sábado, agosto 30, 2008

da inutil.idade da beleza

Um dia, já eu era velha, um homem dirigiu-se-me à entrada de um lugar público. Deu-se a conhecer e disse-me: —"Conheço-a desde sempre. Toda a gente diz que você era bonita quando era nova, vim dizer-lhe que, para mim, acho-a mais bonita agora do que quando era jovem gostava menos do seu rosto de mulher jovem do que daquele que tem agora, devastado."

Penso frequentemente nesta imagem que sou a única a ver e de que nunca falei. Está sempre aí no mesmo silêncio, deslumbrante. É, de todas, a que me agrada de mim própria, onde me reconheço, onde me encanto.

Muito cedo na minha vida foi tarde demais. Aos dezoito anos era já tarde demais. Entre os dezoito e os vinte e cinco anos o meu rosto partiu numa direcção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se é assim com toda a gente, nunca perguntei. Parece-me ter ouvido falar dessa aceleração do tempo que nos fere por vezes quando atravessamos as idades mais jovens, mais celebradas da vida. Este envelhecimento foi brutal. Vi-o apoderar-se dos meus traços um a um, alterar a relação que havia entre eles, tornar os olhos maiores, o olhar mais triste, a boca mais definitiva, marcar a fronte de fendas profundas. Em vez de me assustar, vi operar-se este envelhecimento do meu rosto com o interesse que teria, por exemplo, pelo desenrolar de uma leitura. Sabia também que não me enganava, que um dia ele abrandaria e retomaria o seu curso normal. As pessoas que me tinham conhecido aos dezassete anos aquando da minha viagem a França ficaram impressionadas quando me voltaram a ver, dois anos depois, aos dezanove anos. Conservei esse novo rosto. Foi o meu rosto. Envelheceu ainda, evidentemente, mas relativamente menos do que deveria. Tenho um rosto lacerado de rugas secas e profundas, a pele quebrada. Não amoleceu como certos rostos de traços finos, conservou os mesmos contornos mas a sua matéria está destruída. Tenho um rosto destruído.


Marguerite Duras, O Amante, trad.: Luísa Costa Gomes e Maria da Piedade Ferreira


coisas velhas

Broken Bicycles - Tom Waits & Crystal Gayle

assinónimos

Estes posts em Belo em redor da melancolia, espoletados por um comentário AQUI, não são mais do que variações sobre a beleza, não muito diferentes das que, há umas semanas, assim foram baptizadas. O que faz do ser humano o ser humano é precisamente a capacidade de olhar para si mesmo, desenhar-se, mitificar-se, abstractizar-se no ler da sua própria finitude. A beleza não é mais que o doce sabor de uma tragédia. E o mito do narciso é bem mais do que a efabulação de uma patologia psíquica. É o que nos perde. E o que nos identifica.

para um irmão melancólico — na morte de Marilyn


Henri Cartier-Bresson
Marilyn durante a rodagem de The Misfits, 1962



Morreu a mais bela mulher do mundo
tão bela que não só era assim bela
como mais que chamar-lhe marilyn
devíamos mas era reservar apenas para ela
o seco sóbrio simples nome de mulher
em vez de marilyn dizer mulher
Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher
mas ingeriu demasiados barbitúricos
uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha
ou suspeitou que tinha errado a vida
ela de quem a vida a bem dizer não era digna
e que exibia vida mesmo quando a suprimia
Não havia no mundo uma mulher mais bela mas
essa mulher um dia dispôs do direito
ao uso e ao abuso de ser bela
e decidiu de vez não mais o ser
nem doravante ser sequer mulher
O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor
um rosto sem regresso mais que rosto mar
e toda a confusão e convulsão que nele possa caber
e toda a violência e voz que num restrito rosto
possa o máximo mar intensamente condensar
Tomou todos os tubos que tinha e não tinha
e disse à governanta não me acorde amanhã
estou cansada e necessito de dormir
estou cansada e é preciso eu descansar
Nunca ninguém foi tão amado como ela
nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão
Era mulher era a mulher mais bela
mas não há coisa alguma que fazer se certo dia
a mão da solidão é pedra em nosso peito
Perto de marilyn havia aqueles comprimidos
seriam solução sentiu na mão a mãe
estava tão sozinha que pensou que a não amavam
que todos afinal a utilizavam
que viam por trás dela a mais comum imagem dela
a cara o corpo de mulher que urge adjectivar
mesmo que seja bela o adjectivo a empregar
que em vez de ver um todo se decida dissecar
analisar partir multiplicar em partes
Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha
julgou que a não amavam todo o tempo como que parou
quis ser até ao fim coisa que mexe coisa viva
um segundo bastou foi só estender a mão
e então o tempo sim foi coisa que passou

