segunda-feira, agosto 11, 2008

domingo, agosto 10, 2008

enquanto há sol

Enquanto há sol é mais fácil domar os caudais. Enquanto há sol os diques respondem às ordens, as águas comportam-se, restringem-se, recolhem-se em pudor, em desvalor. Mas desde sempre sussurra o walking bass... it begins to tell 'round midnight.

coisas que me fazem chorar

Beethoven: Piano Sonata #15 In D, Op. 28, "Pastoral" - 2. Andante - Alfred Brendel

Ludwig van Beethoven, Sonata no.15 em Ré maior, opus 28 "Pastoral", II andamento: Andante, por Alfred Brendel

às vezes

partindo-se [what's to become of it?]

Lisboa, 10 de Agosto de 2008



Senhora, partem tão tristes
Meus olhos, por vós, meu bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos,
Tão doentes da partida,
Tão cansados, tão chorosos,
Da morte mais desejosos
Cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes os tristes,
Tão fora de esperar bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.


João Roiz de Castelo Branco



This Love of Mine - Little Jimmy Scott

encerramento — yet another

Um grande concerto, para a despedida do ano, e se havia coisa da qual sabia estar a precisar era de uma boa noite de sentidos e jogos sonoros, energia bruta e dura e refinada na sua liberdade. Curto e grosso, do que precisava era de onze grandes músicos playing their asses off, e foi o que tive. A metrópole feita arte, o movimento constante, a ordem que consegue surgir no meio do caos para nele logo submergir de novo, para se render ao sopro, à energia. Trânsito e multidões entre bocais e palhetas, uma sirene de ambulância saída de um violoncelo, um boi de um contrabaixo, dois bateristas — o que para mim é à partida one drummer too many — e a revelação nos duetos, na des-ordem síncrona, na inteligência que sobrevive até a baquetas partidas ao primeiro ataque. Além da experiência sensual que é sempre o barítono de Mats Gustafsson.

Já lhes perdi a conta, aos encerramentos. Se há espaços sem tecto que me formaram a personalidade, foram a festa do Avante! e o Jazz em Agosto. Termino mais este com as perguntas do costume. Entre docs, conferências e anfiteatro, a nata das natas continua a aportar em Lisboa. A.N. [antes de Neves, ou melhor dizendo, e.N., entre Neves] era sectário, o nível era altíssimo, a linguagem tendencialmente mais ligada a algumas raízes, mas acabava por haver espaço para muita coisa. Agora, d.N., continua sectário, com um nível altíssimo, e praticamente só há espaço para os territórios do free — e nenhum para músicos da terra, o que apesar de tudo não era mal pensado, acho eu. É uma escolha, legítima, de dar uma clara identidade de vanguarda ao festival. Mas parece-me um pouco irónico que a defesa com unhas e dentes da música da liberdade só possa fazer-se entre muros selados. Fico a recordar a árvore que entrou no meu pessoal concerto do Otomo Yoshihide, e dá-me vontade de ouvir naquele espaço outras coisas, e estas ainda, e talvez ainda outras. Além de que, como todos os anos, dou por mim a pensar nos chases que Betty Carter faria com as copas tocadas pelo vento e com os aviões com timing para os pianíssimos. Ela nunca esteve na Gulbenkian, para minha tristeza, mas tenho-a na memória, gloriosa, a distância de primeira fila, no CCB, dois ou três anos antes da morte. Se calhar na fronteira do fim de uma era.


Feed The Fire - Betty Carter

sábado, agosto 09, 2008

não quero

o plástico nas janelas em parede levadiça
é feio
mentiroso
não quero.
espreito, não espreito
é o buraco negro que o plástico contém
retém
que é maior quanto mais pequeno
pelas proporções no espaço.
é feio. não quero.
gosto mais de portadas de madeira
não se abrem em furos indistintos
e cada fresta que nelas se revela
é um rasgão de luz único e transitório.

eu até dormia...

