer tagarelar o povinho, A vida normalmente estreia hoje, na 2, às 23h30 e parece-me que é arranque a não perder. O primeiro bairro sob escuta é o da Abelheira, na Quarteira.
divergências significantes: a confiança
Caramba, que há dez anos que o homem me conhece e trabalha comigo, e posso dizer que nunca me viu mais gorda. Mas passam uns meses, e lá vem a conversa da treta: —Então e tu, não há maneira de engordares?
Cumpre dizer que se trata de uma espécie de patrão, um manda-chuva, alto e espadaúdo, daqueles com um sorriso cordial capaz de intimidar o Hulk. Ou seja, a lata ainda me vai mais ao nervo, a falta de respeito ainda é mais declarada. Respondo na mesma moeda, pode ser que ele se toque. —Já tu, estás cada vez mais anafadinho. É da idade, não é?, isso não tende a melhorar... [sorriso maroto, tipo, não estou a rir-me de ti, estou a rir-me contigo, mesmo que tu não te estejas a rir, boa?]. Ele pára para pensar se há-de seguir a pega, percebe que o meu escudo tem picos, mas está decidido a mostrar-me quem manda aqui:
— Pois -aponta a barriga- tens de beber cerveja, para ganhar isto, que faz falta.
— E bebo, preta. Mas sabes que para fazer o que faço, dá-me mais jeito ter o meu peso, se tivesse o teu já estava reformada.
— Tens de beber mais. [breve pausa, preparando a estocada final] Ouve lá, tu não comes?
— Não. Tenho uns comprimidos lá em casa. E tu, não vais ao ginásio?
— Vou!
— E porque é que não resulta?...
Ele encara-me em silêncio, tentando transpor para os olhos o sorriso falso, mas em vão. Eu, sempre sorrindo, não desvio, tenho três gatos, estou habituada a competir para ver quem desvia o olhar primeiro. O estúdio está pronto. O trabalho, daí em diante, seguiu como nó corredio. E acho que o mais-ou-menos-patrão há-de ficar calado da próxima vez que tope comigo. A não ser que esteja agora em casa a procurar novas estratégias de intimidação.
Cumpre dizer que se trata de uma espécie de patrão, um manda-chuva, alto e espadaúdo, daqueles com um sorriso cordial capaz de intimidar o Hulk. Ou seja, a lata ainda me vai mais ao nervo, a falta de respeito ainda é mais declarada. Respondo na mesma moeda, pode ser que ele se toque. —Já tu, estás cada vez mais anafadinho. É da idade, não é?, isso não tende a melhorar... [sorriso maroto, tipo, não estou a rir-me de ti, estou a rir-me contigo, mesmo que tu não te estejas a rir, boa?]. Ele pára para pensar se há-de seguir a pega, percebe que o meu escudo tem picos, mas está decidido a mostrar-me quem manda aqui:
— Pois -aponta a barriga- tens de beber cerveja, para ganhar isto, que faz falta.
— E bebo, preta. Mas sabes que para fazer o que faço, dá-me mais jeito ter o meu peso, se tivesse o teu já estava reformada.
— Tens de beber mais. [breve pausa, preparando a estocada final] Ouve lá, tu não comes?
— Não. Tenho uns comprimidos lá em casa. E tu, não vais ao ginásio?
— Vou!
— E porque é que não resulta?...
Ele encara-me em silêncio, tentando transpor para os olhos o sorriso falso, mas em vão. Eu, sempre sorrindo, não desvio, tenho três gatos, estou habituada a competir para ver quem desvia o olhar primeiro. O estúdio está pronto. O trabalho, daí em diante, seguiu como nó corredio. E acho que o mais-ou-menos-patrão há-de ficar calado da próxima vez que tope comigo. A não ser que esteja agora em casa a procurar novas estratégias de intimidação.
segunda-feira, setembro 15, 2008
fazei de mim, senhor, um bácoro de Epicuro 5.0
Desfrutam melhor da abundância os que menos dependem dela; tudo o que é natural é fácil de conseguir; difícil é, objectivamente, tudo o que é inútil. [...] O que nega o destino, apresentado por alguns como o senhor de tudo, já que as coisas acontecem ou por necessidade, ou por acaso, ou por nossa vontade; e que a necessidade é irreprimível, o acaso instável, enquanto a nossa vontade é livre, razão pela qual nos acompanham a censura e o louvor?