Ruy Belo

sexta-feira, agosto 29, 2008

da melancolia — serviço de abastecimento da palavra ao país

Vieram ter comigo dos lados do mar. Eram três, eram três mil. Vi que era pão que procuravam ou que não era pão que procuravam. Pus-me a distribuir por eles as minhas palavras: árvore, pássaro, mar, criança, rapariga, mulher. A cada palavra minha eu ia-me esvaziando. Era a vida, a minha vida que se ia. Eles ficavam incendiados. Nunca tinham pensado que se pudesse comunicar assim coisas próprias. Vieram mais, muitos mais dos lados do mar. Disse-lhes: morte, deus. E caí redondo no chão. Naquele dia ficou instituído o serviço de abastecimento da palavra ao país. Ainda vieram ter comigo, dizendo para eu arranjar outra designação, que aquelas iniciais não podiam ser. Mas eu já habitava plenamente a minha morte, meu planeta desde tenra idade.

Ruy Belo

da melancolia — um dia não muito longe não muito perto

Às vezes sinto-me farto
por tudo isto ser sempre assim
um dia não muito longe não muito perto
um dia muito normal um dia quotidiano
um dia não é que eu pareça lá muito hirto
entrarás no quarto e chamarás por mim
e digo-te já que tenho pena de não responder
de não sair do meu ar vagamente absorto
farei um esforço parece mas nada a fazer
hás-de dizer-me que pareço morto
que disparate dizias tu que houve um surto
não sabes de quê não muito perto
e eu sem nada para te dizer
um pouco farto não muito hirto e vagamente absorto
não muito perto desse tal surto
queres tu ver que hei-de estar morto?

Ruy Belo

da melancolia — a mão no arado

Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solidário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã

Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente

Ruy Belo

texturas 2.0




Bordeira, Agosto de 2008

texturas



Cordoama, Agosto de 2008
fotografias de Manel e de Mar

um país olimpicamente triste

Foram os Jogos Olímpicos com o melhor resultado de sempre para Portugal. E foram os mais reveladores da nossa mesquinha mentalidade, capaz de deprimir o maior dos optimistas [não, não é nem nunca foi o meu caso, não penso que uma mosca dentro de casa ande sempre à procura da saída, mas por via das dúvidas abro-lhe as janelas...].

Toda esta palhaçada é fácil de resumir. Gastamos quase nada com os nossos atletas, enquanto inundamos o negócio futebulesco de benesses —nada de pessoal, eu gosto de futebol, o desporto, não o circo. Temos um presidente do comité olímpico que diz que se demite e depois afinal não, afinal temos uma medalha de ouro, dá-se o dito por não dito e cá ficamos a nadar, como sempre, entre os bacalhaus a demolhar. Temos atletas que falam como crianças no pátio durante a aula de educação física e um comité olímpico que reage como se fosse o maná de todos os atletas que recebem ninharias para se preparar, trabalham, estudam e treinam, vão aos jogos sem o acompanhamento dos treinadores, e passam de quatro anos de preparação anónima para a esperança de todo um país desprovido de auto-estima e de horizontes, que num momento os afaga e no seguinte os espanca. Temos um velejador de primeira em pico de forma que abandona as competições a chorar, dizendo que não aguenta mais, depois de um magnífico quarto lugar e uma medalha falhada por muito pouco. E no meio disto tudo, atletas e jornalistas fazem o cerco a uma medalha de prata que, no seu direito de atleta, se exprimiu sobre a mentalidade amadora que regeu os seus colegas, sem ofender ninguém, dizendo apenas a verdade.