... se não estivesse a ser obrigada a ouvir este gajo com voz de cana rachada que berra vezes sem conta ióre biútiful, ióre biútiful, ióre biútiful its tru. Está-me a dar saudades do karaoke berrado à terça à noite na rua de São João. Carago... ao menos esses não acham que sabem cantar.

da beleza essencial

Diz então Alberto Caeiro, que, segundo os rumores, sempre embirrou solenemente com o Álvaro de Campos [as relações não tendem a ser fáceis entre pessoas que partilham as duas primeiras letras de cada nome]:

Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.



E digo eu, que embirro muito mais com o Alberto Caeiro do que com o Álvaro de Campos, embora, como boa apaixonada, embirre com os dois: fazendo um círculo em redor do indizível, perguntêmo-nos então se as flores e os frutos acaso têm forma, cor e existência, ou se essas palavras são meros nomes que encerram em si a humana tradução possível de uma impressão. Mestre Alberto diz, inequivocamente, que as coisas têm forma, cor, existência. Mas beleza não. Ou seja, cor, forma, existência, são palavras às quais subjaz um valor concreto, material, existem independentemente do observador. Mas beleza não. Será uma palavra cujo valor se esgota em si mesma, ou poderá ser também tradução de algo concreto, embora bem menos óbvio do que um azul, uma esfera ou uma presença física? É o nome de uma sensação, de uma emoção, de uma reacção química, de umas quantas sinapses, o nome de qualquer cousa que não existe, que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão? Fico a pensar no que distingue verdadeiramente estes substantivos na forma como se relacionam com os respectivos significantes. Se é que algo de essencial os distingue.


... e o inconveniente engenheiro naval lá continua a picar-me ao ouvido:—Mas então onde está a beleza disto?...

Ou ela só existe na directa proporção da pouca gente que há para dar por ela? Sendo que eu, um boi a olhar para o Taj Mahal, não me incluo no grupo, mas sei que se me explicarem tudo bem explicadinho...

As Coisas - Gilberto Gil & Caetano Veloso

sexta-feira, agosto 08, 2008

da beleza matemática — regresso a Newton

O Binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.

óóóó---óóóóóó óóó---óóóóóóó óóóóóóóó
(o vento lá fora)



Álvaro de Campos, 1928

da beleza concreta

Será a beleza um mero adjectivo que usamos para definir o que não podemos traduzir matematicamente? E a beleza que está numa equação, que se desprende de um teorema, que se anuncia numa conjectura, o que é?

bom dia

Downtown Train - Tom Waits

quinta-feira, agosto 07, 2008

da beleza ainda

Como discutir a história do som absoluto da árvore que cai sozinha na floresta, pensar a beleza implica pensar outra alma que não a do objecto belo. É, será, um dado adquirido. Mas será que produz som ou não, a árvore? Porque se há implicações estéticas sobre as quais se pode discorrer, filosofar, a verdade é que há reacções orgânicas à beleza. Reacções físicas. Como as lágrimas que vêm aos olhos com a resolução de uma segunda em Bach, ou face à esmagadora vastidão do deserto ou da paisagem do Pico, ou a um rosto que nos comove para lá de qualquer explicação. É aí que está a ferida, é nas falhas que se tocam? A falha do belo na ferida do esteta?


09 Quitollis peccata mundi - Bach

E pronto, já estou em casa e já posso dizer-vos que este Qui Tollis Peccata Mundi da Missa em Si menor de JS Bach, é aqui brilhantemente interpretado pelo Balthasar-Neumann-Chor e pela Freiburger Barockorchester, sob a direcção de Thomas Hengelbrock. Tal como o Sanctus de há uns meses atrás, também ele cheio de avassaladoras dissonâncias.

aposta secreta

o dente de leão não fugiu com o sopro. aproximou-se e dançou.

a minha varanda é uma casa de passe

Tenho a varanda literalmente toda cagada. E por cima da caca, um cemitério de ramos secos que os galifões trazem no bico às namoradas. A gataria anda doida com as cenas obscenas, mas mais doida ando eu que vou ter de limpar o lixo destes ratos do ar. Carago mais os pombos urbano-depressivos!... Até vivo numa zona arborizada, e eles tinham de preferir fornicar em cima de uma caixa de ar condicionado em vez de no meio do verde luxuriante do Monte Agudo. Estão a ficar iguais às pessoas, é o que é.