[...] É preferível ser-se desafortunado e sábio do que ser afortunado e tolo; na prática, é melhor que um bom projecto não chegue a bom termo do que chegue a ter êxito um projecto mau.
Epicuro, Carta sobre a felicidade ou A conduta humana para a saúde do espírito
[...] É preferível ser-se desafortunado e sábio do que ser afortunado e tolo; na prática, é melhor que um bom projecto não chegue a bom termo do que chegue a ter êxito um projecto mau.
Epicuro, Carta sobre a felicidade ou A conduta humana para a saúde do espírito
fazei de mim, senhor, um bácoro de Epicuro 4.0
Todo o prazer constitui um bem pela sua própria natureza; não obstante isso, nem todos são escolhidos; da mesma maneira que toda a dor é um mal, mas nem todas devem ser evitadas. [...] Existem momentos em que utilizamos um bem como se fosse um mal e igualmente em sentido contrário, um mal como se fosse um bem.
Epicuro, Carta sobre a felicidade ou A conduta humana para a saúde do espírito
... pois... tell me about it.
Epicuro, Carta sobre a felicidade ou A conduta humana para a saúde do espírito
... pois... tell me about it.
fazei de mim, senhor, um bácoro de Epicuro 3.0 [ou vai-te lixar ó Masoch]
A morte não é um mal; porque liberta o homem de todos os males, e ao mesmo tempo que os bens, tira-lhe os desejos. A velhice é o pior dos males: porque priva o homem de todos os prazeres, deixando-lhe todos os apetites; e traz consigo todas as dores. Não obstante, os homens temem a morte de desejam a velhice.
Giacomo Leopardi
... e é aqui que entra a voz de Quino pela boca da Mafalda: se viver é só durar, prefiro uma canção dos Beatles a um long play da Sarita Montiel, jejeje.
Giacomo Leopardi
... e é aqui que entra a voz de Quino pela boca da Mafalda: se viver é só durar, prefiro uma canção dos Beatles a um long play da Sarita Montiel, jejeje.
fazei de mim, senhor, um bácoro de Epicuro 2.0
Habitua-te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo o bem e todo o mal residem nas sensações, e a morte é exactamente a privação das sensações. A consciência clara e objectiva de que a morte não significa nada para nós, proporciona desde logo a fruição da vida efémera, sem o desejo de acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando a aspiração de imortalidade. Na vida não existe nada de terrível, para quem está perfeitamente convicto de que não há nada de terrível para deixar de viver.
[...] aquilo que não nos perturba quando ainda não é presente muito menos nos deverá afligir enquanto esperamos que aconteça. [...] o mais terrível de todos os males, que é a morte, não deverá significar nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que já cá não estamos. [...] O sábio nem desdenha viver nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo, e como não-viver não é necessariamente um mal. Assim como se opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, da mesma forma ele colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que este seja breve.
Epicuro, Carta sobre a felicidade ou A conduta humana para a saúde do espírito
[is that all there is, is that all there is? if that's all there is, my friends, then... na na na na...]
[...] aquilo que não nos perturba quando ainda não é presente muito menos nos deverá afligir enquanto esperamos que aconteça. [...] o mais terrível de todos os males, que é a morte, não deverá significar nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que já cá não estamos. [...] O sábio nem desdenha viver nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo, e como não-viver não é necessariamente um mal. Assim como se opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, da mesma forma ele colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que este seja breve.
Epicuro, Carta sobre a felicidade ou A conduta humana para a saúde do espírito
[is that all there is, is that all there is? if that's all there is, my friends, then... na na na na...]
fazei de mim, senhor, um bácoro de Epicuro
Herege não é quem rejeita os deuses nos quais a maioria crê, mas sim quem atribui aos deuses os falsos juízos dessa maioria.
Epicuro, Carta sobre a felicidade ou A conduta humana para a saúde do espírito
Epicuro, Carta sobre a felicidade ou A conduta humana para a saúde do espírito
domingo, setembro 14, 2008
as definições [para o K., para variar]
o amor é ter a ursa maior a espreitar-me pela janela. sorrindo.
sábado, setembro 13, 2008
as mãos cheias do infinito ou o preço do silêncio
Eu tenho à medida que designo — e este é o esplendor de se ter uma linguagem. Mas eu tenho muito mais à medida que não consigo designar. A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou buscá-la — e como não acho. Mas é do buscar e não achar que nasce o que eu não conhecia, e que instantaneamente reconheço. A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso da minha linguagem.
...Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu.
...Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu.
Clarisse Lispector
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