Cesto de caranguejos. Todos ralham e ninguém tem razão. E quem se lixa é quem se abre ao mundo e fala honestamente. Trata-se Vanessa naquela base do "esta acha que é melhor que os outros". A chatice, meus amigos, é que é mesmo. E não fez nada de censurável. Já o comportamento invertebrado do presidente do comité olímpico passa incólume, aceita-se como se fosse ético, cala-se como se fosse digno. Poder, quem o tem tem ascendente, poder, quem o tem faz-se valente...

a felicidade é qualquer coisa parecida com isto

De volante na mão, descer em Mushaboom, subir em Buena.


Buena - Morphine

o meu aniversário é um dia como outro qualquer 2.0

Há poucas pessoas que me fizessem passar um fim de aniversário no casino. Mas para trabalho de campo é um maná. E para a alma também acaba por ser, porque entre as slots, as gravatas, os dourados e um público pé-descalço a cantar a paz o pão habitação saúde educação, há um Lynch que se ri e se passeia. Ainda ganhei um euro e meio e acho que só agora, horas depois, começo a perceber como —é a iluminação do Jameson, provavelmente. Ainda dancei Prince e Dead or Alive e Culture Club. Ainda tive risos, carinhos, abraços, conversa boa, depois de uma farinheira com couve que me soube pela vida. E a prenda, ai, a prenda das prendas deu-ma o meu mestre, que veio ao encore e brincou com as horas: —Alguns já perderam o último comboio e a Joana já não faz anos...

E a seguir... isto.

O Primeiro Dia - Sérgio Godinho


... todos são. Está sempre sempre tudo no início. É esse o segredo de para um velho ainda poder ser cedo. Começo mais um primeiro, o trigésimo terceiro de todos os primeiros anos que tive até aqui. Nunca me senti tão desperta. Nem tão criança.


E enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida...

o meu aniversário é um dia como outro qualquer

Cheirar a esteva. E o mar. E os mares. E o vento, em carícias agrestes que exigem vigília. Sentir a luz amarela a chorar na minha pele, a areia e a estrada sob os pés. Escorrer o olhar sobre as falésias e as pessoas e deixar o medronho descer em fogo pela garganta. E com os grilos nos ouvidos, percorrer toda a via láctea no aconchego dos braços de um urso polar.

segunda-feira, agosto 25, 2008

no caminho aberto

Supa Sista - Ursula Rucker

Até mais logo!

entre [na releitura...

... percebi que há poucos meses — anos, coloquei na carruagem que desejava vazia um desconhecido; agora percebo que o fiz para me convencer de que não eras tu; agora sei claramente que o braço que me cerceava o colo era o teu; não te quis adormecer na carruagem que desejava vazia...

... porque já então eu assim a desejava sem saber.]

divergências significantes: a fauna

Só tenho pena que o Da Ponte não tenha conseguido meter no libreto da ópera uma das melhores frases da peça de Beaumarchais. Acusado por todos de estar, como sempre, bêbedo, o jardineiro António responde à altura do maior dos filósofos: —Beber sem ter sede e fazer amor todo o ano são as únicas coisas que distinguem o homem dos outros animais.

Uff...

Finita la commedia. Acabou tudo em bem e não viveram felizes para sempre, porque a mère coupable Condessa Rosina ainda há-de ter um filho de Cherubino, mas isso agora não interessa nada, os bons costumes estão para já salvaguardados e os enganos sopram no zeffiretto que sacode as agulhas dos pinheiros do jardim Almaviva. As camadas infindáveis de leitura de uma obra-prima são promessas sucessivamente cumpridas de epifania, e a música tem o dom de tudo fazer sobreviver mesmo a um embrulho tradicional, velhote, gasto. Desde que o material humano cumpra e se divirta, Mozart, Da Ponte e Beaumarchais chegam incólumes em cada curva, em cada ironia, em cada sombra, em cada rasgo de luz. Ali também está uma parte de mim, e senti saudades de cada momento que já me passou pelo corpo, das árias da Susanna, das da Condessa, de ouvir a Nezes cantar o Cherubino. É um privilégio ter sentido música desta por dentro, pelos seus meandros, pelos meus. É possível que seja a principal razão pela qual não trocava o meu percurso errático por nada.