da beleza

Na origem da beleza está unicamente a ferida, singular, diferente para cada qual, escondida ou visível, que todos os homens guardam dentro de si, preservada, e onde se refugiam ao pretenderem tocar o mundo por uma solidão temporária mas profunda. Fora de miserabilismos. A arte de Giacometti parece querer revelar essa ferida secreta dos seres e das coisas, para que ela os ilumine.

Jean Genet, O estúdio de Alberto Giacometti, trad.Paulo Costa Domingos, ed.Assírio & Alvim





















Alberto Giacometti, Femme qui marche
Tate Gallery, Londres 1998



Somos as nossas feridas, singulares e únicas. Algumas nunca se descobrem. Outras sentem-se ao primeiro olhar, ouvem-se no primeiro toque, cheiram-se na primeira palavra. E é por isto que não acredito em quem não quer acreditar no amor à primeira vista. Sim. Os braços dela estão abertos. E cortados. Mas ela continua a andar.

coming about

Scenes from Childhood - 3. Coming About - Maria Schneider Jazz Orchestra

do ego

—És linda, linda linda linda. Eu sei que já te disse isto hoje, mas é que és uma mulher com substância. És linda. Apetece mexer, tocar, apetece dar-te carinho. A sério. Eras o tipo de mulher que era capaz de me virar... E olha que toda a gente diz que eu tenho bom gosto.




... bom, e depois ainda estranham que tenha tantos amigos gay, quando a média de inteligência e de charme do macho latino é o que é, mesmo entre amig@s. Além de que há pontos que fazem a diferença. e uma mulher com 1,70m e 50 quilos nos dias bons, está à espera de tudo menos de ouvir que tem "substância".

quarta-feira, agosto 06, 2008

cortar a direito


Lisboa, 6 de Agosto de 2008

emaranhado

Lisboa, 6 de Agosto de 2008

e hoje viro-me para este lado.




Tem de ser. Receita médica, credenciada pelo dr.Diego, reputado especialista dos hospitais poetico-cardíacos da Cidade dos Prodígios. Duas excelentes panaceias: cuidar a postura e tomar o mundo feito coca-cola. Deus lhe pague, sô'tor.

terça-feira, agosto 05, 2008

coragem não me falta, senhor, falta-me é alento...

Há dias em que me apetecia ter coragem para ser cobarde.
Há dias em que me apetecia ser capaz de pegar no telefone
e chamar-te carne
e dizer-te
quero usar-te
e deitar-te fora. Vem,
já, porque eu digo para vires,
e promete que amanhã não estarás aqui.
Há dias em que me falta a cobardia para que a coragem tome forma.
Por isso gostava de ter coragem para ser cobarde.

Só que sei que se o fizer durmo mal.
E depois fico com olheiras.

you see a locomotive probably thinkin' its a train

Whistlinpast The Graveyard - Tom Waits


... you never told the truth so you could never tell a lie. Right?

resposta extemporânea a Ricardo A.Pereira

Não, a Ikea não vende móveis baratos, vende puzzles caros. E ainda bem, que eu divirto-me à brava a montá-los.


Realmente tenho qualquer coisa de estivador na alma...



[Continua a contagem descrescente para a abertura oficial ao público da "sala dos pianos". Já não falta tudo... ]

numerologia

não é 28, é 29. mas o 27 também tem qualquer coisa.

hoje é para este lado que durmo.

Muito romäntico - Caetano Veloso

tao

Funambular. Masculino e feminino são nada e meta. Não são tipos, são ideias, abstracções, são estados. O sentido masculino do raciocínio é emocional, de tão claro. E o sentido feminino da emoção chega a ser racional, de tão genuíno e forte. Nada e meta. Funambular. Pode não existir. Mas é o meu verbo. Ou adjectivo. A minha forma?