sábado, agosto 23, 2008

contexto





Fez ontem cem anos que nasceu Henri Cartier-Bresson. E também estão perto de passar cem anos sobre os dias em que escrevi para duas das suas imagens, respondendo ao desafio do El-Mau. À suivre..

sombras bizarras

Nunca tinha tido aquela sensação. Uma projecção, total, aquele arco puxando as sobrancelhas, a expressão do olhar, os jeitos da boca, o tom com que a frase começa. Tudo reconhecido, mas no rosto errado, nos olhos errados, no corpo errado. Já tinha visto, claro, em filhos que num momento se parecem em demasia com o pai, em materializações de uma imitação, quando vemos para lá do traço e encontramos campos morfológicos. No limite, nos cães que se parecem com os donos. Mas aquela sensação... nunca tinha tido. Fiquei estática, tentando perceber se estava a olhar o original ou uma cópia. Tentando perceber se tu não passas de uma cópia. Ficaste sem carne, de repente. De tal modo, que o discurso se esboroou num choque pasmo. Eram outros olhos, aqueles, e estavas assim presente, tu que estás cada vez mais distante. Tenho de virar as antenas, estão demasiado apuradas. Mudar a frequência. Não quero receber mais sinais. Não quero mais. Chega.

sexta-feira, agosto 22, 2008

da idade

Sempre fui melancólica. E quando digo sempre, digo sempre, desde criança. Mas até há não muito tempo, dava-me ao trabalho de o tentar esconder.





Agora tenho mais que fazer. E isso agrada-me.


[obrigada, Diogo]

o lugar estranho



















Anjos, 20 de Agosto de 2008


Tantas vezes em que simplesmente não sei onde estou, não quero território, e outras em que me parece que sempre aqui morei, é aqui, até quando não sei, que está certo. Achei graça a uma frase que ouvi ontem: same where, different when. Pode ser só isso. A casa é muito, muito mais do que um lugar físico. E esta é minha.

o polvo volta a atacar

Belo. De manhã tinha o dia todo delineado e ia descer ao mar vicentino no sábado, o mais tardar. À hora do almoço gira tudo, e hop, hoje vais ser coordenadora de legendagem para as Bodas de Fígaro. Mas ensaio? Não, minha linda, é a estreia... a ESTREIA!!!????

Ir buscar a partitura, acabar as anotações em contra-relógio da Paula, e mesmo assim sair de casa com dois actos por anotar. Nos últimos anos não percorro assim tanto a marginal em que vivi, e, caramba, não consigo deixar de me surpreender com o número de rotundas. A sério, não terão exagerado, assim, só um bocadinho? Cascais, por sua vez, continua linda, apesar de atravancada, e cada vez mais parecida com uma construção de legos habitada por pinipons de camisola às riscas. O percurso fez-me bem para respirar fundo e relaxar: é de alto risco, pois, e por isso mesmo não devo nada à perfeição, todo o acerto será uma vitória, um pouco como o guarda-redes antes do penalty. Quatro horas de penalties. E não é que fui defendendo? Considerando que o o segundo acto foi revisto e o terceiro anotado na hora anterior aos primeiros compassos da abertura, e o quarto nos vinte minutos de intervalo, diria que correu mesmo bem. Se a isso acrescentarmos dois cortes não assinalados na partitura e uma má tradução, diria até que foi perfeito. Tudo secundado por um Cherubino e uma Condessa de primeira apanha. Pronto, mais uma secção a acrescentar no currículo: bombeiro. Domingo há mais. E agora com tempo para limar arestas [jejeje], até é capaz de dar tempo para ir à casa de banho durante as quatro horas da récita. Não esquecer de levar outra vez chocolate. O Mário não resiste, a Cremilde finge que não vê, e sempre vai aquecendo a noite.


Noite de vários lucros, mas há dois que ficam necessariamente à frente: Mozart e voltar a ouvir a gargalhada da Marisa.

quinta-feira, agosto 21, 2008

17,67

foto THOMAS KIENZLE/AP



Néeeeeeeeelson!!!!!!!! Eu nem queria dizer, para não agoirar... mas eu estava com uma fezada. Foi bonito, o espírito, a resistência de um atleta que decidiu que o folclore típico da mesquinhez portuguesa não havia de sabotar a sua vontade. Foi bonito vê-lo lutar. Foi bonito saber de antemão que o último salto não seria nada que se visse, porque os olhos já não tinham força para esconder a emoção, as lágrimas. Foi bonito ver a inteligência, a segurança que não é arrogância, a humildade que percebe onde se faz a diferença. Da Naide, fico à espera da próxima. Este ano tinha uma fezinha nela. Talvez daqui a quatro haja outra fezada que se concretize.


Néeeeeeeeelson!!!!!!!!



Logo depois do último salto, tive de sair à pressa. As ruas estavam impávidas. Nem uma bandeira ondulava. Toda a gente parecia alheia. Nada aconteceu. Não há bolas ressaltando na equação. Pois.





Néeeeeeeeelson!!!!!!!!

e alguém me diz que isto representa bem o concerto de Paris




Caramba, man. Eu percebo a tua embirração, acredita que percebo. Mas não podias dar cá uma saltada um dia destes? É que já são décadas de espera, não se faz. A malta oferecia-te até uma daquelas senhoras de Fátima que brilham no escuro, para levares para casa.