Também graças a esse percurso, me vejo metida nestes assados. Hoje foi tudo bem mais calmo, podia ser perfeito com tempo e ensaios, mas pronto, não vale muito a pena perder tempo com "ses". Aqui o bombeiro agora parte para umas curtas conversas com o sol e o sal do sul.

domingo, agosto 24, 2008

abandono — a culpa que me desculpe


Anjos, Agosto de 2008



Pé depois de pé, sigo o caminho que tracei no mapa. Desviei-me, aqui e ali, perdi tempo, gastei energia, e tudo ganhei, os músculos prontos, em movimento, em remoinho, um músculo de entre todos que dificilmente se deixa comandar, saltando do peito a bombar, a bombar, a gargalhar, a cumprir a sua função e a aceder, sim, tratas-me bem e em troca dou-te a mais franca das minhas carnes para que a leias. Desviei-me, aqui e ali, mas não perdi de vista o caminho. O meu caminho só, o meu passeio público. Será talvez o instinto de sobrevivência, remetendo o amor ao seu devido lugar, um amor, artigo indefinido. E no entanto nada é límpido, nada é líquido. Porque o espaço que ocupaste, o pedaço que ainda ocupas, talvez não seja largo, mas é tão profundo que a cada passo que dou sinto que te abandono, e quase me recrimino pela fraqueza que me força a fazê-lo. Mas há muito que tenho esta mira milimetricamente afinada: a culpa não é para mim. Nunca fui mulher de arranjar desculpas. Disse-te adeus e respirei...

coisas que me fazem sorrir [saludos, viejo polaco]

Naranjo En Flor - Roberto Goyeneche


Todo o bom principiante é um céptico, mas todo o céptico não passa de um principiante.

Johann Frederik Herbart

sábado, agosto 23, 2008

divergências significantes: a simbiose


Henri Cartier-Bresson, 1908-2004


Ao repescar estes textos, que como já disse têm praticamente cem anos, li na diagonal algumas contextualizações oferecidas a quem lançou o desafio, e regressei àquele sentimento de estranheza que tive há cem anos atrás. A maioria das pessoas vê nesta imagem um casal ligado, apaixonado, com história ou com futuro, vê a simbiose, a troca. Eu nunca vi tal coisa. A sensação de desconforto que esta fotografia sempre me trouxe passa pela intuição do sacudir do comboio nos carris, mas assenta sobretudo naquele gesto de cárcere que envolve o pescoço da mulher. É quase violento, no seu estatismo, no ar que não deixa entre o seu antebraço e a traqueia alheia, parece quase difícil que ela respire, que ela possa decidir mover-se. Não é troca, é uso.


Olho as minhas palavras. E vejo a minha fraqueza, a minha esperança, a minha resistência ao escuro. Sem notar, tive de recorrer a um estratagema simples para expressar a minha incomodidade, e dei-lhes uma relação contingente, efémera, morta antes de existir, chamei-lhes estranhos, desconhecidos, acidentes. Quando o contacto dos corpos sussurra que o não são. Que se conhecem bem. Que se amam, até, talvez. Não consegui embeber tal relação no desconforto com que a imagem me atinge. A negação é o diabo...

Hoje, provavelmente, o texto seria bastante diferente. Já voltei a viver sem medo.

vent as you go

I Have the Moon - The Magnetic Fields

We have walked in ancient times
And we've been burned for many crimes
We have ended many lives
But we never really died
You have the sun, I have the moon

You have to fly around the world all day
To keep the sun upon your face
I'd like to come and comfort you
But I'd be blinded by the blue
You have the sun, I have the moon

You're bound to die under the sun
And I'll be doomed to carry on
You have become like other men
But let me kiss you once again
You have the sun, I have the moon


Stephen Merritt

insight

Conheço pessoas que se enchem com a dor dos outros. Que percorrem os caminhos deixando pequenos marcos de tristeza nas bermas, culpados na sua boa consciência, inchados no seu ego sôfrego de amor. Mas não são os encantos do caminheiro que se definem no amor perdido e resistente, por mais marcos que enfeitem o seu caminho. É apenas o coração de quem o vê passar que fica à mostra na sua vermelhidão, que face à morte iminente se descobre inesperadamente vivo. Os mortos também andam.

contexto — carruagem vazia















imagem manipulada por El-Mau


Acredita em mim, eu juro que não sabia. Não sei o que tomou conta de mim, o que tomou conta do ar para me fazer colapsar desta maneira e adormecer nestes braços. Juro que não me dei conta, perdoa-me a cegueira, foi o cansaço, a exaustão, os sobressaltos duros e negros deste comboio a cair.

Ainda há pouco respirava contigo, a cabeça abandonada no teu peito, o coração cerceado pelos teus braços. Sonhava? Sonhava, pois. Que outra explicação pode haver? Juro que não sabia quando me deixei adormecer, quando me permiti intoxicar lentamente pelo baloiço descarrilado, pela doçura do sono respirado em conjunto. Ele? Não sei o que pensou. Mais certo será que nada tenha pensado. Soltou os braços e recebeu o meu tombo. Foi generoso, à sua maneira. Mas depois foi apertando, apertando. Suponho que não soubesse sequer evitá-lo...

Ingrato, o despertar. Bizarro. Um bem-estar que passa a mal enquanto com os dedos desfaço os pequenos nós de maquilhagem que ainda se me agarram às pestanas, enquanto eu esfrego um olho. Dói-me o pescoço, tenho os rins feitos em papa e o ouvido esquerdo louco com o tique-taque que há pelo menos uma hora o vem moendo, insidioso. É tarde. E tu não usas relógio. Ainda há pouco respirávamos juntos e já os fôlegos se contestam, misturados no arfar bruto do comboio. Estes braços desconhecidos apertam-me o pescoço que me dói insuportavelmente. Liberto-me suavemente, escorrendo pelo meio deles, como uma cobra. Estalo as vértebras para que o ar possa voltar a passar livremente, ao seu ritmo e não seguindo um passo alheio. Olho o seu rosto adormecido. Nunca o vi, estranho-me e estranho-o. Juro que não me apercebi de quem era, de quem eu era, quando me abandonei. Acredita-me. Foi o escuro, foram os olhos pesados, foi o coração apertado, foi o seu cheiro nos meus poros despertos. Ainda está escuro, mas já não tenho vontade de dormir, mau-grado todo o sono que me pesa nos olhos. A carruagem está agora vazia, já as respirações largaram os corpos em atraso e alcançaram por si o seu destino. A carruagem está agora vazia, e eu jurá-lo-ei, jurá-lo-ei até que me creias. Está vazia.

contexto — os pardais não voam








imagem manipulada por El-Mau





Os pardais não voam, assim encasacados. Hei, puto! Não ouves? Larga esse sobretudo, ainda tens bons ossos para aguentar a humidade espessa do norte. De guarda-chuva na mão e vais assim, assim cabisbaixo, assim como se foras um velho, assim arrastado, assim-assim? Que se passa com os miúdos de hoje, que parece que levam o peso do mundo às costas...? De guarda-chuva na mão e não o abres? Nunca ouviste falar de miss Poppins, de fitas de nastro e de cetim em tons pastel, de canções de inocente rebelião contra os ditadores que te protegem entre muros de casas aquecidas e te dão ao menos três refeições quentinhas por dia e um catálogo de repressões para passeares pelo teu mundo adulto?