...

Claro que a pessoa que esteve no concerto de Paris foi devidamente espancada com mocas e varapaus. Encontra-se neste momento na unidade de traumatologia de Santa Maria. Diz que ainda não recebe visitas. As if I care.

quarta-feira, agosto 20, 2008

o carro escuro — daguerreótipo

O cérebro é uma máquina. Mas há imagens que levam tempo a revelar e de repente surgem penduradas na corda. Daquelas imagens não pixelizadas, das que obrigam a amarelar as mãos no nitrato de prata e só ao fim de alguma escuridão ganham contornos. Era escuro e grande, o carro. Tu ias de verde e rias e mudaste repentinamente de expressão quando me viste. Soube imediatamente que carro era. Sei agora que estava certa. Sei, portanto, que dia era. Sei o que ias fazer. Acredito em coincidências, mas não deixo de lhes achar graça.


Nesse dia andei Lisboa quase toda. Ainda chorei muito. Vi um grande filme. Escrevi uma curta. E fiz uma ferida no pé, de tanto caminhar. Carne viva.


Já está quase sarado, o pé. E o choro foi tanto que acelerou o calendário.



Numa semana passaram dois meses. E eu desejo que esse dia te tenha sido tão importante como me foi a mim.

o meu puto psicopata

A propósito da Red Bull Air Race, na Ribeira.

— Será que vem algum kamikaze? Iss'é que era...

terça-feira, agosto 19, 2008

sessenta — adagio para cordas

sessenta — electrodoméstico

Laura em Agosto


Oeiras, 17 de Agosto de 2008

Eeeeeeeeee... já está cá fora! Miúda de coragem, que vir a este mundo não é para qualquer um. Bem-vinda, Laura!

kit rodoviário de sobrevivência em Lisboa




copyright de Catarina C.

segunda-feira, agosto 18, 2008

as coisas que uma pessoa nunca se lembra de limpar

O óculo da máquina de lavar roupa. Até que um dia se pousa lá o dedo e se percebe que não há outro remédio senão ser o armagedão de uma já evoluída sociedade de ácaros.


Estas coisas deviam ter um sistema qualquer de auto-limpeza. E eu devia ter uma mulher-a-dias. Ou um homem.

e já agora

Até Londres, que pelo menos não vai obrigar-me a estar de olho aberto até às seis da matina para ver correr a menina. Viva o meridiano de Greenwich. Vá, ao menos a final do triplo salto calha à tarde...

Parabéns à Vanessa Fernandes. E aos Gatos, que tanto contribuíram na preparação desta fantástica atleta.

reflex — o que um actor pode aprender com uma triatleta




Este spot é maravilhoso. Por todos os motivos. E no fim de tudo ainda me põe a pensar no texto, nas palavras, na interpretação — deformação profissional, enfim. Vanessa Fernandes usa aparelho nos dentes e é ligeiramente belfa. Palpita-me que não tenha preocupações por aí além quanto à correcção da elocução e da dicção, tem bastante mais em que pensar. Imagino que não tenha grandes dilemas ou decisões de interpretação quando faz uma publicidade. E no entanto, nesta locução, está tudo certo. Pela razão única de que ela sabe bem o significado e o peso de tudo o que está a dizer, e as suas frases estão, por isso mesmo, carregadas de imagem. Diz as palavras com verdade, ainda que elas já estivessem escritas, e isso é a lição, sem adjectivo, a lição e ponto. Tudo o resto é lana caprina.

do alívio

Já passou.


... caramba.


Um glândula irrequieta, no fim de contas, nada mais. Mas o tamanho do alívio é a recompensa milionária de qualquer drama queen que se preze...



La Llorona - Chavela Vargas

nó na garganta

Antecipação.


...
Não vale a pena.
Espera.



...

A seu tempo.
Vai desatar-se. Faltam poucas horas.

é igual a éme cê ao quadrado

Numa semana passou um mês.




E não é relativo.
Passou mesmo.

insight

Na verdade nunca te dei o que querias. E não me arrependo. Terias feito ainda mais estragos.

leste







Agosto de 2008

oeste

Agosto de 2008

open space

E bom, por agora fica assim.

domingo, agosto 17, 2008

coisas que me fazem chorar

Ginastas, em geral. E esta prova de assimétricas. Sempre. Porque é tão perfeita que se permite rasar constantemente o abismo. A tal falha que me define o belo.


Nadia Comaneci, Montréal, Agosto de 1976

olha, fartei-me

E andei a pintar paredes com ardósia. E não tenho dinheiro para ir às compras, portanto...

ex-machina

Tunes, Setembro de 2006



Nem sempre são os actores que se movem frente a um cenário fixo.

sábado, agosto 16, 2008

mecanismo


How wings are attached to the backs of angels, de Craig Welch


Mecanismo. Cada um encontra o seu. Lâminas de protecção, grades que deixam ver e quase tocar o que tanto se deseja, o que tanto se rejeita. Mecanismo. Cada um inventa o seu. E, naturalmente, nunca pode haver ninguém que melhor encaixe na máquina do que o próprio inventor, medida de todos os rolamentos.