De que me falas tu? Não te entendo. Que protecção é essa que nasce das tiranias? Os meus pais ficaram para trás, não os vejo nesta fila que anda em centopeia, portanto ficaram para trás, há já uns meses que ficaram para trás neste caminho que palmilho há mais anos do que sou. Não quero pensar que não ficaram para trás. Se assim o fizer, que me resta senão aceitar que foram para a frente e se foram para a frente como os reencontrarei? E se foram para a frente? Se foram para a frente tanto mais me pesa este sobretudo, mais se me fecha este guarda-chuva; este enorme guarda-chuva, ainda ontem era da minha altura. Rivalizam entre si, as botas e o sobretudo, na aliança desnatural com a gravidade. Puxam para baixo e puxam e puxam, e no entanto quando me estenderam o sobretudo ele flutuava como as penas das galinhas que fugiam espavoridas das minhas corridas, essas corridas tão gargalhadas que até pareciam corridas de criança. Enganaram-me, com este sobretudo. Já as botas... Escolhi este gorro porque era fofo, era o mais fofo da vala comum de chapéus cobertos de fuligem que passaram à nossa frente antes da viagem. Era fofo. Havia de puxar-me para cima, para cima, para as nuvens, hop! Mas as botas, o sobretudo... o gorro fofo é fofo, mas nada mais. É fofo e fraco e desistiu de voar à primeira luta perdida contra o sobretudo. Depois vieram as botas, aqueceram-me os pés carregados de neve e morreu-se-me a esperança de voar. Sou um velho. Já me lembro mal, mas se bem me lembro, não era velho quando nasci.

Foi ontem que cheguei a Orsay sem entender ainda por completo de onde vinha. Cheguei a Orsay vindo do nada, e no entanto nada me parecia Orsay. Os meus pais seguiram em frente, e eu nunca consegui alcançá-los, nunca o quis, ainda não o quis, ainda não. Conheço bem os trilhos da terra. Balancei-me em caminhos de mar. Mas os do céu... Bem tentei, mas as botas não me deixaram e perdi o guarda-chuva. É por isso que te berro, que me apetece quase bater-te, a ti, assim velho e arrastado em preto e branco. Olha à volta, e verás o tudo que te cerca. Verás como te constrói e alicerça esse peso de injustiça que te verga. Verás como tamanho veneno te vacina. Que nervos, esta criança, este ancião, este espectro da sobrevivência!... Hei, puto? Nunca ouviste falar de guardas-chuva voadores?

contexto





Fez ontem cem anos que nasceu Henri Cartier-Bresson. E também estão perto de passar cem anos sobre os dias em que escrevi para duas das suas imagens, respondendo ao desafio do El-Mau. À suivre..

sombras bizarras

Nunca tinha tido aquela sensação. Uma projecção, total, aquele arco puxando as sobrancelhas, a expressão do olhar, os jeitos da boca, o tom com que a frase começa. Tudo reconhecido, mas no rosto errado, nos olhos errados, no corpo errado. Já tinha visto, claro, em filhos que num momento se parecem em demasia com o pai, em materializações de uma imitação, quando vemos para lá do traço e encontramos campos morfológicos. No limite, nos cães que se parecem com os donos. Mas aquela sensação... nunca tinha tido. Fiquei estática, tentando perceber se estava a olhar o original ou uma cópia. Tentando perceber se tu não passas de uma cópia. Ficaste sem carne, de repente. De tal modo, que o discurso se esboroou num choque pasmo. Eram outros olhos, aqueles, e estavas assim presente, tu que estás cada vez mais distante. Tenho de virar as antenas, estão demasiado apuradas. Mudar a frequência. Não quero receber mais sinais. Não quero mais. Chega.

sexta-feira, agosto 22, 2008

da idade

Sempre fui melancólica. E quando digo sempre, digo sempre, desde criança. Mas até há não muito tempo, dava-me ao trabalho de o tentar esconder.





Agora tenho mais que fazer. E isso agrada-me.


[obrigada, Diogo]